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Frases de Daniel Avancini Araujo

62 frases

⁠Naufrágio em Mim Minha cama vira barco quando a noite se estende
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⁠Naufrágio em Mim Minha cama vira barco quando a noite se estende como um oceano sem margens, e minhas lágrimas desenham rotas incertas na pele de um horizonte que nunca chega. No grande vazio onde o silêncio ecoa, não sei para onde navegar. Sou marinheiro de olhos fechados, tateando as ondas com mãos vazias, e a bússola que carrego não aponta o caminho para lugar algum. Sinto fome, uma ânsia que não cabe no peito salgado de mágoas. Dê-me de comer, mas que seja algo além desse vazio repetido, além desse sal que corta a boca e engasga meu grito mudo. E quando tudo se perde no mar que me afoga, ele é meu único refúgio, porto improvisado nas águas turvas do medo. Sua voz é como farol que rompe a escuridão, e eu, à deriva, me deixo ser salvo pela calma que ele traz, pela promessa de terra firme onde meu corpo cansado possa, enfim, descansar. Então, quando o calor de sua mão toca minha pele fria, a tempestade se dissolve como névoa ao amanhecer. A luz que ele lança sobre mim é cais onde meus olhos secos desaguam esperanças. E no balanço desse barco incerto, encontro o ritmo da paz que tanto busquei nos ventos que me arrastaram. Naquele porto improvisado, eu sou embarcação que cansa, ancorando meus medos no peito de quem não teme minhas águas. Ele, farol e cais, é o norte que escolhi seguir, a promessa de que, mesmo à deriva, há um destino além da tormenta, um abraço onde o barco repousa e meu naufrágio se desfaz.

⁠Do Vazio, Transbordo Do vazio, preencho-me, como tela que se pinta sozinha,
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⁠Do Vazio, Transbordo Do vazio, preencho-me, como tela que se pinta sozinha, colorido com as mais belas cores de uma paleta que nem escolhi. Sou arte que se faz sem intenção, um quadro que respira e dança com os tons que o acaso me deu. Do vazio, transbordo, como rio que se perde entre margens inconstantes, a fluidez de um só corpo que se desenha com as tintas do improvável, na liberdade de ser mais que apenas vazio. Quando a vida me cobre com véus de incerteza, esboço-me em traços largos e deixo que o tempo pincele meus contornos. Não sei se sou obra completa ou fragmento em constante mudança, mas aceito o caos como parte da criação. Sou o intervalo entre a matéria e o conceito, o pulsar do imprevisto na estrutura que se rompe. Quando me olho de fora, percebo que sou mais do que a soma de escolhas, sou o reflexo que escapa entre as fendas da razão. Há beleza no que escorre sem forma definida, no gesto que se faz pela inquietação do existir. Sou composição inacabada, mas inteira naquilo que jamais cessa de se criar. E assim, de um espaço que era nada, sou cor, sou movimento, um corpo que não cabe em linhas retas nem em molduras fixas. Sou a contradança entre o vazio e o transbordar, a essência que se molda na ausência de certezas, como verso que se escreve no tempo que passa sem pedir licença. E se ao final me perguntarem o que sou, direi que sou fluido, transição que se esparrama entre o ser e o deixar de ser. Um conceito escorrendo da mente que, ao tocar o chão, se torna rio que não desiste de encontrar o mar. Porque ser é também desaguar em possibilidades infinitas, é não temer a dissolução e encontrar na própria mudança a raiz que jamais se fixa. Sou processo que se faz enquanto a vida se move, uma arte sem moldura, uma verdade sem contorno, transbordando de mim no vazio que me acolhe. E se por acaso me perguntarem novamente, não direi mais que sou completo, nem que estou pronto. Direi que sou como a água, que ao abraçar a terra, transfigura-se em rio, em mar, em chuva, mas nunca deixa de ser essencialmente líquida, livre para se moldar e expandir, pois mesmo quando se evapora, não deixa de ser presença, não deixa de ser vida.

