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Frase de Rosana Fleury

⁠O Guardião Na porta do tempo, todos os dias têm um Soldado que guarda a entrada do Dia e puxa os lençóis da Noite. Tudo na hora certa, matematicamente de uma precisão exata. Cansado dos anos, das horas de sentinela, o Soldado reclamou ao Crepúsculo da sua solidão. Queria companhia, o isolamento ecoava cores de espectros. O Crepúsculo argumentou ao Soldado: – Mas você não está sozinho, tem o Dia, o Sol, as Nuvens, avista as tempestades ao longe. No demais, nunca vai saber com que roupa o Dia vai sair e ainda tem a Noite, que chega elegante, às vezes chora, é dramática, tem broche no peito adornado de brilhantes. O Soldado reclamou: – Mas o Dia é desorganizado e bagunçado, às vezes, se veste com manga ou sem manga, simplesmente navega e acontece. – Mas que prefere – perguntou o Crepúsculo? – Uma associação, um afeto, disse o Soldado. O Crepúsculo conversou com o Dia e a Noite, e no consenso, emprestaram uma Estrela no peito do Soldado guardião. – Mas você, que foi ostentoso e observador, vamos enfeitar seu isolamento com uma Estrela que adornará sua ombreira. O Dia, o grande negociador, bateu o martelo. Ficou o Soldado feliz, agora não ficaria só com a Noite, que o fazia conversar permanentemente com a sua solidão; tinha Estrela para apaziguar seu imperativo. Ficou deslumbrado com sua elegância, aparecia sempre elegante, de pouca conversa, não discordava, somente piscava, deixava passar. Estrela dormia muito durante o dia. Conversava incessantemente com a Lua, amiga íntima. O Soldado, cada vez mais apaixonado, se esquecera do combinado. Passou a decretar mesa posta na hora perfeita, jantares perfumados e fumegantes para saciar seu desejo. Estrela se queixou dos afazeres para a Constelação. O Dia, enamorado de longa data por Estrela viu a batalha anunciada. O Corpo Astral deliberou sobre a palavra “emprestar” e se concluiu que era ceder. Na disputa, os aspectos, os Ares advogados, concluíram que ceder podia ser renunciar ou abdicar. E virou guerra, o Soldado armado, o Dia almejando vingança. Na ocasião do duelo Estrela partiu, a oportunidade marchou com apetite de retaliação. O Dia estava com fome comeu toda a Noite mas sobrou a Lua que ao correr do Dia foi devorada A Noite queria se vingar comeu todo o Dia fez a Escuridão aparecer Combateram. No mais restaram poucos amigos, cada um no seu tempo ajuizado. Do Soldado sobrou um apagão sentimental e uma sina, uma Estrela Rutilada decorando lembranças em seu uniforme para sempre, dos tempos largados em ação. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

Rosana Fleury

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Pensador.com

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Outras frases de Rosana Fleury

⁠A roupa dos dias A elegância sempre aparecia silenciosa. Não disputava com as cores dos dias nem com o brilho dos céus em tempos de proclamo.
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⁠A roupa dos dias A elegância sempre aparecia silenciosa. Não disputava com as cores dos dias nem com o brilho dos céus em tempos de proclamo. A elegância é muda. Modificava de estação e nunca de alinho. Misteriosa e sem explicação. Discreta e sabiamente sensacional, a elegância tinha seu espaço sem brigas no mundo interrogado. Ardilosa era a verdade desvestida. Sem medos e sustos desfilava com finura. Era mágica, emblemática, sem artifícios. Acordava faminta e dormia com todas as dúvidas sangrando. Não, nunca, jamais queria ser reconhecida e seu caminho de fuga era desaparecer. A elegância induz sem duelos. O artifício era ser semelhante e macia, como um idêntico caçador. A elegância não era loura nem trigueira, transpirava calada e nos encontramos. Meu coração não acelerou, a pressão permaneceu inalterável, o estômago não borbolhetou anseios, inalterou e persistiu no mesmo lugar. Fiquei a olhar se aproximar toda emudecida, sucumbindo ao total silêncio. E todos os ares emudeceram, a elegância estampou serena, densa e indissolúvel. Tinha os olhos pequenos, obliculares, maquiados de preto. No mimetismo que a escondia ela desfilou manchada por segundos, com cuidado entre as burcas do capim cerrado. Tive inveja do ser bicho. Onça. E o animalesco da covardia em mim passa a permanecer e desafiar a benevolência, somente aspirando bom gosto. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠Um lugar... Com aspiração Quando o mês de Julho chegar, estarei com vocês. Quando Setembro anunciar, verei as Cavalhadas de Corumbá de Goiás pela primeira vez.
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⁠Um lugar... Com aspiração Quando o mês de Julho chegar, estarei com vocês. Quando Setembro anunciar, verei as Cavalhadas de Corumbá de Goiás pela primeira vez. Quando Dezembro espalhar, ficarei na praça debaixo do flamboyant, me escondendo das tardes em choro, das chuvas mornas encharcando meus cabelos. Estarei submersa na terra. Sentirei seu cheiro. Acalmando minha ansiedade. No fruto de minha gente. E nas estações, meus pensamentos constroem pontes de uma viagem internacional ao Corumbá de Goiás, todos os dias, incessantemente. E não me canso, me frustro. Verei Anita já crescida, dançando em sapatilhas de ponta. Victor apaixonado pela certeza das horas. Amarei as minhas orações desnudas e farei promessas a Nossa Senhora da Penha. Ela me ouve. O ensaio das vozes do coral irá convidar retumbar em minhas janelas e de meus olhos trincados escorrerá balsamo. Virarei histórias na voz de todas minhas tias. Amarei o jiló da horta de minha casa, onde Sebastiana plantou e Narcisa aguou. E tudo aparecerá novo e inconfundível em minha memória. As corujas visitarão meu alpendre e ficarei admirada com sua elegância reservada. Acordarei cedo e irei contemplar a neblina do planalto central. Admirarei as mangueiras retorcidas, centenárias, os muros de adobe, e não me sentirei invadida, namoro a minha solidão. Vou cozinhar esta ideia, servir a todos com guariroba e pequi na margem arborescida do Rio Corumbá no cerrado. E dizer que amar é acolhedor, descansado no silencioso do Goiás. E minha saudade acordará do choro de mil dias. Se navegar, acontecer, a Deus pertence, mas aluguei na vida, momentaneamente, de passagem, enquanto existir um lugar para amar. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠ Fale Se você não quer falar comigo Não tem problema
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⁠ Fale Se você não quer falar comigo Não tem problema Eu falo por você Nesta hora sua mudez Vira conto. Verso, Metáfora Aí tenho as rédeas Sou dono de suas palavras Impero e domino seus movimentos Eu olho para você Você olha em mim E em versos Dialogamos E nos amamos para sempre. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠ “A cidade dos Muros" Na sua vida muros
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⁠ “A cidade dos Muros" Na sua vida muros Minha vida pontes Ultrapassar Indecisão Te esperei Aos pés das pontes Você não apareceu Ficou rente aos muros Não me viu Talvez estivesse Me esperando Assim É mais romântico Murros quero dar Destruir estes muros Para que me veja Te esperando Nas pontes Interligando canais Navegue entre eles Como todo carma Talvez algum dia Nos vejamos em Veneza Nesta hora Tenho certeza Seremos carnais Ou Assim Murros quero dar Destruir muros Ficar somente pontes Interligando canais Como todo carma Te espero em Veneza Ou Assim Vou destruir muros Para que me veja Navegue nos canais Carnais Talvez algum dia Nos vejamos em Veneza. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury