Frase de Gabriel Hayashida de Arruda
Eu já estou morto. Ao escrever este poema, sou apenas um cadáver que teima em segurar a caneta. Não sei o dia, nem a hora de quando eu morri — talvez na juventude, talvez no primeiro verso, talvez no primeiro amor que não me amou. E é isso. Estou morto, e não há mais volta. Ninguém chorou. Não houve velório, nem lamentos, nem lápide com meu nome. Morri e continuei vivo, preso ao corpo como se ele fosse meu. Sem céu, nem inferno. Após a morte, só há o hábito de existir, onde meu cadáver se senta a escrever como quem cava a própria cova com uma colher de chá. Continuei a fazer as coisas de quem vive: amar sem saber o que é amor, crer sem fé, desejar sem saber por quê. Morto, mas não suficientemente; vivo, mas não inteiramente. Sem saber se invento a vida ou se ela me inventa. Morri sem testemunhas. Nenhum mau cheiro, nenhum adeus, nenhum vestígio. E o pior: nem eu mesmo percebi.
No pensador.ai desde