⁠O Encontro no Ônibus Estava eu, mais uma vez, indo para a casa de minha avó. Para tanto, preciso pegar dois ônibus ou ir a pé até o ponto do segundo. Com muita cautela, vou. Passo atenciosamente de rua em rua, esquivando-me das esquinas como quem evita lembranças indesejadas.…
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⁠O Encontro no Ônibus Estava eu, mais uma vez, indo para a casa de minha avó. Para tanto, preciso pegar dois ônibus ou ir a pé até o ponto do segundo. Com muita cautela, vou. Passo atenciosamente de rua em rua, esquivando-me das esquinas como quem evita lembranças indesejadas. Decido ir a pé. Chego ao segundo ponto um pouco cansado, o corpo denunciando a caminhada, e logo vejo meu ônibus se aproximar. Entro, pago e me assento. Como em qualquer outro dia, encaro a janela como uma tela em branco, onde os cenários passam rápido demais para serem compreendidos. Imagino tudo, porém nada de importância. Um bairro se passou quando sinto um toque no braço, leve como o roçar de um galho ao vento. Vinha de alguém que se assentava do meu lado direito. Penso que foi apenas um esbarro casual e volto ao meu devaneio, mas novamente sinto. Dessa vez, decido me virar e entender o que estava acontecendo. Era uma senhora, pequena e franzina, de mãos trêmulas e olhar perdido. Tentava, com delicadeza, chamar minha atenção. Algo havia de diferente em seu olhar — um brilho úmido que parecia conter todo o peso do mundo. O marejar de seus olhos já me inundava, e antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela segurou minha mão com firmeza, como quem busca âncora na tempestade. Sem dizer uma palavra, ela apenas suspirou fundo, como se aquele gesto contivesse anos de histórias acumuladas. Seus dedos enrugados e frágeis envolviam minha mão como se segurassem um último pedaço de esperança. Por um instante, o mundo se reduziu àquele toque, e o barulho do ônibus se tornou um murmúrio distante. Aos poucos, seus lábios se abriram, e num sussurro quase inaudível, ela disse: — Você se parece com meu filho... Houve um silêncio denso, como se o universo contivesse o fôlego. Não sabia o que responder, e talvez ela nem esperasse uma resposta. Apenas segurava minha mão, fixando o olhar num ponto indefinido do corredor. — Ele partiu faz tanto tempo... — murmurou, com a voz quebrada pela saudade. Um nó se formou na minha garganta. Respirei fundo, sentindo o peso daquele instante. Então, num gesto instintivo, apertei a mão dela com carinho e disse: — Eu estou aqui... Pode me contar sobre ele, se quiser. Ela pareceu surpresa, como se aquela simples oferta fosse um presente inesperado. Seus olhos marejados se voltaram para mim, e um sorriso tímido despontou, como um raio de sol por entre nuvens carregadas. — Ele tinha esse jeito quieto... sempre olhava pela janela, pensativo. Gostava de imaginar histórias. E quando eu estava triste, ele só segurava minha mão, como você está fazendo agora. Senti meu coração pulsar mais forte. Eu não era apenas eu — naquele instante, eu era um fragmento de memória viva. Ela continuou falando, e a cada palavra seu rosto se iluminava, como se a lembrança trouxesse o calor de um reencontro. — Ele dizia que as nuvens eram mapas de terras mágicas — disse ela, sorrindo leve. — Sempre acreditava que, se prestássemos atenção, descobriríamos um caminho que só os sonhadores enxergam. Sorri também, e sem perceber, comecei a compartilhar minhas próprias memórias de viagens e pensamentos perdidos olhando pela janela. Ela escutava atenta, como quem encontra companhia na dor e na saudade. Quando o ônibus freou bruscamente, ela soltou minha mão com delicadeza, como se devolvesse à realidade o que fora apenas um breve consolo. Antes de descer, olhou para mim com um sorriso pequeno, mas sincero, carregado de um agradecimento mudo. — Obrigada... Você me fez lembrar que o amor não morre... Só se transforma em saudade. Olhei para ela e, com um sorriso sincero, respondi: — Talvez ele ainda segure sua mão... de algum jeito, através de quem traz um pouco dele no olhar. Ela desviou o olhar por um momento, tentando conter as lágrimas. Mas quando voltou a me encarar, havia uma serenidade nova ali, como se minhas palavras tivessem encontrado um canto acolhedor dentro dela. Fiquei observando-a partir, pequena e delicada, desaparecendo na multidão. O ônibus seguiu viagem, mas aquela sensação permaneceu em mim — uma mistura de melancolia e gratidão por ter sido, ainda que por poucos minutos, um porto seguro para alguém que precisava ancorar suas lembranças. No caminho até a casa de minha avó, pensei sobre a força que existe em simplesmente estar ali para alguém. Às vezes, somos chamados a ser companhia em meio ao tumulto da cidade, como se a vida nos empurrasse para encontros que não esperávamos, mas que, de alguma forma, precisávamos viver. E ali, entre a dor e o alívio, aprendi que às vezes somos porto, outras vezes somos naufrágio — e, no intervalo entre os dois, a vida nos permite tocar o coração de um desconhecido, deixando nele um pouco de calma, e levando conosco a certeza de que a humanidade sobrevive nos detalhes.

