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Frases de Gabriel Hayashida de Arruda

39 frases

Indigente Não sei quem sou nesta vida. Fui tudo, mas não sou nada. Louco, poeta, por vezes filósofo. Intenso e verdadeiro, por vezes ingênuo. Sou um idiota que ama a vida, um amor platônico com sabor de infinito. Tantas vezes me feri, mas sorri. Não sei de onde vim, nem para on…
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Indigente Não sei quem sou nesta vida. Fui tudo, mas não sou nada. Louco, poeta, por vezes filósofo. Intenso e verdadeiro, por vezes ingênuo. Sou um idiota que ama a vida, um amor platônico com sabor de infinito. Tantas vezes me feri, mas sorri. Não sei de onde vim, nem para onde vou. De tudo que me resta, não tenho pressa para chegar a um lugar que desconheço. Conheci pessoas, amei, sofri, vivi. Não sei se da maneira certa, mas do meu jeito eu vivi. De poucas coisas me orgulho, mas de nenhuma me arrependo. Sou o que sou, não um Deus, mas um homem. Fui feliz na simplicidade desta complexa vida.

⁠Oração do Poeta Pai Nosso, que és a essência em tudo o que é e se torna, santificado seja o silêncio em que Te ocultas.
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⁠Oração do Poeta Pai Nosso, que és a essência em tudo o que é e se torna, santificado seja o silêncio em que Te ocultas. Que venha a nós a razão que desvenda o indefinido, e que se realize a Tua vontade nas interrogações de nossas mentes e nos pulsos de nossos corações. Concede-nos, neste instante incerto, o bálsamo que alivia as almas exaustas, perdoa-nos a vertigem de existir, assim como perdoamos a inevitável tolice dos que acreditam saber. Não nos deixes sós perante a vastidão do nada, mas, se nada houver, ensina-nos a aceitá-lo.

O Mendigo de Si Tenho um teto — eis a concha, mas o caracol já partiu.
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O Mendigo de Si Tenho um teto — eis a concha, mas o caracol já partiu. Quatro paredes me cercam, mas nenhuma me contém. Tenho uma cama — é porto, mas o barco não chega a si. Meus lençóis envolvem o corpo, mas a alma foge em segredo. Tenho amigos — bons, presentes —, e, ainda assim, minha solidão fala mais alto que todas as vozes ao redor. Tenho família — carinhosa, constante —, mas algo em mim duvida do amor que recebo. Talvez por nunca me sentir digno. Tenho fé — rezo, creio, suplico —, mas a esperança é fruto que apodrece na mesa posta. Acredito em Deus, mas duvido de mim. Não me falta coisa alguma. Falta-me o ser que as coisas têm. Até o pão que como tem o gosto de outro pão — um que ninguém me dá. Pergunto-me, sem resposta: se tudo em mim é empréstimo, quem sou eu quando não peço? Sou um mendigo de mim, perdido no que me sobra. E, se um dia me acharem, que me devolvam a alma. Ah, não é ingratidão, nem demência, nem soberba. É possuir tudo — e, no fundo do peito, descobrir que nada se tem. Não me falta o pão, nem o teto, nem o abraço. Falta-me o gosto de existir. Tudo me sobra — e, mesmo assim, falta-me o nome do que perdi antes de possuir. Talvez não exista esse “eu” que espero reencontrar como quem acha as chaves no bolso de um casaco antigo.

⁠Eu já estou morto. Ao escrever este poema, sou apenas um cadáver que teima em segurar a caneta. Não sei o dia, nem a hora de quando eu morri —
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⁠Eu já estou morto. Ao escrever este poema, sou apenas um cadáver que teima em segurar a caneta. Não sei o dia, nem a hora de quando eu morri — talvez na juventude, talvez no primeiro verso, talvez no primeiro amor que não me amou. E é isso. Estou morto, e não há mais volta. Ninguém chorou. Não houve velório, nem lamentos, nem lápide com meu nome. Morri e continuei vivo, preso ao corpo como se ele fosse meu. Sem céu, nem inferno. Após a morte, só há o hábito de existir, onde meu cadáver se senta a escrever como quem cava a própria cova com uma colher de chá. Continuei a fazer as coisas de quem vive: amar sem saber o que é amor, crer sem fé, desejar sem saber por quê. Morto, mas não suficientemente; vivo, mas não inteiramente. Sem saber se invento a vida ou se ela me inventa. Morri sem testemunhas. Nenhum mau cheiro, nenhum adeus, nenhum vestígio. E o pior: nem eu mesmo percebi.

