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Frases de Carlos de Castro

401 frases

⁠REFEIÇÃO Jamais te convidaria... Por certo, estás habituado
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⁠REFEIÇÃO Jamais te convidaria... Por certo, estás habituado A comeres mais fartos, Feitos com amores E sabores De repastos Em outras mesas De mais certezas Que a minha, que se vai E esvai em lavagens porcinas Feitas comeres Sem temperos e saberes Por gentes sem disciplinas. E neste comer só de olho, Há quem só coma restolho Que nos deixam abandonados Como dejetos de cães votados Ao desprezo Em mesas tristes, já fadadas Para servir ração a um preso. Sinais puros de vinganças Todavia, sem esperanças... Porque eu sou pedra Sou esta dura vida, Sofrida, Senhor, Que és o tutor Dos meus atos. Aqui, comem melhor os gatos. Muito gostaria, Mas pelos factos, Jamais te convidaria. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 28-03-2023)

⁠OBSOLESCÊNCIA Por antiquado me achar, Deixei-me ir
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⁠OBSOLESCÊNCIA Por antiquado me achar, Deixei-me ir E deitei-me ao rio Frio Dos frustrados, Por não saber amar. O ir, é quase uma ciência De esquecer o que nunca é de vir, Como obsolescência De ao defecar, sentir. O rir, Pela grossa asneira De querer meter Sem jeito ou maneira Um parafuso Difuso, Numa racha estreita Feita Mártir sem saber O motivo Do seu castigo, Por sofrer Em grito amargo, O não ter Em si, um largo Mais largo. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 24-03-2023)

⁠VAMOS Anda, linda, Vamos por aí,
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⁠VAMOS Anda, linda, Vamos por aí, Tu comigo e eu sem ti, Mais ou menos lado a lado, Mostrar as cores Das flores Que tens E reténs Nos anelos Das pétalas dos teus cabelos. Vamos descobrir o mistério Flor linda Do meu refrigério, Ainda Segredo do meu ermitério. Encosta-te a mim, Na comunhão do cheiro Inebriante, Contagiante, Que têm as flores Dos meus amores, No jardim do cemitério. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 23-03-2023)

⁠VAZANTE O rio. O Douro.
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⁠VAZANTE O rio. O Douro. O meu tesouro. Está agora E por hora, Na vazante. Nem se nota por instante, Na ribeira Desta praça primeira De gritos E de apitos Aflitos, Nas gargantas De tantos pregões Das mulheres de colhões. De flores vindas do horto À falta de melhores Neste granítico Porto De abrigo Que dá castigo Para quem não torcer Como eu torço Com a couve do meu troço. (Carlos De Castro in Há Um Livro Por Escrever, em 22-03-2023)

⁠⁠SOL É essa estrela anã, amarela, Que está sempre nascida
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⁠⁠SOL É essa estrela anã, amarela, Que está sempre nascida Na vida E por ela No mundo redondo, Que logo pela manhã Quer se veja ou não, Aquece, O coração, Com estrondo, Quando este desfalece Por suposição. É o sol, Do nosso dó, Da popa à ré, E mais do mi Em fá, Do lá E de cá, De mim Por si, Mas, teimosamente, Brilhantemente, Sol, Sempre presente! (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 21-03-2023)

TRISTEZA ⁠Hoje, não estou triste. De que vale a tristeza
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TRISTEZA ⁠Hoje, não estou triste. De que vale a tristeza Se ela já existe Na correnteza Da vida em riste? Vá, gostariam, Preferiam, Que eu fosse Homem de ardileza? De que vale a tristeza Se a vida é certeza De uma incerteza Atroz? Por nós E por mim, Ainda assim E pelo meu fadário Eu viro a tristeza ao contrário, E antecipo-lhe o fim. E se ela me perseguir No cimo do meu calvário: Vou-me rir Tanto, tanto, Como se fosse um pranto Tornado falsário. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 19-03-2023)

⁠O CRISTO E EU MAIS OUTRO Só há tempos confirmei Em êxtase, no cimo de um outeiro,
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⁠O CRISTO E EU MAIS OUTRO Só há tempos confirmei Em êxtase, no cimo de um outeiro, Que o Cristo nasceu na mesma terra Que eu, quanto sei, Se a memória não me erra. Numa rude manjedoura, Lá no cimo do "monte do bicho", Que em pequeno e por capricho, Lhe construi no presépio de madeira, Com mãos de artista de primeira, Em recordação duradoura. Já homens, eu e ele, ainda sem o outro, Sentados à sombra dos pinheirais, Imaginávamos o mundo dos mortais Sem penas, nem dores e só amores reais... .................. Depois, vieram algozes e levaram-nos Sem julgamento, ao suplício final. Chicotearam-nos, Ridicularizaram-nos, E cruxificaram-nos no alto do " monte do bicho" Também por capricho. Na pressa de completar o quadro: Foram então buscar o "Gestas", o mau ladrão. Deram-me o nome de "Dimas" o ladrão bom. E ao Cristo, não deram nome, não. Ele não precisava de graça, pois já nasceu Cristo E posto isto, Ele ficou na cruz ao meio. Eu, Dimas, um dos ladrões, fiquei-lhe à direita E o Gestas, o bebedolas da aldeia, mais a torto. Porque ele gostava de morrer, Dizia E insistia: Para ficar vivo, depois de morto! (Carlos De Castro in Há Um Livro Por Escrever, em 15-03-2023

