Pular para o conteúdo

Frases de Carlos de Castro

401 frases

⁠O passado, corre sempre o risco de vir a tornar-se presente, no mais imediato futuro.
⁠ O LAR DO SOFÁ VELHO Não chores meu velho
Continuar lendo

⁠ O LAR DO SOFÁ VELHO Não chores meu velho Como eu, a ficar a sê-lo. Nunca pensaste como ainda penso, Vá, pensa: Porque o pensar é de graça, Afinal o que nos resta. Já não é a tua casa, O teu cheiro E os odores por ti criados Naquela casita perto do mar Onde gaivotas te iam beijar Pela manhã, famintas, Do teu dar E abrigo procurar Nas tardes fortes de tempestade. O teu lar, agora, é o teu penar... Outros cheiros, Gentes que nem sempre gostam de ti, Pelo que vi, senti e ouvi. E então fugi, fugi dali Tão amargurado. Que triste, é do homem fado Deixado num sofá velho A tremer de medo, Naquele cubículo sem afetos Onde reinam os dejetos, Muita fome amordaçada E mais... Aquele horrível pecado De os não deixar morrer Na sua velhinha cama. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 27-06-2023)

⁠ESTRANHEZAS LUSO-BRASILEIRAS Que estranho país é este, Onde de fato nunca é facto,
Continuar lendo

⁠ESTRANHEZAS LUSO-BRASILEIRAS Que estranho país é este, Onde de fato nunca é facto, Nos cus, tornados bundas Nos paletós dos fatos nossos Em bebedeiras de tremoços? É um este sem vento oeste Quando lá a desoras chega o trem, E eu por cá à espera do comboio Que nunca a horas certas vem. Triste a minha melancolia Quando eu na vossa Bahia Imaginava em alegre sintonia, Estar no Espinho meu em magia Tomando banho na minha Baía. Então, a gente galera assim fazia: Vocês traziam os garfos e os pratos E íamos acertando os palatos. Nós, os copos e a pinga de Lisboa Vocês, aquele petisco tropical, Nós, as sardinhas metidas na broa E vocês e nós, Brasil e Portugal, Transando numa naice mesmo boa. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 26-06-2023)

⁠RISOS Riam-se em doidice de tão loucos, Em despregadas e reles bandeiras,
Continuar lendo

⁠RISOS Riam-se em doidice de tão loucos, Em despregadas e reles bandeiras, Com dentes podres pelas asneiras, Os tais grotescos eunucos taroucos. Eram desafinados e afinal tão roucos, Mal orquestrados, uma pobreza, enfim, Que mal eu os ouvi a rirem de mim, Disse comigo: Façamos ouvidos moucos. Eram seres de peçonha tinha maligna, Doença que não poupa corpo nem alma E só ataca multidões de gente indigna. Um poeta, nunca morre sem a palma, Nem se deixa matar por algum estigma, Ele morre por si só, na mais serena calma. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 20-06-2023)

ALMA RELUZENTE ⁠Pensava ser eu uma alma reluzente. Como tudo é tão diferente do pensado,
Continuar lendo

ALMA RELUZENTE ⁠Pensava ser eu uma alma reluzente. Como tudo é tão diferente do pensado, Quando num ápice repente Recebo, vindo voando, ó gente! Num escangalhado parapente, Um anjo do Altíssimo Céu navegado, Que me diz: - Rapaz infeliz, sem alma reluzente, Nunca te eleves, tem calma! Para teres lustrosa alma, Primeiro terás de ser gente De construção hercúlea diferente, Onde, de facto, o sonho habita. E só depois, Muito exigente, É que a tua alma acende e grita! (Carlos De Castro, in há Um Livro Por Escrever, em 15-06-2023)

