Frase de Juliana Umbelino
não é solidão. é invasão consentida. um tipo de presença que não pede licença porque sabe que ainda tem a cópia da chave. • o lado esquerdo da cama cede. não por hábito. mas por teimosia do lençol. o corpo ausente continua exigindo espaço ~ e eu cedo. • a toalha continua úmida. não sei se é da última vez ou de alguma memória que escorreu quando eu não estava olhando. • o som do gelo ainda cai no copo. como se tivesse a quem servir. mas ninguém brinda comigo. nem o silêncio. • a morte não te levou. ela só desfez o contrato. ficou com o nome, com os papéis, com a parte que convence os outros de que você se foi. mas o resto ficou. os ruídos leves no corredor. o perfume que reaparece ~ sem explicação. essa mania absurda de eu ainda saber o ritmo da sua respiração mesmo sem você. • ninguém me disse que o luto fala baixo. que ele deita do meu lado e às vezes respira junto. que eu ainda viraria de lado à noite esperando um corpo que aprendeu a não chegar. • não sei se sinto falta ou se me converti naquilo que faltava. na forma da ausência, no vulto do costume, no intervalo entre a porta abrindo e ninguém entrando. • não sei mais se sinto falta. ou se já sou feita só disso. da tua falta com forma. com corpo. com tempo marcado. com trilha sonora que insiste em tocar quando não devia. • isso não é saudade. é ocupação indevida. com senha do wi-fi. com chave da porta. com espaço no armário. uma ausência que não partiu. só se instalou. e tem me mantido acordada no mesmo ponto em que você deixou de me amar. como se esse ponto fosse casa. fim. ou castigo. Juliana Umbelino • O Luto Sou Eu #Luto #Poesia #LiteraturaBrasileira #Relacionamentos #Leitura
No pensador.ai desde