⁠Hoje me senti um estranho neste mundo, alguém que se perde nos becos da alma. Não pertenço a nada, nem a ninguém,
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⁠Hoje me senti um estranho neste mundo, alguém que se perde nos becos da alma. Não pertenço a nada, nem a ninguém, sou uma marca na areia que a maré apaga sem pressa. Ontem, me perdi entre o que sou e o que sonho ser, sem saber quem sou, nem para onde vou. Meu coração é um aterro, um amontoado de sentimentos despedaçados, palavras que ficaram presas na garganta, presas na rotina que me apaga, me mata devagar, sem trégua, mas com a certeza silenciosa de que o tempo me consome. Hoje, menti a mim mesmo, e menti a você também, disse palavras que não calavam, disse que amava, disse que me importava, mas eram palavras vazias, como promessas que o vento levou. E, perdido nas memórias, senti a saudade como um desconforto na alma, algo que não se explica, mas se sente, como a dor do que nunca se teve. Ontem, lembrei de você... Hoje, olhei o celular e encontrei sua foto, como quem encontra um pedaço de infância escondido no fundo de uma gaveta. Hoje, senti saudades… E a dor, que já era minha amiga, voltou, mais forte, mais intensa, como um amor que nunca se vai.

⁠⁠Estou à procura de algo, o quê? Não faço a mínima ideia, E isso realmente importa? Sinceramente, tanto faz... Mas oh, maldito desejo que pulsa!
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⁠⁠Estou à procura de algo, o quê? Não faço a mínima ideia, E isso realmente importa? Sinceramente, tanto faz... Mas oh, maldito desejo que pulsa! O tédio de não possuir o que desconheço, E a ânsia por algo que não se sabe. Como posso querer o que nunca vi, Se, talvez, querer nunca foi? Nem sei se ainda existe, Ou se apenas existiu, ou se pode existir. Para onde vou, tudo que encontro Pertence a alguém, pertence a alguém, Tudo tem posses e senhores, E a mim, que restará? A quem ou a que pertenço? Sei lá! Tudo tem nome, tudo tem endereço, mas eu permaneço desconhecido, incerto. Talvez eu não seja deste mundo, e, sinceramente, tanto faz!

⁠Sexta-feira, 11 de Abril de 2025 São Paulo, SP Você foi embora num dia qualquer. Eu não pude fazer nada. Finjo que também não estou aqui.
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⁠Sexta-feira, 11 de Abril de 2025 São Paulo, SP Você foi embora num dia qualquer. Eu não pude fazer nada. Finjo que também não estou aqui. É mentira (mentiras são amargas como remédio para enxaqueca). Saudade é isso: um vício idiota como cassinos online. Ainda olho o celular esperando uma mensagem sua. O tempo não muda nada.

⁠E de toda a vida que me resta, dos dias em que fui o que não escolhi ser, em que a liberdade se me impôs como uma condenação, percebo agora, no fim de tudo, que não vivi. Fui, apenas fui – e o ser que fui não foi senão um vagabundo, como um trapo sujo em que o mendigo dorme. O q…
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⁠E de toda a vida que me resta, dos dias em que fui o que não escolhi ser, em que a liberdade se me impôs como uma condenação, percebo agora, no fim de tudo, que não vivi. Fui, apenas fui – e o ser que fui não foi senão um vagabundo, como um trapo sujo em que o mendigo dorme. O que me resta, afinal, senão um nome e um sobrenome na certidão de nascimento, e uma data e uma hora no obituário? Talvez a cova rasa seja mais profunda do que a minha miserável vida, que agora, afortunadamente, encontra seu único propósito: ser adubo. A terra, fria e indiferente, me receberá calorosamente como alimento para os vermes, que se banquetearão de minha carne, sem julgar o que sou, o que fui. E os vermes, esses mesmos que consomem minha decadência, não saberão, porque nada sabem, da angústia de ser.

