Frase de Daniel Avancini Araujo
Do Vazio, Transbordo Do vazio, preencho-me, como tela que se pinta sozinha, colorido com as mais belas cores de uma paleta que nem escolhi. Sou arte que se faz sem intenção, um quadro que respira e dança com os tons que o acaso me deu. Do vazio, transbordo, como rio que se perde entre margens inconstantes, a fluidez de um só corpo que se desenha com as tintas do improvável, na liberdade de ser mais que apenas vazio. Quando a vida me cobre com véus de incerteza, esboço-me em traços largos e deixo que o tempo pincele meus contornos. Não sei se sou obra completa ou fragmento em constante mudança, mas aceito o caos como parte da criação. Sou o intervalo entre a matéria e o conceito, o pulsar do imprevisto na estrutura que se rompe. Quando me olho de fora, percebo que sou mais do que a soma de escolhas, sou o reflexo que escapa entre as fendas da razão. Há beleza no que escorre sem forma definida, no gesto que se faz pela inquietação do existir. Sou composição inacabada, mas inteira naquilo que jamais cessa de se criar. E assim, de um espaço que era nada, sou cor, sou movimento, um corpo que não cabe em linhas retas nem em molduras fixas. Sou a contradança entre o vazio e o transbordar, a essência que se molda na ausência de certezas, como verso que se escreve no tempo que passa sem pedir licença. E se ao final me perguntarem o que sou, direi que sou fluido, transição que se esparrama entre o ser e o deixar de ser. Um conceito escorrendo da mente que, ao tocar o chão, se torna rio que não desiste de encontrar o mar. Porque ser é também desaguar em possibilidades infinitas, é não temer a dissolução e encontrar na própria mudança a raiz que jamais se fixa. Sou processo que se faz enquanto a vida se move, uma arte sem moldura, uma verdade sem contorno, transbordando de mim no vazio que me acolhe. E se por acaso me perguntarem novamente, não direi mais que sou completo, nem que estou pronto. Direi que sou como a água, que ao abraçar a terra, transfigura-se em rio, em mar, em chuva, mas nunca deixa de ser essencialmente líquida, livre para se moldar e expandir, pois mesmo quando se evapora, não deixa de ser presença, não deixa de ser vida.
No pensador.ai desde