⁠Demônios Internos Não há demônios sob a cama, nem monstros à espreita
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⁠Demônios Internos Não há demônios sob a cama, nem monstros à espreita nas frestas da escuridão. Procure-os dentro de si e os encontrará, enraizados na alma, como raízes densas de medos nunca podados. Eles se alimentam do silêncio amargo das noites insones, bebem das culpas que se ocultam nas sombras da consciência, crescendo nas rachaduras dos segredos sufocados. Não há monstros lá fora, não há presenças que assombrem, apenas os fantasmas que nós mesmos criamos com os escombros das verdades que tememos. Eles não gritam, não quebram portas, não urram no escuro. Sussurram na voz da ansiedade que ecoa dentro do peito, esperando que um dia tenhamos coragem de encará-los sem medo do reflexo.

Início do Fim A morte não é um golpe final,
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Início do Fim A morte não é um golpe final, nem o apagar abrupto de uma chama que ardeu em vão. Ela começa no primeiro sopro de vida, como um murmúrio ancestral gravado na espinha dorsal do tempo, uma promessa silenciosa de que tudo que nasce traz em si o prenúncio de partir. Somos nós quem tenta adiá-la ou apressar sua chegada, como se a permanência fosse um direito herdado, como se o fôlego fosse posse de quem o exala, esquecendo que o ar é só um empréstimo da eternidade. Entre o nascer e o desfolhar da última pétala, somos intérpretes falhos de um roteiro traçado pelas mãos do acaso, dançando na corda bamba do existir, prolongando cada passo como se a terra não estivesse sempre a um deslize de nos tragar. A morte não é antítese da vida, mas sua sombra inseparável, um vulto paciente que nos acompanha até o instante em que já não há mais corpo para projetá-la, quando o vazio, enfim, reivindica o espaço que sempre lhe pertenceu, e nós, como poeira, nos dissolvemos no ventre do universo.

⁠O Lobo e os Abutres Em leito, sinto oh, quão frio,
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⁠O Lobo e os Abutres Em leito, sinto oh, quão frio, lobo só, sem matilha, eco de uivo calado que reverbera na pedra crua. Não tema, está só! Não reclame, diziam eles, engula o choro como quem engole a própria sombra. Em leito, sentia já não mais, mas, nada! Frio sou não! Tornei-me um vulto que se dissolve na geada da madrugada, uma presença que ecoa no vácuo entre o ser e o deserto. Em leito, sentiria na pele, rasgando o instinto como faca cega. Seleção natural de almas partidas. Quantos lobos perecem em si mesmos por não entender que há algo errado na dança da sobrevivência? Em leito, sinto coração, não mais. Odor pérfido de carniça ao amanhecer. Não eram lobos, eram abutres vestidos de companheiros, espreitando o cansaço da fera solitária. Liberdade, enfim? Ou apenas a descoberta de que a solidão é menos vil do que a falsa aliança dos que fingem caçar juntos mas apenas esperam o momento da queda? E quando o sol rasga a penumbra como lâmina quente, vejo o rastro das garras que um dia julguei companheiras. Eles não uivam, não caçam, não sangram pela honra de viver em matilha. São carniceiros, esperando o último suspiro da presa que pensavam ter domado. Então ergo meu uivo para o alto, rompendo o céu cinzento com o brado de quem não teme mais a escuridão. O eco invade os vales, acorda os corvos, faz tremer as sombras que habitam a floresta. E descubro, na solidão que corta, a liberdade crua de ser lobo entre abutres. Não sou ferido, sou a cicatriz que se ergue, o instinto que sobrevive ao banquete dos falsos. Sou a fera que renega o pacto da servidão. Sou o silêncio que precede o grito dos justos, a promessa de que mesmo só, o lobo sempre voltará a caminhar sob a lua sem temer as aves de rapina.