⁠Que estranho é existir. Ou, antes, que grotescamente familiar é ser arrastado por esta existência, como um fardo que não se pode abandonar, mas que igualmente não se consegue suportar. Levanto-me todas as manhãs com a mesma dúvida insuportável: Por que continuo aqui? O que é esp…
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⁠Que estranho é existir. Ou, antes, que grotescamente familiar é ser arrastado por esta existência, como um fardo que não se pode abandonar, mas que igualmente não se consegue suportar. Levanto-me todas as manhãs com a mesma dúvida insuportável: Por que continuo aqui? O que é esperado de mim? Para onde vou, se é que vou para algum lugar? As perguntas — essas eternas acompanhantes — não encontram respostas. Há dias em que me pergunto se sou eu quem vive, ou se sou apenas um intruso em minha própria pele, um espectador de algo que se desenrola sem meu consentimento. Os outros parecem tão certos de sua existência. Eles caminham como se estivessem indo para algum lugar. Para onde? Não sei. Mas eles sabem. Ou fingem saber. Seguem uma linha invisível, uma espécie de mapa que os guia, enquanto eu fico perdido, como se o mundo tivesse virado de cabeça para baixo e só eu notasse. Como se o simples fato de estarem em movimento fosse suficiente para justificar sua razão de ser. Há algo profundamente errado em mim, algo que não consigo nomear, mas que se manifesta em cada respiração, em cada batida do coração. Uma estranheza desconcertante que me corrói. Minha prisão é feita da minha própria carne, desta carne que me reveste e me nega, que me trai a cada gesto, a cada movimento, a cada palavra. Cada parte de mim parece se rebelar contra o restante, como se eu fosse um amontoado de estranhos compartilhando o mesmo corpo. Meu corpo, minha mente, minha alma… todas essas instâncias que deveriam formar uma unidade estão agora em conflito constante, como peças de uma máquina que nunca foi montada corretamente e, ainda assim, insiste em funcionar. Cada gesto, por mais banal que seja, perde todo o significado. Comer não alimenta, dormir não descansa, sorrir não alegra. Tudo o que faço é insípido, como se o próprio ato de existir fosse uma farsa. O que me resta, então, senão esta estranha sensação de vazio, que persiste em mim, mas que jamais me deixa preencher? A solidão não é apenas o estado de estar só, mas a sensação de ser um refugiado sem pátria — nem mesmo a do meu corpo.

⁠Ser poeta é não ser mais que sentir, É estar distraído de si, sem pensar, E deixar que a alma se venha a despir.
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⁠Ser poeta é não ser mais que sentir, É estar distraído de si, sem pensar, E deixar que a alma se venha a despir. Não sei quem me fala, lá no fundo do peito, Se sou eu, ou um outro que finge que sou. Mas eu, criança demais pra mentir, Aponto o dedo e digo o que vejo ser. O rei desfila despido, e ninguém lhe diz nada, Pois crê-se vestido de orgulho e poder. Mas eu, que me vejo de carne lavada, Desnudo-me ao mundo, sem medo de o ser. Ser poeta é uma forma de existir sem estar, De ser sem ter corpo, de ver sem olhar, Sabendo que nunca se deixa de estar.

