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Frases de Carlos de Castro

401 frases

SEM BOLEIA ⁠Até hoje. Desde que me traçaram o fado
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SEM BOLEIA ⁠Até hoje. Desde que me traçaram o fado Malfadado, Nunca pedi boleia a ninguém... Nem quando na estrada de espinhos Com os pés descalços sangrando, Os olhos mártires chorando Em lágrimas de azevinhos, Percorri três quartos de uma vida Com tropa e tudo incluída Na bagagem vazia, despida De paz e de pão No vento suão, Dorido. Algozes vieram, torturadores; Para me meterem mordaça, Sem contar que a minha raça, Prefere morrer na praça Que bajular traidores, Horrorosos anunciadores Da desgraça. E não é que eu, por pirraça, Fiel sempre à minha ideia, Já velho, ao ferrugento, Mas em jeito de chalaça, Disse ao meu amigo vento: Sou um homem sem boleia! (Carlos De Castro, in Há Um Livro Triste Por Escrever, em 15-07-2024)

⁠EI-LA Ei-la: Que corpo mais bem feito
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⁠EI-LA Ei-la: Que corpo mais bem feito Ao meu jeito, Vestido da flacidez Do alto dos sessenta anos; Nos seios algo vergados Pelo peso das pálpebras descaídas Em choros de enganos, Como rosas de botões mirrados Por tantas secas sentidas. Ei-la: Posando no gerúndio Em nu do verbo profundo, Já sem aquela penugem No frontispício que anuncia A abertura da sagrada lascívia Que já foi farta E negra como cabelo de índia, Rosada por dentro, Em ânsias de fortes orgasmos, Teimando agora em voltar a tê-los. Ei-la: Como vai gostosa Aquela mulher digital, De olhar quase fatal, No seu biquíni airoso, De mataco gostoso Nas sua praia de provocar. Só eu a posso parar, Explodindo o poema meu, Este que acabo de escrevinhar, Sem sequer poder tirar Uma fotografia à Sheila, Que faz uma certa rima Pelo que escrevi acima, Ei-la: é rútila. (Carlos De Castro, In Há Um Livro Triste Por Escrever, em 30-06-2024)

DEFECAÇÕES DE OUTRORA E DE AGORA Eu era um poeta Pateta
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DEFECAÇÕES DE OUTRORA E DE AGORA Eu era um poeta Pateta Sem saber Como defecar a poesia. Agora, que julgo saber, Escrevo sem ser poeta Só de ver e ler Como escrevem a poesia, Defecada, Com cheiro Por inteiro, A nada. Salvam-se alguns da fornada. Quase como fúnebre elegia, A mim, só me apetece dizer: Ó arte da fantasia Do pensar e escrever, Minha irmã poesia, Diz-me: se és tudo, ou nada! (Carlos de Castro, in Há um Livro Triste Por Escrever, em 23-09-2024)

LOS COJONES DE SALVADOR DALI (tradução rápida: Os colhões de Salvador Dali) ⁠Ele desenhava, pintava
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LOS COJONES DE SALVADOR DALI (tradução rápida: Os colhões de Salvador Dali) ⁠Ele desenhava, pintava E fotografava, Esculpia Sem esquadria No cubismo, dadaísmo Num surrealismo Que arrepia. E quando a musa obtusa Mas sempre difusa O inspirava, Ele o bigode retorcia Como um bode que está com cio E perde o pio De uma assentada. Ele pintava relógios derretidos Nos tempos cerzidos Pelas sua memórias. Neste desfiar de vanglórias Lembro-me de alguém que pintou Em telas por demais inglórias Aquilo que ele mais amou - Os cojones, os seus colhões Ao dependuro. E com razão e sentidos no duro, Esse pintor de tomates Espécie de Bonifrates - Sou eu! Fui eu! (Carlos de Castro, in Há Um Livro Triste Por Escrever, em 02-10-2024)

⁠Quando começamos a crescer, queremos sofregamente crescer, crescer até obter o estatuto de maioridade. Que obtuso dilema, que terrível contradição é esta, quando chegados à idade da cor castanha da vida, temos aquele saudoso e inatingível desejo de querer regressar à era em que…
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⁠Quando começamos a crescer, queremos sofregamente crescer, crescer até obter o estatuto de maioridade. Que obtuso dilema, que terrível contradição é esta, quando chegados à idade da cor castanha da vida, temos aquele saudoso e inatingível desejo de querer regressar à era em que éramos inocentes, crianças na sua plenitude poética. Comos somos uns ridículos cataventos - pobres seres, mortais.

