Fujo sempre das luzes e altifalantes anunciadores de grandes gestos. Prefiro ficar pelos pequenos atos, mas de intervenção séria no terreno.
Frases de Carlos de Castro
401 frases
A poesia não sacia a fome de estômago, mas alimenta a alma e o espírito àqueles que os tiverem ainda.
Só deixarei fugir a minha derradeira esperança na vida, instantes antes de morrer.
ESPINHO-MAR PÃO E ÀS VEZES MAR CÃO Como eu te amo, Espinho
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ESPINHO-MAR PÃO E ÀS VEZES MAR CÃO Como eu te amo, Espinho Flor do mar A brotar Num lençol de verde linho Nesta minha inquietude Cravada na solicitude Daquele botar Do barco ao mar A querer buscar Algum peixe graúdo Que os deuses Por vezes, Só te dão Em ração De pão Miúdo. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 13-04-2023)
A poesia, é como um farol que ilumina na escuridão dos tempos.
PÁSCOA SEM PASSAGEM Foi Páscoa. Só dei por ela e pela aragem,
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PÁSCOA SEM PASSAGEM Foi Páscoa. Só dei por ela e pela aragem, Na singeleza do nome passagem, Só mesmo, sem mais, Neste mundo dos mortais. O sol, estava tão triste, O vento, sem ação, E se a memória resiste Caía uma melancolia Na cruz erguida, Ferida, do meu coração. Páscoa, para mim, Não é doce nem salgada, É assim Como quase tudo do nada Em desprender de vícios E estrupícios Na minha fé amansada. Que interessa Páscoa Se na passagem Da mensagem, O mundo vive em clausura Mesmo sem grades, Nestas minhas saudades De uma Páscoa pura? (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 11-04-2023)
ALMA SECA Que interessa eu dizer E ao mundo revelar,
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ALMA SECA Que interessa eu dizer E ao mundo revelar, Mostrar O que me vai na alma, Se não é isso que acalma A minha sede de viver? Se eu confessasse o que sinto, Mesmo na pura verdade, Dir-me-iam por bondade, Ou por maldade - Que minto! (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 06-04-2023)
PENAS MINHAS Levem-me ao firmamento infindo Ó asas penas das penas minhas,
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PENAS MINHAS Levem-me ao firmamento infindo Ó asas penas das penas minhas, Façam-me voar pelas alminhas, Aliviem a dor que vou carpindo. Eu queria ver lá dos altos siderais Loucas multidões cantando e rindo No mundo louco e atroz, curtindo, A miséria e sina de alguns mortais. Ó negro penar neste tribunal penal, Ó asas paradas da minha existência Penante, demais penada, infernal. Não me elevais agora aos céus? Também não preciso, paciência: Um dia eu voarei livre até Deus. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever em 11-01-2024)
A SACOLA DA SAUDADE Era um peregrino de pés a caminho De um santuário que ele inventara
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A SACOLA DA SAUDADE Era um peregrino de pés a caminho De um santuário que ele inventara Em trovoadas da vida dura que achara, Agora em destino de copos de vinho. Carregava na sacola o seu tesouro Ganho em tantas horas de penar, Não eram pérolas, jóias nem ouro, Somente imagens antigas do seu amar. E lá ia o vulto cambaleando na estrada, Falando sozinho num dialeto seu, Que só o entendiam as aves do céu. Às tantas, exausto, na berma parou, Tirou da sacola o seu tesouro e chorou, Beijando a imagem da mulher amada. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 09-01-2024)
Mais vale parar para pensar, que pensar em parar.
