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Frases de RENATO JAGUARÃO

23 frases

Carta em Versos à querida Inês Querida Inês, receba estas linhas, que atravessam distância e solidão,
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Carta em Versos à querida Inês Querida Inês, receba estas linhas, que atravessam distância e solidão, trazendo-te a nova que ilumina: erguemos no campo a nossa Revolução. No Seival, o aço cantou com furor, entre lanças, clarins e poeira do chão, mas floresciam também — como em flor — os corações que sonhavam liberdade e paixão. Veio Tavares com marcha altaneira, como quem julga a guerra uma dança, mas encontrou na pampa inteira o brio de homens que não perdem a esperança. Neto, em fulgor, ergueu sua espada, refletindo o sol nas manhãs da campanha, e ao brado “À carga!”, a tropa inflamava, como quem dança na chama que arranha. O combate oscilou como fogo no vento, mas o destino soprou-nos vitória: o cavalo de Tavares quebrou-lhe o alento, e a coragem dos nossos gravou-se na história. Depois, sob as estrelas em lume, quando o silêncio abraçava a planura, acesa ficou a centelha que resume o sonho da pátria, tão firme e tão pura. Neto hesitou, fiel ao Bento mas o mate aqueceu-lhe a razão, e a voz firme soou como alarde: “Sejamos República! Que assim seja a Nação!” No Jaguarão, rio calmo e estreito, com matas de um lado, coxilhas além, ergueu-se aclamado, no brio perfeito, General de uma causa que a todos convém. Ah, Inês, não de tinta, mas de sangue e bravura, se ergueu esta pátria em nascentes auroras, e entre batalhas, guardo a ternura de escrever-te meu amor nestas horas. Sou teu Manoel, fiel combatente, que no campo e na vida jamais te esqueceu, pois além da vitória, trago presente: a República é nossa — e meu coração é teu. Manoel Lucas de Oliveira, 14 setembro de 1836 POEMA CARTA A INES Autor - Renato Jaguarão.

Poema - Carta de Carlos Barbosa. Querido irmão José, Escrevo-te aqui do solo sagrado da nossa fronteira, onde tiveste o privilégio de nascer — graça que não me foi dada, embora me sinta jaguarense de alma e coração. Hoje recebi, com grande preocupação, a medida tomada por Varga…
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Poema - Carta de Carlos Barbosa. Querido irmão José, Escrevo-te aqui do solo sagrado da nossa fronteira, onde tiveste o privilégio de nascer — graça que não me foi dada, embora me sinta jaguarense de alma e coração. Hoje recebi, com grande preocupação, a medida tomada por Vargas de dissolver todos os parlamentos; sei da tua atuação como deputado na nossa Capital do Brasil, cidade maravilhosa do Rio de Janeiro, e imagino o que estás a sentir neste momento. Somos republicanos, meu caríssimo irmão, e a liberdade nos norteia. Nestes dias lembro tanto da nossa infância nos campos de Jaguarão, quando nossa mãe Maria e nosso pai Antônio contavam as histórias da revolução à beira do fogo de chão, falando do nosso avô Manoel e do nosso tio-avô Bento. Lembro que todas essas histórias mais tarde vim a dividir com meu mestre José Francisco Diana. Antes que me esqueça: sinto saudades da cunhada Arlinda e da bela Maria. Não pude ir ao casamento dela com o Luiz, e sempre me cobro por esse impedimento — coisas de política e compromissos que, ao colocarmos à frente de tudo, muitas vezes nos causam remorso. Mas, como estava a escrever, são muitas recordações. Ainda me lembro de ti pequenote, guri tentando montar nas ovelhas, e eu naquela época com as malas prontas para cumprir a vontade dos nossos pais e ir estudar no Rio de Janeiro. Não foi fácil, meu querido irmão: o Colégio Dom Pedro II era enorme, mas não maior que a faculdade de Medicina. Lembra-te que foram quase dez anos na capital da nossa República Federativa para finalmente realizar meu sonho de conhecer Paris — e lá passei longos quatro anos. Como bem sabes, também era um sonho voltar para nossa Jaguarão e aqui exercer tudo o que aprendera. A sorte me sorriu quando tive o privilégio de conhecer meu grande amor, Carolina. Tivemos uma vida repleta de aventuras e, naturalmente, momentos de sofrimento com a perda de alguns de nossos amados filhos — dor amenizada pelo amor de Euribíades, Eudóxia e Branca. Querido irmão, ao leres esta carta deves perguntar-te por que hoje me mostro tão narrativo e saudosista: a vida passou tão rápido. A política, depois de 1882, quando fundei o partido republicano em Jaguarão, nunca mais se apartou de mim. Veio o mandato na Câmara — onde jamais se pensara em um republicano — depois fui deputado da província e, para completar, participei como constituinte naquele ano de 1891. Depois veio o Júlio, como primeiro presidente constitucional do Rio Grande; quase me obrigou a aceitar sua imposição para eu ser seu vice-presidente. Tu conheceste o Júlio: não aceitava recusas e era deveras convincente. E assim tive de me desdobrar entre a Vice-Presidência e a presidência da Assembleia dos Representantes do Estado. Lembra-te que, em virtude disso, recusei disputar uma vaga ao Senado — por nossos ideais republicanos, meu querido irmão. O que parecia inimaginável aconteceu: tu muitas vezes me disseste que era um caminho natural — e lá estava eu, presidente do Estado do Rio Grande do Sul, com larga margem de vantagem, três vezes mais votos que o meu oponente. E olha que sequer andei pelas outras querências de São Pedro; fiz-me vitorioso sem sair da nossa fronteira. Por fim, acho que tudo valeu a pena, e consegui fazer muitas coisas. Tu, que por muitas vezes estiveste à frente de governos, sabes que os desafios eram grandes. Dei início à obra do Palácio Piratini; pude homenagear meu amigo Júlio erguendo-lhe um monumento; realizei a obra do cais do porto em Porto Alegre; ajudei a nossa Faculdade de Medicina; criei a colônia de Erechim e finalmente elevei a vila de Caxias à categoria de cidade; ratifiquei as questões da fronteira com o Uruguai; fui incansável nas questões agrícolas e pecuárias e tratei da saúde com todo o meu conhecimento. Mas, depois de tantos feitos, meu irmão, precisava voltar para a minha terra de coração, e entreguei o governo ao Borges e vim para a fronteira. Lembras quando te disse que iria descansar e voltar ao meu ofício de medicina? Tu duvidaste — e hoje sabemos que tinhas razão: não deram nem seis anos de descanso e a política me reencontrou, para cumprir aquilo de que havia declinado anteriormente por motivos republicanos. Lá fui eu para o Senado Federal. Foram dez anos na Câmara Alta, mas minha saúde convenceu-me, mais uma vez, a voltar para nossa terra. Depois de todas estas linhas, saberás a razão da minha carta repleta de saudades e lembranças: tua querida cunhada, que tanto te admirava, fez sua passagem, deixando meu coração com um vazio enorme — foi-se minha Carolina. E eu estou aqui, na terra onde tu nasceste, à espera da minha vez para ir ao encontro dela. Abraços do teu querido irmão, Carlos. Autor Renato Jaguarão.

