Frase de Daniel Avancini Araujo
Monólogo ao Mar Às vezes, assim penso, vivo um monólogo diário, ecoando pensamentos soltos pelas vielas da alma onde não há atalhos, apenas passos que ressoam no asfalto molhado de manhãs silenciosas. Em frente ao mar, dedico-lhe meus devaneios, como cartas lançadas ao vento sem, ao menos, um pingo de receio. Discorro sobre você, como se as ondas fossem páginas brancas esperando minhas confissões. O mar, atento, ouve com paciência de quem já engoliu mil naufrágios e ainda assim permanece, se comunicando através de suas ondas, mergulhante, deslizante, ascendente, um discurso contínuo que cabe àqueles que mantêm os olhos bem abertos decifrar. E eu, narrador solitário, me vejo parte da maré, flutuando entre a certeza e o esquecimento, tentando entender se o que entrego ao mar é o peso dos dias ou a ânsia de ser ouvido. O vento salgado me corta os lábios enquanto o mar responde numa marola discreta, como se dissesse que palavras se dissolvem como espuma, mas sentimentos permanecem ancorados no fundo. Talvez ele saiba que não há resposta certa, pois enquanto me desfaço em palavras e sonhos, ele se refaz em ciclos e ondas, e assim seguimos, dois monólogos paralelos que jamais se tocam, mas se compreendem no silêncio que resta após o último sopro de vento. E então, na maré baixa, percebo que talvez o mar também sussurre suas incertezas para a areia, e que nós, vagando por nossas marés interiores, somos tão mutáveis quanto ele, sempre buscando a margem onde a alma repousa. E enquanto observo o encontro da água com a terra, sinto que viver é isso: um eterno diálogo com o imenso e o indomável, uma troca de segredos entre solidão e grandeza. O mar nada exige, apenas acolhe, como se dissesse que a liberdade reside em aceitar a fluidez e não temer os ciclos. Por fim, sorrio, pois entendo que o mar não é apenas ouvinte, mas também mestre de uma sabedoria inquieta, que ensina a ser vasto sem perder a essência, e a permitir-se tempestade sem deixar de ser calmaria.
No pensador.ai desde