Pular para o conteúdo

Frases de Gabriel Hayashida de Arruda

39 frases

⁠⁠O Eremita Com lentes tingidas de um brilho sombrio, Meus olhos, embotados de dor e lágrimas,
Continuar lendo

⁠⁠O Eremita Com lentes tingidas de um brilho sombrio, Meus olhos, embotados de dor e lágrimas, Veem o que outros não percebem, no silêncio confinado. Com olhos que ultrapassam o véu da realidade, Sou um estranho em minha terra, sem lugar para pertencer, Amei com a quietude de estrelas esquecidas, Sonhei com a vastidão de galáxias perdidas, Mas meu coração é um relicário de esperanças defuntas, Um navio sem ancoradouro, perdido em um oceano de solitária penúria. Sou um homem que, em suas próprias marés, se consome e se afoga E, nas profundezas da mente, se perdeu.

⁠⁠Epiderme Dentro de mim habita o verdadeiro terror, Onde os monstros se escondem sob a pele,
Continuar lendo

⁠⁠Epiderme Dentro de mim habita o verdadeiro terror, Onde os monstros se escondem sob a pele, Revelando a verdade que nos abate, Não se iludam, aqueles que confiam em nós! Não há cama que os oculte, pois não se escondem debaixo dela, Mas por baixo dos lençóis e os seres, onde não há certezas, Não creio em mim, com certeza, sou um monstro, não mártir, nem herói. Mediocramente humano, foi minha vida, escravo do que nunca serei A capacidade humana, essa sempre me aterrorizou mais que fantasmas. Consagro a nós o desprezo, tudo isso seja o que for que sejas Aqueles que confiam, não se enganem.

⁠Parassonia Estou cansado, é claro, Porque, a esta altura, a gente tem que estar cansado.
Continuar lendo

⁠Parassonia Estou cansado, é claro, Porque, a esta altura, a gente tem que estar cansado. De que estou cansado, não sei: De nada me serviria sabê-lo, Pois o cansaço fica na mesma. Estou cansado de pensar, a toda hora, há tantos anos, desde a minha mocidade. A minha cabeça já não mais encontra repouso, noite após noite, o sono me escapa, como se temesse adentrar neste caos que é a minha mente. Quando finalmente o apanho, sonâmbulo, eu converso com as paredes.

⁠⁠Eu acredito em Deus, mas me pergunto se Ele crê em mim, assim como cremos na Sua chuva, e no seu Sol. O que é real? As paredes sólidas e frias de concreto,
Continuar lendo

⁠⁠Eu acredito em Deus, mas me pergunto se Ele crê em mim, assim como cremos na Sua chuva, e no seu Sol. O que é real? As paredes sólidas e frias de concreto, concreto, a realidade concreta. Ou a memória fugaz de um abraço quente e terno, terno, visto o terno, chego ao trabalho, olho-me no espelho, e não vejo nada. Cego, vejo além do espelho e enxergo através da realidade sensível, sensível, atravesso as aparências em busca de algo que transcenda o tangível. Mas então o espelho despedaça-se diante dos meus olhos, como coisa real, um mosaico de sentimentos e lembranças, desfaz-se e reconstrói-se a cada instante. Cada caco reflete uma versão minha, mas, entre tantos, quem realmente sou eu? Há tantos de mim que não podem tantos estarem certos, e entre tantos, perdi-me.

⁠⁠Eu vivo um dia de cada vez, Levanto-me cedo, enfrento o trem, E volto tarde, sem ninguém.
Continuar lendo

⁠⁠Eu vivo um dia de cada vez, Levanto-me cedo, enfrento o trem, E volto tarde, sem ninguém. Construo sonhos de papelão, Como um mendigo, Mãos calejadas, olhos cansados, Essência perdida. Vivo um dia de cada vez, Como se fosse o último, Não por querer viver, Mas por precisar comer. Construo um lar de solidão, Como um empregado, Com tijolos de suor e dor, E paredes de ilusões. Vivo um dia de cada vez, Como se fosse uma prisão, Não por querer viver, Mas por não ser ninguém. Construo uma vida de incertezas, Enfrento a vida, e me perco, Sem coragem para lutar…

⁠Impermanência Quão alegres são as chegadas, loquazes, E os prazeres que consigo trazem,
Continuar lendo

⁠Impermanência Quão alegres são as chegadas, loquazes, E os prazeres que consigo trazem, O espírito se incendeia, dança, Quão tristes são as partidas, silentes, E os prazeres que consigo levam, O espírito se dilacera, despedaça. Ah, estou farto, meu tolo coração, tantas vezes ridículo, deseja pelo dia Em que os encontros superarão as despedidas. Como uma pessoa a quem lhe impõe a ter a sua desgraça.

⁠Eu tenho o péssimo hábito de amar tudo aquilo que me escapa à mão.
Continuar lendo

⁠Eu tenho o péssimo hábito de amar tudo aquilo que me escapa à mão. Talvez o amor, em essência, seja um desejo inatingível, perseguindo incansavelmente o próprio rabo, como um cão à roda. Carrego em minha pequenez a cruel ironia dos sonhos que, alçados, se erguem como montanhas firmes, e que, num instante breve, se desmoronam em montes de areia. Soterrado pela rotina, pela futilidade do dia-a-dia, sinto o peso da realidade que escorre entre meus dedos como areia numa ampulheta. Talvez esperar que o mundo se despenhe em barranco, e morrer deitado à sombra não seja de toda a má ideia.

⁠Hoje foi o dia do meu teste final. Temeroso entreguei a minha prova. O professor, em seu olhar severo, me perguntou:
Continuar lendo

⁠Hoje foi o dia do meu teste final. Temeroso entreguei a minha prova. O professor, em seu olhar severo, me perguntou: "Que nota devo te dar?" Fiquei em silêncio, E o silêncio foi o meu exame de consciência. Revivi, no lento caminhar do tempo, o ano todo, E percebi que faltei não apenas nas aulas, Mas em tudo: No estudo, no esforço, nas promessas feitas A mim mesmo e ao que eu deveria ser. Fui ausente, incapaz, E, na prova, a resposta foi o reflexo de meu descaso. Penso então: Seria justo me dar um 10? Seria justo, depois de minha negligência, Receber o mesmo que aquele que se entregou, Que se dedicou, que foi à luta? E, se fosse assim, qual seria a verdade? Minha vida tem sido uma série de ausências. Faltei à Bíblia, ao rezo, à missa; Faltei ao que é essencial, como quem falta a si mesmo. E, diante de Deus, como posso justificar minha farsa, Meu descaso? Só me resta uma única resposta: "De-me um zero, e lance-me ao inferno, Se assim for a justiça do mundo e do homem." Que há de mais justo em minha condenação? E o que há em minha aprovação que não seja uma mentira? Fui um péssimo aluno, Senhor, E Tu foste o Mestre perfeito, Com tua sabedoria infinita, com teu amor sem limites. Como posso eu, um pecador, Que falhei em tudo, Olhar nos teus olhos e me considerar digno De uma nota que só existe na ilusão dos que estão enganados? Como?

⁠Entre minha costela esquerda e o baço, ele instalou seu ateliê: um ser que não é meu,
Continuar lendo

⁠Entre minha costela esquerda e o baço, ele instalou seu ateliê: um ser que não é meu, e que, no entanto, me conhece mais do que eu. Não trouxe flores — apenas o silêncio que já habitava minha boca antes mesmo que eu aprendesse a mentir. Veio como vêm as coisas irremediáveis: sem alarde, sem pedir licença, sem se importar se eu estava pronto. Chegou sem fazer barulho, apenas se aninhou, como se sempre tivesse estado ali. Como se o corpo fosse seu antes de ser meu. Limitou-se a ocupar o espaço que eu, ingênuo, julgava vazio. Não paga aluguel, mas exige tudo: os sonhos que engoli antes de sonhar, as margens dos meus livros sujas de hesitações, a primeira palavra que travei na garganta. Não fala. Não precisa. É o hiato entre um pensamento e outro, o instante suspenso antes do tombo, a sombra que se alonga no meu cansaço. Ele não dorme. Fica acordado à noite, costurando meus pesadelos. E quando meu corpo — traidor — se entrega ao sono, ele deita-se ao meu lado e sonha os meus sonhos melhor do que eu. Às vezes, penso que sou ele. Ou que ele me esculpiu enquanto eu fingia estar vivo. Move-se sob a pele, apaga-me aos poucos no reflexo do espelho, mistura seu medo com meu suor. Seus argumentos crescem em meus interstícios, como ervas daninhas entre rachaduras. Já tentei revoltas. Ergui fortalezas de papel. Quis incendiar a casa toda. Tentei ser dono de mim. Mas como arrancar da carne aquilo que já se tornou carne? Há dias em que temo que esse vazio seja a única herança que deixarei. A certeza de que, um dia, vou olhar para dentro e não reconhecer nem o vazio. Talvez um dia eu acorde, e ele terá ido embora. Ou talvez eu acorde, e já não reste ninguém.

