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Frases de Rosana Fleury

98 frases

⁠Meu Segredo: Seu Rastro Minha bolsa esconde um jardim de aromas cítricos e adocicados que ventilam lembranças que caem como tempestades. Entre aspirinas esfareladas, resto de uma história perdida que insiste em viver.
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⁠Meu Segredo: Seu Rastro Minha bolsa esconde um jardim de aromas cítricos e adocicados que ventilam lembranças que caem como tempestades. Entre aspirinas esfareladas, resto de uma história perdida que insiste em viver. Busquei em você refúgio e caí num abismo de infinitos desejos. Ela, a bolsa, a única testemunha de nossos beijos guarda silenciosa nosso segredo. Dentro dela um lenço com um grama de seu perfume. Não te vejo mais. Passa distante, desconhecido. Mas quando a saudade vem soberba em querer você. Sou humilde, abro a bolsa, desdobro as lembranças respingadas, inspiro seu perfume e me deito com os segredos. Dentro da minha bolsa um jardim de história e segredos perfumados. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠Todos os Dias Há meses, poucos, abri a porta, caminhei até você e até então o que havíamos falado por instantes virou realidade. Você também abriu a porta, tropeçou, titubeou e segurou-me pela cintura. Dominou o que era seu ou "o que lhe foi meramente ofertado".
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⁠Todos os Dias Há meses, poucos, abri a porta, caminhei até você e até então o que havíamos falado por instantes virou realidade. Você também abriu a porta, tropeçou, titubeou e segurou-me pela cintura. Dominou o que era seu ou "o que lhe foi meramente ofertado". No escuro de tudo, você mirou sua conquista. Como todo território, eu era grande c você sussurrou vitorioso: — Você é linda! Avancei mais e cobri minha paz em seus lábios e por segundos você não perdeu tempo, apalpou as montanhas dos meus seios como céus intransponíveis. Te resguardei, sua valentia, minha insensatez – procurei te agradar, te arrastei em meus campos: mas não havia paz entre árabes e judeus. Havia escutas nas divisas e não mais nos avistamos. Só restou a miragem dos seus passos no escuro, meio ao bombardeio e nosso desejo que não é pecado, somente desejos. Hoje nos avistamos através de telas de vime: cada um em seu lado. E na imaginação de toda composição, eu durmo com você Todas as noites E o meu desejo por você Ainda me acorda Todos os dias. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠“Tudo passa, tudo voa, a vida é vento, é brisa, aroma, pétala de rosa que cedo tem viço e perfume e, a noite, murcha, perde a cor num momento à-toa.”
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⁠“Tudo passa, tudo voa, a vida é vento, é brisa, aroma, pétala de rosa que cedo tem viço e perfume e, a noite, murcha, perde a cor num momento à-toa.” Augusta Faro Sem licença para voar - A rosa e o anjo Num jardim onde a cidade passava havia uma Rosa, beleza única, perfeita, reativada, aveludada, em haste cheia de espinhos. Entender e recolher uma Rosa e se arranhar num caule espinhoso para viver somente uma primavera de dias, era mais fácil deixá-la se exibir no seu jardim, apreciá-la ao longe, do que se espetar em dúvidas e lamejos. E assim ficou a Rosa no jardim, ora botão, ora Rosa, despetalando sozinha, exalando seu perfume em vão, presa em um chão hermético e imutável. “Rosa, Rosa, um dia você se apaixona.” Não andava, mas o mundo se transmutava em sua frente, e ela, opressiva, presa, escolhe e colhe. Todos passavam desavisados e a Rosa escolhia. Rosa queria asas. E o jardim dizia: ”Para sair do chão, voar e conhecer outras flores, o canteiro que Rosa fundou raízes em nada vai perfumar e vai esfriar. Vamos revirar retirar suas raízes para encher e ocupar sua paisagem com outra muda onde Rosa floresceu.” Próximo, um anjo passava todos os dias, de asas abertas em código de quem voou e aterrisou em turbulência, mas obedeceu às ordens dos céus. Rosa viu e queria as asas do Anjo. Tentou impressionar, também abriu suas asas em pétalas querendo alçar vôo, mas as raízes do jardim a seguravam e diziam: “Se voar vai virar folha e pétala seca, vai morrer.”. Todos os dias, todas as horas em que o Anjo passava, pensava em se fazer presença, abria também suas asas em pétalas e exalava seu perfume. O Anjo não via, era mensageiro, carteiro, tinha dever e não percebia seu perfume no burburinho do jardim. Amanheceu. Anoiteceu. E a Rosa aconteceu. Saiu do caule em madrugada esfriada, sem luta, abriu seu tecido, suas pétalas, e as pregou em espinhos, como couro, para que curtissem no choro do amanhecer, junto dos sonhos da noite. No dia seguinte, ao florescer do dia, costurou seu tecido com pistilos em pontos pequenos, juntos, ligando tudo ao imperceptível. Revestiu-se daquele sentimento e foi comprar do Anjo uma asa para voar. Subiu aos céus, onde morava, com poucas e velhas moedas caídas no jardim, mas com muito perfume. Ascendeu em seu vestido longo exalando perfume, deixando todos extáticos e tontos com seu cheiro, tropeçando pelo jardim. Chegou aos céus e pediu ao anjo: – Quero asas brancas como a verdade, impermeáveis como folhas, longas como uma viagem e douradas como os sentimentos. Ele a olhou. Tinha voz aveludada como seu vestido e um perfume machucando seu coração. Se fechou e disse: – Vendo asas, somente asas. – Posso escolher? – Não há o que escolher, só vendo asas. Você tem licença para voar? – Não, não tenho, mas o meu perfume tem e a imaginação é dona dos céus. – Não gosto dessa conversa, quero ver sua licença. Desenrolou seu pistilo, os enrolou no dedo e as pétalas se desprenderam, perfumaram, e ele se apaixonou com a verve de seu flanar. Ela tinha muitas asas, leves ao sabor do vento, mas sem direção. – Posso me aproximar? – disse o Anjo – Te faço uma asa, mas quero de ti um beijo. E o silêncio tomou conta daquele instante. E tudo que voava e cheirava parou. Ela ofereceu sua boca carnuda e ele a abraçou com suas asas, e tudo virou ventania que se perdeu num beijo, num vento que levava pétalas de Rosas como tivesse asas e licença para voar. As pétalas voaram tontas como verdades reservadas, como sentimentos feitos de um flanar desavisado, seco e dourado como aspiração “Várias pessoas que tiveram a experiência choravam desorientadamente, pois amavam o amor somente, sem achar alguém para receber tamanho afeto, que labaredava, chamuscando cada junta de corpo, veia por veia, músculos, ossos e tutano e, assim, todas as moléculas moles e duras do corpo e da alma.” Augusta Faro. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠Aroma Tudo cheirava dúvida naquele instante, seu olfato se calou e seu mundo não representava nada, pois cheirava a coisa nenhuma.
