Frase de Rosana Fleury
Sonhos aposentados (parte 01) Seu marido havia morrido, nem sabia quando, em que dia, de que jeito, simplesmente morrera, sem anúncio fúnebre, sem santinho em branco e preto, morreu sem dores, anestesiado, acima dos lamentos. Agora ele vivia de alma emprestada. Deus sabe de quem, esperando sei lá o quê, talvez secar esfarelar, virar húmus, voltar a terra. Quis ressuscitá-lo à vida, abriu as janelas que deram vista às montanhas ondulando, pés de café para que ele percebesse o ciclo da vida, mas quando chegava cerrava todas as ventarolas com frio, muito frio. À noite, deitava com as mãos geladas, cruzadas sobre o peito, era seu único movimento, e de madrugada exalava de sua boca um hálito esquisito de fundo de baú, cheirando a curtume. Agora, esposa tinha certeza, ele havia morrido mesmo. Ele levantava, dizia exatamente a mesma coisa, vestia as mesmas roupas, os mesmos sapatos, as mesmas meias. Caminhava pelo mesmo corredor ao trabalho, dia a dia, cumprimentava as mesmas pessoas com as mesmas faces doentias, os mesmos assuntos e recortava e dizia as mesmas palavras. Não acrescentava, não diminuía, era linear, hermético, impermeável, morno, quase frio, pois ainda não estava completamente morto. Sua face endurecera, não esboçava nada, nenhuma estação, era dura como porcelana. Seus cabelos caíram e ralearam, a pele ficou manchada de pintas que mais pareciam pequenas necroses. Passou a ficar pálido, leite, quase transparente, às vezes custava a perceber sua presença translúcida. A casa também começou a mudar lá dentro; um frio intenso que toda criação, gato, cachorro, papagaio, passarinho e pensamento só ficavam e chegavam até a cozinha, onde o fogo a lenha espalhava calor. Não podia mais amá-lo porque o frio dele cortava-lhe a pele, e o calor dela derretia seu corpo. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury
No pensador.ai desde