Frase de RENATO JAGUARÃO
Poema do solito. Sou assim, tenho muy pouco, por sinal, quase nada; me basta uma payada num galpão ao anoitecer, vendo uma estrela se perder, quase se apagar na coxilha. Eu, deitado na encilha, com cheiro do colorado, o candeeiro enfumaçado, pendurado no travessão, que sustenta a velha quincha, apertada como sincha na coberta do galpão. Minha cama é um catre, pelego é o meu colchão; e nas noites de invernada tenho a alma abrigada e amadrinhada no xergão. Por vezes, no imaginário, nessa coisa de solidão, penso em outros tempos enquanto sopra o vento, assoviando no oitão. Nesse silêncio velado de campo e alambrado, quase no fim da pampa, donde o gaúcho é estampa que mantém a tradição. Quis assim o destino: que eu, paisano e fronteiriço, índio, guasca mestiço, fosse guardião destas terras. A tropilha, o gado que berra, o tarrã no banhado, o quero-quero entonado no ofício de posteiro, desconfiado do orneiro que segue barreando o ninho, pra não terminar sozinho igual este rude peão. Não quis china nem cria, mas me contento solito: companheiro, o mate, o pito e o colorado que fiz pra mim. Enfrenei, domei e, por fim, vivo nele enfurquilhado. Às vezes vou ao povoado ou no bolicho da ramada, onde se junta a indiada pra carpeta, algum bichinho… E o meu pingo, ao relincho, me espera na madrugada. Renato Jaguarão
No pensador.ai desde