Frase de Isadora Bastos
O Despiste do Porto Ontem, finalmente, abri as mãos, Não por coragem ou por desamor, Mas pelo peso dos vãos e dos nãos, Pelo cansaço de carregar o que é dor. Soltei-te sem a leveza da brisa, Com o tremor de quem se improvisa. Doeu a ausência do que não nasceu, A herança de um plano que mal floresceu; Pois em meu peito havia um altar, Erguido ao hábito de te esperar, Um vício mudo de ler teus sinais, Em ventos que já não sopram mais. O abismo que hoje em mim se faz Não é teu vulto, nem tua paz, É o naufrágio do que imaginei, Da ponte de vidro que eu mesmo tracei. Fiz o que é justo, o que o tempo ordena, Mas a retitude também me condena. Soltar não é o fim do sentimento, É apenas cessar o próprio tormento; É decidir, em um gesto profundo, Não mais se perder no erro do mundo. Se amanhã a dor se fizer pequena, Hoje a lição ainda é severa e plena: Aprendo a existir, em silêncio e lugar, Sem os meus olhos terem que te procurar.
No pensador.ai desde