JURAMENTO AINDA O PRIMEIRO ( 1 ) Que me interessa ter abandonado A vida ágria, corrosiva, pustulenta,
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JURAMENTO AINDA O PRIMEIRO ( 1 ) Que me interessa ter abandonado A vida ágria, corrosiva, pustulenta, Se na verdade a minha fiel tormenta O dó ré mi dum fá sem sol, é meu fado. Eu, velho decrépito, desventurado, Firmo na pena da água benta escrito, O juramento deste ser proscrito, Em nome do pai e do filho castrado. Juro, Castro, a quem pediram pró morto Infeliz pequenino recém-nascido, Fruto de um amor que já nasceu torto, Uns versinhos na lápide do ser já ido. Angustiado, sem inspiração, fiquei retido Se havia de escrevinhar ao casto ou doloso, Mas eis que uma voz me gritou ao ouvido: Escreve a verdade pura, dura e sem gozo. E eu então, amante da pureza, escrevi: "Aqui jaz um recém-nascido Que jamais a luz do dia viu, Filho de pai desconhecido E da dama que o pariu." .................................................................. (Já passaram quarenta e mais anos e na lápide fria da campa do infeliz inocente, encoberta, por silvas, sem a luz do sol, continua gravada, teimosamente, esta dolorosa quadra minha, que já mal se lê... mas que eu sei de cor e salteado até ao fim da minha existência...) (Carlos De Castro, in Há Um Livro Triste Por Escrever, em 16-10-2024)

⁠QUANDO VIERES TRAZ-ME SAUDADES Quando vieres, Se vieres
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⁠QUANDO VIERES TRAZ-ME SAUDADES Quando vieres, Se vieres E quiseres, Ó minha amada, Traz-me uma coisa de nada... Sabes que sou como o tronco De uma árvore a apodrecer, Inexoravelmente, Implacavelmente A sumir-se num ronco, Que dá dó de se ver. Ó minha idolatrada, Desgastada E dolorosa amiga, Revela quem me castiga Este lombo carcomido Desta árvore corpo esvaído, Sem saudades já de nada Nesta vida desditada. Ó amor desta emoção, Ó minha ténue inspiração, Quando vieres e quiseres, Traz um coro de mulheres Vestidas de branco ou negro Que te satisfaçam o ego, Encostadinhas a ti E trazei-me saudades, Sem vaidades, Que até isso eu perdi. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Triste Por Escrever, em 08-10-2024)

⁠MELANCOLIA Cai a tarde lenta em brasa, Num céu de mar ondulante,
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⁠MELANCOLIA Cai a tarde lenta em brasa, Num céu de mar ondulante, Enquanto este vai e vaza, Meu coração está distante Pensando em ti, ó sereia Que vi uma vez ao luar, Em noite de lua cheia Nas águas de prata, a rolar. Que saudades sobre o mar Meu coração lá deixou; Tristezas de fazer chorar... Enquanto eu não encontrar Esse amor que lá ficou, Farei na areia um altar... (Carlos De Castro, in Há Um Livro Triste Por Escrever, em 08-03-2025)

⁠QUIÇÁ TALVEZ PORVENTURA EU FORA DAS REDUNDÂNCIAS PLEONÁSTICAS OU O MESMO DO IGUAL SEMPRE Será que vim das profundezas Das rochas eruptivas magmáticas
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⁠QUIÇÁ TALVEZ PORVENTURA EU FORA DAS REDUNDÂNCIAS PLEONÁSTICAS OU O MESMO DO IGUAL SEMPRE Será que vim das profundezas Das rochas eruptivas magmáticas Nos subsolos de seres estranhos Encobertos em caras de putos Com máscaras carnavalescas Em poesias de rachas quentes, porém Sem rima, mas sempre frescas. Rimou uma, acaso meu, sem certeza Se nasci em Marte ou nas Áticas Das civilizações helénicas dos espertos. Nasceria eu na Ásia dos Sete Mares Das mil e uma noites dos pensares Quando Sinbad, o marujo, por ali ferreava!?... Tudo mentira, porque eu nasci aqui, Na Chamusca de Argoncilhe, no Bairro Pobre da Ilha das Canárias, Da Feira de Santa Maria. Minha parteira da miséria, particular, Tinha por graça ser Elisa Santa Ouvida - -Deus a resguarde e não lhe apague a Luz. Disse-me sempre ela, em bondade: Que veio uma cegonha que poisou na Serzelha Na fonte velhinha, para beber água pura, cristalina; Subiu às Canárias e me deixou já embrulhado E tudo, ao lado de minha mãe no leito pobre. Acreditei no milagre até alguma idade da inocência. Hoje, não acredito em nada. A parteira morreu. A cegonha dizem que nunca mais se viu. A Fonte da Serzelha já não dá água pura. E eu, finalmente, consegui casar com um poema Que não rima, Lá dizia a minha prima (quando lhe arrimava...) (Carlos De Castro, in Há um Livro Triste por Escrever, em 14-01-2025)