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⁠Aroma Tudo cheirava dúvida naquele instante, seu olfato se calou e seu mundo não representava nada, pois cheirava a coisa nenhuma. Tirou o vestido, que transpirava ninharia, tomou um banho que não aliviava e a insignificância escorreu pelo ralo todo o seu perfume. Seus cabelos molhados, banhados, esfriavam suas costas e não exibiam a espuma de seus sentimentos. Passou maquiagem que não enfeitava nem migalha, o instante da folia, do carnaval, no colorido de amar. Espalhou, vitrificando seu corpo, um creme, e ele recolheu seu perfume, não exalou seu bálsamo. Os caminhos de suas curvas exibiam solidão. No isolamento sobre a cama, um vestido novo com etiqueta tentava dar vida e fragrância à nova estação de sua vida. Vestindo tudo como novo, não havia cheiro de loja nem recomeço. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠A Taça Lá bem longe, onde o horizonte descansa e o vento faz a curva e a vista nunca alcança e imaginação descreve, tem uma cidade e no seio dela há um mercado que vende todas as intenções. Há cheiros saborosos, paladares indescritíveis e ideias nunca despidas e negócios sem q…
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⁠A Taça Lá bem longe, onde o horizonte descansa e o vento faz a curva e a vista nunca alcança e imaginação descreve, tem uma cidade e no seio dela há um mercado que vende todas as intenções. Há cheiros saborosos, paladares indescritíveis e ideias nunca despidas e negócios sem questão de pendências. As portas se abriam ao último vento frio das madrugadas e se encerravam ao findar e ao tremular a última questão. Junto ao burburinho ela adentrou a procurar algo mais que o destino guardara e o desejo não lhe proporcionara. Revirou não encontrou e na saída viu uma velha maltrapilha com uma taça cravejada de pedras preciosas, bordada com filigranas de ouro. Teve piedade e se condoeu por ela, velha, sozinha e na sua bagagem somente a taça. Foi depositar uma moeda em seu xale esparramado pelo chão e a velha sussurrou. — Não preciso de esmola. — Então me vende esta taça quanto custa? Quero ajudá-la. — Quero uma morte digna, um teto cheio de palavras amorosas, ouvidos curiosos para que eu possa contar minha viagem e mentes sem julgamento para desdobrar minha bagagem. — Mas o que esta taça guarda em segredo para que eu possa levá-la e a você em minha história? — Se beber o que ela contém, terá a solução de todas as suas perguntas. Respostas que nunca achará em livros e a inteligência de ninguém vai verbalizar para acalmar seu coração. — Vou pensar, consultar as entrelinhas, volto logo. — Estarei aqui, pode ir à diversidade desse mercado que não vai preencher seu coração. Caminhou lentamente de coração vazio entre as sedas macias e esvoaçantes do mercado. Não se encantou com as suas cores alucinantes. Colocou nos dedos anéis fabulosos de pedras facetadas e lapidadas mas que não contornavam nem de longe as curvas de sua insatisfação. Observou os mágicos, mas sabia de todos os seus truques. Comeu quando o estômago desejou, mas não houve surpresa no seu paladar. Sentiu o perfume absorvido de toda a ciência e alquimia, mas seus cheiros não descortinam nenhuma lembrança. Ficou cansada, tinha que voltar, sua ausência estava expirando, voltou à velha: — Eu compro esta questão. E foram para casa e a viagem apenas começou. Todas as manhãs, em sua cama profundamente macia em sua tenda com tudo o que era sua conquista, abarrotada de troféus dependurados e perfumados e os dedos cheios de anéis diplomados, bebia da taça e sua mente se abria, clareava e tinha a solução de todas as questões. Mas o tempo soprou e as dunas mudavam de paisagem e o que era ontem, hoje tinha outra face e o que era absoluto ontem, hoje de nada valia e as questões iam e vinham, passavam mas não encontravam repouso, resolução não terminavam, caiam feito goteiras, cada dia em lugar diferente. Ela se irritou; tudo tinha que acabar. Queria um mundo soprando fresco em sua face, absoluto, sem discussão de nada. Foi à velha reclamar. — Bebo da taça velha, todos os dias e quanto mais bebo mais goteiras perturbam minha calma, você iludiu meus pensamentos e minhas melhores intenções, onde mora a solução finita de todas as minhas angústias? — Você tem que beber da outra taça. — Onde está a outra taça? — Eu bebi tudo o que nela continha e a manuseei tanto que ficou gasta, fina, transparente, trincou as bordas e a haste esfarelou e virou areia que o vento do deserto sopra. — Velha você me enganou e me vendeu ilusão. Qual a verdade que mora nesta taça ou vai me vender à prestações? Vá ao deserto agora e diga ao vento para juntar todos os fragmentos e monte outra taça porque eu quero beber dela. — Isto é impossível! Não posso recolher palavras de uma vida, não posso relembrar de todos detalhes. Na verdade tudo que bebi habita comigo, me escute. — Não tenho tempo. — Então não tem sabedoria, "o saber” leva tempo saber: é uma consulta longa e o diagnóstico, a conclusão, é sem tempo exato. — E o que faço com a senhora, a jogo nas esquinas? — Eu sou taça, a sabedoria que você tanto procura não vai acalmar suas decisões e não vai ser taça se não me escutar. Vai ser areia triturada do deserto e nem vai saber onde ficar quando envelhecer: vai vagar, perambulando, rodopiando feito areia sem dar a ninguém o seu recado. Tem que reescrever e solucionar todos os dias. Todas as horas. E o mundo vem, pisa em cima de suas intenções e você novamente reescreve. Deixa seu rastro. Sua Verdade. Sua Sabedoria. Sua persistência. Por que quem vive muito, rejuvenesce nos ouvidos de quem escuta. E o ou vinte amadurece. Alcança cheiros, sabores, paladares indescritíveis, amadurece na procura e aprende que além dessa taça existe outra e esta não está à venda mas dela todos podem beber se você tiver fé na sua sabedoria. Dentro dela há a esperança que encurta todos os caminhos. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠Nunca é tarde O tempo se revelou nas tardes, o que passou e o que ficou escorreu pelo meu rosto.