⁠Monólogo ao Mar Às vezes, assim penso, vivo um monólogo diário,
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⁠Monólogo ao Mar Às vezes, assim penso, vivo um monólogo diário, ecoando pensamentos soltos pelas vielas da alma onde não há atalhos, apenas passos que ressoam no asfalto molhado de manhãs silenciosas. Em frente ao mar, dedico-lhe meus devaneios, como cartas lançadas ao vento sem, ao menos, um pingo de receio. Discorro sobre você, como se as ondas fossem páginas brancas esperando minhas confissões. O mar, atento, ouve com paciência de quem já engoliu mil naufrágios e ainda assim permanece, se comunicando através de suas ondas, mergulhante, deslizante, ascendente, um discurso contínuo que cabe àqueles que mantêm os olhos bem abertos decifrar. E eu, narrador solitário, me vejo parte da maré, flutuando entre a certeza e o esquecimento, tentando entender se o que entrego ao mar é o peso dos dias ou a ânsia de ser ouvido. O vento salgado me corta os lábios enquanto o mar responde numa marola discreta, como se dissesse que palavras se dissolvem como espuma, mas sentimentos permanecem ancorados no fundo. Talvez ele saiba que não há resposta certa, pois enquanto me desfaço em palavras e sonhos, ele se refaz em ciclos e ondas, e assim seguimos, dois monólogos paralelos que jamais se tocam, mas se compreendem no silêncio que resta após o último sopro de vento. E então, na maré baixa, percebo que talvez o mar também sussurre suas incertezas para a areia, e que nós, vagando por nossas marés interiores, somos tão mutáveis quanto ele, sempre buscando a margem onde a alma repousa. E enquanto observo o encontro da água com a terra, sinto que viver é isso: um eterno diálogo com o imenso e o indomável, uma troca de segredos entre solidão e grandeza. O mar nada exige, apenas acolhe, como se dissesse que a liberdade reside em aceitar a fluidez e não temer os ciclos. Por fim, sorrio, pois entendo que o mar não é apenas ouvinte, mas também mestre de uma sabedoria inquieta, que ensina a ser vasto sem perder a essência, e a permitir-se tempestade sem deixar de ser calmaria.

Incertezas Não há compreensão, nunca houve meio termo.
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Incertezas Não há compreensão, nunca houve meio termo. As dúvidas crescem como ervas daninhas no solo árido da mente, raízes que se entrelaçam em pensamentos turvos, sufocando a razão até que tudo se torne sombra. Lacunas permanecem abertas, como feridas que rejeitam o tempo, casos interrompidos, histórias sem ponto final, rastros apagados por tempestades de incerteza. Não há culpados, não há suspeitos, apenas eu, rodeado por um tribunal vazio, onde o silêncio se ergue como juiz implacável, condenando-me por crimes que desconheço. Não há em quem confiar, pois até meus próprios olhos me traem, distorcendo reflexos num espelho que fragmenta quem penso ser no caos que persiste, como se eu mesmo fosse o enigma que busco resolver.

⁠Versos de Revolta Deixo meus versos como rastros de fogo
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⁠Versos de Revolta Deixo meus versos como rastros de fogo num caminho que arde pela culpa dos insensatos. Minhas palavras ficam, gravadas como cicatrizes na pele da memória, reação contra a hipocrisia que escorre das bocas ornadas de tantos "intelectuais", cuja erudição é verniz sobre o vazio. Não há o que temer! Pois tudo já é temido! O perigo não se manifesta onde a covardia se veste de autoridade, onde a segurança se impõe como jugo elegante, um escudo frágil contra a incerteza que ruge no mundo. Vivo em segurança? Ou em confinamento? Essa segurança sufoca, nos molda em cúpulas de certezas frágeis, ergue muros invisíveis que nos protegem do caos lá fora, mas nos exilam dentro de nós mesmos. Há de parar! Ou então, pararemos nós! Porque quem vive assim, enjaulado em verdades prontas, aprende a temer até o próprio pensamento. E se o medo crescer maior que o desejo de liberdade, é a alma que se condena ao cárcere da resignação, onde as palavras morrem antes mesmo de se tornarem grito. Os versos que deixo são insurgências contra o conformismo, ecos de um coração inquieto que se recusa a aceitar a rotina disfarçada de escolha. É urgente quebrar o silêncio que nos encobre de poeira, é preciso incendiar as ideias moribundas antes que a chama interna se apague de vez.