Comparsa De guri eu fui cancheiro Nas comparsa de esquila
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Comparsa De guri eu fui cancheiro Nas comparsa de esquila Me juntando com os pila Nas estância da fronteira Era lindo a barulheira Da maquina bordoneando A indiada esquilando E eu botandolhe fixa Ovelha não relincha Mas dispara igual bagual E o agarrador, por vez se vê mal Maniando nas pata o tento E entrega pro talento De Quem na mão se defende O Souza, João clemente, o Cleber o alemão Eu guri varrendo o chão Curando com óleo gracha Algum talho que se acha O pente por vez é cruel Depois enrolava o vel Largava pro amarrador Que lançava pro socador Que a estopa lhe cobrava E o cozinheiro avisava Tem churrasco na cozinha Pão café, farinha Pra reforço do peão Depois seguia a função Naquele mordaço de novembro Cada detalhe eu lembro Até o cheiro do galpão Ja carneado um Capão Que nas brasa esperava O meio dia parava Pra uma boia de repeito Massa, feijão preto Antes umas cuia de mate E o locutor da cidade Dando no rádio os recado Um aviso do polvoado Telefone não havia E a turma se intertia Depois a sesta pegava E a comparsa descansava Pra aquele resto de dia Ao fim de mais uma lida Vinha o banho no açude Parece até meio rude O ofício Pra quem nao conhece Mas é quando o dia anoitece Os catre já arrumado Que o galpão fica animado Uns verso bem declamado Alguns floreio do gildo Reconheço que sou grosso Baile do Chico torto Resposta do relho trançado E ali naquele aleredo Os catre todo ermanado Se vivia o presente Especulava o futuro E lembrava o passado O que seria da tosa Com a tal modernidade Pra quem viveu desse ofício Apartado da cidade Se bombeava tanta mudança Pra quem pouco sabia Que tinha só a tosquia Como changa e ganha pão Era a tal evolução Que se vinha em desparada A lã ja valia nada Mal pagava a comparsa Mas tudo um dia passa Hoje em dia o esquiador Só é lembrado nos versos E na saudade do payador Mas ainda no setembro Me bate aquela agunia Pra embarcar numa comparsa E voltar naqueles dia Rever os meus amigos Galpao, o velho catre Aquele assado nas brasa E os parceiros do mate Renato Jaguarão.