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⁠Nunca é tarde O tempo se revelou nas tardes, o que passou e o que ficou escorreu pelo meu rosto. E na linha fina daquele horizonte onde o sol se punha, alinhavei meu coração para não fugir. O lado oculto daquele sentimento tingiu de rubro minhas mãos, minha boca, e manchou meus pensamentos e toda circunferência de minha existência. Estava sufocada, afogando em paixão, respingando questões e senões. Nas tardes vi que era tarde, delineei meu coração, atirei, lancei no vasto para não cair no extremamente. Marquei a direção de meu afeto. E resto ficou fora de controvérsia. Nas tardes moram as emoções e conclusões. Nunca vou te esquecer. Quero amanhecer e ressuscitar, dia que tem o dom de iludir. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠Todo tempero do mundo: Carneiro com Hortelã Pensando:
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⁠Todo tempero do mundo: Carneiro com Hortelã Pensando: “Decidi encontrar com ele. Não posso mais voltar atrás e me despir desse sentimento. Só quero o movimento desse amor, que sinto tanto, para guardar em minha memória e meu coração. Amar não é pecado, pecado é não amar e nunca decidir. E toda decisão, às vezes, não é pela paixão, mas pelo o que construímos pelo caminho.” Eu criei tanta coragem e tantos anos para dar aquele telefonema. Acho que meu erro foi ser ovelha, número quatro, depósito, e ainda disse: –Boa tarde! E você, que nunca reconheceu minha voz, me disse: – Quem é? – Sou eu! – Diga. – Está ocupado? – Estou esperando dois telefonemas. Pensei: “Dois, começo de alguma conversa que pode dar certo”. Mas você nunca acreditou em numerologia, silenciei. – Pegue o calendário vamos nos encontrar. E você atirou pimenta malagueta em meu rosto, disse: – Capsicum bacctum, não enche o saco. Você é... E não completou. Continuei. – Fale, gosto de saber dos meus defeitos para corrigi-los. Não gosto de charadas. Acho que desistiu de dizer por que viu o que ardia em meus anseios. – Não gosto de brigar, entende? E não estava ali para brigar, mas te beijar. E disse que sim, mas eu não entendi aquela violência comigo e as feridas se abriram, empanadas de pimenta malagueta. E tremia, mal consegui erguer e caminhar uma xícara de café com anis estrelado em minha boca. Saí de tudo, fui até a janela para acreditar como fui sobrevivente e aterrissei depois de tanta turbulência, como deixei de gostar de mim mesma. Chorei. E tudo escorreu calado debaixo daquele que nunca viu e sentiu. Recolhi toda indigestão com minhas mãos que cheiravam a anis estrelado. Pensei em Monteiro Lobato, íntimo naquela hora. Toct passe - Tudo passa. Toct casse - Tudo quebra. Toct lasse - Tudo se gasta. Naquele instante eu era outra substância e a minha energia e transcendências ficaram presas em suas palavras. Não fluíram. Capsicum bacctum, pimenta malagueta, você esgalhado, folhas ovais agudas e alternas, flores solitárias. E eu cheirando à China, Illicium anisatum, erva doce de sete ou oito cápsulas, comprimidas, avermelhadas e guardando uma semente: “O sentimento” Desistam: ISTO NÃO É RECEITA DE NADA. Eu era uma vela, um tremular, uma intenção. Era a mesma, mas havia mudado a substância e o tempero. Deliberei. Esmaguei anis estrelado com pimenta malagueta e muita hortelã para aliviar. Temperei o carneiro, era quase Páscoa. Paz. O resto exalava paixão. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠O Compasso do Vôo Tocou um tango. Ele levantou-se, saiu pelo salão, abandonou a mesa e a comunhão de todos que o cercavam e na multidão ele a viu; era ela todos seus dias, era ela todas suas noites.
