Pular para o conteúdo

Frase de Rosana Fleury

⁠Nem doce,nem amargo Na cozinha, as notícias chegavam mais depressa ao fogo ameno. As criadas afagavam, pajeavam uma geração e fraseavam o inominável. Lembro-me de suas mãos quentes alisando minhas meias e eu sonolenta, bagunçando os cabelos em cachos nas almofadas do sofá da sala de minha avó. Elas me sacudiam e diziam: – Se não ficar inteira para a missa, não tem doce de cidra nem novela à noite. As missas eram sonolentas e as pessoas vestidas do “primeiro dia da semana” se espreguiçavam em minha mente até ao almoço. Era um dia morno, não havia novelas e a circunferência dos doces era vigiada e eu me frustrava com a falta das babás. Verdadeiramente, não precisava delas, mas elas me bendiziam de suas falas e eu, como elas queria decifrar esse desejo. E elas sabiam das promessas, do artifício, da magia de como chegar ao altar. E sabiam muito mais, do veneno, da nudez debaixo dos lençóis bordados com capricho em ponto cheio. Ninguém conversava sobre “isso” e, quando perguntava, tinha resposta certa: – Já é hora de você dormir! Na minha imaginação nada repousava, ficava na fantasia, esta geografia indecifrável e a língua solta de minha bisavó. – Minha filha o “it” fica debaixo das saias. Eu levantava as minhas, debaixo as anáguas e barbatanas e achava tudo tão incrédulo. Acordava, e a novidade do dia: não entendia como, mas a vizinha havia “pulado a cerca”. Havia um falatório metafórico na cozinha não percebia onde estava o “cerco” onde só existiam muretas. O “it”, o charme, o magnetismo, o encanto pessoal ainda são um mistério que abrocha do ser repentinamente. Ferver, pular, ainda pode ser afetuoso e cítrico como doce de cidra. E o descrente ainda perdura nos amores alambrados. Livro: Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

Rosana Fleury

No pensador.ai desde

Fonte e informações de autoria

Pensador.com

Abrir fonte original (abre em nova aba)

Outras frases de Rosana Fleury

⁠A roupa dos dias A elegância sempre aparecia silenciosa. Não disputava com as cores dos dias nem com o brilho dos céus em tempos de proclamo.
Continuar lendo

⁠A roupa dos dias A elegância sempre aparecia silenciosa. Não disputava com as cores dos dias nem com o brilho dos céus em tempos de proclamo. A elegância é muda. Modificava de estação e nunca de alinho. Misteriosa e sem explicação. Discreta e sabiamente sensacional, a elegância tinha seu espaço sem brigas no mundo interrogado. Ardilosa era a verdade desvestida. Sem medos e sustos desfilava com finura. Era mágica, emblemática, sem artifícios. Acordava faminta e dormia com todas as dúvidas sangrando. Não, nunca, jamais queria ser reconhecida e seu caminho de fuga era desaparecer. A elegância induz sem duelos. O artifício era ser semelhante e macia, como um idêntico caçador. A elegância não era loura nem trigueira, transpirava calada e nos encontramos. Meu coração não acelerou, a pressão permaneceu inalterável, o estômago não borbolhetou anseios, inalterou e persistiu no mesmo lugar. Fiquei a olhar se aproximar toda emudecida, sucumbindo ao total silêncio. E todos os ares emudeceram, a elegância estampou serena, densa e indissolúvel. Tinha os olhos pequenos, obliculares, maquiados de preto. No mimetismo que a escondia ela desfilou manchada por segundos, com cuidado entre as burcas do capim cerrado. Tive inveja do ser bicho. Onça. E o animalesco da covardia em mim passa a permanecer e desafiar a benevolência, somente aspirando bom gosto. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠Um lugar... Com aspiração Quando o mês de Julho chegar, estarei com vocês. Quando Setembro anunciar, verei as Cavalhadas de Corumbá de Goiás pela primeira vez.
Continuar lendo

⁠Um lugar... Com aspiração Quando o mês de Julho chegar, estarei com vocês. Quando Setembro anunciar, verei as Cavalhadas de Corumbá de Goiás pela primeira vez. Quando Dezembro espalhar, ficarei na praça debaixo do flamboyant, me escondendo das tardes em choro, das chuvas mornas encharcando meus cabelos. Estarei submersa na terra. Sentirei seu cheiro. Acalmando minha ansiedade. No fruto de minha gente. E nas estações, meus pensamentos constroem pontes de uma viagem internacional ao Corumbá de Goiás, todos os dias, incessantemente. E não me canso, me frustro. Verei Anita já crescida, dançando em sapatilhas de ponta. Victor apaixonado pela certeza das horas. Amarei as minhas orações desnudas e farei promessas a Nossa Senhora da Penha. Ela me ouve. O ensaio das vozes do coral irá convidar retumbar em minhas janelas e de meus olhos trincados escorrerá balsamo. Virarei histórias na voz de todas minhas tias. Amarei o jiló da horta de minha casa, onde Sebastiana plantou e Narcisa aguou. E tudo aparecerá novo e inconfundível em minha memória. As corujas visitarão meu alpendre e ficarei admirada com sua elegância reservada. Acordarei cedo e irei contemplar a neblina do planalto central. Admirarei as mangueiras retorcidas, centenárias, os muros de adobe, e não me sentirei invadida, namoro a minha solidão. Vou cozinhar esta ideia, servir a todos com guariroba e pequi na margem arborescida do Rio Corumbá no cerrado. E dizer que amar é acolhedor, descansado no silencioso do Goiás. E minha saudade acordará do choro de mil dias. Se navegar, acontecer, a Deus pertence, mas aluguei na vida, momentaneamente, de passagem, enquanto existir um lugar para amar. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠ Fale Se você não quer falar comigo Não tem problema
Continuar lendo

⁠ Fale Se você não quer falar comigo Não tem problema Eu falo por você Nesta hora sua mudez Vira conto. Verso, Metáfora Aí tenho as rédeas Sou dono de suas palavras Impero e domino seus movimentos Eu olho para você Você olha em mim E em versos Dialogamos E nos amamos para sempre. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠ “A cidade dos Muros" Na sua vida muros
Continuar lendo

⁠ “A cidade dos Muros" Na sua vida muros Minha vida pontes Ultrapassar Indecisão Te esperei Aos pés das pontes Você não apareceu Ficou rente aos muros Não me viu Talvez estivesse Me esperando Assim É mais romântico Murros quero dar Destruir estes muros Para que me veja Te esperando Nas pontes Interligando canais Navegue entre eles Como todo carma Talvez algum dia Nos vejamos em Veneza Nesta hora Tenho certeza Seremos carnais Ou Assim Murros quero dar Destruir muros Ficar somente pontes Interligando canais Como todo carma Te espero em Veneza Ou Assim Vou destruir muros Para que me veja Navegue nos canais Carnais Talvez algum dia Nos vejamos em Veneza. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury