Hoje eu fechei a porta não porque deixou de doer, mas porque doía demais mantê-la aberta.
Frases de Isadora Bastos
9 frases
3 de maio Hoje, finalmente, colhi os teus restos dos cantos onde nunca criaste raízes.
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3 de maio Hoje, finalmente, colhi os teus restos dos cantos onde nunca criaste raízes. Não houve o estalo súbito da raiva, apenas o peso manso da exaustão: o cansaço de mendigar afetos em migalhas, de te buscar no avesso de palavras vãs, e de habitar, precária, esse intervalo entre a promessa que vinha e o rastro que nunca ficava. Fechei a porta. Não por falta de sangue ou de ferida, mas porque o vão aberto era um abismo que me roubava o chão. Apaguei os teus rastros como quem limpa o vidro de uma estrada que findou em muro. Agora, há um silêncio novo sob as costelas. Não é o vácuo da perda, mas o ruído surdo de quem se reorganiza. Pois soltar não é o eclipse da memória, é a consciência tardia de que as mãos já não suportam o peso de um fantasma. Se um dia o meu vazio te alcançar, que não te doa a falta. Mas que te espante o fato de que, entre o teu nada e o meu tudo, eu finalmente me escolhi.
Vão Livre Eu quis a permanência. Houve em mim um esforço mudo,
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Vão Livre Eu quis a permanência. Houve em mim um esforço mudo, uma arquitetura de silêncios para tentar habitar o teu mundo e encontrar pouso entre tuas certezas. Mas eu era areia escorrendo entre dedos: uma presença translúcida, leve o suficiente para não ser rastro, apenas um sopro que atravessa os teus dias sem mover uma cortina sequer. Eu possuía a voz contida, mas o sentir era um oceano em fúria. E, no entanto, nada em ti se deixava tocar. Fui me acomodando nas bordas, nos recônditos onde a luz desiste, tornando-me sombra de mim mesma para não perturbar o teu desenho. Até que o corpo entendeu a lição: não era a vontade que faltava, era o chão que não existia. Compreendi, enfim, que o amor não é poda. E ninguém sobrevive onde o preço do abrigo é a própria anulação. Ninguém se demora onde é preciso deixar de ser para poder estar.
O Despiste do Porto Ontem, finalmente, abri as mãos, Não por coragem ou por desamor,
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O Despiste do Porto Ontem, finalmente, abri as mãos, Não por coragem ou por desamor, Mas pelo peso dos vãos e dos nãos, Pelo cansaço de carregar o que é dor. Soltei-te sem a leveza da brisa, Com o tremor de quem se improvisa. Doeu a ausência do que não nasceu, A herança de um plano que mal floresceu; Pois em meu peito havia um altar, Erguido ao hábito de te esperar, Um vício mudo de ler teus sinais, Em ventos que já não sopram mais. O abismo que hoje em mim se faz Não é teu vulto, nem tua paz, É o naufrágio do que imaginei, Da ponte de vidro que eu mesmo tracei. Fiz o que é justo, o que o tempo ordena, Mas a retitude também me condena. Soltar não é o fim do sentimento, É apenas cessar o próprio tormento; É decidir, em um gesto profundo, Não mais se perder no erro do mundo. Se amanhã a dor se fizer pequena, Hoje a lição ainda é severa e plena: Aprendo a existir, em silêncio e lugar, Sem os meus olhos terem que te procurar.
O Alento da Ausência Outrora, eu era vigília e fresta, ansiando o teu olhar como quem acende a luz
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O Alento da Ausência Outrora, eu era vigília e fresta, ansiando o teu olhar como quem acende a luz no cais de uma espera deserta, suplicando ao horizonte que te trouxesse de volta. Hoje, as sombras me bastam. Prefiro o abismo desse silêncio inteiro à tua presença fragmentada, que não habita apenas visita. Pois o que oscila entre o vir e o partir não oferece abrigo; apenas turva o cristal da memória. Ver-te agora, ainda que sob o véu da distância, não é bálsamo, mas interrogação. Cansou-me o fardo dos intervalos, os sinais que desbotam antes de se tornarem rastro, esses quase-encontros que são, em verdade, desertos. Se o teu destino é o não-estar, que a tua ausência seja, enfim, absoluta e limpa. Sem o eco de passos breves, sem o toque fantasma que tateia mas não sustenta. Há uma quietude austera em renunciar à espera. Descubro, no vagar dos dias, a lição mais difícil: que o esquecimento, por vezes, é a forma mais profunda de zelar por si.
O nada não é o oposto do tudo; é o eco de uma presença que se cansou de esperar.
O Inventário do Invisível Talvez não tenhas me perdido num golpe, num corte súbito de adaga ou de vontade.
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O Inventário do Invisível Talvez não tenhas me perdido num golpe, num corte súbito de adaga ou de vontade. Foi, antes, um desatar de nós mansos, um esquecer-se de ser por pura distração da memória. Não houve o estrondo da renúncia, apenas o passo que, de tanto não voltar, esqueceu o rastro do caminho. Havia, outrora, um vulto, um breve estio, um pólen de mim que pousava em teus dias; uma cintilação de que eu, de algum modo, atravessava o teu horizonte. Hoje, o que resta é o vácuo, essa arquitetura muda. E o silêncio não é ausência de som, é o peso de um espaço que desistiu de ser preenchido. Talvez não tenha faltado querer, talvez tenha sobrado tempo, esse rio voraz que carrega as margens que não são de pedra. E eu, náufrago de um cais que nunca se firmou, procuro o instante preciso da minha transparência: quando foi que meus passos deixaram de ecoar no teu chão? Ou terá sido minha alma, em seu delírio, que desenhou cidades onde havia apenas deserto?
Verso de Sombra e Luz Cala-se o mundo, descansa o olhar, No tom da cinza, me deixo encontrar.
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Verso de Sombra e Luz Cala-se o mundo, descansa o olhar, No tom da cinza, me deixo encontrar. Não preciso de cores para transbordar, Pois no preto e no branco, a alma sabe falar. Meus traços são versos, contornos da história, Guardados no tempo, em viva memória. Sem luz excessiva, mas cheia de glória, Sou eu, em silêncio, minha própria vitória.
Quando a pessoa não consegue alcançar ou compreender a profundidade de alguém, ela tenta rebaixar essa profundidade para se sentir confortável na própria superfície.