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⁠O Compasso do Vôo Tocou um tango. Ele levantou-se, saiu pelo salão, abandonou a mesa e a comunhão de todos que o cercavam e na multidão ele a viu; era ela todos seus dias, era ela todas suas noites. Aproximou e disse: — Dance este tango comigo. Ela indignada com a transparência respondeu: — Não sei dançar tango. — Isto não importa, tango é uma dança masculina; comigo você não perde o compasso. Ela levantou-se e viu o mundo em alto relevo descortinado acima de sua verdade. Caminhou até o salão, petrificada, nem sabia como tocá-lo em público. Ele providenciou o enlace. Pegou suas mãos úmidas e geladas, segurou-as com firmeza e as trançou em seu corpo. Ela sentiu seu movimento e desta vez não podia fechar os olhos, inalou seu cheiro sem poder beijá-lo, percebeu suas pernas fortes e não podia entrelaçá-las. E por um instante o vinho recém aberto a deixou tonta em um só gole. Dançou, jogando seu ritmo nas batidas sufocadas suspiradas do bandónion. Suspirou, puxou coragem e dançou aos olhos de todos. E no mundo emparedado ela viu o fio do prazer e com volúpia dançou esparramando todo seu desejo. Neste instante, o salão foi inundado de um perfume fragmentado e indefinido da lágrima que escorre, do pensamento cheio de saudade, do prazer de sua voz e da incerteza do encontro frente à maciez do contato de seu beijo. E todos perturbados com o banho de verdades em pétalas frente estes sentimentos, dançaram embriagados abraçando seus pares. E no amontoado esprimido do anonimato, eles os amantes, se perderam sem julgamento. E nas asas do desejo e da imaginação emergiram na noite e no compasso fálico desse desejo onde mora a morna volúpia longe das paredes livres, perderam-se no horizonte em um vôo flutuante sem destino certo. Onde a noite é suave ao adormecer, onde pairam e pousam as almas amantes que se deitam para simplesmente amar. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠O turbilhão Sentou-se diante do espelho encaixilhado, abraçando anjos, e ele a refletiu, e ela perguntou:
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⁠O turbilhão Sentou-se diante do espelho encaixilhado, abraçando anjos, e ele a refletiu, e ela perguntou: – Qual é a distância entre o Amor e a Paixão? O reflexo fragmentou, partiu-se, dividiu-se em mil faces, ela percebeu que era uma viagem cheia de adversidades e surpresas. Chorou, lamentou, arrumou as malas, dobrou sentimentos e saiu de bagagem desarrumada. Mas esta era uma pergunta que não ficaria no espaço, sem resposta. Caminhou e viu a tarde chegar. Ficou ali, estática, observando, e viu que as tardes são as paixões. Elas simplesmente caem, silenciosas, misteriosas e sem questionamentos. E, de repente, você apalpa a escuridão da noite, a paixão não sabe o que fazer e pinta a lua cheia no céu para você não ter medo. Mas você não desiste, fica de perna bamba, tropeçando e transpirando. E a paixão novamente, insistentemente, pinta estrelas no céu para que olhe somente para ela, e tudo seja somente um céu estrelado de uma noite escura. Vem o frio da alma e nada aconchega. Você torce para que amanheça e a noite da paixão ainda quer te confundir, e sopra neblinas e dúvidas esfumaçadas. O frio anuncia o dia: você amanhece, apesar de tudo. Você acorda confusa, de ressaca. Nem de dia, nem de noite, simplesmente amanhece no conflito do dia, na discussão da moeda corrente, nos afazeres das cordialidades, fingindo que ontem não foi nada e hoje tudo vai acontecer. Para transtornar todos seus dias! Ao dia o AMOR chega: queima sua pele, lhe dá um abraço aconchegante e você, desavisadamente, acredita que todos os erros que cometeu e todos os pecados com os quais dormiu tem perdão. No ocaso, às 15 horas, você percebe o que lhe foi dito: é diferente. E esta voz não se cala, é a paixão. E quando abandona nossa existência de lembranças, deixa um brinco de estrela cravejado de brilhantes, para lembrar que ela (a paixão) não é o sol do dia nem as estrelas que povoam o céu. Banimento não existe. Somente luto, aflição, agonia, amargura, angustia, ansiedade, desgosto, consternação e dor. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠Envidraçada Você disse: “Não me questione... nunca...” Frase feita, determinada.
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⁠Envidraçada Você disse: “Não me questione... nunca...” Frase feita, determinada. Mas, a cozinha era pequena com fogareiro de duas bocas, perdido sem intenção de nada e o pior, não havia cheiro e calor de coisa alguma. Mas o aroma de seu beijo navegava em minha boca e eu precisava dar um jeito de digerir seu feitio. Tínhamos que namorar. Peguei suas mãos ásperas para sentir seu movimento, sua energia e o modo que manipulava e você as retirou: triturei as cebolas e Chorei!... Olhei em seus olhos sem desviar, para descobrir qual era o seu tempero e a sua hora. Você desviou e duvidou e eu acreditei no Curry como condimento e companheiro. Abracei você desavisado na sala e sussurrei amores e você desdenhou. Fui à cozinha novamente, piquei as maçãs ácidas e verdolengas e percebi que estava em descompasso, não era a hora. Na biblioteca, você distraiu na leitura sobre motores e aquecimento e observei sua atenção e namorei seu perfil e sua paz. No quarto, sozinha, retirei o avental, pintei minha boca e desejei a mim mesma, paz e discernimento das verdades. Voltei ao escritório e com segurança disse que estava tudo pronto. Você, descansadamente, arqueou as sobrancelhas e perguntou: —O que você fez hoje? Respondi: —Frango ao Curry. E você. num silêncio mordaz, sentenciou: — “Não como frango!" Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠A Parte e o Todo Ela estava nua, e com ela todas as suas cicatrizes. Estava só, e com ela todos os pensamentos que nela moravam. Puxou a noite e sua negritude para cobrir sua nudez e bafos da madrugada para perfumar sua embriaguez de desejos e ainda continuava nua.
