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Frases de Carlos de Castro

401 frases

⁠O MEU JARDIM Tantas flores tenho nele dos meus amores. A Abelha azul,
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⁠O MEU JARDIM Tantas flores tenho nele dos meus amores. A Abelha azul, Que tem que estar virada a sul; Agapantas E Cardos sacripantas; A Sábia ananás De um vermelho voraz; A De Jerusalém Amarela, só por bem. A da Sapatinha da judia Descendo quando subia. A Vi burno De um branco em verde soturno; A Alfazema, Que tem odores de poema. Amores perfeitos, Que para mim, Que não sou flor nem jardim, Sempre foram imperfeitos. Senhores, do mundo imundo Onde me afundo: Será culpa de mim? É que eu nunca tive um jardim! Nem flores, Nem amores. Sempre e só, me tive a mim! (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 02-12-2022)

⁠ACOLHE-ME Abre-me a porta do teu lar Suspenso num tempo de encantar.
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⁠ACOLHE-ME Abre-me a porta do teu lar Suspenso num tempo de encantar. Ó lindo passarinho, Dá-me a entrada estreita do teu ninho E deixa-me deitar nesse maciinho, Quentinho, Tão fofinho, Dos cobertores Tecidos por ti, com amores, Dos pedacitos das flores, De ramos e das palhas multicores. Acolhe-me, ó passarinho: Estou a ficar já tão velhinho... O meu lar é maior que o teu Mas tão triste, como eu, Ó passarinho. E eu queria: Será assim tanto mal, Irmão passarito, Passar contigo num grito, O meu tão aflito natal? (Carlos De Castro, In Há Um Livro Por Escrever, em 28-11-2022)

(DE) PRESSÃO ⁠Eu sei que: Quando já não ouves
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(DE) PRESSÃO ⁠Eu sei que: Quando já não ouves A voz do vento, O chilrear das aves do céu, O amor a cair levemente Da razão do teu lamento Como se fosse um véu De noiva de neblina Por estrear, Ou cavalo à solta sem crina, Dois bailarinos sem dançar... Eu sei que: Quando não desvendas O mistério do teu eu, Como nuvem presa no céu, Prenhe sem chuva de rendas... Eu sei que: Quando choras, por chorar, Sem ritmo, ou emoção natura, Os teus olhos só podem mostrar No mapa do teu rosto à procura De lágrimas secas por achar... Eu sei que: Sofredor amigo, quase meu irmão; Eu sei que estamos os dois No agora e num depois Vivendo, Sofrendo E chorando, Esta imensa (de) pressão. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 25-11-2022)

BEIJOS DO DESERTO Ele, só lhe pedia: - Dá-me um beijo, se não morro à sede...
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BEIJOS DO DESERTO Ele, só lhe pedia: - Dá-me um beijo, se não morro à sede... E ia desfalecendo... Aos poucos, morrendo. E ela, ao lado dele, atirava: - Quem vai morrer, não precisa de beijo! Ele então tropeçou, Aninhou, Levantou, E caminhou E cada vez mais dela se afastou... Afastou... Mais à frente ele encontrou Um cato no deserto, Que depois de aberto, A sede dele matou. E então correu, como proscrito, Correu pelo deserto infinito... Já não quis o beijo que lhe matava a sede. Depois chegou ela e viu o cato. O cato, já estava seco, De facto, Mirrado, Como um cão esfaimado. Mas ela para matar a sede Beijou o cato, Pensando beijar os lábios dele E morreu... Do beijo. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 24-11-2022)

⁠OS OPRESSORES Quando eles nos cortam a palavra: Há quem grite ainda mais alto
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⁠OS OPRESSORES Quando eles nos cortam a palavra: Há quem grite ainda mais alto Ao baixo e pesado, Como voz de mulher contralto, Em soprano com sobressalto Declamado: Ninguém nos destruirá a lavra! Que não nos levem a mal Os opressores mal caídos, E outros assim como tal Iletrados e falidos Dum bem chamado: palavra! (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 22-11-2022)

⁠A G A Z E L A Que linda vai a gazela, De dia,
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⁠A G A Z E L A Que linda vai a gazela, De dia, Com seu vestido da cor amarela. Nisto, cai a noite. Vem um papão Com o bastão Na mão E come a gazela, Essa mesmo, ela. Mas já sem o vestido da cor amarela. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 15-11-2022)

