Frase de Daniel Avancini Araujo
Naufrágio em Mim Minha cama vira barco quando a noite se estende como um oceano sem margens, e minhas lágrimas desenham rotas incertas na pele de um horizonte que nunca chega. No grande vazio onde o silêncio ecoa, não sei para onde navegar. Sou marinheiro de olhos fechados, tateando as ondas com mãos vazias, e a bússola que carrego não aponta o caminho para lugar algum. Sinto fome, uma ânsia que não cabe no peito salgado de mágoas. Dê-me de comer, mas que seja algo além desse vazio repetido, além desse sal que corta a boca e engasga meu grito mudo. E quando tudo se perde no mar que me afoga, ele é meu único refúgio, porto improvisado nas águas turvas do medo. Sua voz é como farol que rompe a escuridão, e eu, à deriva, me deixo ser salvo pela calma que ele traz, pela promessa de terra firme onde meu corpo cansado possa, enfim, descansar. Então, quando o calor de sua mão toca minha pele fria, a tempestade se dissolve como névoa ao amanhecer. A luz que ele lança sobre mim é cais onde meus olhos secos desaguam esperanças. E no balanço desse barco incerto, encontro o ritmo da paz que tanto busquei nos ventos que me arrastaram. Naquele porto improvisado, eu sou embarcação que cansa, ancorando meus medos no peito de quem não teme minhas águas. Ele, farol e cais, é o norte que escolhi seguir, a promessa de que, mesmo à deriva, há um destino além da tormenta, um abraço onde o barco repousa e meu naufrágio se desfaz.
No pensador.ai desde