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⁠A Parte e o Todo Ela estava nua, e com ela todas as suas cicatrizes. Estava só, e com ela todos os pensamentos que nela moravam. Puxou a noite e sua negritude para cobrir sua nudez e bafos da madrugada para perfumar sua embriaguez de desejos e ainda continuava nua. A noite era passageira e o silêncio que nela morava, parecia indefinidamente profundo, como um “segredo apaixonado". Onde guardaria a caixa dos segredos apaixonados, que se debatiam, querendo sair a toda hora? Eram apenas segredos e segredos divididos não eram mais segredos e de companhia também guardou o silencio na mesma caixa. Guardava todos na gaveta do lado esquerdo, no alto do armário que pertencia ao quarto, onde ninguém revirava seus devaneios. Amanhecia, anoitecia e, dentro da caixa, o segredo e o silêncio começaram a se desentender e faziam a caixa vibrar e o armário começou a reclamar que não havia paz para que continuasse ereto, firme em sua envergadura. Ela abriu a caixa do lado esquerdo dos seus seios, tirou a paixão e a guardou junto com o silêncio e o segredo. Eles ficaram extasiados com a sua magia! A paixão era morna seus cabelos sedosos e suas mãos mágicas, suaves e sua boca desenhada, seu olhar era uma viagem ao desconhecido. Por dias a caixa se acomodou. Mas, lá dentro uma guerra se anunciava: o segredo e o silêncio disputavam a paixão. Um dia, o armário novamente reclamou. Ela o abriu e ele rangeu e pediu que olhasse a caixa dos segredos apaixonados. Deles, soava uma música triste, partida, como se os acordes vibrassem o último Si Bemol de um final de melodia. Pegou a caixa dos segredos apaixonados, foi até ao rio, onde as águas navegam e passam somente uma vez. Abriu a caixa e lá estavam: o segredo apaixonado partido, o silêncio irritado e inconformado e a paixão mendiga e maltrapilha. Despejou todos no rio e viu que a paixão é descortinada e encachoeirada, o segredo partiu em confissão e o silêncio se despediu em tranqüilidade, descobrindo que a paixão não é amor, mas simplesmente o lado partido e a parcialidade. Ela somente conhecera e se apaixonara por uma parte de um todo desconhecido. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠Quando Quando vai passar? Este desvario
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⁠Quando Quando vai passar? Este desvario Esta loucura Deste encontro Que provocou o desencontro De todas nossas vidas. Quando vai passar Esta saudade A sede de seu tocar A minha Avidez Aflição Pela sua presença Quando vai passar Este desespero, a secura Que tinge meus dias Minhas idéias Esconde minha ansiedade Em te tocar Somente com o meu olhar Não vai passar Vai minar Vai marcar Não há tempo Vai ficar Morando neste tempo Em que fiquei Louca por você. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠Quero em Verso para te Amar Quero a última intenção Um último beijo
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⁠Quero em Verso para te Amar Quero a última intenção Um último beijo Com todo desejo Depois despejo Quero amar aquele instante Desarmar Nossas almas Quero intenções, intensidade O procurar De sua boca em minha O resto daquele abraço Quente O resfriar do impossível Quero você Seus pelos Meus apelos Sem cobranças Só quero Nada mais Só quero O todo roubado O que me foi retirado O que se fez descortinar Só quero você Seu braço Um abraço Sua masculinidade Concreta Sua vontade em minha vontade Quero você Sua doença amanhecida em mim Sua existência Quero a última Intenção Quero ficar em você Pregada Carregada Como páginas Amassadas E nunca Esquecidas Estrofe de um verso Que nunca Terminei E só comecei com você Verso que nunca pronunciei Mas quero tudo de volta Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠Vatapá do Cerrado Um dia ele chegou e disse: — Acabou! Não volto mais.
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⁠Vatapá do Cerrado Um dia ele chegou e disse: — Acabou! Não volto mais. Saí da caixa das comodidades e perguntei: — Por quê? Ele disse: — Não sei, falta... Tempero. Saí depenada na partilha, minha única herança: Um velho livro de receitas. Mas havia um sentido ao acontecido: Casa dividida Filhos partindo Amigos indecisos Família desconfiada E eu sozinha... ...e o pior, ser acusada de ser sem tempero! Realmente, naquele lugar, não havia espaço para que eu pudesse descarnar minha alma e retemperar minha vida. Passei pelo quarto de minha AVÓ, que disse: — Tenha fé! Se tivesse pernas lhe acompanharia. Parti. De lembranças: mudas de alecrim, coentro, manjericão, ora-pro-nobis. Talvez a outra fosse assim: Com a boca besuntada de manteiga de cacau, escorrendo ignorância, pele cor de açafrão de tanto vadiar ao sol, cabelos negros como tinta de lula. Mas... Eu tinha as faces cor de pimenta rosa e um modo de fazer diferente. Precisava remexer e fazer um VATAPÁ e mostrar a todos que o amanhã é outro dia. Desossei uma galinha, desfiei sua carne e modifiquei meu "penteado". Coloquei um quilo de camarão, imaginando que o mar é grande... Deitei azeite de dendê em abundância para lustrar meu ego. Despejei leite de coco, pensando que o vento no coqueiral, vira a qualquer hora. Apertei os tomates maduros para que não sangrassem antes da hora. Piquei e chorei junto às cebolas e acreditei que elas exorcizam o ambiente. Com parcimônia no sal (à gosto) e acreditei em Deus e na criação. Usei alho em lâminas para espantar a inveja Salsas e cebolinhas trituradas para dizer que tenho tempero. Abracei a azeitona para dar um toque aveludado à vida Troquei... era hora... o amendoim dominado pela suavidade do baru do cerrado e acreditei no equilíbrio do sabor. Retemperei e acreditei na receita, estava tudo pronto... mesa posta e farinha de mandioca para engrossar minha intuição. Cansada, eu agora, precisava de um banho, de um mergulho. No quintal uma banheira jazia também abandonada. Lustrei vida nova a ela. Forrei com alecrim para perfumar meu corpo. Cerrei as vistas de curiosos, com lençóis, para que não criticassem minha nudez e filtrassem somente bons ventos; Mergulhei! E foi assim: era fim de outono, as folhas caíram na virada da tarde. Pétalas coloridas inundaram a banheira e eu me senti importante com tantos confetes! Na verdade, ele me perdeu, o tempo avisou que as folhas velhas cairiam, dando lugar às folhas verdejantes e elas inundaram a banheira. E eu cheirando a alecrim, engatei uma nova estação e pensei: “Amor requentado amigo reconciliado nunca dão um bom-bocado” Aceite e acredite na sua receita. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠Hoje Hoje o dia chora Não há metáfora
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⁠Hoje Hoje o dia chora Não há metáfora Não chove Há um vapor Um suor Um choro Que exala dos poros Há um transpirar Escorrer Que banha as lembranças Há um recordar De dois corpos suados Pregados Em meus pensamentos Do que foi todo Meu choro. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠As Linhas Disseram pra Vânia que as linhas das mãos guardavam e guiavam seu destino. Estava tudo ali na palma das mãos, determinado, sacramentado, no desejo intransponível do destino.
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⁠As Linhas Disseram pra Vânia que as linhas das mãos guardavam e guiavam seu destino. Estava tudo ali na palma das mãos, determinado, sacramentado, no desejo intransponível do destino. Era só interpretar as linhas... tantas linhas... para cima... para baixo... em retas... em diagonal... formando hexágono, que Deus havia carimbado em sua mão. A mão, um deserto cor de rosa, riscado de linhas falantes, para que o caminhante não morresse de sede e descortinasse o futuro. As respostas estavam nas linhas que riscavam a palma da mão, mostrando o caminho e iluminavam as suas decisões. Buscava sempre nas linhas, destinos a serem realizados e sonhos que sonhava. Era uma busca incansável de premonições, ir a adivinhos, sensitivos, para desvendar e achar os mais curtos caminhos nas linhas das mãos. A busca se tornou a razão da vida de Vânia. Viajava, andava longe, por estradas esburacadas, em casas escuras cheirando a velas queimadas, acreditando na imaginação dos sensitivos às suas mais íntimas indagações. Assim caminhante da Roda Viva, pelas leis do Karma, Vânia procurava o destino na magia e no mago, nos desdobramentos de suas forças, o julgamento de sua vida para alcançar o sol da eterna felicidade. Ora diziam que havia um moço claro e Vânia jogava p’ro alto sua sorte, e fazia uma mudança radical em sua vida. Sua vó alertava: — A vida tem que ser uma oração. Vânia subia até as estrelas em sua nova esperança e nesta aventura, aparecia um louco que só queria aventuras e incertezas. Sua mãe dizia: — As respostas estão em você, abrace sua fé. Vânia por tempos aquietava a ilusão, mas, o seu medo pela vida, ressuscitava as incertezas. Sua irmã exaltava: — Encontre seu próprio rumo e confie em você mesma. Vânia, já mais velha e madura desanimada na busca e sentido da vida desejava agora uma harmonia sobrenatural, a temperança e sua auto realização (o mundo). Agora tinha certeza de que o mundo não guardara p'ra ela nenhum amante loiro nem moreno. Lia as cartas de previsões e se embaralhava nas linhas escritas. Até que um dia, Vânia de tanto reler as cartas, não saía mais do quarto e todo mundo pensava: "Deve estar lendo as linhas e previsões.” O sol se aproximou da Terra, secou o orvalho da manhã e Vânia não apareceu para o almoço. Bateram, bateram na porta do quarto... ...não houve resposta. Quando abriram encontraram Vânia enrolada como um novelo de linha. Linha de tudo quanto era jeito: linha de retroz linha de bordar linha de carretel linha grossa linha fina... Vieram suas irmãs, Vera e Virgínia, correndo e não sabiam se chamavam um médico, o curandeiro ou o sensitivo. Vânia estava enrolada e embaraçada nas linhas. Foi um reboliço. Tinham que achar o fio da meada e desenrolar as linhas que amarravam Vânia. E tinha que ser rápido. Deu uma trabalheira danada, dia e noite, Vera e Virgínia se revezavam para desenrolar as linhas que aprisionavam Vânia. Precisava pressa, pois, ela já estava pálida, acinzentada, não falava, estava cabisbaixa, enquanto as irmãs desenrolavam linhas... e mais linhas... Eram tantas linhas... linhas da vida agarradas à Vânia. Passaram dias e noites. Vera e Virgínia se revezando. - Venha rápido, pedia uma, vamos deitar Vânia, já está quase no fim do “enrosco”. As duas pegaram com afinco a tarefa. Vânia ainda de pé rodopiando, para desenrolar o “enrolo”. Quando acabaram, levaram um grande susto, só restava de Vânia as suas sapatilhas. Aí, elas concluíram que Vânia também virara linha, tinha corrido tanto atrás das linhas, que se embaraçou, se perdeu, não escreveu nem uma linha da sua vida, que minguou, minguou até virar um FIO DE LINHA! Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠Sonhar e Cair Sonhei e
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⁠Sonhar e Cair Sonhei e Caí No mundo imaginário Sem razão Sem julgamento Sonhei Caí Em seus braços Em seus abraços Em seus beijos Caí Na decepção Na sua aspereza Na sua razão revoltada Sobrevivi Em sonhar Em amar E Caí desesperadamente Novamente Em teus braços Caí E Sonhei Com você Sobre nós Só que Agora Na minha Imaginação. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠Da Janela Meu coração anda junto ao seu Minha boca
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⁠Da Janela Meu coração anda junto ao seu Minha boca Colada à sua Meu corpo Entrelaçado ao seu Meu coração Este descompasso Mas neste Compasso Desta dança Anda junto ao seu Minha oração Abraça teu Coração Abençoa nossa Devoção E meu coração Anda junto Ao teu Meu coração É meu Teu coração É teu Mas meu coração Anda junto Ao seu Somos dois Em um só coração O que é direito E que é esquerdo Meu coração Anda junto Ao seu O leste À esquerda Meu coração abraça o seu coração. minha oração Suplicando perdão Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠Não Cortem os Meus Cabelos Thersila era linda, o conjunto fazia a graça da sua beleza e o que mais impressionava eram os seus cabelos, tão longos como as horas de nossas vidas. Sua mãe dizia: “corte os cabelos, estão muito compridos! Fez promessa?" Mas, ela se calava e seus ca…
