Frase de Carlos de Castro
TERRA-MÃE Vinha o outono, de mansinho, a caminho. Caíam chuviscos, ariscos, na terra-mãe. Mostrava ela o interior do útero em ferida, Naquela terra mártir em sôfrego revolvida, Depois de lhe apararem os frutos do pão. Daquele pão que ela nos dá airosa, Famintos que somos do seu sabor Que mata a fome da boca e do amor, Mesmo quando a pedra nos sabe a rosa. Era aquela terra, seio esventrado Pela charrua crua e pelo arado, Que depois serena acolhia a semente Nas entranhas do húmus complacente. Parecia-me uma mãe dolorosa Que tinha acabado de dar à luz Tantos filhos de uma vez só, Que até o Criador celeste facundo Em tom suave e místico, profundo, Num clarão celeste que cega e seduz Lhe começou a chamar de forma ardilosa, Terra-mãe e avó-terra e eterna do mundo. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 16-09-2023)
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