⁠Entre o Assassino e a Vítima Quem sou eu? Um humano imperfeito,
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⁠Entre o Assassino e a Vítima Quem sou eu? Um humano imperfeito, destroçado entre o espelho e a carne, cometendo crimes contra mim mesmo, atentados sutis que corrompem a alma e rasgam a pele da consciência. Sou vítima ou assassino daquilo que me tornei? Voluntário no ato de me ferir ou involuntário na arte de desmoronar? Sou necessidade que enlouquece, psicose que se veste de razão, ou um delírio lúcido que encena a tragédia de ser quem sou? Sou mesmo louco? Ou a loucura é a máscara que uso para não ver a verdade do caos que me habita? Sou mesmo eu? Ou sou um espectro fragmentado, uma nota dissonante na sinfonia do que jamais fui? Indizível. Como nomear o vazio que preenche os espaços entre meus gestos? Como afirmar com certeza que sou algo além do que falha ao tentar existir por completo? Se a dúvida me define, sou tanto a ferida quanto a lâmina, a mão que acolhe e que esmaga, o vulto que se esconde atrás de um rosto que mal reconhece sua própria sombra. E se o espelho estilhaçado reflete múltiplos eus que coexistem na fissura do real? Serei eu o caco que corta ou o reflexo que sangra? Sou a colisão entre o ser e o não ser, o vértice do abismo onde a dúvida ecoa e a própria identidade se desfaz. Há um grito que rompe o silêncio, uma palavra que treme na garganta, como se nomear-se fosse desabar e aceitar-se fosse um pacto com a dor que me habita. E no limiar dessa guerra interna, sou o paradoxo que respira, uma verdade que mente para si mesma enquanto tenta sobreviver ao próprio fardo. Ser é ser incompleto. Sou a imperfeição que sobrevive no abismo entre razão e caos, desafiando a lógica com um coração que ainda pulsa mesmo quando a mente implora por trégua.

⁠Cativeiro das Palavras Nunca sei o que escrever. As palavras chegam sem aviso,
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⁠Cativeiro das Palavras Nunca sei o que escrever. As palavras chegam sem aviso, como pássaros desorientados que pousam no peito e logo se lançam ao vazio, deixando o silêncio como única companhia. Sempre há dúvida. Onde estão as inspirações? Onde se esconderam os sorrisos que um dia iluminaram o caos? Talvez seja apenas questão de tempo, tempo que não há, tempo que se dissipa como névoa em manhãs febris. Mostre-me as lágrimas que tais sorrisos trouxeram consigo, como marcas discretas nas dobras da memória. Entre tantos sentimentos vazios, confusos e desgastados, é difícil encontrar algo verdadeiro, algo que não se dissolva na vastidão dos dias incertos.

⁠Cicatrizes que Florescem Eu carrego o peso dos dias não ditos, os ecos de passos que não me pertencem,
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⁠Cicatrizes que Florescem Eu carrego o peso dos dias não ditos, os ecos de passos que não me pertencem, fragmentos de uma estrada sem destino, onde a dor se enrola nas raízes do tempo e floresce como cicatriz que canta. Há um grito em cada gota de chuva, uma confissão no som que corta o vento. A alma se espraia pelos campos secos, e o coração, inquieto, brota em flores que não pediram cor. Sou rio que deságua na própria margem, meu curso incerto entre pedras e paus, correndo por entre trilhas rasgadas que costuram minha pele ao chão da existência. Não há ponte que atravesse o que sou. Em noites de silêncio denso e cru, a lua sussurra verdades que não quero ouvir, desvenda os espelhos internos, onde sou herói e vilão, onde luto contra meu próprio reflexo até me tornar pele, osso e vontade. E quando o sol, ao fim de seu fôlego, se deita sobre os montes quebrados, meu corpo, feito de sonhos e poeira, abre os braços para um horizonte que se dissolve no vão entre ser e querer ser. Eu permaneço inteiro na tempestade que arranca galhos secos, pois sou árvore que cresce do avesso, raiz que abraça o abismo e flores que desafiam o solo. Sou também a calmaria que sucede o caos, a certeza que nasce do chão devastado, o tronco que se curva, mas não quebra, que desafia o vento com sua seiva viva e canta, mesmo quando a dor ecoa.

