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Frases de Carlos de Castro

401 frases

⁠SE Se todos gostassem da minha poesia, Jamais haveria
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⁠SE Se todos gostassem da minha poesia, Jamais haveria Paz no mundo. O mar e as fontes secariam, Os rios ao contrário correriam, O ovo não teria gema Nem o ovário Seria berçário De hormonas, Neste meu mundo de sintomas Da falta de teorema. Seria o caos completo, Tudo morreria O absoluto e o obsoleto. Por favor: Para que haja paz no mundo, Nunca leiam a minha poesia; Podem até falecer de ironia, Ou então ficar moribundo. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 12-11-2023)

⁠NÃO Não fui eu que me inventei. Nem projeto,
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⁠NÃO Não fui eu que me inventei. Nem projeto, Nem desenho, Apenas mais um da grei, Pelo que sei, Um ser de certo dialeto E, já agora, convenho: Simples, fiel, muito reto. Fui na pobreza criado E nunca algoz de ninguém E muito menos bastardo, Quer de pai ou de uma mãe. Sou apenas o resultado De um amor de vida a dois. Com a minha voz se canta o fado, Com a minha vara eu toco os bois. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 11-11-2023)

⁠DAQUI Desta terra em que vos falo, Outros em tempos a habitaram.
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⁠DAQUI Desta terra em que vos falo, Outros em tempos a habitaram. Consta que dela também se fartaram Dos mandadores crista de galo. Ó terra amarga de que não calo As injustiças tamanhas, Dos que a roubam sem abalo, Por ardis e artimanhas. Os ouriços embrulham castanhas Com a carapaça picante, Assim me rasgam entranhas Gentes do pior tratante. E então logo num instante E sempre que for preciso, Peço aos mandões não obstante, Que tenham melhor juízo.

⁠VIDAS E ENCONTROS Na rua dos sem esperança, Entre cartões, lixo e encolhos,
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⁠VIDAS E ENCONTROS Na rua dos sem esperança, Entre cartões, lixo e encolhos, Viram estes meus tristes olhos Um ser sem futuro ou herança. Nem sequer um ar de bonança Da sorte que já lhe foi aos molhos, Eu vi entre os seus escolhos Nos olhos da sua lembrança. Sentei-me então mano a mano Ao pé dele, rosto de criança, Mas eis que num gesto insano Demonstrando inconfiança, O pobre quase me rejeitou. Deu um grito que me arrepiou E da sua garganta avança: Nunca a tempestade amainou Nem me trará a bonança! (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 05-11-2023)

DOÇURAS ⁠Beijar teus cabelos, Encostar os teus olhos aos meus,
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DOÇURAS ⁠Beijar teus cabelos, Encostar os teus olhos aos meus, Quentes, Roçar a tua boca Sôfrega, Nos meus lábios Sequiosos, Tanger os teus seios Com os meus dedos Nervosos, Entrar no teu ventre Ofegante, Através do rosado Da abertura Arfante, Onde perdemos os sentidos Num instante, Do prazer que é rei Dos nossos fluidos, Que eu sei.

NA NOITE ⁠Era noite escura, Tudo invitava ao descanso,
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NA NOITE ⁠Era noite escura, Tudo invitava ao descanso, Até o rugido do mar era manso, Convidando ao remanso. Nisto, o chiar de pneus no asfalto, Como um grito alto Na noite serena e pura Toda silêncio de negrura. Gritos e bebedeiras loucas na noite. Músicas tolas debitadas às paletes, Que mais pareciam um açoite Nos ouvidos, como foguetes Estourando nas retretes. Era uma discoteca na estrada, Urros de animais grotescos, No rebentar de fluidos Dos possuídos De duas patas quixotescos. E a noite ia avançando A chorar pelo seu descanso, Já em maré de balanço. Lembrou-se então, Com emoção, Dos tempos De outros tempos, Que era a dona do serão. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 31-10-2023)

⁠O VENTO A ÁRVORE E A CASA Tarde de sábado. A depressão do tempo castigava.
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⁠O VENTO A ÁRVORE E A CASA Tarde de sábado. A depressão do tempo castigava. Agora, chamam depressão Ao tempo mau que faz. Porque não!?... Mas o vento é sempre rapaz E as árvores também femininas Quanto velhas mais meninas. Com a diferença que o vento Tem agora mais lamento E as árvores amém, Nestas tardes sem ninguém. O vento soprava, A árvore balançava Sobre a humilde casa. Era aí que ele habitava, Um homem pobre, De rosto nobre. Invocou os deuses dos ventos E dos contratempos A ver se a borrasca amainava. Qual quê!?... O vento insistiu, A árvore caiu E a casa humilde ruiu. E ele deixou de acreditar Nos deuses dos ventos E contratempos. Abriu os braços e pôs-se a voar. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 29-10-2023)