Domador do Cerro Chato. Pode largar o aporreado Mais sestrozo da tropilha
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Domador do Cerro Chato. Pode largar o aporreado Mais sestrozo da tropilha Tô loco pra tirar cosca Me vou de pronto as virilha Que ronque, castique o cabresto Palanque aguenta o retosso Me vou de tento pro lombo Mango se vai ao pescoço Despensa o amadrinhador Me vou solito pro céu Pra ver o mundo rodando Por cima do meu chapéu Saca a venda dos olho Deixa o diabo enchergar Enfurquilhado um gaúcho Que já nasceu pra domar Assim se foi o maleva Levando o vento por diante O lombo inchado é bufando Deixou pra trás o palanque Grudei espora em puaço Fiz o potro se ajoelha Dei uma volta nas clina Pros dedo se ageita Grunindo se foi ao espaço Lá maula, senti o calor E foi aquele gritedo Nos verso do narrador Vi o chão embaralhado O céu virado do avesso Numa troca de pescoço Se foi lá cria meu lenço Por fim suou a campana Soltei a perna ao costado Sai a passo tranquilo O potro se foi ao alembrado Juntei meu lenço e voltei Só pra escuta o alaredo E a peonada de pé Metendo aquele gritedo Mirei a prenda mimosa E dei pra ela meu lenço Tirei o chapéu saudando Aquele acontecimento Depois voltei pro meu rancho E a fama de bom domador Levei a china comigo Como regalo de amor... Renato Jaguarão.

A lo largo. Mirando o campo ao largo, Mateia o rude peão.
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A lo largo. Mirando o campo ao largo, Mateia o rude peão. Cada puxada do amargo, Campeando com a solidão. O tirador pendurado, Mango, pelongo, xergão, Freio, buçal e cabresto, E o velho fogo de chão. Nesses fins de invernada, Onde até Deus esqueceu, Mangueira, potro, a cuscada, E a vida que lhe escolheu. Pra esses tombos da lida De tropa, doma, caseiro, Peão, destino e ofício Pra quem nasceu campeiro. Mirou o tempo passado, Mocidade se perdeu. Ficou cuidando cavalos, Campos que não eram seus. Nesses lados de fronteira... Versos, payada, acalantos, Céu, estrelas e a lua, Amadrinham pirilampos. Donde o gaúcho mesmeia Sonhos no seu velho catre, Potros e quadras de campo A cada virada de mate. Quem nasceu ao largo, Tal existência paisano, Sem sobrenome, legenda, Potro se fez orelhano. E a descendência se finda, Nem fez questão de passar. Essa pobreza reinuna, Nem freio faz sujeitar. E assim, no mais solito, Segue a taura vivência, Por vezes qual um monarca Que nasceu sem procedência. Tendo a pampa por morada E as cochilhas por sossego, As encilhas como trono, Enfurquilhado em pelego. Nesses lados de fronteira... Versos, payada, acalantos, Céu, estrelas e a lua, Amadrinham pirilampos. Donde o gaúcho mesmeia Sonhos no seu velho catre, Potros e quadras de campo A cada virada de mate. Renato Jaguarão.

Mãe Gaúcha Em cada rancho do pago Um belo amor floresceu:
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Mãe Gaúcha Em cada rancho do pago Um belo amor floresceu: Mulher guerreira, gaúcha, Presente que Deus nos deu. Sempre com mate cevado E o carinho no olhar, Depois dos filhos criados A saudade lhe faz chorar. Nos braços do seu carinho Ela ensina com saber, Mostrando rumo e caminho Pro filho não se perder. Minha mãe querida, Onde estiver, A bênção de Deus, Gaúcha mulher! Que criou seus filhos No rancho, no galpão, Te levo pra sempre Em meu coração. De poncho, alma erguida, Feita de campo e ternura, Mãe gaúcha é luz da vida, Bondade e formosura. Não tem nada no mundo Maior que seu valor: Um abraço de mãe É verdadeiro amor. E quando ela nos deixa A vida perde a razão, Mas seu mate nunca esfria Em nosso coração. Minha mãe querida, Onde estiver, A bênção de Deus, Gaúcha mulher! Que criou seus filhos No rancho, no galpão, Te guardo, minha mãe, Dentro do coração. Renato Jaguarão.

No princípio. A pampa era pasto, no mas, Rio, coxilha e mato,
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No princípio. A pampa era pasto, no mas, Rio, coxilha e mato, Sanga e quaraguatás. Livres viviam por anos Charruas e Minuanos, Naqueles meados atrás. Jês (Kaingang), tribos de mesmo sangue, Pampiano — Charrua e Minuano — Que um dia seriam paisano. Guarani — Tapes, Arachanes, Carijós —, De pedra, poeira e pó. Depois vieram as Missões, Jesuítas e suas canções Num dialeto desigual. Mas havia Portugal Naquela peleja sem fim. E chegaram no Mirim Pra tomar parte do pago: O coro, o mate amargo Do gaúcho provinciano, Do índio com castelhano, Português também mesclou. E o cavalo logo chegou, Andaluz e Berbere, O pala pro intempere, A bota, garrão de potro, Geada do mês de agosto. O velho fogo de chão, Nascia mangueira, galpão, Velho templo sagrado. O rancho ainda barreado, De palha e chão batido, De taquara repartido. O gado, a plantação, Depois, a Revolução, O grito de liberdade, Alguns buscando igualdade, O fim da escravidão. Pegaram armas na mão, Lança, espada, garrucha, E a bandeira gaúcha Que chamavam pavilhão. E assim se fez a história De um povo forte e valente, Da América continente. Cultura, raça e coragem, Que moldaram sua imagem: Homem rude, campeiro, Fronteiriço, missioneiro, Pampeano por procedência, Que carrega na essência Um DNA que é só seu. E assim o Rio Grande nasceu, Moldando sua estampa Em qualquer parte que acampa. Esse quadro em debuxo: Do cavalo e do gaúcho, Eterno dono da pampa. Renato Jaguarão.

