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Frases de Rosana Fleury

98 frases

⁠Um lugar... Com aspiração Quando o mês de Julho chegar, estarei com vocês. Quando Setembro anunciar, verei as Cavalhadas de Corumbá de Goiás pela primeira vez.
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⁠Um lugar... Com aspiração Quando o mês de Julho chegar, estarei com vocês. Quando Setembro anunciar, verei as Cavalhadas de Corumbá de Goiás pela primeira vez. Quando Dezembro espalhar, ficarei na praça debaixo do flamboyant, me escondendo das tardes em choro, das chuvas mornas encharcando meus cabelos. Estarei submersa na terra. Sentirei seu cheiro. Acalmando minha ansiedade. No fruto de minha gente. E nas estações, meus pensamentos constroem pontes de uma viagem internacional ao Corumbá de Goiás, todos os dias, incessantemente. E não me canso, me frustro. Verei Anita já crescida, dançando em sapatilhas de ponta. Victor apaixonado pela certeza das horas. Amarei as minhas orações desnudas e farei promessas a Nossa Senhora da Penha. Ela me ouve. O ensaio das vozes do coral irá convidar retumbar em minhas janelas e de meus olhos trincados escorrerá balsamo. Virarei histórias na voz de todas minhas tias. Amarei o jiló da horta de minha casa, onde Sebastiana plantou e Narcisa aguou. E tudo aparecerá novo e inconfundível em minha memória. As corujas visitarão meu alpendre e ficarei admirada com sua elegância reservada. Acordarei cedo e irei contemplar a neblina do planalto central. Admirarei as mangueiras retorcidas, centenárias, os muros de adobe, e não me sentirei invadida, namoro a minha solidão. Vou cozinhar esta ideia, servir a todos com guariroba e pequi na margem arborescida do Rio Corumbá no cerrado. E dizer que amar é acolhedor, descansado no silencioso do Goiás. E minha saudade acordará do choro de mil dias. Se navegar, acontecer, a Deus pertence, mas aluguei na vida, momentaneamente, de passagem, enquanto existir um lugar para amar. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠A roupa dos dias A elegância sempre aparecia silenciosa. Não disputava com as cores dos dias nem com o brilho dos céus em tempos de proclamo.
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⁠A roupa dos dias A elegância sempre aparecia silenciosa. Não disputava com as cores dos dias nem com o brilho dos céus em tempos de proclamo. A elegância é muda. Modificava de estação e nunca de alinho. Misteriosa e sem explicação. Discreta e sabiamente sensacional, a elegância tinha seu espaço sem brigas no mundo interrogado. Ardilosa era a verdade desvestida. Sem medos e sustos desfilava com finura. Era mágica, emblemática, sem artifícios. Acordava faminta e dormia com todas as dúvidas sangrando. Não, nunca, jamais queria ser reconhecida e seu caminho de fuga era desaparecer. A elegância induz sem duelos. O artifício era ser semelhante e macia, como um idêntico caçador. A elegância não era loura nem trigueira, transpirava calada e nos encontramos. Meu coração não acelerou, a pressão permaneceu inalterável, o estômago não borbolhetou anseios, inalterou e persistiu no mesmo lugar. Fiquei a olhar se aproximar toda emudecida, sucumbindo ao total silêncio. E todos os ares emudeceram, a elegância estampou serena, densa e indissolúvel. Tinha os olhos pequenos, obliculares, maquiados de preto. No mimetismo que a escondia ela desfilou manchada por segundos, com cuidado entre as burcas do capim cerrado. Tive inveja do ser bicho. Onça. E o animalesco da covardia em mim passa a permanecer e desafiar a benevolência, somente aspirando bom gosto. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠ Não Sei Eu não sei se o que você sente É tão intenso