⁠A V I D E Z Tanto ávido à espera Da esfera
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⁠A V I D E Z Tanto ávido à espera Da esfera Por armilar, Para se poder guiar No mar da ganância E jactância Onde se vai afundar. São como cegos Coxos e moucos, Para alimentar os egos Neste inferno de loucos. Calcam e recalcam O pai, a mãe E todo o alguém Que assaltam Em nome da avidez, Da sofreguidão Que alguma vez Os há de fazer penar E findar, Então! (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 15-11-2022)

A G O I R O ⁠Tudo o que tu pensas E repensas
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A G O I R O ⁠Tudo o que tu pensas E repensas De mim Para ti, Assim, Para mim: São espetros E dejetos Do teu ser doentio. Com esse semblante bravio Coitada, que já não pensa A não ser em manobrar, Enredar, A minha vida num fio, Na prisão da tua doença. Pensa, Triste ser vadio e frio, Antes que o cutelo desça Sobre a tua cabeça, Numa sentença De que me rio, Pela tua malquerença. (Carlos De Castro, in Há um Livro Por Escrever, em 10-11-2022)

⁠CRUEL DESTINO Pedem-me amor E eu não sei o que isso é;
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⁠CRUEL DESTINO Pedem-me amor E eu não sei o que isso é; Porque nunca o tive ao pé De mim. Assim, Não sei se ele é dor Ou prazer do início ao fim. Pedem-me poemas E eu não sei o que isso é; Porque, malditas as minhas penas: Poemas, será gente de fé? Não quero nada, Porque nada sei dar Desde menino, A não ser meu cruel destino De querer amar No já, A quem nada me dá. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 08-11-2022)

O PIANO ⁠Há um piano Que toca para mim
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O PIANO ⁠Há um piano Que toca para mim Sem parar, Todo o ano, De noite ou de dia Como companhia, Lá toca o piano. Ele sabe que escrevo A solo, Como um tolo Que se desvela E canta à capela Sem procurar relevo. Bendito piano, Quando me acompanhas Nas poesias estranhas. Maldito piano, Quando tão solitário tocas No silêncio das bocas Com sono, E me fazes chorar Sempre que quero poetar Nos dias tristes de outono. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 09-11-2022)

⁠R E C E I T A Uso uma panela velhinha Já com furo,
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⁠R E C E I T A Uso uma panela velhinha Já com furo, De ir ao fogo, coitadinha. Nela faço e costuro Os estrugidos Frigidos Com amor e certa mestria, Na construção da receita Mais que imperfeita Mas sempre sadia Que em cada dia Eu ponho na mesa Com certeza, Para degustarem Amarem, Ou repudiarem, A minha insípida E tantas vezes ríspida, Poesia. (Carlos De Castro, in Há um Livro Por Escrever, em 07-11-2022)

⁠C O N V I T E Apareça, quem de mim gostar Só hoje, sem choros, à beira do rio,
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⁠C O N V I T E Apareça, quem de mim gostar Só hoje, sem choros, à beira do rio, Porque amanhã cedo, o navio Parte comigo para outro lugar. E eu não sei se lá vou chegar. Pode até o navio ao longe, naufragar. Ou dar-me vontade de defecar De pé, em cima das ondas do mar. Aqui vos deixo o convite. Depois, não me venham dizer Por palpite, Que era melhor eu ser Sem parecer O Eu, Que não o Outro, Que vos enviou o convite. (Carlos De Castro, in Há um Livro Por Escrever, em 04-11-2022)

⁠POEMA DE FATO Um dia, vesti o meu poema De fraque e gravata
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⁠POEMA DE FATO Um dia, vesti o meu poema De fraque e gravata E lantejoulas, Como num dia de ir à missa. Depois, tive pena Desta cena E até me deu um baque Numa bravata De ceroulas, Em noite de derriça. E os deuses da poesia Me apareceram a talho E aconselharam: Um poema, mesmo de elegia, Não precisa de fato de companhia, Basta-lhe a roupa de trabalho. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 03-11-2022)

⁠DANÇAS DO VENTRE E OUTRAS EXCITAÇÕES Era na noite avançada Dos nossos tempos idos.
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⁠DANÇAS DO VENTRE E OUTRAS EXCITAÇÕES Era na noite avançada Dos nossos tempos idos. Aplicavas os teus fluídos Nos requebros do teu ventre, Em danças que a gente sente Acordar libidos adormecidos. Em lascívias Óbvias Do teu tronco, Em sinais de púbis molhados Nos negros caracóis Fantasiados Nos brancos lençóis, Que depois da dança tua De ventre E de frente, Fazíamos amor Cansado Mas sempre apetecido Quando regurgitavam Orgasmos, Em espasmos De loucura e dor. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 08-04-2023)