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⁠Não Cortem os Meus Cabelos Thersila era linda, o conjunto fazia a graça da sua beleza e o que mais impressionava eram os seus cabelos, tão longos como as horas de nossas vidas. Sua mãe dizia: “corte os cabelos, estão muito compridos! Fez promessa?" Mas, ela se calava e seus cabelos cresciam feito horas de espera: intermináveis. Cresceram... Cresceram... que para lavá-los ia até ao rio Corumbá, desatava as tranças o que levava horas, e deitava sua longa cabeleira no cascalho das águas do rio. Neste instante, os cabelos encharcavam e tomavam o movimento das águas e mais pareciam galhos e gravetos esparramados pela chuva. Lavava, secava e perfumava seus fios e retornava à casa. Sua mãe bradava: "Que é isso? Promessa?” E os seus cabelos ainda mais cresciam... cresciam tanto, que seu marido fez deles seu colchão e suas cobertas, apaixonado pelos longos fios sedosos e cheirosos. Amanhecia emaranhado, que o prendia feito teias, para que não abandonasse o leito. Conselhos não adiantavam: corte as pontas, da força! E não entendiam. Thersila fez promessa? Todos ficavam impressionados com ela sentada na poltrona trançando os fios esparramados pelo chão. Ela passava horas a fio a desembaraçar e ajeitar os fios na cama e cobrir seu amado, confiando no enlace da paixão. Num dia de irritação, ele entrelaçado e embaraçado em seus fios, bradou e cortou os seus cabelos. Thersila, nesse instante entristeceu, empalideceu e emudeceu. Sentou-se num canto da sala, começou a tecer os fios cortados, como teias, num crochê complicado e os dependurava nas janelas, como cortinas. Ele desesperado com a sua mudez, pediu: — Fale Thersila, são seus cabelos que lhe fazem falta? Ela então falou: — Você cortou meus cabelos, junto deles a minha história. Agora teço com o que restou, teias, para que os fios não voem pela janela afora, como palavras perdidas de uma história de amor que levei anos e anos para contar e lhe ACONCHEGAR! Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠Coisa Nenhuma Quem roubou Tua risada
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⁠Coisa Nenhuma Quem roubou Tua risada Meu bem Diga Que vou buscá-la Para cobrir Sua boca Quem tirou Tua espontaneidade E hoje fica nu, encolhido Diga Que vou buscar Outra roupa Quem tirou sua dança Ficas parado Feito estátua de sal Diga Qual é a música Vou tocá-la Para ti. Diga Por favor Quem colocou O mar dentro De teus olhos Mas sou eu A praia Venha para mim Não se afogues No pranto Diga Diga Porque eu Te amo Quero levá-lo Ao meio da pista Nu como estás Para dançarmos E recomeçarmos Com ritmo Sem lhe roubar Nada Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠Para Ana Não leve Os móveis que são tão herméticos
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⁠Para Ana Não leve Os móveis que são tão herméticos e não cabem dentro deles Toda sua imaginação Não leve Os pratos e as louças tão frágeis! Você é lutadora. Não leve Os anéis, tão vadios Que vão dedos em dedos Pois você é determinada. Leve As palavras, as lembranças, as risadas As presenças cheias de saudades os conselhos as críticas filtradas Leve Os desejos e os sonhos que são suas pernas e a realidade de todos os dias que formatam toda sua existência. Leve As lembranças A trança de todos seus amigos que foram plateia de suas angústias E te recolheram quando a coreografia não estava no compasso e se calaram Leve O respeito pela lágrima que escorre a qualquer hora E pense: Se tudo não aconteceu conforme suas verdades não são fracassos São os anjos que desviaram do seu caminho aquilo que nunca poderia viver e entender Porque não existem fracassos mas intervalos para pensar reestruturar Mudar Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠O Corredor As tardes caíam cada vez mais longas, sem expectativa e numa falta de prosa desconcertante. Já ia longe a guerra do silêncio entre o casal em sua primeira disputa. Era difícil aplacar a angústia do que ia acontecer, disfarçar a ansiedade da volta e representar que t…
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⁠O Corredor As tardes caíam cada vez mais longas, sem expectativa e numa falta de prosa desconcertante. Já ia longe a guerra do silêncio entre o casal em sua primeira disputa. Era difícil aplacar a angústia do que ia acontecer, disfarçar a ansiedade da volta e representar que tudo vai bem ou ia bem. A janela foi objeto do desejo de disputa. Abre a janela, Ana, está um calor danado desse jeito não consigo dormir, o quarto está abafado isto só dá pesadelo. Ela retrucou: Pesadelo são os morcegos que entram no quarto e ficam assombrando o meu sono. Passo a noite vigiando a janela, de sentinela, enquanto você se refresca e dorme. No outro dia fico exausta. — Assim não dá, Ana você acende velas no oratório, fecha a janela e o quarto fica mais abafado do que igreja em dia de Semana Santa. Isto já virou tormenta na hora de dormir, perde até o gosto de se deitar. Suar na escuridão é triste. — Gosto da janela cerrada, dá mais segurança... Vou