⁠No coração das matas, onde os rios serpenteiam, veias do Brasil, Corre, livre, a água da vida, Que brota da terra, viajando,
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⁠No coração das matas, onde os rios serpenteiam, veias do Brasil, Corre, livre, a água da vida, Que brota da terra, viajando, Até o coração do país. Nos tesouros perdidos, em que um povo se resgata, Os caboclos bradam. Nas lendas da Amazônia e nas senzalas, Ecoa, forte, o grito ancestral de resistência. Mistérios antigos, escondidos no seio das florestas, Gente que fala com as árvores, Que entende o canto dos ventos e a língua dos animais, Conhece os caminhos das águas, do céu e da terra, Esta, nossa pele sagrada, Resistente ao esquecimento, jamais se renderá, Nem será dobrada pelo medo. Esta é a terra da Ararajuba, Das belezas do Rio de Janeiro, Mas também da Revolta dos Alfaiates, Onde o sangue da resistência ainda fervilha nas ruas. E nos cantos africanos, me abrigo, Na força dos ancestrais que nunca nos deixaram. Reencontrando a terra que nos gerou, Erguemo-nos, firmes e imbatíveis, Com coragem inabalável, raízes que nos sustentam, Lutamos para assegurar o direito de viver, E proteger o amanhã, Na força da mata, nas folhas da Jurema, Os povos que aqui estavam e os que chegaram, Ainda resistem, Guardados pelas forças ancestrais. A liberdade, a ferro, foi conquistada, Na carne e nas marcas de um povo heroico, Que jamais deixou de crer No axé, na luta, Na força que brota de sua terra. Não mais seremos subjugados, Não seremos apagados nem silenciados, Porque a nossa voz ecoa, Mais forte que os grilhões Que um dia tentaram nos calar. Ainda lutamos, Com a clava forte, A terra é nossa, E jamais será tomada.

⁠A morte não me assusta. Não mais. Ela chega de mansinho,
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⁠A morte não me assusta. Não mais. Ela chega de mansinho, puxa uma cadeira, cruza as pernas e me observa em silêncio, como quem espera o fim de um café frio. Eu respiro fundo e finjo que não a vejo. Acendo um cigarro, mexo na xícara, brinco de ignorar o inevitável. Mas sei que ela está ali — talvez sempre estivesse. E isso me arranca um riso sincero. Não que eu não ame a vida. Amo. Mas, às vezes, a vida pesa, vira conta vencida na gaveta, pedra no sapato. Às vezes, ela pede trégua, e eu, sem jeito, sigo a marcha dos desesperados. Então, a morte chega sem anunciar. Não bate na porta, não tosse no batente. Apenas entra, senta, ajeita o capuz do manto e me olha, como quem diz: "Você sabia que eu vinha." E eu sabia. Desde sempre. Ela não é susto, nem castigo, nem fim. É como uma palavra mal dita que o poeta decide engolir. Um fardo que escorrega dos ombros, um corpo que desaperta e, enfim, flutua. E, no fim, talvez seja isso. Não um adeus, mas um aceno comedido. Só morre quem viveu, quem gastou os sapatos, quem aprendeu a tropeçar sem medo. E eu? Eu aceito. Porque talvez só quem morre entenda, por fim, que viver sempre foi um jeito — sutil, distraído, inescapável — de ir embora.

⁠Na calçada onde o concreto se racha, Sob passos apressados, vejo figuras: Mendigos, esses monumentos esculpidos pela dor e pelo abandono,
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⁠Na calçada onde o concreto se racha, Sob passos apressados, vejo figuras: Mendigos, esses monumentos esculpidos pela dor e pelo abandono, Partes da paisagem, sombras de aversas. Estátuas esquecidas em praças que ignoramos, Com rostos e histórias, mas nós, indiferentes, Passamos como se o tempo não os reclamasse, Mergulhando na rotina, nas horas lentas. Hoje me interrogo: o que é ser visível? A roupa que visto, o bem que acumulo, É só camuflagem, armadura que me isola. Sob essa fachada, frágil e cativa, Sinto a tênue linha entre ser e não ser. Vida miserável... Eu, que me nomeio alguém, sou apenas um rosto entre muitas máscaras, Um nome sem significado na memória do mundo. Se eu me apagasse, quantos chorariam a ausência? A vida seguiria, indiferente às minhas lutas. Um mendigo cai, e a rua devora o corpo, Com a mesma indiferença que o ignorou em vida. Passam as gentes, a calçada permanece, E a vida avança, sem pausas, sem lamentos. A invisibilidade é pena pesada; E eu, tão próximo desse triste destino, Percebo que o meu endereço é só um nome, Uma casa, talvez, mas não um lar. Fernando disse sabiamente: “Hoje não há mendigo que eu não inveje, Só por não ser eu.” Na imensidão citadina, Todos somos mendigos, de afeto, de memória, de um sentido, Buscando ser vistos, mesmo que por um breve instante, Nessa profunda solidão que é viver.