⁠Não fiz o que queria, porque nunca soube o que queria. Não amei o que deveria,
Continuar lendo

⁠Não fiz o que queria, porque nunca soube o que queria. Não amei o que deveria, porque nunca soube se deveria. E, entre esse "dever" e esse "querer", perdi-me. Perdi-me entre o ser e o parecer, onde se estendia um campo de batalha, onde todas as minhas vontades desertavam antes mesmo do primeiro tiro, deixando apenas as bandeiras plantadas em território nenhum. As pessoas vivem. Eu assisto ao filme mudo da existência alheia, da poltrona desconfortável da minha consciência — esta cadeira de espinhos que chamo de "eu". Elas vivem de migalhas e festas, de segundas-feiras sem graça, de desejos medíocres, de pecados sem culpa. E eu tenho mais sonhos que noites, mas nenhuma janela para voar. Ah, se ao menos me dessem um riso emprestado, um amor qualquer, uma vida sem importância — eu a aceitaria como um mendigo aceita a última moeda que não compra nada, mas faz tilintar no bolso. Mas não me deram. E agora, o que me resta é escrever versos, poesia que ninguém lerá num caderno que ninguém encontrará. Talvez eu mesmo tenha sido apenas um rascunho de homem, aquela primeira página arrancada e amassada no cesto de papel, onde Deus joga os projetos inacabados. Há todo um universo que não me pertence, todo um dolorido e quieto não-viver. As pessoas passam — não como rios, mas como garrafas vazias rolando no asfalto. Não tive paixões — tive asterismos. Constelações de desejos que nunca se tocaram. Quando a noite aperta o cerco como um credor implacável, e os últimos faróis se apagam como velas num bolo de aniversário não comemorado, eu desenterro meus mortos e faço-lhes dançar ao som de um órgão de rua. Tenho mais sonhos que o céu tem estrelas, mas nenhum chão onde plantá-los. Ter todos os apetites e nenhum dente, todas as fomes e nenhuma boca. Eu, notário do amor não consumado, registrava em ata o que nunca aconteceu — protocolos de beijos não dados, autos de carícias não realizadas, processos de encontros que permaneceram eternamente na sala de espera do destino. Enquanto, lá fora, implacável como um metrô noturno, a Realidade segue, indiferente, passando sem parar pela minha estação.

À medida que as IAs generativas se alimentam incessantemente de nossos dados, somos confrontados com uma crescente fome de autenticidade nas expressões criativas. Não acredito que o conceito de 'morte' da arte seja uma ideia alarmista, mas sim uma provocação. O que restará de nos…
Continuar lendo

À medida que as IAs generativas se alimentam incessantemente de nossos dados, somos confrontados com uma crescente fome de autenticidade nas expressões criativas. Não acredito que o conceito de 'morte' da arte seja uma ideia alarmista, mas sim uma provocação. O que restará de nossa humanidade quando entregarmos a elas não só a capacidade de criar, mas também o processo criativo que é, por essência, uma expressão intrínseca da experiência humana? Estamos, talvez, trocando nossa singularidade por uma simulação do que éramos.

⁠Eis-me rodeado por rebanhos de imbecis, onde até minha respiração lhes parece um ultraje! A verdade os fere, dizem, como se fosse uma afronta intolerável, um desrespeito, como se a realidade devesse se curvar à sua mediocridade. Esses tolos não suportam qualquer verdade mais alt…
Continuar lendo

⁠Eis-me rodeado por rebanhos de imbecis, onde até minha respiração lhes parece um ultraje! A verdade os fere, dizem, como se fosse uma afronta intolerável, um desrespeito, como se a realidade devesse se curvar à sua mediocridade. Esses tolos não suportam qualquer verdade mais alta que seus umbigos! Exigem que o mundo se arraste ao nível de sua insignificância, como se a grandeza devesse pedir licença para existir. Não suportam a clareza, preferem viver na ignorância, onde até a mais simples franqueza se torna um insulto.