⁠RESISTÊNCIAS sei lá quantas já escrevi Resisto, Porque quero
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⁠RESISTÊNCIAS sei lá quantas já escrevi Resisto, Porque quero E não por acaso mero, Porque sou tão teimoso Que até as pedras da rua Quando me sentem mancando Pelas dores negras e cruas Que me vão martirizando, E mostrando que nada valho, Dizem em jeito jocoso: - Que resistente bandalho! Resisti, A promessas de riquezas vãs, Prometidas por gentalhas Canalhas, com olhos de rãs; Seres avaros, repugnantes Com cartões de governantes, Sei lá por graça de quem Foi o santo que os pôs na cripta De donos de tantas parvónias Que mencioná-las irrita E revolta até também Algumas orquestras sinfónicas. Continuo a resistir, Ao meu relógio sem horas Porque só me traz a desoras, Sem saber que mal lhe fiz, As notícias mais pandoras Deste meu ledo País. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Triste Por Escrever, em 17-11-2024)

⁠MISTÉRIOS DE VIDAS Só agora soube, soube mesmo agora - Não ser o tal - o outro, quando nasci;
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⁠MISTÉRIOS DE VIDAS Só agora soube, soube mesmo agora - Não ser o tal - o outro, quando nasci; Enganei a mãe e meu pai pela vida fora, Face à razão de uma vida que já vivi E desta outra minha que tão triste chora Por aquela já passada que nunca senti. (Carlos De Castro, In Há um Livro Triste Por Escrever, em 15-05-2025)

⁠MORREU O FONSECA-VIVA MANUEL Dos ares de S. Pedro de Paus Do concelho de Resende
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⁠MORREU O FONSECA-VIVA MANUEL Dos ares de S. Pedro de Paus Do concelho de Resende Banhado pelo Bestança Que desmaia depois no Douro, Veio em tempos uma criança E a família como herança, O seu mais puro tesouro, Habitar no litoral. Chegado o tempo de vida De procurar companheira, A sua amada querida, Estandarte da bandeira, Conheceu uma donzela Adelaide, jovem bela E a ela depois se uniu Num amor puro e total. Pelo Graça então Divinal E desígnios do Criador, Conceberam com muito amor Dois seres, seus diamantes, Vidas que lhes davam alento No agora e no antes, Em tempos de sofrimento. Mas eis que toca a sineta Que Deus escolheu por sinal Quando quer na sua Messe Gente muito boa e reta, Veio, penso eu como mortal E que Deus não me leve a mal, Buscar o nosso Fonseca, Mas deixando o Manuel vivo E do alto desta caneca Que com ele já não faz tchim! Só te peço grande amigo E sei que tu vais dizer sim, Pede a Deus e sem castigo Que livre todos do perigo, Mas nunca peças por mim. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Muito Triste Por Escrever, em 30-07-2025.

⁠ABRENÚNCIO Ó ALMAS PENADAS E OUTRAS PANADAS Naquele tempo De um tempo
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⁠ABRENÚNCIO Ó ALMAS PENADAS E OUTRAS PANADAS Naquele tempo De um tempo Em que não havia tempo Para pintar, Eis que veio uma mão suja Com bico de coruja Das tintas dos tempos E dos tormentos Que dava só em pensar... Teimosa mão pintou Na tela do meu peito Uma vereda de árvores negras Onde copulavam pegas A torto e sem direito Num sentido único que ficou A ser como que metamorfose De um destino feito osmose Mesmo sem água, Só mágoa Ao natural, Nada de solvências de sal... Ainda hoje eu mostro este peito A quem queira ver a pintura Que aquela mão suja e impura Gravou para sempre sem jeito Este quadro malfeito De uma vereda de árvores negras Onde copulavam pegas A torto e sem direito. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Tão Triste Por Publicar, em 08-07-2025)