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Frases de Carlos de Castro

401 frases

⁠OUTONO SEM COR Dantes, eram cores e terra em sono. Eram paletas de inebriar no outono.
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⁠OUTONO SEM COR Dantes, eram cores e terra em sono. Eram paletas de inebriar no outono. Agora, não sei porquê, Ele já não pinta nem dorme Nem come com fome. Será que ele vê O mundo mais estarrecido, Que já nem folhas deixa no chão, Quase todas tombadas no verão? Que outono este, tão distraído… E eu que queria tanto pintar Talvez mais até borrar Uma tela, Simples, singela, Com cores mágicas de encantar. A minha musa inspiradora Do outono multicor, Sumiu-se farta da pose, Nervosa pela neurose Do mau pintor Plebeu, Que sou eu. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 26-09-2023)

⁠OUTONO SEM CASA Toda a vida eu sonhei Construir uma casinha
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⁠OUTONO SEM CASA Toda a vida eu sonhei Construir uma casinha Como só eu sei, Numa bela arvorezinha E fazer dela o meu trono No agora vindo outono. Que ilusão esta a minha, Ó sonho louco e fugaz! Nem árvore nem arvorezinha Ou casa ou minha casinha, Utopias que a vida traz. Na montanha, tudo ardeu, Tudo queimou e até eu Como pássaro que fica sem asa, Como cão que fica sem dono, Ficarei sem aquela casa Que quis construir neste outono. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 24-09-2023)

⁠PORQUE ME LÊS Tem cuidado, redobrado.
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⁠PORQUE ME LÊS Tem cuidado, redobrado. É a mesma coisa que perderes-te No emaranhado das coisas da vida, Ou gastares cera com tão fraco defunto. Nunca conseguirás agir e dizer-me Ou desarmar a ratoeira preferida Dos poetas menores de corrente suicida Que na vida da morte, caçam o verme. Tantas vezes as parábolas minhas esquisitas, Digo-o, sem rebuço ou falsas conquistas, Fazem da minha figura em termo antigo, Aquele que ainda diz: Só sou teu amigo, Quando me deres, o que muito me apraz, O teu cumprimento de frente e nunca detrás... (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 22-09-2023)

TERRA-MÃE ⁠Vinha o outono, de mansinho, a caminho. Caíam chuviscos, ariscos, na terra-mãe.
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TERRA-MÃE ⁠Vinha o outono, de mansinho, a caminho. Caíam chuviscos, ariscos, na terra-mãe. Mostrava ela o interior do útero em ferida, Naquela terra mártir em sôfrego revolvida, Depois de lhe apararem os frutos do pão. Daquele pão que ela nos dá airosa, Famintos que somos do seu sabor Que mata a fome da boca e do amor, Mesmo quando a pedra nos sabe a rosa. Era aquela terra, seio esventrado Pela charrua crua e pelo arado, Que depois serena acolhia a semente Nas entranhas do húmus complacente. Parecia-me uma mãe dolorosa Que tinha acabado de dar à luz Tantos filhos de uma vez só, Que até o Criador celeste facundo Em tom suave e místico, profundo, Num clarão celeste que cega e seduz Lhe começou a chamar de forma ardilosa, Terra-mãe e avó-terra e eterna do mundo. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 16-09-2023)

ASAS DE APARIÇÃO ⁠ Roçavam no meu rosto cansado e pálido,
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ASAS DE APARIÇÃO ⁠ Roçavam no meu rosto cansado e pálido, Penugens de ricos sentados em cadeirais De ceias opíparas imitando as dos cardeais; Não sei se ainda vivos ou balofos imortais, Só sei que as penas das asas eram ao cálido. Talvez mais ao negro e profundo esquálido, Não do magro, quiçá mesmo ao imundo sujo, Deste mundo chanfrado de efeito obtuso. Por tal e demais conformes eu me escuso A viver por muito mais tempo de uso Neste planeta perneta por demais confuso, Em que me dão a comer pão em desuso Por algum castigo ou má-fé eu acrescento Na esperança do direito pleno do julgamento. Nunca palavras inúteis eu por saber esbanjo… Se as asas não eram de aparição, então Seriam por remédio ou alguma suposição As asas aladas de um hipotético anjo!?... (Carlos De Castro, in Há um Livro Por Escrever, em 12-09-2023)

