Frase de Rosana Fleury
A roupa dos dias A elegância sempre aparecia silenciosa. Não disputava com as cores dos dias nem com o brilho dos céus em tempos de proclamo. A elegância é muda. Modificava de estação e nunca de alinho. Misteriosa e sem explicação. Discreta e sabiamente sensacional, a elegância tinha seu espaço sem brigas no mundo interrogado. Ardilosa era a verdade desvestida. Sem medos e sustos desfilava com finura. Era mágica, emblemática, sem artifícios. Acordava faminta e dormia com todas as dúvidas sangrando. Não, nunca, jamais queria ser reconhecida e seu caminho de fuga era desaparecer. A elegância induz sem duelos. O artifício era ser semelhante e macia, como um idêntico caçador. A elegância não era loura nem trigueira, transpirava calada e nos encontramos. Meu coração não acelerou, a pressão permaneceu inalterável, o estômago não borbolhetou anseios, inalterou e persistiu no mesmo lugar. Fiquei a olhar se aproximar toda emudecida, sucumbindo ao total silêncio. E todos os ares emudeceram, a elegância estampou serena, densa e indissolúvel. Tinha os olhos pequenos, obliculares, maquiados de preto. No mimetismo que a escondia ela desfilou manchada por segundos, com cuidado entre as burcas do capim cerrado. Tive inveja do ser bicho. Onça. E o animalesco da covardia em mim passa a permanecer e desafiar a benevolência, somente aspirando bom gosto. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury
No pensador.ai desde