Velha Figueira. Velha figueira na beira das casas Já virou brasa em algum fogo de chão.
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Velha Figueira. Velha figueira na beira das casas Já virou brasa em algum fogo de chão. Lembro do rancho, agora tapera, Nesta primavera de eterna ilusão. Se foram os potros da antiga mangueira, Pela porteira o tempo passou. Eu me vi guri, enfurquilhado no potro, Fazia gosto, e meu pai me ensinou. Ali ainda resta um oitão caído E o chão demarcado onde era o galpão. Já apodrecido, um palanque inclinado, Que no passado aguentava o tirão. Até o meu cusco eu vejo correndo, Me acompanhando na lida campeira, Tocando o gado, grudando o garrote, Seguindo meu trote rumo à fronteira. Voltar à querência, depois desse tempo, É como o vento que um dia passou, Levando meu mundo do campo à cidade, Onde a saudade se aquerenciou. Só restam agora as minhas lembranças Da velha estância onde me criei: O meu velho rancho, cochilha e mangueira, E a velha porteira que um dia deixei. Renato Jaguarão.

Meu Cavalo Tenho um cavalo Que não conheço igual
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Meu Cavalo Tenho um cavalo Que não conheço igual Melhor que o meu bagual Não hay ou não conheço Já tive oferta Duns quanto pila na mão Todos sabem no rincão Que meu pingo não tem preço Foi um regalo Do Vainer Gomes Silveira Que trouxe lá da fronteira E depois me presenteou Já desde potro Se criou pela mangueira Depois botei nas cocheira E de baixo se amansou Quando eu puxei Não fiz muita judiria Bocal deixei poucos dias E no freio se domou Se eu me achego Pilchado e bem perfumado Já sabe, vamo ao polvoado Pra alguma festa campeira Se me emborracho Comigo ele tem paciência Me trás de volta a querência Só para vendo a porteira Por isso eu digo E falo a bem da verdade Não conheço amizade Maior que desse meu pingo Ele eu não vendo Não empresto e não regalo Pra muito mais que um cavalo É o meu melhor amigo. Por isso eu digo E falo a bem da verdade Não conheço amizade Maior que desse meu pingo Ele eu não vendo Não empresto e não regalo Pra muito mais que um cavalo É o meu melhor amigo. Renato Jaguarão.

Poema do solito. Sou assim, tenho muy pouco, por sinal, quase nada;
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Poema do solito. Sou assim, tenho muy pouco, por sinal, quase nada; me basta uma payada num galpão ao anoitecer, vendo uma estrela se perder, quase se apagar na coxilha. Eu, deitado na encilha, com cheiro do colorado, o candeeiro enfumaçado, pendurado no travessão, que sustenta a velha quincha, apertada como sincha na coberta do galpão. Minha cama é um catre, pelego é o meu colchão; e nas noites de invernada tenho a alma abrigada e amadrinhada no xergão. Por vezes, no imaginário, nessa coisa de solidão, penso em outros tempos enquanto sopra o vento, assoviando no oitão. Nesse silêncio velado de campo e alambrado, quase no fim da pampa, donde o gaúcho é estampa que mantém a tradição. Quis assim o destino: que eu, paisano e fronteiriço, índio, guasca mestiço, fosse guardião destas terras. A tropilha, o gado que berra, o tarrã no banhado, o quero-quero entonado no ofício de posteiro, desconfiado do orneiro que segue barreando o ninho, pra não terminar sozinho igual este rude peão. Não quis china nem cria, mas me contento solito: companheiro, o mate, o pito e o colorado que fiz pra mim. Enfrenei, domei e, por fim, vivo nele enfurquilhado. Às vezes vou ao povoado ou no bolicho da ramada, onde se junta a indiada pra carpeta, algum bichinho… E o meu pingo, ao relincho, me espera na madrugada. Renato Jaguarão

Se gosto do meu cavalo Se gosto do meu cavalo, Que jeito não vou gostar
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Se gosto do meu cavalo Se gosto do meu cavalo, Que jeito não vou gostar Se é meu melhor parceiro, Me leva pra todo lugar. Se me acorda no rancho Cedinho, já relinchando, Não só o boi que pede, Quer me ver cedo matiando. Se às vezes, na amargura Dos dias de temporal, Eu falo solito com ele, Esqueço que é um animal. Ele me escuta em silêncio, Com aquele olhar inocente, Que, às vezes — não me leve a mal — Vale mais do que muita gente. Por vezes se achega pra perto, Parecendo me provocar, Pedindo pra ir no bolicho, Sabendo que vou me alegrar. Se gosto do meu cavalo, Que jeito não vou gostar Quando saio, deixo ele, Já tô louco pra voltar. E quando, no trago, me perco Por coisas do coração, Ele conhece o caminho E me traz de volta ao galpão. E ali me jogo no catre, E o catre é a solidão. E quando acordo, Só ele entende minha razão. Não tem maior alegria, Prêmio ou consolação, Que ter um cavalo bueno, Manso e bom de função. Às vezes, pensando, pergunto A Deus, que não tem defeito, Donde buscou o milagre Pra fazer algo tão perfeito. Se gosto do meu cavalo, Que jeito não vou gostar Quem tem cavalo entende: Não tem como não gostar. E, por fim, se sou gaúcho, Tendo a pampa de regalo, É porque, peleando ao meu lado, Sempre teve um cavalo. Se gosto do meu cavalo, Que jeito não vou gostar Renato Jaguarão.