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⁠ Não Sei Eu não sei se o que você sente É tão intenso Como eu sinto ...mas... Você não quis sentir comigo O quanto sinto por você Virtual Antigo Metafórico Platônico Muito econômico Talvez Até impossível ...e você diz: ...você é rica! Respondo: Minha maior riqueza Nesta hora E você Deixe-me Me diz: Não Não Não Você discorda De brincadeira Diz: Sim Sim Sim Sou tão simples Que lhe mete medo Há certos sentimentos Que não têm preço Mas tem Um apreço enorme. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠ “A cidade dos Muros" Na sua vida muros
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⁠ “A cidade dos Muros" Na sua vida muros Minha vida pontes Ultrapassar Indecisão Te esperei Aos pés das pontes Você não apareceu Ficou rente aos muros Não me viu Talvez estivesse Me esperando Assim É mais romântico Murros quero dar Destruir estes muros Para que me veja Te esperando Nas pontes Interligando canais Navegue entre eles Como todo carma Talvez algum dia Nos vejamos em Veneza Nesta hora Tenho certeza Seremos carnais Ou Assim Murros quero dar Destruir muros Ficar somente pontes Interligando canais Como todo carma Te espero em Veneza Ou Assim Vou destruir muros Para que me veja Navegue nos canais Carnais Talvez algum dia Nos vejamos em Veneza. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠ Fale Se você não quer falar comigo Não tem problema
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⁠ Fale Se você não quer falar comigo Não tem problema Eu falo por você Nesta hora sua mudez Vira conto. Verso, Metáfora Aí tenho as rédeas Sou dono de suas palavras Impero e domino seus movimentos Eu olho para você Você olha em mim E em versos Dialogamos E nos amamos para sempre. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠ Morta Eu sonhei com você Mas você não existe
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⁠ Morta Eu sonhei com você Mas você não existe Tem sua cara quadrada Mas Possui minhas palavras Tão sonhadas Sonhei profundo Desejei demorado E os movimentos Que articulou Eu inventei Para você fazer É imaginário Não existe Resiste em meus pensamentos Voa sobre eles Mas você não existe É ilusão É minha invenção Sobre o seu calor em meu corpo Você não existe Resiste Mas agora vou desistir Em sonhar Sobre você É só mentira De um corpo vivo Sem alma Sem vida Para viver O que sinto por você. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠O medico e o escritor Era uma vez, na perdida do tempo, se encontraram o médico e escritor. E na lasca do destino sentaram-se juntos e formataram uma prosa.
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⁠O medico e o escritor Era uma vez, na perdida do tempo, se encontraram o médico e escritor. E na lasca do destino sentaram-se juntos e formataram uma prosa. E no dialogo, ao findar da noite, perguntaram-se: – Me esqueci, o que você faz mesmo? O outro respondeu: – Eu curo os defeitos do homem, sou médico. – Você cura o quê? – Os enfermos. – Quais enfermos? – Enfermos do corpo, os do espírito somente Deus cura. E você, o que faz? – Eu escrevo o pensamento do espírito, a ilusão, palavras de sentimento, a percepção das pessoas perante a vida. E o médico diagnosticou: – Então, concluindo, somos todos enfermos! Eu vendo o diagnóstico e você atravessa com palavras de consolo. – Não, doutor. Deus nos criou perfeitos, a concepção nos fez imperfeitos. – Então, para ser medico também tem que ser escritor. O literato respondeu: – Há várias formas de cura, a física e a espiritual. – Então o que nos une no mais profundo? – A dor é o que nos prende. Você, médico, acalma e silencia esta dor. O escritor roda no escrever sobre o caminho delineado do existir. De onde “derivou” a dor, as expressões enfermas, a “trajetória agonia” do quotidiano que gera toda a moléstia. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠A perversidade Tinha ido ao mercado naquele dia para comprar balangandãns e trama para enfeitar-se no dia do casamento. Andou,procurou,escolheu e se adornou das melhores peças. Chamaria mais atenção do que a prometida.