abrir, Ana. amanhã é dia de serviço, a esta hora ainda não peguei no sono... deixe a luz da lua molhar o seu corpo, soprar o cheiro da flor do pequizeiro a perfumar o quarto. Empertigada, Ana levantou-se: — Então fique aí com a lua, os morcegos e as formigas dos pequizeiros. Vou para o outro quarto. — Você é quem decide, Ana. No corredor, quando as tábuas estrilaram, já bateu arrependimento. Ana mastigou o conselho da avó: “Nunca saia de sua cama a volta é mais difícil''. E foi assim. Tião ficou no quarto do oratório, de cortinado, as melhores cobertas, com a luz da lua, de janela aberta. Ana penava no final do corredor em colchão de capim, suando de calor e medo, disputando espaço com as muriçocas. Toda noite planejava e ameaçava: vou lá no outro quarto; “Amanhã tiro o cortinado...” Mas clareava o dia e pensava: “Quem vai subir e pregar este peso nas alturas?"! Não se conversou mais sobre o assunto. Os pequizeiros floresceram, cheiraram, derramaram seus frutos, caíram suas folhas e não conversou mais. O inverno chegou, a janela cerrou e Ana emperrou no quarto do corredor. Tião apostava até quando?! Aqui neste sertão sozinhos era só esperar... Agora quem deixava Ana de sentinela eram seus pensamentos, haja tijolo quente debaixo da cama para aquecer a solidão, além da trabalheira, dos dedos queimados, dos pés gelados a indecisão deixava o corredor da volta mais comprido. Tião matutava: tinha que tomar atitude, Ana ia botar fogo na casa. Coitada! Moça da cidade não tinha costume da roça. Levantou-se, encheu-se de coragem, pegou a vela para atravessar o corredor. A cálida luz iluminou todo esplendor de Ana que de vela na mão também voltava ardendo de saudade. Entreolharam-se e gungunaram: — Oiiiii. Cruzaram o corredor cada um em sentido contrário. Ana adentrou no quarto do oratório com cortinado e Tião no quarto do corredor com o colchão de capim. Sentou-se na cama desolado, contrariado, acanhado e deitou-se. Palpitando de ansiedade Ana mal conseguiu sentar-se na cama: no instante sentiu o cheiro das roupas de Tião que exalavam da cama ainda quente o que disparou suas lembranças e encurtou o caminho da volta. Com as mãos e os pés frios da noite, com o coração ardendo de coragem, a chama da paixão iluminou o corredor e caminhou para junto de Tião. No espaço exíguo da cama deitou-se com o coração apertado acomodando seu corpo ao de Tião. Ele entrelaçou sua cintura em sinal de reconhecimento. Ana com os pés gelados encostou seus pés ao dele para roubar seu calor. Ele a aqueceu e perguntou: — Não estamos brigados, Ana? Rindo afirmou: — “Pés não brigam”. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠Agosto Vou tomar um banho Longo
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⁠Agosto Vou tomar um banho Longo Para espalhar seu cheiro Vou sentar-me à janela Mirar o mar Amar os momentos que passamos Vou beber um rosé Leve Embebedar-me da Sua ausência Vou cultivar cada frase Reescrevê-las em Minha memória E perguntar-me qual É a urgência Vou resolver minha criatura E nesta curva Fazer uma declaração A um fantasma. Vou acabar flutuando Sobre a noite Curvar-me Entre o beijo e o amanhecer E neste breve espaço Sem mistérios dizer O quanto te amei. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

Metamorfose da Solidão Ele havia morrido. Rosa Augusta deitou-se silenciosamente aos pés da cama.
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Metamorfose da Solidão Ele havia morrido. Rosa Augusta deitou-se silenciosamente aos pés da cama. Emudecida, anestesiada pelo sofrimento. Não havia soluços, desespero, nem pranto incontrolável. Somente seus pensamentos voavam e cerravam todas as portas do casarão, avisando a todos, que, naquele instante se encerrava uma história, uma vida. Dali em diante, somente abrindo as alas da morte para conhecer o outro lado. Não era feriado, dia santo e o comércio não parou. Somente ela vestiu-se de negro. Aprumou seu coque, dobrou o lenço de linho miúdo e colocou-o no punho da manga e recebeu os... “sentimentos”... Numa noite clara de luar, pessoas iam e vinham, aconchegadas, quentes, acalentando Rosa Augusta que escondia os pés doídos de frio e solidão, debaixo das barbatanas e anáguas. Seus pés gelados trincaram e se despedaçaram pela sala como pedras soltas... Ela ficou inerte, sobre os cotos, sem dor, esperando que a alma dele lhe desse asas para voar. As pedras despedaçaram, derreteram e escorreram pela sala. Ninguém entendia o porque de tantas poças d'água já que a casa era toda forrada e de Rosa Augusta não desprendia uma lágrima sequer. Ela, num gesto de consolo a si própria, descobriu a face do amado, emoldurado pelo fino filó, passou o lenço pela sua testa como se ele vivesse e transpirasse sua existência ali inerte. Neste instante, ao recolher o lenço, este caiu sobre as poças do chão-molhado, encharcou-se de emoção nas águas caídas, aumentou de tamanho, desdobrou suas formas e transformou-se em asas que Rosa Augusta vestiu e voou... acreditando que a vida é uma grande “METAMORMOSE! Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury