Frase de Gabriel Hayashida de Arruda
O Mendigo de Si Tenho um teto — eis a concha, mas o caracol já partiu. Quatro paredes me cercam, mas nenhuma me contém. Tenho uma cama — é porto, mas o barco não chega a si. Meus lençóis envolvem o corpo, mas a alma foge em segredo. Tenho amigos — bons, presentes —, e, ainda assim, minha solidão fala mais alto que todas as vozes ao redor. Tenho família — carinhosa, constante —, mas algo em mim duvida do amor que recebo. Talvez por nunca me sentir digno. Tenho fé — rezo, creio, suplico —, mas a esperança é fruto que apodrece na mesa posta. Acredito em Deus, mas duvido de mim. Não me falta coisa alguma. Falta-me o ser que as coisas têm. Até o pão que como tem o gosto de outro pão — um que ninguém me dá. Pergunto-me, sem resposta: se tudo em mim é empréstimo, quem sou eu quando não peço? Sou um mendigo de mim, perdido no que me sobra. E, se um dia me acharem, que me devolvam a alma. Ah, não é ingratidão, nem demência, nem soberba. É possuir tudo — e, no fundo do peito, descobrir que nada se tem. Não me falta o pão, nem o teto, nem o abraço. Falta-me o gosto de existir. Tudo me sobra — e, mesmo assim, falta-me o nome do que perdi antes de possuir. Talvez não exista esse “eu” que espero reencontrar como quem acha as chaves no bolso de um casaco antigo.
No pensador.ai desde