Frase de Rosana Fleury
Vestida de palavras Era uma vez... (e toda vez, nas difusas da imaginação, começa assim) um quarto, e ele guardava um espelho grande que se agarrava à parede revelando as verdades. Do lado impertinente e absoluto, descansado sobre a cômoda, um relógio quieto, mas veloz. Sobre a cama, derramando intensidade, um vestido vermelho que o tempo do relógio desbotou, mas o espelho mostrava que ele tinha ainda encanto guardado em lembranças. Hesitante, perambulando pelo quarto, a mulher ia, de um lado, ao outro, querendo enganar o relógio, fingindo sua aparente angústia ao espelho que apreciava o vestido, e ele se incumbia de carregar sonhos. Frente ao espelho descortinou sua nudez, sua brancura. Abriu a lateral do criado-mudo e retirou um pote de creme. Espalhou sobre sua pele para acetinar o trincado do tempo a disfarçar e enganar o espelho por minutos naquele dia. Recolheu o vestido sobre a cama e se cobriu dele. VERMELHO corajoso ajustado em seu corpo, abraçando os parágrafos de suas curvas, sem brigar por espaço. Olhou para o relógio, o tempo, ele sim, brigava com ela, apertava sua alma, não a largava nem um minuto sozinha para decidir e refletir. Enérgicas são as horas, mostram o compasso. Ela se mirou vestida ao espelho, olhou o pote abandonado sobre a mesa de cabeceira. Abriu a porta e saiu do seu mundo, pôs na bolsa a sua fantasia e decidiu acima das horas, dos segundos e minutos e não enganou a si mesma. Lembrou-se de alguma frase, riu, saboreou, se revestiu dele, Fernando Pessoa: “Mas eu não tenho problemas, tenho só mistérios.” Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury
No pensador.ai desde