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⁠A perversidade Tinha ido ao mercado naquele dia para comprar balangandãns e trama para enfeitar-se no dia do casamento. Andou,procurou,escolheu e se adornou das melhores peças. Chamaria mais atenção do que a prometida. De volta para casa notou-se seguida por uma mulher vestida de cinza, de olhos devoradores. Esgueirou-se pelas paredes curvilíneas da circunferência das ruas, onde as corujas já confabulavam com o anoitecer. O medo apertou e, na soleira iluminada da porta de alguém desconhecido, parou dominada pelo receio. O imaginar derramou e observou a rua pacata corcoveando solitária nas sombras do crepúsculo. Apressou seu caminhar agarrada às suas compras. A lua iluminou seus passos e avisava que as horas se passavam apressadamente. Urgiam, latejava em sua aura o temor. Avistou sua moradia e mesmo atrasada seu coração aquietou-se. Chegou, pôs a chave em casa, entrou e ela apareceu entre as grades do portão vestida de cinza, de olhos vorazes, se ofereceu com voz macia. Sua presença imaginária anunciou: – Esqueceu-se do perfume senhora. – Não quero mais nada, já basta. – Nada é falta, compre minha essência. E ela comprou a profundeza dos cheiros. No dia prometido perfumou-se de ausência e madrugou morta. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠Lagarteando “Casei Engrandeci
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⁠Lagarteando “Casei Engrandeci Achei que era eu Dona de meu nariz Agora Senhora Dona das minhas horas Só eu não sabia Que neste ensejo Era outro fruto” Aprontei-me, modifiquei o tom de voz para cara metade, dona do mundo, de mim, dos outros em meu caminho. Acima dos conselhos, arrastando outro sobrenome que nunca residiu em meu nome e escolhi: – Qual carne, senhora!? Filé, contrafilé, alcatra, coxão-mole? Pensando: ”coxão-mole jamais, nunca...” – Que é isto aqui? – Lagarto senhora. – Tá bonito. Quanto pesa? – Dois quilos. – Pode cortar em bifes de um dedo de espessura (cara-metade gostava). Pronto, dei ordem, criei coragem. E o pior, ele obedeceu,vendeu e eu comprei a idiotice. Aprontei a mesa, taças com haste longas, toalhas de linho, porcelanas dos antepassados, purê de batatas com queijo roquefort à luz de velas. Frigideira ao fogo, azeite espanhol para fritar e os bifes de lagarto, com um dedo de espessura enrolaram como orelhas. Comemos só purê com vinho tinto, culpei o açougueiro e o cachorro passou bem. As velas derreteram, me envolvi no calor de apaixonar. Minha sogra não viu, e nesse andamento, não revirou meu lixo. Sucesso apaixonado e estendi minha receita com proveito. E o dia alvoreceu em paz. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠Espera Você me cozinhou Não sei dizer se
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⁠Espera Você me cozinhou Não sei dizer se Por aflição Ou compaixão Cozinhou Verbalizou Sentiu e Aconteceu Do seu lado Do meu lado Aqueceu Dourou sentimentos Te esperou Te agradou E escorreu Pelo meu rosto Subscrição Apalermada Abalada Assustada Do seu rosto Ousado Audacioso Arrojado Atrevido Abalanceado E no tremor Do quebra-luz Aquém Do subornável No agitar dos sedimentos Estremecimentos Nós Apesar de tudo Vivemos o todo. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠Exercício Não posso ver Mas posso sentir
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⁠Exercício Não posso ver Mas posso sentir Não posso tocar Mas posso vibrar Não posso falar Mas possuo imaginação Não posso caminhar até você Mas posso voar até você Não posso vociferar seu nome Mas posso flutuar em suas palavras Posso Posso Posso Até que tudo passe Vire outra paisagem E nesta Miragem Você ainda Me pertence. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠Inverno Intenso Não era verão Mas choveu
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⁠Inverno Intenso Não era verão Mas choveu Era inverno E a água desceu Não era hora Mas agora Aconteceu E com a terra encharcada O que há de se fazer? O frio seria intenso Com a terra molhada Brota Tudo brota E eu nesse sentimento Nesta terra sem tempo exato Vou trocar de roupa Viver outros sentimentos Outros tempos Passar Outras horas Até que tudo se resolva No tempo exato Do coração. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠Meu Deus Quero ir embora Quero ir para o meu Goiás
