Infortúnio
Às vezes, a gente se pega fazendo aquilo que não nos é aprazível
Não que seja primazia a ociosidade
Esse sentimento se manifesta na falta de oportunidade
Quem não gostaria de sentir prazer no que se propõe a fazer?
Muitos estão ali imbuídos
Por mera necessidade de sobrevivência.
Mas o mercado é indolente e não nos faculta escolhas.
Envelhecer
Os hipócritas vão dizer
Que a velhice é a melhor idade.
Com hipocrisia não querem envelhecer
É fato.
Nascer é surgir para o horizonte, acontecer
Envelhecer é perder o brilho, tornar-se menos vivo.
O mais forte dos homens
Se curva diante da velhice
A segregar suas forças.
Eu sinto dificuldade para falar de amor
Porque meu espírito crítico é pagão
Minha natureza é a própria natureza
Se as cartas de amor são ridículas
Pessoa..
Falar de amor tem provocado risos
A natureza ama.
Série Minicontos
Amor maternal
Em um dia de muita chuva e trovoada, sinhá coruja procurava atônita comida para os seus dois filhotes indefesos e expostos aos perigos da floresta
De repente encontra o gavião faminto que também caçava seu próximo jantar.
Mamãe coruja implora
- Compadre, se encontrares meus filhinhos poupe-os!
- Mas como vou identifica-los em meu a tantos bichos? - perguntou o gavião
- quando encontrares as mais belas criaturas da floresta serão os meus filhinhos.
E nunca mais sinhá coruja os encontrou.
Minha criança
Eu fui criado menino buchudo.
Não tinha medo de nada
Do escuro, da chuva ou papangu
Cresci assim
Como Deus criou batata
Em meio aos jogos de bola de gude
Futebol, gata maga, enfinca, barra-bandeira
Amarelinha...
Sim, amarelinha!
Qual o problema?
Ouvia Gonzagão de mamãe na vitrola do vinil
Contos que noite a noite conta da saudosa rádio cariri.
Tomando banho nos barreiros de água barrenta e enlameada
Nu, no frescor da inocência.
À noite batia um prato de tambica antes da reza que era irrefutável na cosmo visão de Paim.
No dia seguinte, os pés amanhecia limpos e mamãe dizia que era o capiroto que lambia
Só assim lavamos os pés antes de dormir pelo menos por alguns dias.
Talvez não fosse recomendado para a saúde física.
Mas, de certo, era lenitivo à alma.
Saudade do meu tempo de criança
Passado que não se encontra mais.Nicola Vital
Ao pé da letra
Sob a mesa estava o radinho sem pernas
E sobre ele havia uma única espiga de milho
E ela à espreita sentadinha no braço do sofá,
Quando, o pé da mesa atingiu a bola do olho.
Que não satisfeito, arrancou os cabelos do milho que voou para o céu de sua boca.
A bichinha ficou com as maçãs do rosto rosadas
E foi parar no céu da boca do malvado.
Por fim, sua historinha permaneceu ao pé da página.
Ou é apenas uma língua de trapo?
Pobre bichinho.
Autorreflexão
Prefiro encarar as dificuldades que a vida nos faculta como o rio.
Simples assim.
O rio atinge seus objetivos porque possui a capacidade de contornar obstáculos.
E nunca caminha por estradas retilíneas.
Porque aquele que anda somente em linha reta
Nas curvaturas da vida se Dana
CARTA DE AMOR
Virá o dia
Em que meu sonho estará repouso sobre a escrivaninha
Em que não te pedirei para o julgar
Em que não te convidarei para o jantar
Em que não te direi para brincar na areia
Em que não elevarei sobre teu corpo o cobertor
Porque a noite se arvora fria
Então
Só nos meus versos encontrarás minhas juras de amor eterno
Não chores!
Nem muito alarde!
Apenas me entorpeci de luz e mistérios.
EXÍLIO
Quando você começar a compreender e aceitar sua companhia.
Quando você entender que não há mal algum em estar contido em sua solidão.
E quando você se locupletar, aceitando que o que importa antes de estar bem com o outro, é estar bem consigo.
Isso é solitude.
Lenitivo à alma.
Quando morre um rio.
Para onde vão seus encantados?
E se todos os insetos fenecerem?
De certo, em seis meses a natureza jazia.
Se todas as árvores sucumbicem
Não haveria novas gerações.
Todavia se os humanos fossem extintos
Seria a hora da natureza brilhar.
Em bem pouco tempo
Árvores cresceriam por entre os arranha céu.
A fauna distanciaria-se da extinção.
E a flora abraçavam -se em festa.
Quando seu pensar for padronizado.
Ali, certinho e obediente.
Aí, você é ouvido, lido e tido,
Embora não seja sentido.
Agora, quando pensa por si só
É louco, subversivo.
Não é lido, tido ou ouvido.