TALVEZ UM POEMA MEU DOS MAIS CURTOS Para mim, não há ano novo Civil, religioso ou profano,
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TALVEZ UM POEMA MEU DOS MAIS CURTOS Para mim, não há ano novo Civil, religioso ou profano, Quando a fome ataca o povo No pântano em que me movo, Neste mundo demais insano. Quem elaborou o plano Das horas e do calendário Que rege o mundo, afinal? Dizem que foi um mortal Quiçá um gregoriano, Papa, de certeza com papa Garantida todo o ano. Vieram os contadores dos tempos Em épocas bem mais remotas, Babilónias, Egípcias e Chinesas E para maiores certezas Perguntem lá ao Hiparco, O grego que não Aristarco, Nas matemáticas catedrático, Se há justiça no relógio Que marca sem sortilégio Eu ter de me levantar, Às três e meia da matina Há trinta anos volvidos, Matadores dos meus sentidos Feita já minha doutrina. Pobre o povo que continua Sem ver o sol nem a lua, Em dias e noites sem nevoeiro. Não há cesto sem cesteiro, Um dia, irá ser o primeiro Da revolta Presa ou solta, Do teu ano, por inteiro. Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 30-12-2023)
ANO NOVO BEBEDEIRA VELHA Nada de novo, após o velho. Esta história é uma charrua
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ANO NOVO BEBEDEIRA VELHA Nada de novo, após o velho. Esta história é uma charrua Que revolve a terra pelos ares E tantos mares, À procura de outros semeares Nos plantares, Consoante a lua. Tudo é incerto, na certeza Das águas brotadas Nas correntes dos sentidos, Quando acordamos palhaços Na tesura dos fluídos Naquela expulsão dos mijos Pelos álcoois ingeridos Na madrugada da manhã, Em vinganças Sem esperanças No elã. É aí que pensas nas parecenças E dos vícios Que foram os suplícios De gentes do lado de lá. Vá, Sossega e toma um chá Que te limpe Das infusões da vide E pendura a cabra num cabide. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 29-12-2023)
NATAL DOS TEMPOS Ele teve sempre aquela mania Talvez até doentia,
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NATAL DOS TEMPOS Ele teve sempre aquela mania Talvez até doentia, Uma espécie de nostalgia, Quase tara silenciosa De vestir de cor de rosa, O Natal da meninice. E naquela sua tontice: Saudade da lareira da avó, As botas velhas engraxadas Com cheiros a anilinas No pial limpo do pó, Simples, sem coisas finas, À espera do Deus Menino. Tudo era genuíno Naquela noite de breu, Duas meninas e eu... Que a outra ainda não nasceu... Noite longa em palha nova Dos colchões de dormir Na cama de ferro velhinha, As fantasias à prova Num sono que não quer vir. Sonhavam aquele brinquedo Ainda que fosse de pau, Um barquinho ou uma nau, Talvez uma bola de pano Bonecas de faces rosadas, Como as fadas. Batiam as badaladas Da primeira missa do dia, Pé ante pé, em segredo, Naquela manhã tão fria, Lá vão eles ao pial... Nas botas, algo ia mal, Nenhum brinquedo de pau, Somente um magro e fatal Rabinho de bacalhau. E até ficaram contentes, Sem chorarem pelos presentes, Que a vida é feita de nadas... Restavam as rabanadas, O que já não era mau. (Carlos De Castro in Há Um Livro Por Escrever em 21-12-2023)
A MENINA E O GLOBO DE NATAL Era véspera do evento Do Natal, à última hora.
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A MENINA E O GLOBO DE NATAL Era véspera do evento Do Natal, à última hora. A menina de sete ou oito Anos, pobre mas muito mimada, Com o seu pedido afoito, Disse ao pai duma assentada: - Quero um mundo iluminado! E o pai lá foi animado, Com alguém mesmo na hora, À procura de um globo Mais redondo que um ovo E com luz de dentro pra fora. Só na cidade o achou, Depois de tanta demora, Alguém então embrulhou Tal presente de Natal Com luz de dentro pra fora, Que parecia um arraial. A menina cresceu, Vieram os quarenta e tais... O globo resistia ao pó, Tão só, Sem lhe acenderem a luz Que ilumina os mortais, Num brilho que até seduz. É outro agora o mundo dela, Não o atirou pela janela, Nem o encerrou num nicho, Apenas e só por capricho E sem mais chus nem bus, Despachou-o para o lixo... ...E ele ainda dava luz! (Carlos De Castro, In Há Um Livro Por Escrever, em 14-12-2023)
Quando uma falsa luz te quer cegar, fecha os olhos e ela apagar-se-á.
