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Frases de Carlos de Castro

401 frases

⁠SE EU MANDASSE Oh, se eu mandasse nos tempos E nas vidas das mentes
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⁠SE EU MANDASSE Oh, se eu mandasse nos tempos E nas vidas das mentes Decretava aos quatro ventos Mesmo que cinzentos E sem mais lamentos: Quem for de mente que não mente Nem demente Nunca deve morrer depois dos poetas! Deve partir ao mesmo tempo de todos, Porque os poetas Mesmo que anacoretas, Nasceram para escrever a rodos Imagens de pinturas primárias Que animam o mortal A viver uns tempos mais Na vida dos arraiais Porque afinal, É no sonho de outras vidas planetárias Que os viventes cantam outras árias Cantigas, a uma só voz Por mim, por ti e por nós. (Carlos De Castro, in Morra A Censura, em 19-07-2022)

A MINHA CARTA A GARCIA Neste corpo a quebrar, há sinais De várias cores a assinalar
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A MINHA CARTA A GARCIA Neste corpo a quebrar, há sinais De várias cores a assinalar As etapas de uma vida de ais E de outras mais coloridas de pintar As telas rudes do meu mar. De estrelas belas a brilhar Sobre as negras ondas Das marés longas Deste viver sem ainda saber Do vir, do estar e do que sou Entre esferas de milhões por ter Vergonha de ser Incrédulo, sem primeiro ver. Então, quero antes desaparecer Entre as brumas De espumas Sem ler O epitáfio já reservado: "Aqui jaz um inconformado Que da vida só leva um fado, A sua carta a Garcia, Na escura noite da luz do dia." (Carlos De Castro, in Poesia Só e Chega, em 16-07-2022) ⁠

F O R Ç A S Ó, forças que me assediais E tirais as forças verdadeiras
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F O R Ç A S Ó, forças que me assediais E tirais as forças verdadeiras Do meu viver, traiçoeiras. Deixai-me, ó tiranas Forças negativas, profanas Ser Só eu, Do meu ser, Como quando minha mãe Que deus tem, Me deu ao mundo Rubicundo, Na esperança Bonança, Da vida sem forças Do mal, Como corças Que saltam sem barreiras, Em pleno salto mortal. (Carlos De Castro, in Poesia Num País Sem Censura, em 16-07-2022) ⁠

⁠PERDIÇÃO Meu pai de sangue: Como se chapa a massa na parede
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⁠PERDIÇÃO Meu pai de sangue: Como se chapa a massa na parede A de cimento, barro e areias Como tu fazes com tanta arte? E meu pai de sangue, respondia sempre: Oh, tira isso das tuas ideias... Já me está na massa do sangue e do ser À parte, À custa de tantas tareias para aprender. E eu insistia com meu pai de sangue: Qual o teu segredo Daqueles tetos de gesso Tão belos e singelos Feitos por tuas mãos ressequidas? E meu pai de sangue, já irado, respondia sempre: Oh, isso foi sinal de aprender noutras vidas, Umas a medo e outras por ser travesso Revesso Como tu, retrato do meu segredo... Nunca mais entrei em bravatas Chatas De perguntar a meu pai Que já lá vai O porquê de ser artista daquele dom então, Porque sei que me diria: Nasceste para ser trolha, um dia Como eu, sem mais tretas. Porém, escolheste as letras Malditas dos poetas Que te levam à perdição! (Carlos De Castro, in Minas da Minhoteira, 01-07-2022)

⁠NAUFRÁGIO Quem me leva para Galiza? Meu barco ficou atolado
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⁠NAUFRÁGIO Quem me leva para Galiza? Meu barco ficou atolado Quase afundado Na Boca do Inferno De Cascais da Costa da Guia Inda quase a noite era já de dia Com o leme despedaçado Quando eu apontava no caderno O norte onde eu queria Alcançar a terra do meu fado. Quem me leva para Galiza? Às minhas amadas ilhas de Cies e Ons Mágicas de vidas de outros sons E tantas saudades das Sisargas E a amada de San Simon Onde repousa o coração Do amigo das costas largas Que a onda arrebatou em Medal Na trágica noite do temporal... Quem me leva para Galiza? A terra verdadeira dos meus astros... Se lá não voltar em vida Certinho será na muerte Consorte Requerida E então abraçarei meus avoengos Velhinhos mas solarengos Os meus saudosos Castros. (Carlos De Castro, in Boca do Inferno de Cascais, 02-07-2022)