POESIA PRENHE ⁠Muitos, Que tudo fazem
Continuar lendo

POESIA PRENHE ⁠Muitos, Que tudo fazem E desfazem Para emprenhar a doce E tão amarga Presa ou solta à ilharga Senhora bela - A poesia. Sem nome de pai, De mãe ou de tia, Pelo menos nada consta No cartão de cidadania. Basta-lhe ser poesia Pura, rebelde e arisca, Não deixar copular Macho ou fêmea, Ou qualquer outro artista Que só lhe quer levar a palma. Gosta de preliminares, De beijos e doces olhares Sussurros loucos ao ouvido, E embriaguez na alma. Adora longos coçares E muito depois então É que abre as pernas Para ejaculares E te dar um dia Um filho da poesia. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 08-06-2023)

CEREJAS Degustava eu um ramo delas, Quase assim.
Continuar lendo

CEREJAS Degustava eu um ramo delas, Quase assim. Uma mais vermelhas Ainda de formas fedelhas De polpa ruim. Outras, matizadas de branco, Amarelado, E eu sou franco, Deixei as amarelas de lado. Algumas, de bordeaux vincado, Mas só cor Sem sabor Adocicado. Poucas mais encontrei Doces Ainda que maduras Apesar de duras Como o mel melado. Ia a meter a última à boca E parei. Era mais redondinha que as outras Mas muito vermelhinha E tinha Uma outra cerejinha Pegada à sua barriguinha Como uma mãe que acabou De dar à luz, E quer mostrar a filhinha Que reluz. Tive pena de as comer E num rebate de consciência, Com exemplar paciência, Fui metê-las em terra fresquinha: A cereja mãe e a filha, À espera que um dia destes Irão nascer mais cerejas Assim, Por mim. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 05-06-2023)

⁠ESPERA DESESPERADA Na velha gare esperei por ti; Na esperança anunciada
Continuar lendo

⁠ESPERA DESESPERADA Na velha gare esperei por ti; Na esperança anunciada De te ter como coisa amada Naquilo que ao ganhar perdi. Só depois é que vi Que as estradas E os carris das vidas São feitos de tudos e nadas. Nem sempre são retas desejadas Para alcançar o sonho final, Se não a mim e ao mundo Vai um logro tão profundo, Um medonho e abismal Desígnio infernal Nas encruzilhadas do mal. Dessas, eu nunca me lembrei... Por descuido me esqueci. Agora, eu sei Porque peno assim por ti. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 04-06-2023)

DITADOS ⁠E o ditado a dizer: A cama que fizeres,
Continuar lendo

DITADOS ⁠E o ditado a dizer: A cama que fizeres, É aquela em que te vais deitar E queira Deus que não vás penar... Que sentença crua, de arrepiar! Agora, digo eu, neste inocente pensar: Mentira! Fiz tantas camas na vida Umas de pedras, De pano e de ervas E outras de sumaúma, Mais macias que nenhuma. Em todas descansei, Amei E gostei. Só houve uma, A de sumaúma, Macia como nenhuma, Onde não amei E chorei. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 02-06-2023)

JOGUETE ⁠Fui-o. Nas tuas mãos pouco macias
Continuar lendo

JOGUETE ⁠Fui-o. Nas tuas mãos pouco macias Perfumadas das bruxarias E senti-o. Foste lançando o feitiço Como bruxa que lança em derriço Incenso aos lanços nas brasas Que fazem faíscas Ariscas, com que arrasas A vontade de dizer, não! E sem mais contemplação De outro piedoso pensar, Louca mulher, sem paixão Nem vontade de se amar. (Carlos Vieira De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 01-06-2023)

DORA DA MINHA DOR ⁠Clamei por ti noites inteiras. Eras a Dora
Continuar lendo

DORA DA MINHA DOR ⁠Clamei por ti noites inteiras. Eras a Dora Da minha hora, Que foi amar-te nas clareiras Das selvas em que vivi. E eu sempre a chamar por ti. E a Dora que agora Me desadora, Esta perfumada e rica senhora De berloques de jóias gamadas, De mamas por gigas sustentadas, Faz de conta que não existo Na sua memória cruel! Não adiantou eu dizer: Sou o Manel, O que te aliviou o "vírgulo"! Pelo visto e sem mais vírgula É triste lembrar assim Quem não se lembra de mim... Ah, Dora, mulher fatal, Que matas qualquer mortal Como me mataste por fim! (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 31-05-2023)