⁠OLHOS D'ÁGUA Sempre que te olhava No pranto
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⁠OLHOS D'ÁGUA Sempre que te olhava No pranto Quase como quebranto Mais que feitiço No teu olhar em derriço, Nessa lágrima que brotava Dos teus olhos d'água, É que eu compreendi De vez e a horas, Que quando ris, choras, Sempre que eu choro por ti. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 30-01-2024)

CORUJA NA NOITE ⁠Ave agoirenta que pela noite cantas O teu chorar negro e triste, piedoso,
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CORUJA NA NOITE ⁠Ave agoirenta que pela noite cantas O teu chorar negro e triste, piedoso, Ó coruja bruxa, és só tu que espantas O meu sonhar tornado em teu gozo. Nunca o presságio da morte Seja o teu piar fúnebre de sorte; E que eu viva sem ser soturno Como esse teu gritar noturno. Tens sibilas de assobiar Medos e enredos de arrepiar, Nos ares e arfares intranquilos Das profundas dos pulmões, Ó coruja dos meus sarilhos, Castradora de emoções. Não me queiras comer vivo Que apenas sou um nativo Das correntezas da noite, Tela escura, meu açoite, Chicote nas minhas costas, Em carne viva às postas. Não esperes amores de mim Ó coruja malhada das torres, Eu só queria no meu fim Não ouvir o teu piar, Esse tão sombrio cantar, Ó ave das minhas dores. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 21-01-2024)

⁠DATAS NA CONJUGAÇÃO DO VERBO SER Era a noite da revolução, Era o vinte e quatro de um Abril
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⁠DATAS NA CONJUGAÇÃO DO VERBO SER Era a noite da revolução, Era o vinte e quatro de um Abril De lágrimas mil Num Argoncilhe Que era mansão E coutada de gentes Da delação; Ainda agora os hão, Nunca diferentes E sempre pelo não. Eram os dezoito de vida Do rapazola que eu era então. Era o ano que me dava E depois me roubava daí por três, A vida de minha mãe Que Deus levou e tem Sem mais porquês. É hoje, neste mesmo dia De um vinte e cinco de Abril, Daqui a tão poucas horas, Que meu padrinho de batismo Desce à terra do campo santo, Fria, No seu gélido manto. Lá se foi a alegria Da festa do simbolismo Daquela madrugada fria E ainda hoje eu cismo Ao defecar na privada, E de encontro ao já pensado Pelo meu povo castigado: "Eles" sorvem tudo E não deixam nada!... (Carlos De Castro, in Há Um Livro Triste Por Escrever, em 24-04-2024)

⁠LOGRO Era de noite Às três da tarde
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⁠LOGRO Era de noite Às três da tarde Daquele dia Numa manhã Irmã, Como eu, órfão Da lua Que anuncia O sol na solidão De uma vida vazia. Havia, ai Deus, como havia Logro naquele sol Que quis passar pela lua, Antes do dia amanhecer No calor que arde Como chicote açoite Nas costas do entardecer Das minhas costelas nuas E das tuas, Se estivesses comigo, Te digo, Naquela noite. Só depois na modorra De estancar o sangue Exangue Das feridas, Minha alma saiu fora E disse: - Malditas, tais investidas! Trôpego, então respondi: - Vos arrenego, almas perdidas, Do antes e do agora! (Carlos De Castro, In Há Um Livro Triste Por Escrever, em 19-04-2024)

⁠SANGUES Sangue, o puro, nem sempre é verdade E até pode ser nada no conceito da idade.
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⁠SANGUES Sangue, o puro, nem sempre é verdade E até pode ser nada no conceito da idade. Por vezes, pancadas tantas, Nas espancas, Que a gente leva, No rosto, De um mosto Que quer renascer no vinho Aguado, Porque não foi pisado. O sangue falso, É como uma bola Que não rola, Uma gaveta fechada, Ou um rico a pedir esmola Às putas tristes da estrada . Ou uma prisão sem grade, Um amigo, só de metade, Um rei, a limpar retretes E ovos sem omeletes. Triste mundo de falsidade, Onde só impera a vaidade Nos ditos tão instruídos, Que esquecem os amigos De verdade, Por troca de outros fluídos. Estão na moda os deletes Que trincam erva e chicletes E já não há mãos de fada, Só línguas de alfinetada, Enfim: Não há amizade, De verdade, Nem nada!... (Carlos De Castro, in Há Um Triste Livro Por Escrever, em 25-03-2024)

