Frase de RENATO JAGUARÃO
POESIA JOÃO CORAGEM O inverno chegou cedo, No junho se anunciou. O varzedo inundou No crescente da lagoa. A Mirim pouco perdoa, Transbordando campo afora. Maracha, canal estoura, Tudo virado em aguada. E a palha ainda deitada Da última colheita Espera a junta e o arado Pra semear o grão dourado Do arroz que brota da terra. Que lida dura da granja, Que amadrinha frio e calor, No lombo do aguador, Por vezes abrindo porteira Lá pros lados da fronteira, Vivendo pelas bolantas. Bombacha e arrastando tamanca, Chapéu tapeado na testa, O pouco que ainda resta Pra quem tem a pá sobre o ombro. Da vida que deu um tombo Nesse destino matreiro, A vida de lavoureiro Foi só o que aprendeu. Mas nunca se arrependeu, Pois nem tempo dá pra isso. O pensamento é um insosso Que se mata de pequeno, E o sonho é um veneno Pra quem madruga em geada. Colchão de palha amassada No catre feito de estopa, A gageta enchendo a boca Com café preto passado E o palheiro enrolado, Olhando o horizonte a esmo, Se enxergando ele mesmo Num amanhã sem futuro. Candeeiro ainda no escuro, Antes do romper do dia, Nessa crua judiaria Que a pobreza faz morada. A mulher prepara a boia No velho fogão de barro. Mal tem tempo pro amargo, Tamanho amargo da vida. Tantas crias já paridas Naquele resto de mundo, Onde Deus deixou o fundo, Qual a rapa da panela. E o choro, se vem à goela, É preciso engolir. O pão precisa dormir, O mondongo vai pra fervura, Alimento das criaturas Que nem sabem da vida, Daquela toada sofrida. Onde o minuano assovia E o alambrado se perdia, No estenderete de trapo, Das roupas feitas de saco Que a filharada vestia. Que sina, João Coragem, E sua junta de boi: Pergunta onde Deus foi, Que te esqueceu nessa costa. Qual foi a tua aposta Que perdeste de saída, E ainda te levou a vida Que era só o que sobrava. Nem morrer tu sonhava, Não tinha tempo de sonhar. A lagoa vai baixar, O arroz será dourado, Teu nome naquela terra Pra sempre será lembrado. Renato Jaguarão.
No pensador.ai desde