PÁTRIA SERRA:
Na subida da ladeira dos bosques babaçuais
Vão-se os sonhos franzinos nas quebradas dos mortais
O pequeno e o menor, o que vai e o que fica
Os que descem outros que sobem como se os imortais.
Homens comendo homens feito como canibais
No cume do monte serra a pátria serra encerra
Os filhos das findas viúvas na quebranta dos cocais
De que sorte assim se faz?
Se nem ao bronco machado
Poucos sonhos se refaz
No pensar incipiente
Aquilo que não faz sucesso não é bom.
Tolice dos tolos!
Eu escrevo aquilo que me locupleta
Me faz ver a alma
Embora você não compre.
Ora, não é sobre isso.
É sobre está bem consigo
Nada mais.
Não mostre sua arte aos tolos...
São secos, sem júbilo
A CAVERNA DO PATRÃO
Esperança é terra sem alma.
Faca que não corta .
O distanciar da arte/cultura
Torna seus entes coxos.
Seu pensar formal
Sucumbe a sede de justiça
E a sede d'água
Coloca-a no limiar da escuridão.
Vertendo seu esperançar.
Esperança é terra sem alma.
Não existe vida noturna, incentivo à arte/cultura, nenhum lugar de entretenimento.
É faca que não corta.
Talvez seja a única de todo Estado que nem água existe.
EU
Quando me preocupei com a reputação
Quiz andar somente em linha reta.
Esqueci de minha consciência e tropecei.
A reputação é problema daquele que reputa.
A consciência?!
Essa, me mostra pelo avesso.
Aquele que anda somente em linha reta
Não sente as curvaturas da vida.
De certo, as letras podem sim!
Além de nos afagar a alma
E nos permitir sonhar
Consentir
Matar a fome
Suprimir a miséria
Assolar
A injustiça e desigualdade
VERSOS MARGINAIS
Meus versos não servem para você
Sujeito seco
Para olhos mudos
E coração sem júbilo
Se não és maleável
Não leia meus pensamentos
Porque meus versos derretem.
Porque a vida não é apenas viver
Eu não preciso métrica nem rima
Ou notas retilíneas
Para compor meu poema
Porque andar sempre em linha reta
Se perde nas curvaturas da vida.
A HIPOCRISIA DOS MORTAIS
Sinto repulsa ao sistema religioso do homem.
Ao "deus" do cristianismo, misógino, separatista e preconceituoso
O despotismo da ditadura militar
A extrema direita, o capitalismo
E a hipocrisia da elite intelectual.
Eles são o inferno da humanidade
O anticristo e a corroboração da desigualdade
Eu adoro a natureza
A simplicidade campesina e sua sabedoria.
O canto dos pássaros
O assovio da caipora
O amor das prostitutas
A sensibilidade dos gays
A necessidade dos ladrões
E a sabedoria do ateu.
Porque meu Deus é a diversidade.
E imanência.
Você talvez não compre.
Mas, de certo, abarca.Nicola Vital
POEMA REVEL
Escrevo. E daí?
Estou cansado de regras
Dessa nota polidinha
Do teu jeito certinho de ser.
Escrevo porque sinto, pronto.
Se eu sair da faixa me deixe
Não sou eu quem vai perder
Escrevo porque preciso
Preciso por escrever.
Porque minha escrita
É underground e só
PARA SER FELIZ
Não devemos primar pela boa aparência
Mais saber ou status social.
Imprescindível é um sorriso farto.
Um olhar côrtes
E verdade nos sentimentos.
Necessário é ter humildade
O coração como um albergue.
Só seremos grandes enquanto pequenos.
Ainda pertenço ao universo dos gigantes.
MISTÉRIOS
A noite, assim como o mar à noite.
Realçam-se de mistério e telúrica.
O sol se encolhe saindo de cena
Para as estrelas surgirem na ribalta.
Permitindo que a orquestra das ondas
Rebente à praia sobre mar bravio
Deflorando com fulgor as marés
Dócil ao campo gravitacional da mãe lua
Salpicando medo em seu resplendor
Lançando aos passantes
Os mistérios de seus encantados
Para um novo alvorecer.
Às vezes penso em não ter nascido.
Procuro vida e o ar está rarefeito.
Noutras, respiro o ar das colinas
E escuto o vento soprar meu rosto
Só em ouvi-lo soprar
Valida a ideia do nascimento.
Amor
Sinto que não amei.
O amor é sinônimo de:
Perdão, compaixão,
Resiliência, empatia
Cumplicidade e ...
Seja por isso que esteja tão
Démodée e ridículo.
Saudade
Hoje me peguei saudosista.
Sinto saudades de tudo que vivi e vivo.
Sinto saudades das coisas boas e ruins
As quais tenho me relacionado.
Das boas, por não ter compartilhado com mais realce.
As outras, hoje lhes daria melhor condução.
Sinto saudades quando vejo fotografias
Quando sinto cheiros e odores
Sinto saudades do meu passado
De minha tênue infância periférica
Sinto saudades de amigos que não os vejo há anos.
Daqueles que se foram sem despedidas
Saudades das pessoas com as quais não falei mais.
Sinto saudades dos presentes que não aproveitei em sua plenitude
Sinto saudades da criança que deixei no passado a chorar.
O presente que me fez adulto
Deixarei sem movimento
Para o futuro que nunca virá.
Fugaz
Tudo é absolutamente interino.
Nossas relações, tensões
Sonhos, fantasias
Ilusões, desilusões.
Tristezas e alegrias...
Enfim, tudo é tão efêmero
Tudo sempre passará
E nunca voltará
O lugar a que se volta
É sempre outro.
Beco da amargura
O beco dos anjos caídos
Por traz de boa esperança
Refúgio sepulcral da plebe
Não havia flores ou floro
Os guenzos ruminando lixo
Endeusavam suas vacas profanas
Engatados em suas graúdas ptoses
Nas noites de lua cheia.
Viver a vida
Existem coisas que a gente gostaria de viver outra vez , outra vez, outra vez...
E outras, que outra vez gostaríamos de esquecer.
Quem falou que eu quero vencer na vida?
Não, eu quero viver a vida.
Eu não quero competir com meus irmãos
Eu quero compartilhar...
Não existe ninguém melhor que ninguém
Posso até fazer melhor uma determinada coisa
Mas há quem seja melhor que eu em outra
Competição segrega.
POESIA
A poesia não é inerente aos poemas, versos e acordes.
Se encontra poesia no morro, gueto ou cortiço
No cenário poético do sertão.
Nos bruguelos replicando a capoeira.
Existe poesia no sol, na chuva
No samba ou candomblé.
Na folha seca que flui
No doce ninar de uma mãe
No abraço rude do papai
Pode está no coração.
E é ampla
De modo a não caber nas palavras
Tenho idade suficiente para não ser um livro aberto.
Viaje, e não conte a ninguém
Se estiver triste, não conte o porquê.
Se estiver alegre, viva consigo o sentimento.
Sua história de amor é patrimônio bilateral.
Seus erros e acertos ninguém irá remediar.
Não conte de sua vida a ninguém.
A inveja é um sentimento corrosivo.
Não devo ser bonzinho o tempo todo
Sem antes pensar em me amar.
Insistir nesse papel o tempo inteiro
Mais tarde podemos perder o norte.
Não identificando aquilo que somos
E o que realmente queremos