Poema Tiatino Os versos que rabisco Nessa milonga campeira,
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Poema Tiatino Os versos que rabisco Nessa milonga campeira, Amadrinhada de acordes Numa guitarra parceira. Num mate recém cevado, Nessa manhã de saudade, Nesse meu resto de mundo, Muito pra cá da cidade. Não tenho nada de luxo: Pelego, catre e galpão, Algumas cordas que trançam Ao pé do fogo de chão. Tenho cavalo de monta, Domado bem a capricho, Que me ajuda na lida E me leva pro bolicho. Sabe o caminho das casas Se acaso eu não me acho, Nesses dias de carreira Que às vezes me emborracho. Vivo solito na mais, Não me prestei pra casório, Nunca firmei compromisso E nunca pisei em cartório. Por vezes vou na cidade, E algum diabedo de China, Tapado no amor gaúcho, Pra disfarçar criolina. Renato Jaguarão.

POESIA JOÃO CORAGEM O inverno chegou cedo, No junho se anunciou.
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POESIA JOÃO CORAGEM O inverno chegou cedo, No junho se anunciou. O varzedo inundou No crescente da lagoa. A Mirim pouco perdoa, Transbordando campo afora. Maracha, canal estoura, Tudo virado em aguada. E a palha ainda deitada Da última colheita Espera a junta e o arado Pra semear o grão dourado Do arroz que brota da terra. Que lida dura da granja, Que amadrinha frio e calor, No lombo do aguador, Por vezes abrindo porteira Lá pros lados da fronteira, Vivendo pelas bolantas. Bombacha e arrastando tamanca, Chapéu tapeado na testa, O pouco que ainda resta Pra quem tem a pá sobre o ombro. Da vida que deu um tombo Nesse destino matreiro, A vida de lavoureiro Foi só o que aprendeu. Mas nunca se arrependeu, Pois nem tempo dá pra isso. O pensamento é um insosso Que se mata de pequeno, E o sonho é um veneno Pra quem madruga em geada. Colchão de palha amassada No catre feito de estopa, A gageta enchendo a boca Com café preto passado E o palheiro enrolado, Olhando o horizonte a esmo, Se enxergando ele mesmo Num amanhã sem futuro. Candeeiro ainda no escuro, Antes do romper do dia, Nessa crua judiaria Que a pobreza faz morada. A mulher prepara a boia No velho fogão de barro. Mal tem tempo pro amargo, Tamanho amargo da vida. Tantas crias já paridas Naquele resto de mundo, Onde Deus deixou o fundo, Qual a rapa da panela. E o choro, se vem à goela, É preciso engolir. O pão precisa dormir, O mondongo vai pra fervura, Alimento das criaturas Que nem sabem da vida, Daquela toada sofrida. Onde o minuano assovia E o alambrado se perdia, No estenderete de trapo, Das roupas feitas de saco Que a filharada vestia. Que sina, João Coragem, E sua junta de boi: Pergunta onde Deus foi, Que te esqueceu nessa costa. Qual foi a tua aposta Que perdeste de saída, E ainda te levou a vida Que era só o que sobrava. Nem morrer tu sonhava, Não tinha tempo de sonhar. A lagoa vai baixar, O arroz será dourado, Teu nome naquela terra Pra sempre será lembrado. Renato Jaguarão.

Comparsa Chegou setembro, já é tempo de esquila. É mantido e vêm os pila
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Comparsa Chegou setembro, já é tempo de esquila. É mantido e vêm os pila Pro peão se arrumar. Pego a comparsa, me ajusto de cozinheiro, Assado, um carreteiro com a carne que sobrar. O Moacir Souza tá com os pente afiado, O Galpão tá preparado, tem ovelha pra esquilar. De madrugada, um café começa o dia, Avisou o rádio de pilha que o tempo vai firmar. Ronca o motor, e a cancha tá preparada, Delhe ficha, e o cancheiro junta o vélo pra amarrar. De socador, o Anízio mete pata, O Cleber pedindo gracha e criolina pra curar. Don Valdemar, com a boina atravessada, Bombacha arremangada, puxa os tento pra manear. Deu nove horas, o churrasco da manhã, Cheiro de cêbo de lã, e o mate pra vira. Depois seguimos, vamos até o meio-dia: Massa, carne e farinha, e a sésta pra descansar. Que pela tarde segue a lida no Galpão, Cada ovelha é o pão de quem vive pra changuear. A noite vem, e os catrês são montados, Cada um tem o seu lado, pra melhor se acomodar. Alguns mateiam, outros versos e pajadas, Contam casos, dão risada, pegam as ficha pra contar. E assim se vão esses meses de comparsa, E assim a vida passa, Mal dá tempo pra sonhar. Quem déra que o mundo fosse um tempo de tosquia, Um Galpão, rádio de pilha, e um catrê pra descansar. Renato Jaguarão.