⁠AVÓ ESPERA Eu já me ia esquecendo Na voracidade do tempo
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⁠AVÓ ESPERA Eu já me ia esquecendo Na voracidade do tempo De te lembrar, estremecendo, Neste nevoeiro tão tenso. Tudo o que pediste, eu cumpri: "quando fosses velhinha, Que te desse ao menos, uma sopinha. E eu dei-ta e muito mais Que o que me pedias, avó. Fui teu confidente, Tua companhia no só, Teu neto, sempre de frente. "Põe-me, quando eu morrer, Florzinhas no meu jardim, Uma luz para eu ver, Quem é que gosta de mim..." Disso, avó, não me esqueci E tu sabes bem que não, Os que sempre gostam de ti, São flores vivas em botão. (Carlos De Castro, in Há um Livro Por Escrever, em 15-03-2023)

⁠CHORAR PELOS PECADOS DO MUNDO Tantas lágrimas escorriam, Como sangue fluindo, se esvaíam
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⁠CHORAR PELOS PECADOS DO MUNDO Tantas lágrimas escorriam, Como sangue fluindo, se esvaíam Dos olhos dum puto sentado à beira de uma estrada Na minha aldeia nordestina industrial safada. Não, não era África, nem outro continente, nada... Era no Portugal presente, pretérito e escuro. Havia ali uma fronteira, sem muro. Ah, nessa minha triste caminhada, Vi também um velho a acariciar a estrada Há tanto tempo por ele estudada Para fugir a um presente sem futuro. Cansado, sentei-me numa pedra da berma Dessa estrada também minha de estaferma, Para sentir as lágrimas do puto a chorar. Quando meti o choro dele dentro de mim, Inferi e senti com total e mística emoção, Que quanto mais aquele puto chorava, Mais eu, em dobro sentia enfim Que o meu pobre e louco coração, De ardor, de compaixão, rebentava. (Carlos De Castro, In Há Um Livro Por Escrever, em 21-08-2023)

PRAIA DA NOSTALGIA ⁠Só te vejo agora pelas tecnologias Que me mostram marés cheias
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PRAIA DA NOSTALGIA ⁠Só te vejo agora pelas tecnologias Que me mostram marés cheias E outras tantas coisas vazias Num vazio tão triste de ideias. Corpos pequeninos na praia distante, Que já foi só nossa nas noites frias De gente comigo, na areia escaldante. Que saudades quando nela eu indo Na cíclica maré da baixa-mar, Tanta areia havia para levantar Milhões de castelos para albergar Os amantes dos amores proibidos. Agora, após longos anos idos, Ainda te amo, mas de forma estranha, Praia de areia do mar dos meus sentidos, Eras a menina dos olhos meus, Quando a tua beleza era tão tamanha Que até um dia foste pintada por Deus. (Carlos De Castro, In Há Um Livro Por Escrever)

⁠CORRE MEU VELHO Anda, poeta velho! Escarcavelado!
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⁠CORRE MEU VELHO Anda, poeta velho! Escarcavelado! Escaravelho! Pingarelho desarmado De olhos cerados, Magoados, Galga, meu velho! Secaram-te as lágrimas, Brotaram-te as águas No leito do teu rio, Tão vazio E tão cheio de mágoas. Não durmas mais a sesta. Caminha, Noutro caminho E foge de mansinho Da prisão desse lar Em que te querem encerrar, Sem te ouvir Se queres ficar ou desistir De pensares, De sonhares... Foge! Foge! Corre, meu velho! (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 10-08-2023)

⁠ ELA Café e tasca na aldeia.
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⁠ ELA Café e tasca na aldeia. Era sábado de cálido verão. A noite teimava na ideia De não querer o escuro Como um muro Que lhe tapasse a visão. O poeta entrou e nada comunicou. De pé, observou uma pintura naif Escarrapachada Na parede do café triste E imaginou E mais não disse Mas sempre observando. Eram só dois, para ele olhando. Um ébrio, de pé e uma mulher sentada Que dali a nada veio ter com ele, eu, A perguntar se gostava da pintura Da parede triste e abandonada. Na conversa dela com o poeta, Este correspondeu pela certa. Falaram, cultivaram e quiçá divagaram... No final, despediram-se, Prometeram ficar amigos Nestas coisas das redes sem trapézio, As sociais redes de perigos Que só vingam no mistério De ser pessoa com mais artigos. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 07-08-2023)