⁠O instrumento que o poeta toca não se vê aos olhos, não faz acordes, nem pode ser escutado pelos ouvidos. O poeta é o instrumento,
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⁠O instrumento que o poeta toca não se vê aos olhos, não faz acordes, nem pode ser escutado pelos ouvidos. O poeta é o instrumento, e, se vibra, vibra com a própria vida. Mas, se cala, cala-se não pela ausência, mas pela dúvida: será o som que sai mais que um simples barulho? O músico tenta tocar o mundo como quem afina um piano quebrado. Mas o poeta, ah, o poeta é o mundo, em todas as suas notas desajustadas e desarranjadas. O músico, com sua partitura, tem os dedos certos, mas o poeta, ah, o poeta, não tem mais dedos que o próprio instante. O músico se orgulha do som que cria. O poeta, esse, se espanta com o que não pode ser tocado, e talvez, no fim, seja o poeta quem, por fim, toque.

⁠Na arte eu encontro Deus, e encontro a mim mesmo, Sou apenas aquilo que sou, para lá do que tento ser. Cada estrofe é um gesto sagrado,
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⁠Na arte eu encontro Deus, e encontro a mim mesmo, Sou apenas aquilo que sou, para lá do que tento ser. Cada estrofe é um gesto sagrado, Cada nota, uma reza silenciosa. O meu coração é um altar que sacrifica hesitações, Meu corpo, um templo sem portas e paredes. O pincel é como um incenso que sobe ao alto, Unindo o traço ao mistério de criar, Onde o invisível ganha forma e o impossível torna-se real. Na criação, tudo faz sentido, e nada é banal, Foi este o primeiro ato divino: o ato de criar. E não há fé maior que a coragem de moldar, De dar forma ao barro. O mundo é minha igreja vasta e imensa, Cada gesto genuíno é como um sacramento, Onde o infinito encontra espaço no instante. Na arte, o Eterno revela-se próximo, E comigo fala, e comigo fica, em uma eterna comunhão.

⁠Enquanto os animais seguem o fluxo instintivo da sobrevivência, nós, seres humanos, transcendemos essa simplicidade primitiva para buscar, incansavelmente, algo além de nós mesmos — poder, conhecimento, novas fronteiras. No entanto, à medida que exploramos os confins do universo…
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⁠Enquanto os animais seguem o fluxo instintivo da sobrevivência, nós, seres humanos, transcendemos essa simplicidade primitiva para buscar, incansavelmente, algo além de nós mesmos — poder, conhecimento, novas fronteiras. No entanto, à medida que exploramos os confins do universo, frequentemente projetamos nossos próprios temores e falhas nas formas que imaginamos encontrar pelo caminho. Criamos monstros e inimigos no espaço, porque é mais fácil combater um 'outro' do que encarar as imperfeições que carregamos em nosso próprio coração. Mas, à medida que lançamos nossos olhos para as estrelas, devemos nos lembrar: as maiores ameaças à nossa espécie não vêm do cosmos, mas da própria humanidade, de nossas escolhas e do caminho que decidimos seguir. E se, quando colonizarmos outros planetas, a única coisa que encontrarmos for a certeza de que estamos sozinhos, estaremos prontos para aceitar que talvez os monstros sejamos nós?