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⁠Meu Deus Quero ir embora Quero ir para o meu Goiás Lá ando nu Pelas savanas Escondo-me no capim dourado Vestido de bicho bravo Quero ir embora, meu Deus. Quero ir para o meu Goiás Ficar debaixo do sol Manobrando meus instintos Atento aos ruídas do dia Beber água do absoluto Araguaia Ficar lá só e somente Onde nada toca insistentemente E tudo roça levemente Ai, meu Deus, Quero ir embora Quero ir para o meu Goiás Onde a lua cheia Clareia as queda d’água E polvilha de choro Que as avista Quero ir embora, meu Deus. Mergulhar à noite Em seus grãos dourados Sentir-me empoeirada De ventas de todo Brasil E neste batismo Quero ir para o meu Goiás Chegará planície E nesta lonjura Avistar a chuva Esconder nas vielas Cheirar outros tempos Amainar a saudade. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠Código Havia em você uma ética e um código que nunca decifrei Havia alamedas em seu falar onde nunca andei
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⁠Código Havia em você uma ética e um código que nunca decifrei Havia alamedas em seu falar onde nunca andei Havia sabores em seus beijos que nunca experimentei Havia muito mais Que nunca descortinei Medo Muito medo Você não sinalizou E me perdi Hoje você passa Me desconhece E no paralelo Desse desencontro Vestígios Alucinada Inesperada Incendiária Inconseqüente Eu fui Em avançar sobre você Não me inscrevi Assediei Havia exercícios Que nunca professei Simplesmente Tropecei Na ordinária declaração Do regulamento Abri meus braços Meu coração Depus minha oração E você Não me viu Me desculpe Por favor Não se assuste Isto passa Com o tempo Vira páginas Mas repagina Meu Viver. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠Nem doce,nem amargo Na cozinha, as notícias chegavam mais depressa ao fogo ameno. As criadas afagavam, pajeavam uma geração e fraseavam o inominável. Lembro-me de suas mãos quentes alisando minhas meias e eu sonolenta, bagunçando os cabelos em cachos nas almofadas do sofá da sa…
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⁠Nem doce,nem amargo Na cozinha, as notícias chegavam mais depressa ao fogo ameno. As criadas afagavam, pajeavam uma geração e fraseavam o inominável. Lembro-me de suas mãos quentes alisando minhas meias e eu sonolenta, bagunçando os cabelos em cachos nas almofadas do sofá da sala de minha avó. Elas me sacudiam e diziam: – Se não ficar inteira para a missa, não tem doce de cidra nem novela à noite. As missas eram sonolentas e as pessoas vestidas do “primeiro dia da semana” se espreguiçavam em minha mente até ao almoço. Era um dia morno, não havia novelas e a circunferência dos doces era vigiada e eu me frustrava com a falta das babás. Verdadeiramente, não precisava delas, mas elas me bendiziam de suas falas e eu, como elas queria decifrar esse desejo. E elas sabiam das promessas, do artifício, da magia de como chegar ao altar. E sabiam muito mais, do veneno, da nudez debaixo dos lençóis bordados com capricho em ponto cheio. Ninguém conversava sobre “isso” e, quando perguntava, tinha resposta certa: – Já é hora de você dormir! Na minha imaginação nada repousava, ficava na fantasia, esta geografia indecifrável e a língua solta de minha bisavó. – Minha filha o “it” fica debaixo das saias. Eu levantava as minhas, debaixo as anáguas e barbatanas e achava tudo tão incrédulo. Acordava, e a novidade do dia: não entendia como, mas a vizinha havia “pulado a cerca”. Havia um falatório metafórico na cozinha não percebia onde estava o “cerco” onde só existiam muretas. O “it”, o charme, o magnetismo, o encanto pessoal ainda são um mistério que abrocha do ser repentinamente. Ferver, pular, ainda pode ser afetuoso e cítrico como doce de cidra. E o descrente ainda perdura nos amores alambrados. Livro: Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠O Guardião Na porta do tempo, todos os dias têm um Soldado que guarda a entrada do Dia e puxa os lençóis da Noite. Tudo na hora certa, matematicamente de uma precisão exata. Cansado dos anos, das horas de sentinela, o Soldado reclamou ao Crepúsculo da sua solidão.
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⁠O Guardião Na porta do tempo, todos os dias têm um Soldado que guarda a entrada do Dia e puxa os lençóis da Noite. Tudo na hora certa, matematicamente de uma precisão exata. Cansado dos anos, das horas de sentinela, o Soldado reclamou ao Crepúsculo da sua solidão. Queria companhia, o isolamento ecoava cores de espectros. O Crepúsculo argumentou ao Soldado: – Mas você não está sozinho, tem o Dia, o Sol, as Nuvens, avista as tempestades ao longe. No demais, nunca vai saber com que roupa o Dia vai sair e ainda tem a Noite, que chega elegante, às vezes chora, é dramática, tem broche no peito adornado de brilhantes. O Soldado reclamou: – Mas o Dia é desorganizado e bagunçado, às vezes, se veste com manga ou sem manga, simplesmente navega e acontece. – Mas que prefere – perguntou o Crepúsculo? – Uma associação, um afeto, disse o Soldado. O Crepúsculo conversou com o Dia e a Noite, e no consenso, emprestaram uma Estrela no peito do Soldado guardião. – Mas você, que foi ostentoso e observador, vamos enfeitar seu isolamento com uma Estrela que adornará sua ombreira. O Dia, o grande negociador, bateu o martelo. Ficou o Soldado feliz, agora não ficaria só com a Noite, que o fazia conversar permanentemente com a sua solidão; tinha Estrela para apaziguar seu imperativo. Ficou deslumbrado com sua elegância, aparecia sempre elegante, de pouca conversa, não discordava, somente piscava, deixava passar. Estrela dormia muito durante o dia. Conversava incessantemente com a Lua, amiga íntima. O Soldado, cada vez mais apaixonado, se esquecera do combinado. Passou a decretar mesa posta na hora perfeita, jantares perfumados e fumegantes para saciar seu desejo. Estrela se queixou dos afazeres para a Constelação. O Dia, enamorado de longa data por Estrela viu a batalha anunciada. O Corpo Astral deliberou sobre a palavra “emprestar” e se concluiu que era ceder. Na disputa, os aspectos, os Ares advogados, concluíram que ceder podia ser renunciar ou abdicar. E virou guerra, o Soldado armado, o Dia almejando vingança. Na ocasião do duelo Estrela partiu, a oportunidade marchou com apetite de retaliação. O Dia estava com fome comeu toda a Noite mas sobrou a Lua que ao correr do Dia foi devorada A Noite queria se vingar comeu todo o Dia fez a Escuridão aparecer Combateram. No mais restaram poucos amigos, cada um no seu tempo ajuizado. Do Soldado sobrou um apagão sentimental e uma sina, uma Estrela Rutilada decorando lembranças em seu uniforme para sempre, dos tempos largados em ação. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠Miseráveis E a vida passa lenta como uma procissão lagarteando à margem da vida, cheia de mulheres adornadas de preto vestidas de morte, viúvas da felicidade . Agarradas ao terço como se fossem lembranças perdidas, murmurando frases inaudíveis, confusas numa convocação de um e…
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⁠Miseráveis E a vida passa lenta como uma procissão lagarteando à margem da vida, cheia de mulheres adornadas de preto vestidas de morte, viúvas da felicidade . Agarradas ao terço como se fossem lembranças perdidas, murmurando frases inaudíveis, confusas numa convocação de um encontro logrado no tempo de amar. Choram as dezenas de anos como mistérios não revelados perfurados pelo tempo. Todos os dias são Quarta-Feira de Trevas perseguidas por homens encapuzados, carregando “seu Cristo” ferido no andor intermitente a vida inteira. Não olham para as calçadas da existência, são o extermínio querendo chegar de costas e surpreender a infelicidade. Algumas nunca saem da procissão, do cortejo escuro atrás de sentimentos que somente sangram. Adoradoras do infortúnio e da miséria. Choram sangue e caminham com a indigência, desconhecem “O Deus da Felicidade e da Fortuna”. Não rezam, lamentam. Jamais convocam, murmuram frases. Não confiam, esperam acontecer. Sempre com receio; em atrição. Deslembradas da contrição.

⁠Casamento de Cláudia A igreja estava preparada, a noiva bordada do fio de cabelo aos sapatos pontiagudos. O noivo pronto, embrulhado para ser somente ator coadjuvante, os violinos afinados para chorar e os pais ansiosamente educados.