⁠OLHOS MORTOS Quando te beijei naquela manhã, Trazias nos olhos um regato de água,
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⁠OLHOS MORTOS Quando te beijei naquela manhã, Trazias nos olhos um regato de água, Seco. Estéril. Forjado. Senti em ti rios de desprezo Subtis, Hostis, A correr sem destino, Mal cheirosos, Pelas margens do teu rosto, Dos teus olhos covardes, mortos, Por não olharem os meus. Na sede que eu tinha da tua água, Nem reparei que a tua estudada mágoa Se misturava com o PH da tua acidez, Sempre que queres magoar quem te fez. Minha querida estátua que já és Para mim tão absorta e estarrecida, Nas tuas gélidas palavras sem sortida, Um ser que não conheço nem de frente Nem já de revés, Eu que fui o obreiro da tua própria vida. Um pai, já dizem não valer de nada Agora neste mundo podre, sem guarida, Houvera tempo de vida atrás voltada Que nunca eu te geraria, nem cerzida. (Carlos De Castro, in Há um Livro Por Escrever, em 31-07-2023)

A FLOR AMARELA ⁠Veio um passarinho Feito abelha
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A FLOR AMARELA ⁠Veio um passarinho Feito abelha E deixou cair uma semente Nos interstícios das pedras negras Da velhinha calçada... Brotou aí uma pobre flor, Sem calor, Nem carinho, Nem nada... Tinha a cor amarela, Tão singela E pura De quem nasce ao deus-dará, Pobrezinho... Nunca pediu água a ninguém... Quando vinha a chuva tarde, porém, Dava-lhe vigor, Em rega de amor, Numas gotas de magia Que a enchiam de alegria. Veio um sapato e calcou-a. Por milagre ou sorte, Ela venceu a morte E no outro dia Lá estava ela, A florzinha amarela Fresca e viçosa, Como alface graciosa. Em frente, nos jardins dos ricos, As flores ricas morreram todas... Por serem muito mimosas. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 29-07-2023)

OS ABUTRES Voluptuavam e voavam em rasantes de dia, Como morcegos errantes na noite escura...
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OS ABUTRES Voluptuavam e voavam em rasantes de dia, Como morcegos errantes na noite escura... Pareciam falos sem testículos por companhia, A poisarem no largo da minha freguesia, Como aviões sem asas ou abreviatura. Tinham enfiadas roupas de boa cagança. Aquela tentação de pelo hábito conquistar O que o monge não conseguiu na esperança De querer despi-lo, para um bom defecar. Purguem-se, dejetem rijo ou de soltura, vilanagem! Ó abutres ceguinhos, cofres podres com dinheiro, Prefiro uma tosca foto do demónio sem imagem, Que sentir o execrável perfume do vosso cheiro! (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 30-07-2023)

⁠ RISO DA MANHÃ Se começo a rir, logo pela manhã...
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⁠ RISO DA MANHÃ Se começo a rir, logo pela manhã... Algo, em mim, toca a rebate, Ou rameira de vinho verde, Mesmo sem sede, Ou então, vai ser mosca que mate... Desde aí, é que eu desatino, Sem decoro, Sem remição até em choro, Como sentença punitiva Mas nunca assertiva Que me seduz em pensar, A meditar, Por que jeito e destino, Quando se começa a rir pela manhã, Ao toque de um sino, Chorar-se-á, Quase sempre pela noite, Com açoite, Como se eu fosse sempre menino. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 25-07-2023)

⁠PROGENITURA QUIÇÁ Pai, é barco É vela,
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⁠PROGENITURA QUIÇÁ Pai, é barco É vela, É uma caravela no mar Manso Ou bravo, Lutando contra a maré E disputando com a ralé. É aquela flor chamada cravo Que nunca renega a fé Quando o barco ameaça partir-se Nas ondas revoltas, Tortas, Da vida. Então aí, a mãe ao sentir-se, Toma conta do leme E não treme Nunca no torto Até o barco amainar, Serenar, Em bom porto, Ainda que isso lhe vá custar Em contrapartida, Alguns anos a menos da sua própria vida. (Carlos De Castro, em Há Um Livro Por Escrever, em 15-07-2023)

TRÂNSITO NA PASSADEIRA DA MORTE ⁠Ensinaram-me a andar, Atento e devagar,
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TRÂNSITO NA PASSADEIRA DA MORTE ⁠Ensinaram-me a andar, Atento e devagar, Para não ser atropelado Nem atropelar Quem se cruze no fado Comigo, Mesmo em único sentido Na vida. Senhor, com tanta brida, Nem se respeitam sinais Nem prioridades, Tantos mortais senhores de nada Que querem fazer da estrada A coutada dos seus ruins ideais! Têm cara de demónio O único prazer património Que querem auferir na vida, É matar gente já sofrida. Ontem, pela manhãzinha, O sol raiava pela fresquinha E eu meti pés ao caminho Para aspirar a vida de mansinho. Alguém em potente máquina de matar Quem na frente deles se atravessar, Me ia levando inutilmente pelo ar, Como já morto e inerte passarinho. Salvou-me alguém lá dos céus, Que mesmo sem ouvir os brados meus, Deu-me a força de me atirar à valeta Em voo rasante, como em tempos, De tantos outros contratempos, Eu, como uma leve borboleta, Pousava e saltava sem parar Sempre que me queriam matar. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 01-07-2023)