MEU MAR MINHA LINHA ⁠Era eu um pequenito Naquela praia grande
Continuar lendo

MEU MAR MINHA LINHA ⁠Era eu um pequenito Naquela praia grande De areal imenso Do então Espinho extenso. Eu ficava sozinho Sentado numa pedra Mais ao longe Como que a comandar A proa do meu barco Rumo àquela linha do horizonte Que eu via sempre direitinha Com aqueles barcos grandes De cargas de pão, de ouro E especiarias, nos porões Das fantasias. Se calhar alguns petroleiros Assaltados pelos piratas Da minha verde imaginação Que passavam com pachorra, Na linha, do mar quente de verão. E eu então imaginava: Para além daquela linha, ficava A Beira de Moçambique, Era aí que o meu pai morava. Não muito longe, eu via numa tela: A Caracas do meu tio Vitorino, Emigrado em Venezuela. Depois, de barriga vazia Voltava à areia da praia, Morna da sorna da tarde Que se ia com os barcos E convidava ao sono. Então, eu cobria-me com o meu manto De areia E, entretanto, Adormecia... (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 30-05-2023)

⁠QUE SOSSEGO Era só a minha avó. E em tardes de calmaria
Continuar lendo

⁠QUE SOSSEGO Era só a minha avó. E em tardes de calmaria Debaixo da velha ramada Das folhas do morangueiro O corriqueiro, Americano, Ela, aos botões, dizia: - Que sossego! Bendito ano! Ela não sabia Que eu estava Com ela, Mirando-a de uma janela Pequenita que havia Logo atrás dela. E eu ouvia tudo naquela viagem Feita miragem Que minha avó fazia, De consciência apurada, Sem precisar de andar Ou sola dos chinelos gastar Em qualquer estrada... Foi ela que me ensinou, Aqui onde vou, Que para sonhar, Só basta estar! (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 29-05-2023)

PÁSSARO LIBERTADOR ⁠Na linha imaginária do horizonte, Filtrada pelo sol já passageiro,
Continuar lendo

PÁSSARO LIBERTADOR ⁠Na linha imaginária do horizonte, Filtrada pelo sol já passageiro, Vejo um vulto, asa de anjo Que me chora logo defronte A esta janela do meu derradeiro Olhar cativo no monte Do meu penar, Sem te poder mais amar. Anda, passarita Clara. Com o teu bico de beijo, Inicia-me no teu solfejo E liberta-me desta amarra. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 27-05-2023)

⁠QUEIMADURAS Queimei o meu cerebelo Que fica por debaixo de algum cabelo
Continuar lendo

⁠QUEIMADURAS Queimei o meu cerebelo Que fica por debaixo de algum cabelo Que me resta Do pescoço à testa Na formação córnea do elemento Que me trazia discernimento. Crestei-o, Chamusquei-o Em pensamentos brutais, Que me estarreceram E embruteceram No mais horrível dos mortais. Jurei então nunca mais Agora ou em qualquer altura, Dar uma razão de soltura E voltar a incendiar O meu cerebelo Num fogo feito flagelo Sem ter quem o possa apagar. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 20-05-2023)

⁠ALMAS GÉMEAS Ninguém me vê... Acabrunhado
Continuar lendo

⁠ALMAS GÉMEAS Ninguém me vê... Acabrunhado Ao mortificado, Nesta cadeira velha Que faz doer as cruzes Deste esqueleto Já absoleto Que se senta Rumo aos setenta À espera de algumas luzes. Ainda bem que ninguém me vê... Neste cubículo escritório, Em sistema de dormitório, Para dar em cada dia ao mundo Um poema infecundo Teorema lógico Dos axiomas Postulados Gravados No sistema patológico Rumo doloroso Até conseguir o dialógico Gostoso, De ter alguém em simpatia, Que todos os dias em sintonia, Anima e faz viver a minha poesia. (Carlos De Castro, in Há Hum Livro Por Escrever, em 15-05-2023)