TANTA PAZ DEITADA FORA ⁠E eu tanto queria tê-la Absorvê-la
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TANTA PAZ DEITADA FORA ⁠E eu tanto queria tê-la Absorvê-la Como moribundo Das dores do coração Senti-la como divina graça Como luz rápida que passa No instantâneo Naquela desintoxicação De a sentir ao bebê-la Nesta taça de emoção Ainda que momentâneo. Escorre a paz em sangue esvaída Nas sarjetas Da vida Com os dejetos que expelem fedegosos Os poderosos Pelas bocas e rabos proxenetas. Tanta paz deitada fora Pura e tão cristalina E eu tanto queria tê-la Agora Neste coração de má-sina. (Carlos de Castro, In S. Pedro de Aldriz, 30-06-2022)

⁠A MENINA E O PATINHO Um dia, um poeta foi pai De uma menina pequenina
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⁠A MENINA E O PATINHO Um dia, um poeta foi pai De uma menina pequenina Engraçadinha e redondinha Que era o seu ai, ai. Dava-lhe tudo o que ela pedia Mesmo quando a menina cresceu Em idade e sabedoria Pela graça que Deus lhe deu. E a menina cresceu, cresceu E ficou sempre pequenina E redondinha Mas não de fala mansinha. E o poeta lembrou-se do antanho Quando lhe comprou um patinho Pequenino, amarelinho E fez-lhe um pequeno laguinho Onde ela e o pato tomavam banho. Um dia, o patinho morreu. A menina, graças, ainda é viva Mas muito cruel e altiva. Então esse poeta como eu Resolveu Não querer comprar mais patinhos Amarelinhos Nem fazer mais laguinhos. (Carlos De Castro, in Outeiro de Pena, 29-06-2022)

QUANDO O VENTO MATAVA A FOME A ALGUNS POETAS Agreste vento do meu viver Arrasta-me nas tuas asas contigo,
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QUANDO O VENTO MATAVA A FOME A ALGUNS POETAS Agreste vento do meu viver Arrasta-me nas tuas asas contigo, Seja por amor ou maior castigo, Sou aquela besta de um ser Que nunca quiseste ser comigo. Credor sou da má sorte de bicho Devedor és tu de falsas esperanças Mortas à nascença como crianças Abandonados fetos em sacos de lixo.⁠ (Carlos De Castro, in Rio da Cerezelha, 28-06-2022)

⁠A LATA DE SARDINHAS E OUTRA DE CONSERVA DE FEIJÕES Há dentro de mim
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⁠A LATA DE SARDINHAS E OUTRA DE CONSERVA DE FEIJÕES Há dentro de mim Muita fome de aprender A ser Independente! E quando à outra fome física Que leva à tísica Me querem à força matar, Eu lhes digo e redigo: Mesmo seco de morrer Hei de vos ver Aqui ou lá, num sofrer De arrepiar... Ontem, já no hoje do amanhã Alguém de outros me trouxeram E ofereceram Comida nova Que fizeram Quentinha a escaldar Pelas alminhas, Que a renova E me disseram A abraçar: Come, é o fruto da nossa paixão! E eu, depois no aido, engoli; Mas pensei: Benditos os que sabem que eu Não posso viver só de sardinhas E de feijões de lata! Se não, morro pelo estômago meu Na mais breve data... (Depois, de ter o estômago "enganado" é que me lembrei dos sem-abrigo, mulheres e homens e crianças que as latas de sardinhas e outras de conservas de feijões são uma miragem e então chorei... chorei... por ser tão indiferente e injusto ao males do mundo.) (Carlos De Castro, a tentar saber de onde vem a razão do lápis de censura do Pensador, in, 27-06-2022)

⁠QUANDO AS HIENAS CHAMAVAM MAMÃ E PAPÁ AOS URSOS Nasceram com semblante de predadores Tão engraçados na sua graça
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⁠QUANDO AS HIENAS CHAMAVAM MAMÃ E PAPÁ AOS URSOS Nasceram com semblante de predadores Tão engraçados na sua graça De hierarquias de carapaça, Tais lacaios do mundo devoradores. Sempre, por demais bajuladores Dos que vendem a alma ao diabo, Engraxadores de botas e ladrões de rabo, Quadrúpedes homens e algozes mores. Dormem de dia; atacam pelo escuro Em bandos de covardes avejões, Escondem a fronha em panos de esconjuro. Eis as hienas malcheirosas como caixões Que encerram a podridão do impuro; Serão elas, lambedoras de ursos, o futuro! (Carlos De Castro, in Torre Velha, 26-06-2022)

⁠O VAGABUNDO DAS FOLHAS CAÍDAS Ando perdido há tanto tempo Na noite de um amarelo profundo,
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⁠O VAGABUNDO DAS FOLHAS CAÍDAS Ando perdido há tanto tempo Na noite de um amarelo profundo, Quase cego Sem meu ego, Que fará o do mundo. Sou no tempo, um vagabundo De olhar iracundo, E de sonhos quase igual Vestindo roupa de gente Mas sempre nu, Tão diferente No ser e na mente Infelizmente desigual. Mundo, não leves a mal A distorção dos sentidos Porque há acessos proibidos Nesta vida de mortal. Desejo tanto ser esquecido Por mim, Mesmo sem ter ainda vivido O meio do princípio do fim. (Carlos De Castro, in Porto, 25-06-2022)

