Pular para o conteúdo

Frases de Juliana Umbelino

32 frases

⁠não é solidão. é invasão consentida. um tipo de presença que não pede licença
Continuar lendo

⁠não é solidão. é invasão consentida. um tipo de presença que não pede licença porque sabe que ainda tem a cópia da chave. • o lado esquerdo da cama cede. não por hábito. mas por teimosia do lençol. o corpo ausente continua exigindo espaço ~ e eu cedo. • a toalha continua úmida. não sei se é da última vez ou de alguma memória que escorreu quando eu não estava olhando. • o som do gelo ainda cai no copo. como se tivesse a quem servir. mas ninguém brinda comigo. nem o silêncio. • a morte não te levou. ela só desfez o contrato. ficou com o nome, com os papéis, com a parte que convence os outros de que você se foi. mas o resto ficou. os ruídos leves no corredor. o perfume que reaparece ~ sem explicação. essa mania absurda de eu ainda saber o ritmo da sua respiração mesmo sem você. • ninguém me disse que o luto fala baixo. que ele deita do meu lado e às vezes respira junto. que eu ainda viraria de lado à noite esperando um corpo que aprendeu a não chegar. • não sei se sinto falta ou se me converti naquilo que faltava. na forma da ausência, no vulto do costume, no intervalo entre a porta abrindo e ninguém entrando. • não sei mais se sinto falta. ou se já sou feita só disso. da tua falta com forma. com corpo. com tempo marcado. com trilha sonora que insiste em tocar quando não devia. • isso não é saudade. é ocupação indevida. com senha do wi-fi. com chave da porta. com espaço no armário. uma ausência que não partiu. só se instalou. e tem me mantido acordada no mesmo ponto em que você deixou de me amar. como se esse ponto fosse casa. fim. ou castigo. Juliana Umbelino • O Luto Sou Eu #Luto #Poesia #LiteraturaBrasileira #Relacionamentos #Leitura

⁠o amor que me tirou da categoria de sobrevivente aconteceu sem anúncio. um gesto despretensioso
Continuar lendo

⁠o amor que me tirou da categoria de sobrevivente aconteceu sem anúncio. um gesto despretensioso e, de repente, eu estava rindo. rindo de verdade! sem o dente de trás doendo, sem a pressa de acabar logo. e eu que já tinha ensaiado tantas fugas, fiquei. não por esperança. era por vergonha de não saber como recusar um afeto que não me pedia nada. ele não me fez voar. mas, pela primeira vez, meus joelhos não tremiam por medo. com ele, eu parei de ser uma mulher que espera. e comecei a ser uma mulher que respira. em voz alta. com respiração feia mesmo. daquelas que ninguém edita pra caber num story. ele olhava pra mim como quem diz: “é, você tem partes ruins. que bom.” e eu fui abrindo gavetas que nem lembrava ter. fui pendurando as armaduras. fui perdendo o medo de ser tocada sem que isso significasse contrato ou colapso. tudo nele era verdade que não doía. e, por isso, doía um pouco. porque eu aprendi a desconfiar de qualquer lugar onde meu nome não viesse com grito. com ele, o amor não era destino, era desvio. uma linha torta onde eu quis morar um tempo sem precisar arrumar as malas. e foi ali, entre um gesto idiota e um silêncio sincero, que eu entendi: não era sobre me completar. era sobre parar de me mutilar pra caber nos amores anteriores. ele me quis inteira, mesmo com os ossos fora do lugar. e isso, pra mim, foi o suficiente pra nunca mais aceitar o suficiente. Juliana Umbelino

⁠não era sobre força. era sobre a consciência de não precisar se reduzir. ela tinha o hábito de entrar em silêncio
Continuar lendo

