Frase de Daniel Avancini Araujo
Aparência de Vida Não há vida. O que sou? Um coração que pulsa por reflexo de um hábito ancestral, meus órgãos em perfeito estado, como engrenagens meticulosas de uma máquina que opera sem memória ou intenção, mantendo o teatro fisiológico de um corpo que respira por mera obediência biológica, como se o oxigênio fosse um combustível imposto e não uma escolha consciente de permanecer. De certa forma, sinto-me morto, não pela ausência de pulsação, mas pela falência do querer, pela insuficiência da alma em habitar o corpo que a carrega. Sou um vulto cotidiano, uma sombra que vaga nas bordas do tempo, um espectro inacabado que percorre os dias como um verso esquecido no meio de um poema que nunca se completa. Vivo, mas sem a densidade de quem ocupa o próprio ser, de quem molda o instante com a intenção de permanência. É como se a pele repelisse o próprio contorno, e o corpo, apesar de intacto, fosse apenas a moldura de uma ausência dolorosa, uma estrutura que insiste em se manter ereta mesmo quando o espírito já desabou.
No pensador.ai desde