Frase de Juliana Umbelino
o amor que me tirou da categoria de sobrevivente aconteceu sem anúncio. um gesto despretensioso e, de repente, eu estava rindo. rindo de verdade! sem o dente de trás doendo, sem a pressa de acabar logo. e eu que já tinha ensaiado tantas fugas, fiquei. não por esperança. era por vergonha de não saber como recusar um afeto que não me pedia nada. ele não me fez voar. mas, pela primeira vez, meus joelhos não tremiam por medo. com ele, eu parei de ser uma mulher que espera. e comecei a ser uma mulher que respira. em voz alta. com respiração feia mesmo. daquelas que ninguém edita pra caber num story. ele olhava pra mim como quem diz: “é, você tem partes ruins. que bom.” e eu fui abrindo gavetas que nem lembrava ter. fui pendurando as armaduras. fui perdendo o medo de ser tocada sem que isso significasse contrato ou colapso. tudo nele era verdade que não doía. e, por isso, doía um pouco. porque eu aprendi a desconfiar de qualquer lugar onde meu nome não viesse com grito. com ele, o amor não era destino, era desvio. uma linha torta onde eu quis morar um tempo sem precisar arrumar as malas. e foi ali, entre um gesto idiota e um silêncio sincero, que eu entendi: não era sobre me completar. era sobre parar de me mutilar pra caber nos amores anteriores. ele me quis inteira, mesmo com os ossos fora do lugar. e isso, pra mim, foi o suficiente pra nunca mais aceitar o suficiente. Juliana Umbelino
No pensador.ai desde