Poesia Parceiro de Laço Hoje, quando saltar do brete A novilha em disparada,
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Poesia Parceiro de Laço Hoje, quando saltar do brete A novilha em disparada, Meu moro esbarra no pasto, Da cancha já encharca. Meu laço fica nas ancas, No mais de exposição, Mostrando que o 12 braça Hoje não solta da mão. Por anos de parceria Nesses rodeios afamados, Se foi meu velho parceiro Se bandio pro outro lado, Botando corda, por certo, Tapiando bem o chapéu. Agora bota armada Na querência grande do céu. Que dupla que nós formava No berro do narrador! No mais se pedia porta E aguardava o corredor. Depois era facerisse Naqueles acampamentos: A gaita, o violão, Assado de fundamento, E a canha nunca faltava, Parceira do chimarrão. As prosas de campereada E cosas de coração… Que jeito vou botar corda, Que jeito vou ao rodeio, Se tu me deixou solito? De todos, melhor parceiro, É coisa triste de ver Teu baio pedindo cancha, Solito ali no potreiro, Donde tua alma descansa. E o laço dependurado, Já seco, faltando gracha. Um tirador, umas botas, Jogado com as bombachas. Sempre que venho te ver Nesse teu velho galpão, Fico bombendo os retratos: Quantos troféus na tua mão! De todos esses rodeios Que andamos por esse estado, E me pergunto a esmo: Quem foi esse teu jurado Que te negou a armada Se a cancha tu não queimou? Eu vi, estava do lado! Quantos bois tu laçou… Será que lá nas alturas Alguém, solito ao léu, Te quis pra formar dupla Lá no rodeio do céu? Mas hoje não tem mais laço, Rodeio, gaita, violeiro. Só laço quando morrer E te encontrar, meu parceiro. Renato Jaguarão.

Poeira Só o que me basta. Se o que tenho no meu rancho é pouco, Não sei o que é muito, então.
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Poeira Só o que me basta. Se o que tenho no meu rancho é pouco, Não sei o que é muito, então. Tenho a China mais linda do mundo, Parceira do chimarão. Tenho um cavalo de lei, As ensilhas de patrão. Um campo não muito grande, Mas tem mangueira e galpão. Ando sempre de bombacha E a velha boina encarnada. Gosto de penca e bolicho, Me agrada a genetiada. Demais não me falta nada, Nasci pra lida campeira. Deus, ainda de regalo, Me fez nascer na fronteira. E no dia que me for, Que o home chamar pra perto, Me enterre de bombacha Na terra a campo aberto. Assim que voltar de novo, Pois creio na encarnação, Já tô perto da querência, E fardado de peão. Guarde todas minhas ensilhas, Apetrechos e meu catre, Cuidem bem do meu galpão, Minha bomba e cuia do mate. Sei que volto pra querência, Pro velho fogo de chão, Pra lidar com a cavalhada E seguir a tradição. E se acaso eu não volte, Alguém siga meu legado, De gaúcho de peão Pra lidar no campo com gado. E lembre que nessa terra, Pros lados dessa fronteira, Sempre haverá um gaúcho, Rancho, galpão e mangueira. Renato Jaguarão

Meu último amargo. São meus últimos amargos, acostado nesse catre.
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Meu último amargo. São meus últimos amargos, acostado nesse catre. Nem é lugar pra mate, o certo é no galpão. Mas já me tremem as mãos e meu dorso impede andança. Me lembro ainda criança, rotoçando por esse racho. Mas a vida é feito um desmancho, feito cavalo em carreira: passou levantando poeira, se foi sem pedir permissão. Falam em encarnação, numa volta à existência. Se for, rogo a coincidência pra voltar pro mesmo chão, pro rancho, mangueira, galpão, pros pagos dessa fronteira, pra velha lida campeira: pelego, catre, chergão. Não há outra que queira. No mais, esse é meu ofício: a doma, o mate, meu vício. Já nasci enfurquilhado, e um gaúcho bem montado nada mais pede a Deus, só que volte donde nasceu, onde minha alma se acampa, pra voltar a ser estampa da herança farroupilha, domando e gastando encilhas nas estâncias dessa pampa. Renato Jaguarão

