Frase de Isadora Bastos
3 de maio Hoje, finalmente, colhi os teus restos dos cantos onde nunca criaste raízes. Não houve o estalo súbito da raiva, apenas o peso manso da exaustão: o cansaço de mendigar afetos em migalhas, de te buscar no avesso de palavras vãs, e de habitar, precária, esse intervalo entre a promessa que vinha e o rastro que nunca ficava. Fechei a porta. Não por falta de sangue ou de ferida, mas porque o vão aberto era um abismo que me roubava o chão. Apaguei os teus rastros como quem limpa o vidro de uma estrada que findou em muro. Agora, há um silêncio novo sob as costelas. Não é o vácuo da perda, mas o ruído surdo de quem se reorganiza. Pois soltar não é o eclipse da memória, é a consciência tardia de que as mãos já não suportam o peso de um fantasma. Se um dia o meu vazio te alcançar, que não te doa a falta. Mas que te espante o fato de que, entre o teu nada e o meu tudo, eu finalmente me escolhi.
No pensador.ai desde