MEU CHAKRA
Essa minha voz tenor rasgado
De certo te faz replicar
Nos acordes do coração.
Minha arrogância ateia-vesga
Não te deixa respirar.
Mas o coração é tenro
Um albergue à noite.
Onde tudo pode
E nada é possível.
VOU CUIDAR DE MIM
Hoje, olhando para trás
Percebo que tenho menos tempo de vida para viver
Do que o que já vivi.
Possuo mais passado que futuro.
Nem mesmo o presente me é tão aprazível.
Assim, não devo perder tempo com coisas fúteis.
Com convenções sociais que não chegam a lugar algum.
Hoje, eu possuo idade para enxergar com mais sutileza as coisas.
E podar o meu jardim
MINHA FERA
Às vezes eu sou só fera
Espinhos ou solidão.
Noutras, posso ser flores
Leveza e compaixão
Se sou fera ou espinhos!
É porque nesse universo de feras
O indivíduo carece fera ser também
Nesse emaranhado de dúvidas
Que se chama compreensão
POEMINHA A ELES
Não, ser avô não é ser pai duas vezes.
Há uma linha tênue que divide esses dois únicos momentos.
Ser pai, às vezes, deixa respingar um certo grau de toxidade.
Ser avô, não!
É liso, doce...
Contar história é o método mais eficaz e eficiente de educação.
Avós contam histórias aos netos.
No entanto educam a alma
Meu corpo fadigado na frieza marmórea que os dias me facultam.
Só mesmo as letras seriam capazes de desvelar esse meu ínfimo ser.
Esse rude estado de proeminência que às vezes cintila em mim.
Serve-me apenas para velar a escuridão que me sonda
LIS
Sabe o que eu queria agora?
Que todos pudessem me ouvir
Não o que às vezes sai de minha boca
Apenas aquilo que minha psique não sabe expressar.
Só você para alcançar aquilo que não sai de minha boca.
Escrever é conceber um filho.
Encontramos prazer no fazer e no nascer
O limite do gozo é sempre o mesmo
No primeiro, no segundo e doravante
Assim como os filhos biológicos,
Amamos um a um mesmo em momentos distintos
De certo, alguns ganham maior destaque
Apenas para o mundo exterior.
Ao olhar genitor todos possuem
O mesmo cheiro e a mesma beleza.
Assim como a coruja disse ao gavião que seus filhos eram as mais belas criaturas da floresta
É o poeta para seus rebentos
MEDO DE MORRER
Eu tenho medo de morrer.
Porque só em pensar que não vou mais ver o nascer do sol
Acordar com o abraço dos netinhos.
Comungar a natureza em sua leve brisa da manhã.
Se eu pudesse falar com Deus, uma proposta lhe faria.
Uma pequena troca...
Eu abriria mão de um ano de minha vida para ele me deixar voltar uma noite na minha infância.
Na casa de mamãe onde tudo era possível, mesmo que na medida exata.
Todos nós cantávamos à mesa para uma ceia nutrida de carinho e afeto.
O cheiro de café na trempe viaja comigo.
Mas àquela hora só os adultos tinham acesso
Mamãe achava pouco e fervia uma chaleira de flor de laranja
Que era para a gente dormir cedo
Éramos sete, às dezoito horas, Paim no auge de sua devoção religiosa nos obrigava a rezar
Logo todos também religiosamente teriam que ir dormir.
Sem sono, começávamos a brincar no escuro do quarto e mamãe comecava a contar histórias de Trancoso para despertarmos só no outro dia.
Por fim, perguntava-lhe.
Por que as mães precisam nos deixar?
Hoje eu possuo idade para enxergar com mais sutileza as coisas.
Eu sou o que sou.
Pronome pessoal intransferível
Verbo intransitivo direto.
Meus sonhos?
Pretérito imperfeito!
Estrada sem caminho
Principio, meio e fim.
É inútil prolongar a conversa.
Enquanto você jaz ao som da tirania
É inútil prolongar a conversa.
Enquanto você samba na maionese.
E não entra no ritmo do batuque.
Pra variar...
É inútil prolongar
Porque também jazo
Diante de tua incognita submissão
MANHÄ DE DOMINGO
Sobre a mesa redonda adornada com uma velha toalha de renda vermelha
Um prato de sobremesa com arroz branco e uma pequena poção de Strogonoff.
Um sachê de algodão estéril
Dois esmaltes de cores preta e laranja.
Algumas lixas de unha e outros acessórios para adornar as unhas do mais velho.
Missangas enfeitavam as bonecas passadas da netinha.
À minha frente um copo de cristal cica amealhado de cerveja me dava inspiração.
Uma garrafa plástica de refrigerante indaiá sabor limão discretamente desamparada.
O óculos de grau redondo fechado ao centro da mesa
Paralelamente o chaveiro com a chave do carro que mais tarde levaria todos deixando a saudade e o sonho de um novo reencontro.
Era assim o domingo da vovó