⁠não era sobre força. era sobre a consciência de não precisar se reduzir. ela tinha o hábito de entrar em silêncio e sair com um mundo novo no olhar. sabia a hora de responder, sabia melhor ainda quando não valia. não discutia com quem ainda usava o tom de voz pra tentar ganhar presença. não se distraía mais com elogios. aprendeu que o brilho que vale não vem do aplauso, vem do que sobra depois que todos se vão. tinha o corpo marcado por pausas, não por feridas. seus afetos moravam na nuca, nos pulsos, em partes onde o coração só encosta se for com cuidado. ela não queria mais ser compreendida. queria ser sentida, e isso já era difícil o bastante. não fazia da dureza uma armadura. fazia da lucidez um abrigo. sabia a hora de fechar os olhos, sabia ainda mais a hora de partir sem fazer barulho. não dava mais explicação sobre a própria leveza. foi chamada de fria por quem confundia serenidade com indiferença. e de intensa por quem só reconhecia presença quando era barulho. mas ela era maré funda. não se notava na superfície. não cabia em primeiros olhares, em conversas rápidas, em mãos que não sabiam parar. carregava a própria história com precisão de quem já se ouviu. não se envergonhava do que chorou. mas também não usava a dor como decoração. tinha atravessado demais pra querer ser mártir. sabia o que podia perder e mesmo assim escolhia. porque sabia o que não podia mais perder: ela mesma. não era sobre se bastar. era sobre não aceitar mais a amputação como preço de amor. sobre não achar bonito o que diminui. sobre não negociar com o mínimo. alguns diziam que ela era difícil. ela sorria. não corrigia ninguém. tinha aprendido a diferença entre ser difícil e ser indomável. em algum momento da vida, ela cansou de se ajustar. e começou a crescer para cima. e para dentro. e para todos os lados onde o mundo não cabia. quando ela passava, alguns a olhavam como enigma, outros como excesso, mas quem sabia ver... sabia: ali andava uma mulher que não precisava ser explicada. só respeitada. Juliana Umbelino

⁠ela deixou o básico porque já tinha provado o real ela não amava com urgência. amava com gravidade.
Continuar lendo

⁠ela deixou o básico porque já tinha provado o real ela não amava com urgência. amava com gravidade. não pedia reciprocidade mas também não ficava se precisasse explicar o óbvio. nenhuma palavra dela era dramatismo. nenhuma ausência, punição. ela era do tipo que permanecia só onde o tempo não fosse desperdício. não fazia promessas. fazia chá. abria espaço. sabia quando não falar era a forma mais limpa de amar alguém. tinha deixado o básico anos atrás. não por desprezo, mas porque aprendeu a reconhecer o que não a fazia crescer. o amor, quando chegou, não teve explosão. foi como quem abre uma janela e percebe que o ar sempre esteve ali, mas ninguém ousava respirar fundo. não era o amor da falta. era o da medida certa. o que sabe a hora de tocar e a hora de recuar sem ser ausência. nele, ela não virou poema. não virou museu, não virou fuga. virou só o que sempre foi: corpo que sabe sentir. voz que não vacila. alma sem dívidas. ninguém a chamou de intensa. ninguém a disse demais. porque quem chegou tarde não teve nem tempo de nomear. o amor bom, quando a encontrou, soube que não precisava salvá-la. só precisava ficar. Juliana Umbelino

⁠era só um amor. mas me fez esquecer onde deixei minha dignidade.
Continuar lendo

⁠era só um amor. mas me fez esquecer onde deixei minha dignidade. não era fome. mas parei de comer. não era febre. mas tremi quando ele disse que não sabia o que sentia. eu, que sempre fui boa de ir embora, fiquei. como quem erra de propósito só pra ver até onde aguenta. abri mão do sono, da lógica, da escova de dente, do aviso que dizia “não ultrapasse”. troquei o arroz com feijão por silêncios indigestos. troquei o básico por tudo que me fazia doer mas que me fazia sentir. e eu, no fundo, prefiro o que machuca ao que não faz nada. ninguém me avisou que o amor que a gente aceita diz mais sobre o nosso vazio do que sobre o outro. ele nunca prometeu. mas também nunca foi embora. e essa presença que não assume. foi o que mais me corroeu. me deixei amar como quem se deixa atropelar devagar: primeiro a perna, depois a vergonha, por fim, a parte que ainda dizia “isso não é amor”. não é que eu não soubesse. é que eu já tinha aceitado morrer bonita na beira da estrada. Juliana Umbelino

⁠o amor que me fez mudar de altura não foi súbito. ele não chegou me virando do avesso.
Continuar lendo

⁠o amor que me fez mudar de altura não foi súbito. ele não chegou me virando do avesso. foi um desvio pequeno, quase distração. e, quando percebi, meus pés já não tocavam mais o mesmo chão. era amor. mas não desses que pedem manual. era amor como uma outra densidade do ar. como se respirar perto dele fosse um idioma secreto entre pulmões que não mentem. antes dele, eu vivia no nível do necessário. sabia pagar contas emocionais, fazer pactos de sobrevivência, entregar o corpo com a alma em modo avião. mas ele… me leu como quem abre um livro com as mãos limpas. sem pressa. sem medo de encontrar o que não entende. ele não me prometeu nada. mas me entregava presença como quem escreve no escuro e ainda assim acerta a grafia do meu nome. com ele, os rituais mudaram. não era mais sobre manter. era sobre descobrir como o toque pode ser pausa e o silêncio, construção. então, deixei o básico. não por orgulho, mas porque ele me lembrou que aceitar pouco é uma forma lenta de se retirar da vida. e eu queria estar inteira. quando ele chegava, o tempo esquecia da obrigação de andar em linha reta. ficávamos ali: não fazendo planos, mas modificando o que o mundo parecia ser. em vez de “estamos juntos?”, era “o que estamos inventando hoje pra sermos mais reais?”. ele me fazia rir de coisas que eu ainda não tinha perdoado. me fazia dizer “fica” sem precisar perder nada pra isso. não era conto de fadas. era conto de carne. onde a pele reconhece antes da palavra, e a palavra vem limpa. com ele, aprendi a não fugir quando tudo parecia bom. aprendi que o conforto verdadeiro não anestesia... expande. com ele, o mundo parava de pedir explicação e começava a fazer sentido só por ser habitado a dois. ele não era meu lar. mas me ensinou a morar em mim sem medo de abrir as janelas. e quando me perguntam se foi amor, não sei dizer. mas sei que desde ele, nada que me oferece o básico consegue ficar. Juliana Umbelino

⁠[sem título] manhãs sem plateia também contam. há um intervalo entre acordar e obedecer
Continuar lendo

⁠[sem título] manhãs sem plateia também contam. há um intervalo entre acordar e obedecer onde ainda não se é função, nem imagem, nem ideia mastigada de beleza. apenas corpo e respiração. o que vem depois disso é o que sustenta. não o que produziu, entregou, agradou. mas o que silenciou o impulso de se esconder no que já deu certo. há dias em que o silêncio fede. há dias em que a sombra pesa mais que o vestido. há dias em que nada encaixa. e ainda assim, não se grita. não se implode. não se performa dor. apenas se insiste. não por heroísmo. mas por uma espécie de pacto secreto com o próprio eixo. o mundo não aplaude quem não cede ao papel. mas existe um tipo de vitória que não sobe em palco: aquela que acontece quando o salto aperta e, em vez de sorrir pra foto, opta-se por tirar o sapato. ninguém repara, mas é ali que mora a liberdade. no não contar. no não provar. no gesto pequeno de sair do personagem sem pedir desculpa à narrativa. não é sobre força. é sobre não fingir mais leveza onde se carrega concreto. é sobre sentar-se reta na cadeira sem torcer o corpo pra parecer menor. é sobre encarar o espelho e não ver projeto, nem fracasso, só estrutura. quando isso acontece, quando já não se quer ser preferida, escolhida, notada quando já não se mede valor pelo reflexo quando não se escreve mais pra ser entendida mas pra não adoecer.. então sim: há paz. não como prêmio. como consequência. Juliana Umbelino

⁠espelho com faca embutida me olhei com mais atenção do que deveria.
Continuar lendo

⁠espelho com faca embutida me olhei com mais atenção do que deveria. e ele respondeu como sempre faz com quem já viu demais: sem piedade. ali estava eu. com a cara exata de quem confundiu socorro com amor, resgate com milagre, acolhimento com contrato. tinha olheiras de quem ouviu “pode contar comigo” e contou. tinha boca seca de pedir desculpas por existir assim, sem manual. me vi como quem tropeça no próprio passado e sente vergonha de ter acreditado que alguém entenderia. o espelho não mentiu, mas tampouco consolou. só repetiu em silêncio: “não foi a primeira vez que você foi deixada com as malas prontas.” e eu quis rasgar minha cara fora. não por feiura. mas por memória. lembrei do momento exato em que ela disse: “tô aqui, viu?” e foi. como todos os outros. como se minha fragilidade fosse uma ofensa. não chorei. mas a água que escorreu do chuveiro me olhava com a mesma pena que as amigas empoderadas usam pra dizer: “você é forte, mas difícil.” ou pior: “você é demais.” fiquei nua. não do corpo, mas da ilusão de pertencimento. então olhei de novo. e perguntei, sem mover os lábios: “qual é o problema comigo?” o espelho não respondeu. mas algo dentro de mim disse: o problema é achar que você precisa caber. e era isso. a mulher do reflexo não queria mais caber. não queria mais se explicar. não queria mais pagar o preço inteiro por meias verdades. ela queria uma vida onde amor não fosse esmola, e presença não viesse com nota fiscal. ela queria ser espelho, mas daqueles que deformam, só pra que o outro saiba: a imagem real dói. e por fim, sem maquiagem, sem poesia, sem trilha sonora, ela sussurrou: “quem ama, não mede. quem mede, não fica.” e o reflexo sorriu. pela primeira vez, em anos, eu me reconheci. — Juliana umbelino