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Frase de Gabriel Hayashida de Arruda

⁠E de toda a vida que me resta, dos dias em que fui o que não escolhi ser, em que a liberdade se me impôs como uma condenação, percebo agora, no fim de tudo, que não vivi. Fui, apenas fui – e o ser que fui não foi senão um vagabundo, como um trapo sujo em que o mendigo dorme. O que me resta, afinal, senão um nome e um sobrenome na certidão de nascimento, e uma data e uma hora no obituário? Talvez a cova rasa seja mais profunda do que a minha miserável vida, que agora, afortunadamente, encontra seu único propósito: ser adubo. A terra, fria e indiferente, me receberá calorosamente como alimento para os vermes, que se banquetearão de minha carne, sem julgar o que sou, o que fui. E os vermes, esses mesmos que consomem minha decadência, não saberão, porque nada sabem, da angústia de ser.

Gabriel Hayashida de Arruda

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Pensador.com

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Indigente Não sei quem sou nesta vida. Fui tudo, mas não sou nada. Louco, poeta, por vezes filósofo. Intenso e verdadeiro, por vezes ingênuo. Sou um idiota que ama a vida, um amor platônico com sabor de infinito. Tantas vezes me feri, mas sorri. Não sei de onde vim, nem para on…
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Indigente Não sei quem sou nesta vida. Fui tudo, mas não sou nada. Louco, poeta, por vezes filósofo. Intenso e verdadeiro, por vezes ingênuo. Sou um idiota que ama a vida, um amor platônico com sabor de infinito. Tantas vezes me feri, mas sorri. Não sei de onde vim, nem para onde vou. De tudo que me resta, não tenho pressa para chegar a um lugar que desconheço. Conheci pessoas, amei, sofri, vivi. Não sei se da maneira certa, mas do meu jeito eu vivi. De poucas coisas me orgulho, mas de nenhuma me arrependo. Sou o que sou, não um Deus, mas um homem. Fui feliz na simplicidade desta complexa vida.

⁠Oração do Poeta Pai Nosso, que és a essência em tudo o que é e se torna, santificado seja o silêncio em que Te ocultas.
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⁠Oração do Poeta Pai Nosso, que és a essência em tudo o que é e se torna, santificado seja o silêncio em que Te ocultas. Que venha a nós a razão que desvenda o indefinido, e que se realize a Tua vontade nas interrogações de nossas mentes e nos pulsos de nossos corações. Concede-nos, neste instante incerto, o bálsamo que alivia as almas exaustas, perdoa-nos a vertigem de existir, assim como perdoamos a inevitável tolice dos que acreditam saber. Não nos deixes sós perante a vastidão do nada, mas, se nada houver, ensina-nos a aceitá-lo.

⁠Eu já estou morto. Ao escrever este poema, sou apenas um cadáver que teima em segurar a caneta. Não sei o dia, nem a hora de quando eu morri —
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⁠Eu já estou morto. Ao escrever este poema, sou apenas um cadáver que teima em segurar a caneta. Não sei o dia, nem a hora de quando eu morri — talvez na juventude, talvez no primeiro verso, talvez no primeiro amor que não me amou. E é isso. Estou morto, e não há mais volta. Ninguém chorou. Não houve velório, nem lamentos, nem lápide com meu nome. Morri e continuei vivo, preso ao corpo como se ele fosse meu. Sem céu, nem inferno. Após a morte, só há o hábito de existir, onde meu cadáver se senta a escrever como quem cava a própria cova com uma colher de chá. Continuei a fazer as coisas de quem vive: amar sem saber o que é amor, crer sem fé, desejar sem saber por quê. Morto, mas não suficientemente; vivo, mas não inteiramente. Sem saber se invento a vida ou se ela me inventa. Morri sem testemunhas. Nenhum mau cheiro, nenhum adeus, nenhum vestígio. E o pior: nem eu mesmo percebi.

O Mendigo de Si Tenho um teto — eis a concha, mas o caracol já partiu.
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O Mendigo de Si Tenho um teto — eis a concha, mas o caracol já partiu. Quatro paredes me cercam, mas nenhuma me contém. Tenho uma cama — é porto, mas o barco não chega a si. Meus lençóis envolvem o corpo, mas a alma foge em segredo. Tenho amigos — bons, presentes —, e, ainda assim, minha solidão fala mais alto que todas as vozes ao redor. Tenho família — carinhosa, constante —, mas algo em mim duvida do amor que recebo. Talvez por nunca me sentir digno. Tenho fé — rezo, creio, suplico —, mas a esperança é fruto que apodrece na mesa posta. Acredito em Deus, mas duvido de mim. Não me falta coisa alguma. Falta-me o ser que as coisas têm. Até o pão que como tem o gosto de outro pão — um que ninguém me dá. Pergunto-me, sem resposta: se tudo em mim é empréstimo, quem sou eu quando não peço? Sou um mendigo de mim, perdido no que me sobra. E, se um dia me acharem, que me devolvam a alma. Ah, não é ingratidão, nem demência, nem soberba. É possuir tudo — e, no fundo do peito, descobrir que nada se tem. Não me falta o pão, nem o teto, nem o abraço. Falta-me o gosto de existir. Tudo me sobra — e, mesmo assim, falta-me o nome do que perdi antes de possuir. Talvez não exista esse “eu” que espero reencontrar como quem acha as chaves no bolso de um casaco antigo.