⁠MASSA CORONAL Catastrófica erupção solar Que um dia irá tostar,
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⁠MASSA CORONAL Catastrófica erupção solar Que um dia irá tostar, Torriscar, Estorricar, Transformar Em torresmo Sem dar tempo Do tenesmo, O evacuar sequer, Do macho e da mulher, Na configuração dos tempos Por vir, E há quem já esteja a parir Na alma feita tormentos, Os tão amaldiçoados eventos. Tudo o que há no mundo Em absoluto ou profundo Na hecatombe prevista De uma morte nuclear, Nada se pode comparar Ao astro-rei, Daquela força escaldante Do queimar do trigo, Na seca dos rios e dos mares, No cair da crista das montanhas E das serras tamanhas, Num fim evidente Num futuro presente De um sono profundo Do céu à terra Desde a estratosfera, Da ligada troposfera Na mesosfera De dormirmos a pensar E, jamais, acordar. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Triste Por Escrever, em 16-03-2024)

TÃO BREVE Minha ida e dolorosa mãe, Linda moçoila, se soubesses
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TÃO BREVE Minha ida e dolorosa mãe, Linda moçoila, se soubesses A triste sina deste penar, Voltavas no meu pensar, E, se pudesses, Para sempre, sem vacilar: Eu não teria hora para nascer, Nem tempo para acordar. Guardavas-me dentro de ti Para me livrar Desde que nasci, Desta vida de sofrer Em que me afundam Tantos que abundam, Só pelo prazer De me ver Por ti, a chorar. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 15-03-2024) ⁠

EQUÍVOCOS ⁠Ao terráqueo mundo vim Como tu vieste,
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EQUÍVOCOS ⁠Ao terráqueo mundo vim Como tu vieste, Antes ou depois de mim. Vim, numa lufada de neve Numa noite agreste Ali pelo luar de Janeiro, Partido em inteiro Sem princípio nem fim, Mas sei quem me teve. Foi minha mãe dolorosa Que da vida cedo fugiu E levou com ela o útero Como se fosse uma rosa Murcha que ao secar floriu. E na corrente do nascimento Que me traz ao pensamento A noite que me expulsou Do ventre de minha mãe, Não fico aquém nem além De saber então quem sou. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 13-03-2024)

⁠SEM RESPOSTA Te salvo, princesa morena, Aquela dos olhos tristes,
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⁠SEM RESPOSTA Te salvo, princesa morena, Aquela dos olhos tristes, Diz-me, porque resistes À minha triste novena? Nove dias sem te ver... Ou vens ter comigo Aos quereres Dos nossos apeteceres Fatais, Ou então já eu te digo: Não acreditarei jamais Nos infiéis juramentos E no feitiço do teu olhar, Nos cheiros de embriagar Dos perfumes de enfeitiçar, Que me trazem sofrimentos. Não respondes? Oh, não precisas de o fazer... Basta-te só compreender Que mais esse teu açoite Não evita que o meu dia Mesmo sem o teu querer, Já começa à meia-noite, Na luz que a lua irradia. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 17-02-2024)

⁠TARDES NO MONTE DE VÉNUS Naquela tarde dengosa, Dolente,
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⁠TARDES NO MONTE DE VÉNUS Naquela tarde dengosa, Dolente, Por fora quente, Por dentro ansiosa, Eram dois corpos revolvidos Nos mais loucos sentidos Da matéria vaporosa. Passava uma brisa de vento Quando ele lhe acariciou Com a mão teimosa A vegetação sedosa Que ela tinha espessa e negra, No monte de vénus, gostosa E ele, em êxtase, beijou Como se beijasse uma rosa. Ela tremeu, ansiosa, E ele osculou, Beijou, A entrada da mina dela Naquela configuração Da profundidade uterina, E com os genes atribuídos Ao seu aparelho de vida, Processou E procriou Pela primeira vez Um ser, Sem até saber Como se procedia... (Carlos De Castro, in Há Um Livro Triste Por Escrever, em 20-08-2024)