AS MÃOS ⁠Elas pegam E despegam,
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AS MÃOS ⁠Elas pegam E despegam, Apertam E desapertam Emoções. Matam paixões, Fazem reviver Quem está a morrer De mortes ou sensações. Benzem E banzem Orações, Bruxarias, Arrenegam heresias, Aliviam comichões. De muito as glorificar, Acabei por me lembrar Que há tantos anos De desenganos, Não beijo as mãos De minha mãe. Pobre de quem a não tem. Valho-me dum retrato dela E mato a sede da saudade, Beijo-lhe as mãos de papel E até me parece que ela De verdade, Me afaga o rosto, Com tanto gosto, E aquela doçura do mel. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 23-10-2023)

DIVAGAÇÕES ⁠Eu já nem sei o que sou, Porque vim e aqui estou,
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DIVAGAÇÕES ⁠Eu já nem sei o que sou, Porque vim e aqui estou, Para onde vou Neste barco que me castrou Sem remos de princípio ao fim. Só sei que não vim por mim... Se viesse, não estaria aqui, Neste degredo, De vos revelar o segredo De uma vida que vivi, Sempre na escuridão do medo. E é por isso que vou Com meu pincel e apenas, Borrar um quadro de penas Na tela que Deus traçou. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 21-10-2023)

SORRI TRISTEZA ⁠Anda comigo tristeza, Não sintas medo ou horror,
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SORRI TRISTEZA ⁠Anda comigo tristeza, Não sintas medo ou horror, Traz só uma capa fina De esperança pequenina, Nos ombros da tua dor. Iremos então lado a lado, Dois cegos a cantar o fado, Sem esmola, só pelo sonhar... Anda tristeza e meu fadar, Para onde vamos só basta Trazeres na tua canastra, O vento que vem no ar. Anda tristeza, arrasta A nossa vida pró mar, Sorri tristeza sem parar, Pois sorrir até afasta, O fantasma do penar. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 20-10-2023)

DE FACTO E NUNCA DE FATO De facto sendo, assim é. De fato nunca, por não gostar
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DE FACTO E NUNCA DE FATO De facto sendo, assim é. De fato nunca, por não gostar De enfiar no corpo até, Tamanho estorvo de apertar. E me obrigar Pela simples razão da força, Ainda que o diabo torça, Debaixo das axilas, Rangendo as maxilas, Estroncar a fatiota toda, Ainda que me digam Ou maldigam Que não percebo da poda, E não saber andar na moda. Também não me interesse a roda Do vestir nas estações, Basta-me, para andar na moda, Tapar bem os meus feijões. ⁠ (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever)

⁠PRAGAS EM VINHA D'ALHOS Tantas penas, tantas pragas Me rogaram de mansinho,
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⁠PRAGAS EM VINHA D'ALHOS Tantas penas, tantas pragas Me rogaram de mansinho, Pra tolher o meu caminho Em horas tão aziagas. Esqueceram que até nas fragas Rijas das penedias, Nos rochedos escabrosos Pedregulhos tenebrosos Das montanhas tão bravias, Por obra de algum autor Tal Cristo mostrando as chagas, Pode aí brotar uma flor. E essa flor que nasceu Fui eu, Me confesso, pecador E autor nas horas vagas, Que por força do meu fervor, Já não me pegam as pragas. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 18-10-2023)

⁠EM MIM Só agora, no fim, serei O ser que não fui,
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⁠EM MIM Só agora, no fim, serei O ser que não fui, Porque errei no escolher Da sorte, por não saber Que ela só flui A quem tem a coragem De viver, Sem querer entender Se a vida é quadrada Ou redonda Como o mundo Profundo Entre a areia dourada, A terra e o mar E aquela onda malvada Que nos arrebatou E na tragédia nos levou, Para um poço sem fundo. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 15-10-2023)

⁠EM MIM Cai tanto nevoeiro em mim... Enregela,
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⁠EM MIM Cai tanto nevoeiro em mim... Enregela, Amortiça, Sem justiça, Os pobres ossos. Até os pardais se riem de mim... Dos destroços Que o nevoeiro Traiçoeiro, Deixa nos meus ossos. Não é nevoeiro do ar Aquele que me atormenta, É mais aquele pesar Pelo que me fazem passar E mata de forma lenta. Em mim, há fonte sedenta De amor, paz e alegria, Quer de noite quer de dia, Verdade que não se inventa. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 15-10-2023)

