Frase de Carlos de Castro
A MAÇÃ Era outono. Havia uma maçã no chão, Caída da árvore cinquentenária. O homem, esfomeado, vergou-se No ranger dos ossos castigados Por longos jejuns lazarentos, De uma vida de naufragados Num barco de pobres assinalados, Pelas misérias dos tempos. Tinha já a podre maçã O bicho que a carcomia, Fruto de macieira arraçada Também velha e corcovada, Triste por não ser sã, Nos ramos em agonia. Prestes a pegá-la do chão Pousa um passarito aflito E o homem com prontidão Diz ao pássaro com emoção: Come, come tudo sem parar, Pois assim me capacito Que minha fome pode esperar. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 11-10-2023)
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