O CÃO QUE CANTAVA ÓPERA ⁠Eu já tive um cão Baixinho como eu que o sou
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O CÃO QUE CANTAVA ÓPERA ⁠Eu já tive um cão Baixinho como eu que o sou No destino e na pernada, Que cantava ópera farsada Sempre que eu dizia ao serão Versos de dor a uma fada. A ópera do meu cão, uivava Numa voz tão pura de fina Como alguma jamais encontrada Em cantares de gente canina. Tinha um não sei quê de magia Saída pelos foles da garganta, Sim, porque um cão triste canta E encanta No silêncio da noite vazia. Um dia de sábado pela manhã fria O meu cão de ópera já não operou... Estava rígido, teso, na alcofa Que ele tinha, meu Deus, tão fofa!... Nem se despediu de mim O companheiro amado... Ele acabou o seu fado E eu, sozinho assim Não voltarei a dizer poemas Porque dão azar e penas! (Carlos De Castro, in Igreja de Argoncilhe, 22-06-2022)

⁠ATÉ AMANHÃ CAMARADA NOITE Preso, que nem animais de circos Em gaiolas sem horizontes
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⁠ATÉ AMANHÃ CAMARADA NOITE Preso, que nem animais de circos Em gaiolas sem horizontes De ferros que cortam de tão frios Que regelam corpos e mãos Como águas gélidas das fontes E matam de fome nos montes O poeta eremita dos chãos. Um dia, ele vai quebrar as correntes Do mal da maldita união Em que o afundaram na ilusão De vidas coloridas, tão diferentes. E quando as grades estalarem Por força do seu querer, As águas da revolta soltarem Os gritos do seu sofrer Ele vai querer dizer à noite Do seu acoite: Até já, Até amanhã, Camarada noite! (Carlos De Castro, in Outeiro de Pena, 23-06-2022)

PEREGRINAÇÃO Ele... Ontem, ao cair da noite
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PEREGRINAÇÃO Ele... Ontem, ao cair da noite Saiu do mundo sem destino Nem lua, só ele num afoite Para beber tempos de menino. Saltou caminhos, subiu montes E relembrou visões fantasmagóricas E sons de corujas a beber nas fontes Das suas memórias pitagóricas. Cansado, sentou-se numa pedra Que teimosamente ali estava Desde os tempos da sua medra Como marco da sua vida brava. Viu e chorou o casebre onde nasceu E o espetro das casas das avós eternas No vazio de já não ver o céu Dos tempos de um ontem que morreu. Meteu pernas de volta, mas não sozinho Levava então com ele para casa Naquele breve e longo caminho Os lugares e rostos dos idos em brasa.⁠ (Carlos de Castro, in Argoncilhe, 21-06-2022)

⁠ (IN) SOSSEGO Vá,
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⁠ (IN) SOSSEGO Vá, Sossegai Agora e já... Dormi muito Muito, Sem acordares jamais Ó Parca terror dos mortais! Parca das três Parcas fatais Se já tendes vosso bicho roedor Dentro de mim Dilacerando-me as carnes em furor Que quereis vós, afinal, em fim!?... Para quê, ó Parcas porcas da má sorte Não vos basta já o vosso nome de Morte Porque me quereis tanto assim!?... Se tendes tudo já de mim, em vida Porquê desejar-me tanto a morte!?... (Carlos De Castro, em Sonhos Lindos, Argoncilhe, 15-06-2022)

AS BRUXAS DA BANDA DE CÁ NAS NOITES DE LUA MEIA ENQUANTO NÃO HOUVER LUA CHEIA
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AS BRUXAS DA BANDA DE CÁ NAS NOITES DE LUA MEIA ENQUANTO NÃO HOUVER LUA CHEIA Ó bruxas, que seguem cegamente o poeta Porque o perseguis, inúteis madraças Nas arremetidas das noites baças Quando ele só quer paz de anacoreta? Senhor meu das odes minhas, ó profeta Livra-me destes vulcões de lava Deste bruxedo que não se acaba Neste peito cansado de correr sem meta! Fugi de mim, loucas sombras feiticeiras Do meu leito de desprezo e desamor Deixai-me sentir o viver, ó coveiras! Da minha vida já ida de sonhador Neste tempo amargo em que as bandeiras Ficaram sem mastro de adriça, nem amor! (Carlos De Castro, em Maiorca, 07-06-2022)