⁠Sem dúvida, garanto-vos que saber demais É como tapar os ouvidos, e não saber nada. Se eu adoecesse, reconheceria isso:
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⁠Sem dúvida, garanto-vos que saber demais É como tapar os ouvidos, e não saber nada. Se eu adoecesse, reconheceria isso: Quem realmente deseja entender também escolhe sofrer. O que sei sobre os conceitos e as ideias? De que vale o conhecimento que nasce do fenômeno, E de que serve a intuição sensível Em relação ao conceito do intelecto? É uma razão incondicionada das coisas, Mas que razão há nos animais e nos homens (que também são animais)? Não podemos conhecer ou experimentar o mundo todo, Mas ele é real e existe, como uma totalidade metafísica. Entre todos os filósofos, creio que tudo isso é falso, E há razão suficiente no não saber.

⁠⁠⁠Eu sinto uma profunda dor silenciosa... Gosto do som da música, do percurso da minha casa até o trabalho;
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⁠⁠⁠Eu sinto uma profunda dor silenciosa... Gosto do som da música, do percurso da minha casa até o trabalho; estou sempre ouvindo música. Em casa e no trabalho, ouço o barulho dos carros, dos comboios e de toda a gente. Chego em casa, ligo a televisão e ouço o noticiário: outra vítima do silêncio se atirou nos ruidosos trilhos do trem. No trabalho, ouço o rádio, que toca uma música ridícula, e minh'alma sofrida dança desolada. Gosto do som da chuva, lágrimas do céu; até os homens choram, silenciosamente. E o choro da terra é abafado pelos nossos gritos ambiciosos; ouço o barulho das fábricas, corro para o campo, e a chuva, tempestuosamente, em seu suave cair, encharca meu coração ressecado. Gosto do canto dos pássaros; da minha cama me levanto, e nela me deito, ouvindo os tordos ao amanhecer e os urutaus ao anoitecer que, calmamente, levam distante meu espírito atormentado. Gosto de deitar-me e dormir com o barulho do ventilador; porque gosto de barulho, assim silencio os gritos sussurrados em minha cabeça. E eu, que tenho sido tão quieto, se os ouço e me falam, descanso resignado.

⁠Sublime Fiz grandes e nobres propósitos, mas sou tão pequeno, Sim, tão pequeno e insignificante.
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⁠Sublime Fiz grandes e nobres propósitos, mas sou tão pequeno, Sim, tão pequeno e insignificante. Observo as grandes cidades de concreto e aço, Entre arranha-céus que roçam o céu, Vejo pessoas cruzando as ruas, e os carros. Há vielas estreitas, onde cada pequeno passo Descobre o encanto revelado pelo tempo, Que talvez se perca nesta vida vulgar, Mas permanece gravado em grafites vulgares. Vida vulgar, vulgar, como um mendigo verdadeiro. Vou ao campo e vejo os animais, e as crianças, Nos vastos jardins, entre rosas delicadas e lírios em flor, O perfume suave que enche o ar, e o vento que acha meu cabelo. Cada pétala, um juramento de amor... Assim saibamos valorizar o simples, o modesto, o singelo. Descobrir o sublime no cotidiano, no ordinário, Na essência real das coisas, Encontrar a beleza que transcende o mundano, A verdade mais metafísica. Por trás de cada nascer e pôr do sol dourando o céu, Onde há pequenos planetas distantes, Sob os verdes tapetes e vastos campos, E na imensidão divina, onde o céu se alarga no firmamento. Sempre há pequenos milagres a perceber, Em cada gesto simples, um mundo descoberto, Na plenitude do ser e do existir, Onde a grandeza habita nas igrejas e casas, e nas mentes, Onde podemos vislumbrar o infinito num beco e ouvir a voz de Deus num viaduto. Mas sou, e serei sempre, o que não soube, fiz de mim sublime, humano.

