Pular para o conteúdo

Frases de Pedro Rodrigues de Menezes

32 frases

raiz quadrada submersa pela terra incandescente a visão ardendo branca
Continuar lendo

raiz quadrada submersa pela terra incandescente a visão ardendo branca pela multiplicação de raízes em voo e luminescência asas que alcançam as minhas asas negras incorpóreas, vítreas engolidas, trituradas, crisálida abortada mariposa cega sem voo respiração sussurro cessação. (Pedro Rodrigues de Menezes, “mariposa cega”)

⁠verme alado as galáxias é sempre
Continuar lendo

⁠verme alado as galáxias é sempre as galáxias da infinita luz bruta que todo eu em bruto porventura em vão espero um dia alcançar apesar da fome e da solidão e da força dos meus braços tão livres dos meus lábios tão mudos dos meus olhos tão cerrados um verme rastejando nu de asas contemplando para além da terra e da memória sideral a dormência do sono a vibração do sonho. (Pedro Rodrigues de Menezes, “verme alado”)

⁠a luz que te foge dentro do corpo é uma lâmina doce
Continuar lendo

⁠a luz que te foge dentro do corpo é uma lâmina doce na amargura do tempo indelével, cristalizado o universo inteiro contido no fogo das saudades da loucura faltam-me as tuas mãos e os teus olhos infindáveis na cegueira pura das galáxias com que sempre me abraças esposa, irmã, amiga tudo o que vem depois de ti é um chicote ardiloso sobre o meu corpo escuro antes abraçado agora esquecido na violenta ausência de ti. Poema dedicado a Sheila Camoesas Pedro Rodrigues de Menezes, "na violenta ausência de ti"

baobá procuro nos outonais trâmites do teu corpo o insofismável vestígio das tuas raízes
Continuar lendo

baobá procuro nos outonais trâmites do teu corpo o insofismável vestígio das tuas raízes salgueiro que jaz e se curva obliquamente eterna a bênção, terrível o fim do tempo deserto, areia, sol, miragem, saudade serás sempre o antes e o depois de nós e nós seremos tão pouco e tão poucos depois de ti secarão todas as welwitschias África não renascerá da força dos tambores mil homens sangrarão entre solenes rituais as grávidas abortarão com sede de terra e o céu encher-se-á de conchas e espinhas e virão os deuses deste mundo e do outro velar a desgraça efémera da sabedoria ninguém saberá mais falar, escrever ou viver. Poema dedicado a Catarina Pereira do Nascimento (Pedro Rodrigues de Menezes, “baobá”)

⁠vodu por entre os dedos da terra sem pressa
Continuar lendo

⁠vodu por entre os dedos da terra sem pressa sem deter discorre sem forma e incolor o deus terrível profundo silêncio cálido que inebria e incapacita que engole sem mastigar os ásperos calos deformando as minhas trémulas e gélidas formas encerrando os olhos com o capim e as pedras e as folhas tardias do longo inverno na caverna aberta deste crânio quartzítico incandescente luz que me atravessa imobilizado pelas asas abismais ouço e vejo o temporal contra a gruta do meu próprio templo eu sou o templo e a sua ruína os seus antepassados futuros isto é o princípio do meu renascimento e por isso estou estendido nesta catarse envolvido pelo frondoso sudário da floresta aguardo a tácita palidez da minha própria morte talvez eu próprio seja este terrível deus porque ouço a voz da lua e o corpo do sol invocando em extintas línguas os meus nomes. (Pedro Rodrigues de Menezes, “vodu”)

Requiem for Adílio Lopes ⁠Adília e Adílio, ambos Lopes oferecer-te um poema
Continuar lendo

Requiem for Adílio Lopes ⁠Adília e Adílio, ambos Lopes oferecer-te um poema em forma de livro de receitas cozer-te pão para o coração há tanta falta de pão para o coração. (Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes XV) Adília e Adílio comem pão de ló pelos pés Lopes. (Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes, XVI) imagino-te como vieste ao mundo de pano do pó na mão e sem mais nada por cima por baixo mas cheia de coração. (Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes, XVII) Herberto Helder convida Adília Lopes para jantar duas solidões uma doméstica não domesticada outro uma artéria sem pressão arterial ponto de interrupção. (Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes, XVIII) o teu cabelo Adília o teu cabelo Adília é uma rosa de ventos ventania poesia. (Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes XIX) os capítulos capitulam esta história no fim triste cumpriu o destino de Adílio Lopes morreu nos braços de Adília Lopes no dia em que se conheceram consta que morreram Adílio Lopes os gatos e só sobreviveu Adília Lopes e as suas baratas mas sobre os gatos assassinos que esgatanharam (não confundir com esgadanhar) o corpo de Adílio Lopes ninguém escreveu. (Pedro Rodrigues de Menezes, Adílio Lopes, XX) Nota: termina a história de Adília e Adílio, ambos Lopes.

⁠malmequer negro percorro pulsante o corredor de pés mudos como muros
Continuar lendo

⁠malmequer negro percorro pulsante o corredor de pés mudos como muros ergo o intransponível crânio nascendo e dormindo prescrito adio a translúcida sibilância malmequer fulgente e negro que levo ao peito como um sabre recito pelo adejar rítmico dos lábios salmos rituais ossos barro pó fulgurante translação das veias arde-me o míope sangue vertical escorrendo pelo lantânio e lutécio hei-de criar pedra sobre pedra farei da luz dois vítreos ciclopes pousarei nos pilares de hércules a incorpórea maldição dos deuses e levitando andarão as testas dos homens e deuses dos deuses homens sit tibi terra levis[1] requievit in pace.[2] [1] que a terra te seja leve [2] descansa em paz (Pedro Rodrigues de Menezes, "malmequer negro")