NATAL ÍNTIMO E ÚNICO O Homem Cristo, O Jesus,
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NATAL ÍNTIMO E ÚNICO O Homem Cristo, O Jesus, É a misteriosa voz, Falante em alguns de nós, Num misto De sensações, Que agora até nos seduz Desde o nascimento à cruz, Conforme as disposições. Que ninguém nos leve a mal Nas coisas dos sentimentos, A vida rebenta em eventos, Sacros ó profanos é igual, Por mim, é sempre Natal. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 12-12-2023)
NATAL DA REVOLUÇÃO Natal. Que revolução Vai dentro de mim, agora:
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NATAL DA REVOLUÇÃO Natal. Que revolução Vai dentro de mim, agora: Porque não veio o nevão Da neve cinzenta de outrora? Falo pelo país de mim, Gente pobre e tão feliz, De ser pobre e mesmo assim, Numa esperança sem raiz. Mesmo sem o tal nevão, Do frio da nostalgia, Eu prefiro ser chorão, Que profeta da idolatria. Haverá Natal de conceito Sem aquela representação Dum presépio tosco e feito, Pela minha própria mão? (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 09-12-2023)
DORES Dói-me uma perna e um braço, Dores cruéis de suportar,
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DORES Dói-me uma perna e um braço, Dores cruéis de suportar, Chegam ao cérebro num passo Sem sequer protocolar. Dói-me o estômago e um rim E torço-me como a serpente, Em dores que gritam em mim Como um animal demente. Dói-me o coração no pico Das emoções escaldantes, Dói-me a alma quando fico Sem dores no corpo gritantes. (Carlos De Castro, In Há Um Livro Por Escrever, em 26-11-2023)
CASTANHAS Aqui, chegaram em tempos De outros tempos...
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CASTANHAS Aqui, chegaram em tempos De outros tempos... Talvez omissos Nem derriços, Mas com muitos ouriços, As castanhas De raças tamanhas, Pequenas ou alentadas, Agora cozidas, fritas ou assadas, Em manjares de muitos nobres. Em tempos iludia a fome aos pobres, À míngua de mais alimento, De melhor e gostoso sustento, Numa vida de amargura. É verdade, juro pela lua: Eu perdi o meu juízo E mais os dentes do sizo, A trincar castanha nua. Crua. (Carlos De Castro, In Há Um Livro Por Escrever, em 27-11-2023)
SAUDADES DE JÚPITER Vivi tantos anos algures, Num telúrico planeta
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SAUDADES DE JÚPITER Vivi tantos anos algures, Num telúrico planeta Chamado Terra... Fugi para Júpiter um mês; Esqueci o telúrico E abracei o gasoso, Num gozo Sulfúrico. Lá voltarei um dia, talvez … Deixou-me saudades O que Júpiter encerra, Maior vapor E muito mais amor, Que na própria Terra, De tantas necessidades. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 27-11-2023)
ESPERANÇA E VIDA Ando por cá, pela esperança, Já porque a vida
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ESPERANÇA E VIDA Ando por cá, pela esperança, Já porque a vida Prometida, Foi-se esvaindo Desde o passado findo, Rumo a um sonho de mudança. Um poeta jamais descansa, Sempre que descreve as dores Que o espetam como uma lança, No peito dos seus fervores. Foi uma vida de dissabores, De desgostos e alguns amores, Num nascimento talhado Debaixo dum pobre telhado, Numa noite fria e breve E dizem que caía neve Gélida, branca e borralheira, Nas mãos da minha parteira. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 26-11-2023)
Lealdade, é a palavra maldita para os trapaceiros.
O HOMEM E O URSO Gostam de me chamar o velho, Por este corpo desfigurado;
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O HOMEM E O URSO Gostam de me chamar o velho, Por este corpo desfigurado; Sei que inflamo por capricho Como urso branco sem brado, Pelo destino de ser bicho. Sou aquele pequeno grão De areia, Plebeia, Nesta teia de ilusão, Quase no fim do percurso. Então em último recurso E em termos de simpatia, Prefiro mil vezes ser urso, Que velho por analogia. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 18-11-2023)
A honestidade, é o suplício dos desonestos.