⁠(Des)encaixes ⁠Sou uma peça defeituosa neste quebra-cabeça da vida, tão fragmentado. Não tenho um lugar de encaixe, não. Estou desconectado das outras peças. Talvez eu deva cortar os meus excessos, minhas ásperas arestas que me impedem de encaixar-me neste tão cruel jogo. Esto…
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⁠(Des)encaixes ⁠Sou uma peça defeituosa neste quebra-cabeça da vida, tão fragmentado. Não tenho um lugar de encaixe, não. Estou desconectado das outras peças. Talvez eu deva cortar os meus excessos, minhas ásperas arestas que me impedem de encaixar-me neste tão cruel jogo. Estou vencido, talvez tenha desistido ou mesmo nunca tenha tentado coisa alguma. Devo despir-me das ilusões, das expectativas vãs, para poder encontrar uma peça que possa me completar. Devemos lutar para conquistar o nosso espaço, mas tudo isso me pesa. A pele que visto é errada; rasguei-me e de mim nada restou. Esta é a razão do meu sofrimento e das coisas fugidias. Quem me dera pudesse resolver este grande desafio, montar este estúpido jogo e dar-me por satisfeito. Às vezes a vida é traiçoeira, e o destino parece um enigma insolúvel. Mas para mim, a vida nunca foi senão uma acompanhante de sentir. Compreendi finalmente que a sua beleza está na futileza. Aproveitar a vida, deixe-me ser azarado no jogo; tenho tido azar na sorte, mas a minha sorte está no amor, ah, e como eu amei.

⁠Marginal Às margens profundas do meu ser, vagueio como um rio agitado sem leito. As palavras, como pesadas pedras, afundam no abissal silêncio impenetrável. As pobres almas que toquei, como folhas secas outonais, desprendem-se e voam para longe. Desaparecem na bruma do cruel t…
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⁠Marginal Às margens profundas do meu ser, vagueio como um rio agitado sem leito. As palavras, como pesadas pedras, afundam no abissal silêncio impenetrável. As pobres almas que toquei, como folhas secas outonais, desprendem-se e voam para longe. Desaparecem na bruma do cruel tempo. Ó rio, sem rumo, sem destino, és espelho da minha própria existência. Rio sou. E fluí. Leva-me para além. Que eu seja a folha seca que flutua em tuas correntezas, que se despede, e que o tempo, implacável, me leve para a outra margem.⁠

⁠Às vezes, uma tristeza tão penetrante Invade e arrebata minha alma, Levando-a para um lugar desconhecido,
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⁠Às vezes, uma tristeza tão penetrante Invade e arrebata minha alma, Levando-a para um lugar desconhecido, Onde me perco e não me encontro, Onde não existem portas nem janelas, Apenas uma estrada longa rumo ao mistério da vida. Inseguro, volto minha atenção para trás, Com os olhos sobre os ombros, E o peso das minhas decisões sobre as costas, Tropeço nas minhas incertezas. Rendido, me entrego ao chão, Derramo-me sobre a cama e inicio um novo dia nessa velha rotina. E mesmo quando acordado, eu converso comigo mesmo, tenho o hábito de conversar sozinho. Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto. Eu penso demais, e a minha cabeça pesa toneladas. Lembro de coisas que gostaria de ter esquecido e imagino coisas que gostaria que não tivessem acontecido. Deus, com sua ironia, me amaldiçoou com o pensamento, e me fez inquieto, inquisitivo. Há um certo prazer até no cansaço que isto me dá, Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

⁠Há um buraco negro em meu peito, um abismo que devora a luz que sou, deixando a minha alma inquieta, fora da órbita.
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⁠Há um buraco negro em meu peito, um abismo que devora a luz que sou, deixando a minha alma inquieta, fora da órbita. Um universo na minha mente se expande, planetas de pensamentos que colidem e se metamorfoseiam; tanta imensidão não cabe neste corpo tão diminuto, que agoniza sob o peso da própria grandeza. Meus amores e sonhos, infinitos na sua finitude, são tão distantes quanto as estrelas que piscam longínquas. Ah... metafísica! Em nenhum mundo encontro disposição, apenas o fardo de estar indisposto, cansado de aqui, cansado de lá, Alá me acuda, ou Deus, que fiz eu aos deuses? Estou cansado de teologia, cansado de qualquer lugar que me aprisione.