Meu cavalo e meu cachorro Meu cavalo e meu cachorro Não regalo, não troco e não vendo.
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Meu cavalo e meu cachorro Meu cavalo e meu cachorro Não regalo, não troco e não vendo. É bom ficar sabendo Que não tem pila no mundo Que compre o meu Clinudo, Muito menos o meu Guaipeca. Desconheço nessa vida Quem me seja mais parceiro, Mais fiel, mais companheiro Na lida, na mangueira, no galpão, Nas horas de solidão E nas funções de campeiro. E quando vamos ao bolicheiro, Um espera pelo outro. É assim desde potro, E de cusco criado guacho, Um roendo meu barbicacho, Outro patinando lá na cocheira. Mas eu me apeguei às porcarias Que pra mim são como gente, Mais serventia que muito vivente Que anda a esmo pra nada. Com eles eu dou risada, Choro nos dias tristes, Mas a felicidade existe Quando vejo os dois na volta: Um levando minhas botas, O outro tirando o buçal. Nem aparentam animal, E com franqueza lhes digo: Não há melhor amigo. É verdade, não leve a mal. O Guaipeca parece falar, E o Clinudo só pra indicar: Na sombra da figueira Relincha com a forneira Só pra vê-la gritar. E pode até parecer Que eu, por certo, tô louco, Mas me importa muy pouco. Só me ponho preocupado Com esse mundo mal domado, Por certo mal enfrendado, Ou tardaram na puxada, Erraram no bocal, Nesse reparte desigual Donde reina pila e ganância, Que transforma grandes estâncias Em pedaços de piquete. Eu, no mais, só um jinete Que gosta do meu Clinudo E do Guaipeca orelhudo, Já velho, quase sem dentes, Que deixo jas pra semente, Apenas a tradição: Rancho, mangueira, galpão. Nesse pedaço de campo, Donde a luz dos pirilampos Ainda à noite aparece Pro índio fazer uma prece, Que o pampa é chão sagrado Pra aprender com o passado, Que o pouco ainda é um regalo, Que um cusco e um cavalo Têm valor e têm estima. Assim se declama e se afirma, Nesses versos macanudos: Não vendo o meu Guaipeca, Muito menos meu Clinudo. Renato Jaguarão

Poesia Juvencio Nesses fins de léguas, Donde o mundo se esconde
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Poesia Juvencio Nesses fins de léguas, Donde o mundo se esconde E até o ontente se esquece do hoje, Por tanto silêncio, O velho Juvêncio Revira o mate, Sentado no catre, Buscando lonjuras Que a vida apartou, Bem infurquilhado Do rito sagrado Que vem do passado, Por essas estâncias onde se criou. Não teve herança, Tão pouco tropilha, Lhe toca um tostado, Já bem sugeitado Que ele domou, E sonha, por vezes, Se fosse patrão, Umas léguas de campo, Luz de perilampo Alumiando o chão. Encilha a preceito Recruta de gado De papel passado; Campo alambrado, Rancho e galpão São cosas de vida Escrito por Deus. Juvêncio campeia, Cuidando dos campos Que nunca foram seus, E às vezes pensando, Segura o chapéu: Se depois da morte Terá melhor sorte Um campo no céu, Porque a igualdade Não lhe amadrinhou, Deixando pros outros Teopilhas e potros Que tanto sonhou. São tantos Juvênios Por essas estâncias, São tantos Juvênios Por essas estâncias, São tantos Juvênios… Renato Jaguarão.

Eu já morri muitas vezes nessa vida... Porque gente morre um pouquinho Quando se perde alguém que ama...
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Eu já morri muitas vezes nessa vida... Porque gente morre um pouquinho Quando se perde alguém que ama... Quando sofremos uma decepção... Quando perdemos um bichinho de estimação... A gente morre um pouquinho quando vamos alguém sofrendo e por mais que se queira ajudar não é possível... Quando deixamos o lugar onde nascemos... Quando nos deparamos com a traição... A gente morre um pouquinho quando um projeto não deu certo... Quando um amigo vai embora... Quando deixamos de amar e alguém chora... A gente morre um pouquinho quando os filhos deixam nossa casa... Quando eles batem asas e passam a viver suas vidas... A gente morre um pouquinho até que um dia de pouquinho em pouquinho a gente morre... Renato Jaguarão.

Nesses fundos de estância Miro o anoitecer no campo A lua e os pirilampos
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Nesses fundos de estância Miro o anoitecer no campo A lua e os pirilampos São candieiros na cochilha No alto as três marias Assistem esse debucho Donde mateia o gaúcho Solito Depois da lida Por entre as fresta na quincha do rancho A lua cheia, em visita se achega E desenha a silhueta campeira e gaúcha Tal qual feita os traços do berega E o cenário se parece Aos retrato do Berega Por entre a fresta do rancho A lua cheia se achega Um catre, fogão de lenha Candieiro e um cusco amigo Um violão pra Paydada Que guardo sempre comigo Para cantar a minha pampa A minha lida campeira O meu pedaço de mundo Aqui no sul da fronteira Renato Jaguarão.