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⁠Casamento de Cláudia A igreja estava preparada, a noiva bordada do fio de cabelo aos sapatos pontiagudos. O noivo pronto, embrulhado para ser somente ator coadjuvante, os violinos afinados para chorar e os pais ansiosamente educados. Convidados paramentados, outros salivando a festa, flores aprumadas à passagem de quem tinha fita no cabelo e queria se casar e já podia se casar. Todo casamento vibra em um só acorde: o emocionante que escorre das pedrarias até as lágrimas dos mais íntimos. Lágrimas escorridas talvez nesta única vez aos sons musicais. Promessas sacudidas, retumbadas, vibradas e ecoadas ao pé direito do Altíssimo de todas as igrejas. Amarrando intenções de amor, de muito amor, amor que transforma, modifica a cada dia, face a face ao espelho. O sacerdote pergunta a todos: – Quem acha que se casou com o mesmo homem/mulher que há 30 anos? Murmúrios... e continuou. – Se acharem que são os mesmos, estão todos mentindo, não são, todos mudam. Vocês se enganaram, equivocaram e acham que permanecem felizes. Rita assustou-se, soluçou, escorreu lágrimas e Rosa abriu a magia de toda bolsa e lhe deu maquiagem para representar e atuar. Na festa, surpresas do talher, ao som que empurra pares a sacudir o que lhes fora ofertado: bebidas geladas em copos suados. Madrugada, a noiva não desiste, joga o “bouquet” com golpe de astúcia para que todos alcancem e apreciem a sua vitória. Alguém alcança, transpirada, e mostra a todos que ela também tem chance. Na saída, o café perfumado, a montanha dos “bem casados” empilhados à espera. Rita apreciou, tinha que levar todos; eram bem casados, na bolsa ficariam espremidos e escolheu o decote como esconderijo. Encheu, contornou os seios do que era mais doce, os “bemcasados”. Na saída, a champanhe borbulhou em sua cabeça, o salto agarrou em alguma greta, caiu de ponta, espremeu “bem-casados” contra o peito. Amarrotados, não restou nenhum para que pudesse degustar, amassaram-se e esborracharam. E todos foram socorrer a vítima transbordando doce de leite. Mas toda boa intenção também é doce. Rita só queria ser bem casada. “QUEM QUER CASAR COM D. BARATINHA? QUE TEM FITA NO CABELO E DINHEIRO NA CAIXINHA?” Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠Vestida de palavras Era uma vez... (e toda vez, nas difusas da imaginação, começa assim) um quarto, e ele guardava um espelho grande que se agarrava à parede revelando as verdades.
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⁠Vestida de palavras Era uma vez... (e toda vez, nas difusas da imaginação, começa assim) um quarto, e ele guardava um espelho grande que se agarrava à parede revelando as verdades. Do lado impertinente e absoluto, descansado sobre a cômoda, um relógio quieto, mas veloz. Sobre a cama, derramando intensidade, um vestido vermelho que o tempo do relógio desbotou, mas o espelho mostrava que ele tinha ainda encanto guardado em lembranças. Hesitante, perambulando pelo quarto, a mulher ia, de um lado, ao outro, querendo enganar o relógio, fingindo sua aparente angústia ao espelho que apreciava o vestido, e ele se incumbia de carregar sonhos. Frente ao espelho descortinou sua nudez, sua brancura. Abriu a lateral do criado-mudo e retirou um pote de creme. Espalhou sobre sua pele para acetinar o trincado do tempo a disfarçar e enganar o espelho por minutos naquele dia. Recolheu o vestido sobre a cama e se cobriu dele. VERMELHO corajoso ajustado em seu corpo, abraçando os parágrafos de suas curvas, sem brigar por espaço. Olhou para o relógio, o tempo, ele sim, brigava com ela, apertava sua alma, não a largava nem um minuto sozinha para decidir e refletir. Enérgicas são as horas, mostram o compasso. Ela se mirou vestida ao espelho, olhou o pote abandonado sobre a mesa de cabeceira. Abriu a porta e saiu do seu mundo, pôs na bolsa a sua fantasia e decidiu acima das horas, dos segundos e minutos e não enganou a si mesma. Lembrou-se de alguma frase, riu, saboreou, se revestiu dele, Fernando Pessoa: “Mas eu não tenho problemas, tenho só mistérios.” Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠Sem Fim Por favor, me espere e não desesperes porque chego tarde. Não tropeces no conflito do dia porque chego fora de hora.