IRMÃO Será que sê-lo já basta Sem sermos de sangue igual,
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IRMÃO Será que sê-lo já basta Sem sermos de sangue igual, Meter na mesma canastra A força que nos anima a tal? Irmão, é sempre aquele jeito Entre o belo e o imperfeito, Que nos foge nos entretantos Das vidas às cambalhotas Entre demónios e santos Em sociedades de apostas... E quando a força desanima Vem a angústia e a revolta, A gente quer passar por cima, Mas a irmandade não volta. Surge então que a própria vida, Aos que fez de sangue irmãos, Arranja em contrapartida Outros de sentir, mais sãos. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 12-10-2023)

A MAÇÃ ⁠Era outono. Havia uma maçã no chão,
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A MAÇÃ ⁠Era outono. Havia uma maçã no chão, Caída da árvore cinquentenária. O homem, esfomeado, vergou-se No ranger dos ossos castigados Por longos jejuns lazarentos, De uma vida de naufragados Num barco de pobres assinalados, Pelas misérias dos tempos. Tinha já a podre maçã O bicho que a carcomia, Fruto de macieira arraçada Também velha e corcovada, Triste por não ser sã, Nos ramos em agonia. Prestes a pegá-la do chão Pousa um passarito aflito E o homem com prontidão Diz ao pássaro com emoção: Come, come tudo sem parar, Pois assim me capacito Que minha fome pode esperar. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 11-10-2023)

⁠AMOR DE SALVAÇÃO Vem, amor de salvação - ao nosso ninho Que construimos no chão - de mansinho,
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⁠AMOR DE SALVAÇÃO Vem, amor de salvação - ao nosso ninho Que construimos no chão - de mansinho, De penas, musgo, paixão - tão maciinho, Como pássaros doidos sem perdão. Vem, amor de salvação, alivia então Esta dor saudosa e assaz magoada, Faz do nosso ninho Já velhinho , A nossa cama, a nossa morada, Com rodas de algodão Para percorrer a estrada, Rumo ao planeta da ficção. E se as rodas Tão melindrosas, Furarem pelo caminho, Não faz mal: Ficaremos sempre no nosso ninho, Esse destino fatal! Vem, amor de salvação! (Carlos De Castro, in Há um Livro Por Escrever, em 03-10-2023)

É impressionante como um futebolístico resultado menos positivo, consegue mudar e adulterar as relações de amizade entre alguns humanoides. Depois, venham cá soprar-me aos ouvidos a dizer que só há um X (xis) número de drogas num espetro identificado neste mundo terrantês. Para…
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É impressionante como um futebolístico resultado menos positivo, consegue mudar e adulterar as relações de amizade entre alguns humanoides. Depois, venham cá soprar-me aos ouvidos a dizer que só há um X (xis) número de drogas num espetro identificado neste mundo terrantês. Para os eruditos e balofos estudiosos: acrescentem mais esta substância alucinogénia ao vosso cardápio de ilusões, ou então, acabem de vez (...) com esta praga, antes que Alguém venha manifestar que é ela (mais uma...) que está a criar desarmonias e muitos males reinantes no tecido da sociedade, enfim.

SE OS MEUS OLHOS ⁠Ai, se os meus olhos dissessem O que viram quando eu via,
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SE OS MEUS OLHOS ⁠Ai, se os meus olhos dissessem O que viram quando eu via, As coisas sacras e profanas Das procissões das vaidades E cortejos de perversidades… Nos convívios só de apelido, De carneirinhos em sentido À espera da ordem mestra De chefes, gente que não presta, Sem carácter nem humildade. Era assim na mocidade E hoje também não falha, Nas feirinhas desta canalha Velha, sem idoneidade. Ai, se os meus olhos dissessem O que viram quando eu via, Outro galo então cantaria Mesmo que mordaças houvessem. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 01-10-2023)

⁠OUTONO INFIEL Falso este Outono Ou um rapaz rapace,
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⁠OUTONO INFIEL Falso este Outono Ou um rapaz rapace, Tomate feito de alface, Ou ridícula manha do dono? No fresco do seu calor, Naquele falso ardor Ele mente, E a gente nem sente A infidelidade premente. Quem és tu outono O, dos poetas? E ele (respondeu-me em seu mono): Eu já não sou quem tu pensas, Poeta de tantas parecenças, E agora sem mais ofensas, Digo: Não sou mais o teu outono.