É setembro Mês da guachada Se ajunta peonada
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É setembro Mês da guachada Se ajunta peonada Churrasco, fogo de chão Gaita, violão Cantoria, a cavalhada Laço, genetiada Desfile, acampamento Mais que um sentimento É um legado a tradição E onde houver um gaúcho Tal qual um quadro em debucho Trêmula o pavilhão Não importa a querência Mesmo distante pago A roda do mate amargo Celebra a Revolução Mulheres e homens valentes, gente da nossa gente Que nunca floxou o garrão Que lutaram por liberdade Gaúchos de verdade Que honraram nosso chão Viva o 20 de setembro Os farrapos que foram a guerra Sivam nossas façanhas De modelo a toda terra.. Tenham orgulho de ser Gaúcho Do nosso passado de glória E jamais deixem morrer A tradição e a nossa história Passem para seus filhos A herança, que nos foi passada Mantenham viva a cultura Nas trovas, poemas, Paydadas E cantem o nosso hino Com respeito e emoção Retirem o seu chapéu Com a mão no coração

Meu Cavalo Barbicacho Eu sei que muitos não entendem Mas aqui hei de contá-lo
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Meu Cavalo Barbicacho Eu sei que muitos não entendem Mas aqui hei de contá-lo O que faz o gaúcho Gostar tanto do cavalo Essas cosa vem de guri Criado nas camperiada Arrastando alpargata Bombachita arremangada Vem também do ensinamento Da Mãe e do velho pai Das cosa da fronteira Da Argentina, Uruguai Mas pra mais claro entender Me busco longe a memória Pra contar de um cavalo Que fez parte da minha história Eu ainda muito cedo Meu pai ainda em vida Tinha ofício de peão Eu acompanhava na lida Nasceu um dia na estância Que criamo feito guacho A mãe parindo morreu Pus o nome de barbicacho Onde eu ia me seguia No rancho, mangueira galpão E com ele eu me entendia Ele entendia meu coração Ja um pouco crecido Me deixava eu montar Ia com ele pra escola Me esperava até eu soltar E quando voltava pras casa Nós vinnha cantando facero Dos amigo que eu tinha Ele era o primeiro O tempo foi passando E nos crescendo na idade E quanto mais passava o tempo Mais crecia a amizade Acabei domando de baixo Mas tinha que enfrena Pedi pro peão da estância Cuida ele pra não judia Nem bocal precisou Aceitou o freio solito Eu fui lidando com ele Dando função despacito Meu pai ficou muito enfermo Se fumo la pra cidade E meu cavalo ficou Com ele minha saudade Depois na faculdade Fizeram eu estudar E lembrava do meu cavalo Que jurava um dia buscar Voltei ainda umas vezes Meu amigo visitar Tinham largado pra várzea Só de longe pude olhar Naquele ano meu pai Que já vinha adoentado Nao aguentou o tirão E sei foi pro outro lado E junto com meus estudo Eu tive que trabalhar Pra ajudar nas despesas E minha mãe sustentar E o grande dia chegou Pra vida não ser mais dura Um doutor veterinário Era minha formatura Agora ja formado Com a profissão eu consigo Podia cumprir a promessa De buscar meu velho a amigo Já tinha tudo ajustado Até cocheira construi Só faltava ir buscar Meu amigo de guri Levantei naquele dia Radiante em felicidade E disse pra minha mãe Vamos buscar ele pra cidade. Chegamo na velha estância Onde meu pai fora peão E vi minha mãe chorando De tanta recordação Pedi licença na entrada Pra falar com o capataz De pronto nos recebeu Podem entrar no más Depois de um dedo de proza Falei da minha razão De voltar na velha estância Entrar naquele galpão Eu vim buscar meu cavalo Meu amigo nunca esqueçi E hoje ele vai comigo Conforme eu prometi O capataz me olhou Mirando meio de baixo Eu de pronto! peça um peão... Pra trazer o barbicacho E num instante silente Me pedindo pra eu sentar Me perdoe, a fraqueza Mas não podes mais levar E sem meio entender Retruquei inconformado O cavalo é da minha posse A mim me foi regalado Com meu pai ainda em vida Aqui criei ele guacho Todos sabem da história Minha e do barbicacho E já com os olhos aguado No meu ombro a mão estendeu Lamento mas a verdade O teu cavalo morreu Mas como, de que maneira? A mim ninguem avisou Sabiam que eu voltaria E nem tanto tempo passou E o capataz rude homem Me deu a grande lição O tempo pra alguns e largo Pra outros se conta na mão A saudade, adoece Quando se tem a distância O tempo lá da cidade Não é o mesmo da estância As vezes do fundo do campo Ele vinha e relinchava Depois voltava a passo E mais um tempo esperava Até que um dia um peão Notou que não vinha mais E foi recorrer o campo Aos cinco meses atrás Encontrou ele já triste Jogado junto ao alambrado Morreu no outro dia Na várzea foi enterrado Num pé de curunilha Deixamos a marcação Podes ir até lá Fazer uma oração Quem sabe ele aguarda De ti uma despedida E te espere mais um pouco No outro lado da vida Meu coração se partiu Sem querer acreditar Deixei meu maior amigo Morrer de me esperar Naquela várzea sem fim Me ajoelhei no campo largo Pedi perdão ao amigo Que até hoje saudade trago E assim fica explicado Nessa payada pra contá-lo Quem é gaúcho entende A amizade um cavalo. Renato Jaguarão.