Aparência de Vida Não há vida. O que sou?
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Aparência de Vida Não há vida. O que sou? Um coração que pulsa por reflexo de um hábito ancestral, meus órgãos em perfeito estado, como engrenagens meticulosas de uma máquina que opera sem memória ou intenção, mantendo o teatro fisiológico de um corpo que respira por mera obediência biológica, como se o oxigênio fosse um combustível imposto e não uma escolha consciente de permanecer. De certa forma, sinto-me morto, não pela ausência de pulsação, mas pela falência do querer, pela insuficiência da alma em habitar o corpo que a carrega. Sou um vulto cotidiano, uma sombra que vaga nas bordas do tempo, um espectro inacabado que percorre os dias como um verso esquecido no meio de um poema que nunca se completa. Vivo, mas sem a densidade de quem ocupa o próprio ser, de quem molda o instante com a intenção de permanência. É como se a pele repelisse o próprio contorno, e o corpo, apesar de intacto, fosse apenas a moldura de uma ausência dolorosa, uma estrutura que insiste em se manter ereta mesmo quando o espírito já desabou.

⁠Habitar-se é um tipo de exílio sagrado! Sinto como se não tivesse sido feito da mesma matéria dos outros. Minha infância era um espelho embaçado,
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⁠Habitar-se é um tipo de exílio sagrado! Sinto como se não tivesse sido feito da mesma matéria dos outros. Minha infância era um espelho embaçado, onde ninguém parecia me reconhecer. E compreensível ou não, as vezes ainda carrego a mesma sensação, como se o mundo me oferecesse moldes que nunca abrigaram a forma da minha alma. Tudo em mim sempre foi um pouco desalinhado, como se eu dançasse um ritmo que só meu peito escutava. Descompassado ou não, era o espetáculo que eu entregava - sem holofotes, Sem plateia, somente a alma. Nunca vi como os outros viam. O mundo me parecia um palco deslumbrante e distante e eu, um espectador melancólico, sentado à beira do próprio abismo, tateando sentidos com olhos em carne viva. Ainda assim, sempre que alguém cruzava o meu destino, eu me doava inteiro! Sem reservas, sem cálculos, sem planos de fuga. Investia o que em mim era força, o que era luz, e até o que eu sabia que me faria falta depois. Porque amar, mesmo que em ruínas, é para mim, uma das formas mais sinceras de tocar a vida que se deseja. Mesmo que por um instante, eu me permitia vibrar naquela realidade sonhada! Ali onde o toque era cura, a presença era templo, e o “agora” … bastava! Mas depois do “até logo”, a maré me levava de volta à margem de mim. Fechava os olhos ao mundo e encarava, no escuro, as rachaduras que ninguém via. Tentava, com as mãos nuas, tapar os vazamentos da alma, ainda que tudo escorresse pelas frestas do silêncio. Às vezes parecia inútil. Às vezes era mesmo. Mas nunca deixei de tentar. Nunca deixei de viver com tudo que carrego. Porque, mesmo nos dias em que a existência dói, ainda creio que viemos experienciar a vida! E por inteiro! Não só o riso, mas também o pranto, o vazio, as perguntas que giram sem respostas, nem repouso. Creio que todos os dias são bonitos. Mesmo os que machucam, os que confundem, os que silenciam demais. Bonitos porque existem, porque me atravessam a alma, e sobretudo, me ensinam! Alguns chegam com flores, outros com pedras, mas todos me convidam a sentir. E em todos, me mantenho aceso. Contudo, alguns são apenas sobrevivência, tormenta mental sem fim triunfante, um salto visceral para os corredores mórbidos das camadas que me compõem. E então compreendo, em silêncio: as partes que em mim se partiram não pedem camuflagem, pedem reconhecimento. Como ensina o Kintsugi, não é preciso ocultar a rachadura - é nela que o ouro se deposita. É o que rompeu que revela, é o que feriu que desenha a cartografia exata do que sou. E talvez, a beleza mais honesta não esteja na perfeição preservada, mas na imperfeição assumida e transformada. Porque habitar-se é um exílio, sim, mas é também a única forma de não se perder no mundo dos que jamais se permitiram sentir demais. Nem sempre por vontade, às vezes só por não caber em lugar nenhum. E quando não se cabe, volta-se. Para dentro, para perto, para algo que ao menos ecoe, para onde a existência faça algum sentido - mesmo que breve. É ali, nas entrelinhas do sentir e do viver, no ateliê invisível do tempo, que acolho meus cacos com reverência e os ressignifico em arte — não para esconder a dor, mas para deixá-la visível, abrilhatada com ouro, com presença e vida. - Por Daniel Avancini Araújo