Frase de Daniel Avancini Araujo
O Lobo e os Abutres Em leito, sinto oh, quão frio, lobo só, sem matilha, eco de uivo calado que reverbera na pedra crua. Não tema, está só! Não reclame, diziam eles, engula o choro como quem engole a própria sombra. Em leito, sentia já não mais, mas, nada! Frio sou não! Tornei-me um vulto que se dissolve na geada da madrugada, uma presença que ecoa no vácuo entre o ser e o deserto. Em leito, sentiria na pele, rasgando o instinto como faca cega. Seleção natural de almas partidas. Quantos lobos perecem em si mesmos por não entender que há algo errado na dança da sobrevivência? Em leito, sinto coração, não mais. Odor pérfido de carniça ao amanhecer. Não eram lobos, eram abutres vestidos de companheiros, espreitando o cansaço da fera solitária. Liberdade, enfim? Ou apenas a descoberta de que a solidão é menos vil do que a falsa aliança dos que fingem caçar juntos mas apenas esperam o momento da queda? E quando o sol rasga a penumbra como lâmina quente, vejo o rastro das garras que um dia julguei companheiras. Eles não uivam, não caçam, não sangram pela honra de viver em matilha. São carniceiros, esperando o último suspiro da presa que pensavam ter domado. Então ergo meu uivo para o alto, rompendo o céu cinzento com o brado de quem não teme mais a escuridão. O eco invade os vales, acorda os corvos, faz tremer as sombras que habitam a floresta. E descubro, na solidão que corta, a liberdade crua de ser lobo entre abutres. Não sou ferido, sou a cicatriz que se ergue, o instinto que sobrevive ao banquete dos falsos. Sou a fera que renega o pacto da servidão. Sou o silêncio que precede o grito dos justos, a promessa de que mesmo só, o lobo sempre voltará a caminhar sob a lua sem temer as aves de rapina.
No pensador.ai desde