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⁠Sem Fim Por favor, me espere e não desesperes porque chego tarde. Não tropeces no conflito do dia porque chego fora de hora. Deixe as horas correr, não as esperes exatas porque ando acompanhada e tenho que aguardar a brecha do dia para te abraçar. Não penses Não conclua Porque não aconteceu nada... Nada?! Só o meu desejo que te procura e te apalpa pelas ruas e esta vai ser uma história até agora sem fim! Fim não existe, você vais voar eternamente sem saber onde pousar teus sentimentos, e eu ficarei louca avistando a tudo, despida ou coberta de seus fragmentos e ainda serei um mosaico de palavras sem sentido porque: Nunca é um tempo Longo demais Para não amar. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠Atropelada Como posso abandonar Algo que nunca tive
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⁠Atropelada Como posso abandonar Algo que nunca tive Como posso amar O que nunca conheci Como posso sentir saudades Do que nunca me pertenceu Como posso sentir tudo E ficar tão vazia Como posso Agora desistir Se nada aconteceu Onde mora A divindade dos sentimentos Que tanto desejei E nunca compartilhei. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠Sonhos aposentados (parte 01) Seu marido havia morrido, nem sabia quando, em que dia, de que jeito, simplesmente morrera, sem anúncio fúnebre, sem
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⁠Sonhos aposentados (parte 01) Seu marido havia morrido, nem sabia quando, em que dia, de que jeito, simplesmente morrera, sem anúncio fúnebre, sem santinho em branco e preto, morreu sem dores, anestesiado, acima dos lamentos. Agora ele vivia de alma emprestada. Deus sabe de quem, esperando sei lá o quê, talvez secar esfarelar, virar húmus, voltar a terra. Quis ressuscitá-lo à vida, abriu as janelas que deram vista às montanhas ondulando, pés de café para que ele percebesse o ciclo da vida, mas quando chegava cerrava todas as ventarolas com frio, muito frio. À noite, deitava com as mãos geladas, cruzadas sobre o peito, era seu único movimento, e de madrugada exalava de sua boca um hálito esquisito de fundo de baú, cheirando a curtume. Agora, esposa tinha certeza, ele havia morrido mesmo. Ele levantava, dizia exatamente a mesma coisa, vestia as mesmas roupas, os mesmos sapatos, as mesmas meias. Caminhava pelo mesmo corredor ao trabalho, dia a dia, cumprimentava as mesmas pessoas com as mesmas faces doentias, os mesmos assuntos e recortava e dizia as mesmas palavras. Não acrescentava, não diminuía, era linear, hermético, impermeável, morno, quase frio, pois ainda não estava completamente morto. Sua face endurecera, não esboçava nada, nenhuma estação, era dura como porcelana. Seus cabelos caíram e ralearam, a pele ficou manchada de pintas que mais pareciam pequenas necroses. Passou a ficar pálido, leite, quase transparente, às vezes custava a perceber sua presença translúcida. A casa também começou a mudar lá dentro; um frio intenso que toda criação, gato, cachorro, papagaio, passarinho e pensamento só ficavam e chegavam até a cozinha, onde o fogo a lenha espalhava calor. Não podia mais amá-lo porque o frio dele cortava-lhe a pele, e o calor dela derretia seu corpo. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠As cidades, as verdades e os muros. Era manhã de abril e o céu não se cobriu de nada, e nas cercanias da cidade descortinaram a estampa de seu amor fraseado,
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⁠As cidades, as verdades e os muros. Era manhã de abril e o céu não se cobriu de nada, e nas cercanias da cidade descortinaram a estampa de seu amor fraseado, pregado em todos os muros da cidade. Diziam que era amor, mas tanto amor era resguardado, não era arregalado e na boca de todos cingiam frases recortadas de verdades que moram no absoluto julgamento de todos. O que era velado, surdo, intransponível, efervesceu e tingiu os muros de toda a cidade. Agora não tinha mais vestes, arrancaram seus sentimentos e dependuraram seus trapos pelos muros da cidade como interpretavam. Ela virou só lamento, andava quase seminua e todos desviavam de sua presença. Diziam que nos muros cuspiam as estações gravadas, onde sua boca pousou, o que dela suspirou e com quem dançou. Como se atrevera a tanto? Não havia nela talento para o mal, arrombaram e viram a folia de seu coração. A chave se perdeu e o preconceito nasceu das reentrâncias dos muros que circundam as cercanias das cidades. Nos trapos as verdades despiram-se, como se fossem realidades nunca realizadas, onde o leviano é sentinela de quem não sabe nada de verdades e sentimentos. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury