Frase de Juliana Umbelino
o amor que me fez mudar de altura não foi súbito. ele não chegou me virando do avesso. foi um desvio pequeno, quase distração. e, quando percebi, meus pés já não tocavam mais o mesmo chão. era amor. mas não desses que pedem manual. era amor como uma outra densidade do ar. como se respirar perto dele fosse um idioma secreto entre pulmões que não mentem. antes dele, eu vivia no nível do necessário. sabia pagar contas emocionais, fazer pactos de sobrevivência, entregar o corpo com a alma em modo avião. mas ele… me leu como quem abre um livro com as mãos limpas. sem pressa. sem medo de encontrar o que não entende. ele não me prometeu nada. mas me entregava presença como quem escreve no escuro e ainda assim acerta a grafia do meu nome. com ele, os rituais mudaram. não era mais sobre manter. era sobre descobrir como o toque pode ser pausa e o silêncio, construção. então, deixei o básico. não por orgulho, mas porque ele me lembrou que aceitar pouco é uma forma lenta de se retirar da vida. e eu queria estar inteira. quando ele chegava, o tempo esquecia da obrigação de andar em linha reta. ficávamos ali: não fazendo planos, mas modificando o que o mundo parecia ser. em vez de “estamos juntos?”, era “o que estamos inventando hoje pra sermos mais reais?”. ele me fazia rir de coisas que eu ainda não tinha perdoado. me fazia dizer “fica” sem precisar perder nada pra isso. não era conto de fadas. era conto de carne. onde a pele reconhece antes da palavra, e a palavra vem limpa. com ele, aprendi a não fugir quando tudo parecia bom. aprendi que o conforto verdadeiro não anestesia... expande. com ele, o mundo parava de pedir explicação e começava a fazer sentido só por ser habitado a dois. ele não era meu lar. mas me ensinou a morar em mim sem medo de abrir as janelas. e quando me perguntam se foi amor, não sei dizer. mas sei que desde ele, nada que me oferece o básico consegue ficar. Juliana Umbelino
No pensador.ai desde