NOSTALGIA ⁠Cai em mim uma nostalgia, Sem eu a ter pedido no tempo.
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NOSTALGIA ⁠Cai em mim uma nostalgia, Sem eu a ter pedido no tempo. É assim como uma melancolia, Uma tristeza vaga, Que não se apaga No momento. Que vida. Que tempo. Que amargura dura E tão escura Havia de me assaltar. Agora, que eu só queria Tão pouco, Para não entrar em louco, Descansar, Repousar, Para aprender a sonhar... (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 04-04-2023)

⁠Escrevia, Miguel Torga, Poeta Maior, em Coimbra, a 4 de Abril de 1981: - "Tentei explicar o mecanismo psicológico. O poeta é, de facto, um ser incómodo. Mais cedo ou mais tarde, obriga os detratores a um embaraçoso
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⁠Escrevia, Miguel Torga, Poeta Maior, em Coimbra, a 4 de Abril de 1981: - "Tentei explicar o mecanismo psicológico. O poeta é, de facto, um ser incómodo. Mais cedo ou mais tarde, obriga os detratores a um embaraçoso mea culpa. E como eles, no íntimo, o sabem perfeitamente, olham-no sempre de través, a adiar quanto podem essa hora de rendição. Até que ela chega irrevogavelmente pela mão da morte. E, então, é uma avalanche de adjetivos a ver se o soterram e, alçados no cômoro lutuoso, se glorificam na glória que proclamam." (Diário XIII - Miguel Torga) MINHA HOMENAGEM: QUADRA PARA TORGA Se o poeta é desconforto, Digam-no já em vida, Não falsem depois de morto, Que foi um santo de ermida. © 𝕮𝖆𝖗𝖑𝖔𝖘 𝕯𝖊 𝕮𝖆𝖘𝖙𝖗𝖔.

⁠O GRITO Ouvia-se o grito. Na noite do vendaval,
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⁠O GRITO Ouvia-se o grito. Na noite do vendaval, Duma garganta, saía aflito O ronco de algum mortal. Terrífico Horrífico, Que entrava pela janela Fechada pelo medo De entrar nela, Mau credo ou até bruxedo. O vendaval amainou. O grito parou. Aberta a janela, Ao perto, à luz da vela: Era uma voz de fome, Um homem sem nome, Sem idade de vida ou ser, Que só pedia a esmola do comer. (Carlos De Castro, In Há Um Livro Por Escrever, em 03-04-2023)

⁠ÁRVORE SECA Ao vê-la, estarreci. Ainda ontem
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⁠ÁRVORE SECA Ao vê-la, estarreci. Ainda ontem Do antes de ontem De há três dias, Eu vi-a; Parecia-me salva À luz da alva, Daquele passado dia. Hoje, mesmo agora, Olhei lá fora: Estava já mirrada, Seca, num esturricado Como torresmo queimado. Quis regá-la, Refrescá-la, No pé do tronco a morrer. Só então me lembrei E pelo que sei, Não adianta em desnorte, Querer vencer Sem poder, Aquilo que já é morte! (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 02-04-2023)

⁠CRUZ DE JESUS Tanta gente. Tanta fé, ó Cristo,
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⁠CRUZ DE JESUS Tanta gente. Tanta fé, ó Cristo, Na tua cruz No teu sinal Que seduz, Se beija E se benze, Para afastar maleitas, Maus-olhados, Que afinal, São coisas imperfeitas De males mal limpados. Tanta gente. Que gasta o madeiro Da tua cruz infinita, De tanto o dedo raspar Para afastar o medo Da sua desdita. Tanta gente. Irmão, Senhor, Jesus, Que só quer a tua cruz Por gostar, Sem amar, Sem te ajudar A suportar O peso desse fadário, A caminho do teu calvário. Por nós, Que não te damos voz. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 30-03-2023)

⁠ALTARES Anos vão. Construi e tenho no meu quarto
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⁠ALTARES Anos vão. Construi e tenho no meu quarto Numa cómoda velha de minha mãe, Um santuário, Tipo berçário, Que acolhe alguns santos Do reino que Deus tem. Uns mais que outros, sacrossantos, Para mim. E assim, Talvez pela memória Feita só estória De querer afastar medos e quebrantos Em simples peças de barro, Já em padecimentos de sarro. E cada vez mais eu reparo Que neste mundo às avessas, A quem faltar fé ou faro Baterá em portas travessas. Ravessas, elas só se abrirão Por senha ou pela beatice, Sempre esta minha tolice De não aceitar sermão. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 27-03-2023)