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Frases de Pedro Rodrigues de Menezes

32 frases

⁠pai não tenho memórias desde que mostraram
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⁠pai não tenho memórias desde que mostraram a mortalha coerciva cercando o teu corpo pai ouvia dizeres “é a fingir” eu ria e dizia “é a fingir” por isso todos acreditaram que a minha extravagância era um produto da loucura pai como se na aritmética da vida que continua e do tempo que passa coubesse alguma lógica. (Pedro Rodrigues de Menezes, "aritmética do luto")

⁠uma flecha que anoitecesse no tempo lugar, pedaço de terra, erva ou árvore uma flecha que resistisse implacável
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⁠uma flecha que anoitecesse no tempo lugar, pedaço de terra, erva ou árvore uma flecha que resistisse implacável à biologia de uma meia volta de Úrano sem a subtracção de uma soma este lugar contém o mesmo azul celeste sem ser galáctico poalha invisível sem ser cósmico é este o lugar onde renascem os primeiros homens órfãos do destino sem distinguirem a mortalidade do seu tempo densos e altos e firmes poentes ave, voo pleno ou plano boreal desvelam frondosos sobre a água o misticismo das sereias mudas ninguém as vê plantando os peixes ninguém as vê caminhando sobre o céu ninguém as vê contando as pedras e os peixes voam no céu como pedras. (Pedro Rodrigues de Menezes, "os peixes voam no céu como pedras")

⁠monja de salto-agulha encontra o teu destino imola-te na laça poeira
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⁠monja de salto-agulha encontra o teu destino imola-te na laça poeira do celeste e laço doce uno absorvente e único das infinitas cadências porque virão galáxias e cometas invisíveis velar a mulher densa untada do encarnado quente e magmático resplandecente corpo onde a mulher morta dá lugar ao vaticínio há mil anos escrito no sangue e no fogo o universo ressurge enquanto a deusa nasce da kundalínica nébula que os povos adorarão. (Pedro Rodrigues de Menezes, "monja de salto-agulha") Poema dedicado a Sheila

⁠mês de julho dia vinte e dois farias sessenta anos
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⁠mês de julho dia vinte e dois farias sessenta anos mais os quatro decorridos sobre o ano que adormeceste a palavra pai é como um balão aceso sobre a imprecisão contígua da boca cerrada só a prejuízo a poderei pronunciar com a leveza certa porque arde e não sei quando se fará noite dentro de mim. (Pedro Rodrigues de Menezes, "vinte e dois de julho")

⁠o corpo pairando suspenso nu fantasma sem cor
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⁠o corpo pairando suspenso nu fantasma sem cor com forma de fantasma candura obliterada interrupção incomum cadáver assombroso terra inclinada na chuva um poeta sobre uma poça milenar o sangue coagulando todo vertical a veia míope tocando o horizonte a vírgula expansiva da sua artéria cavernosa os pés, uma chaga infernal do caminho as mãos, um claustro negro de silêncio o poeta salta o poeta corre o poeta também ri mas o poeta está morto. (Pedro Rodrigues de Menezes, "o poeta, o poema e o fantasma")

⁠ancestral aranha que mascaras balaustradas, capitólios e olimpos sigiloso movimento trespassando
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⁠ancestral aranha que mascaras balaustradas, capitólios e olimpos sigiloso movimento trespassando o invisível lugar de visível vazio aroma metálico ou apurado gume na distracção sonora do sono afinal, de quantos rituais e cantos ou milenares hecatombes aladas se fazem as arestas criminosas onde jazem brancas e indefesas as mil e uma esvoaçantes criaturas que encontraram na sedutora luz o seu destino ébrio de inocência? (Pedro Rodrigues de Menezes, "ancestral sibila")

⁠é olhando para todas as mães com as suas vaginas derrotadas e os ventres espiando a cicatriz
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⁠é olhando para todas as mães com as suas vaginas derrotadas e os ventres espiando a cicatriz que me adormecem os olhos perante a mão cega e grotesca somos incapazes de vir ao mundo sem ensanguentar o mundo inteiro sem arrancar dormitando ainda sendo ainda esse sonho por gerar pedaços vivos da carne e do sonho criaturas invariantes e futuras condenações a estourar hediondez. (Pedro Rodrigues de Menezes, "hediondez maternal")

⁠se esta terra fosse surda e os seus pés respirassem mudos na penetrante calma
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⁠se esta terra fosse surda e os seus pés respirassem mudos na penetrante calma do Alentejo talvez a isóscele sombra que me encandeia o crânio iluminasse num só suspiro o esplendor vítreo do sono e fosse uma cratera ou criatura viva e venosa e litúrgica fina e mansa como um ritual ganhando luz sobre o solo e não apertasse esquiva a garganta da planta que a raiz engole e torna infértil a terra na terra. (Pedro Rodrigues de Menezes, "se esta terra fosse surda")

⁠o parco roçagar da frondosa giesta acesa pelo vento como um chicote acelera em mim a lúcida consciência
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⁠o parco roçagar da frondosa giesta acesa pelo vento como um chicote acelera em mim a lúcida consciência de que as árvores, procurando o solo, regressam ao útero que as gerou por isso também eu caminho pleno um homem plano sobre outro plano uma luz, um astro cego, um abismo desenhando um círculo com palavras no misterioso alfabeto da criação vou enchendo a boca de terra vou abraçando a morte iminente porque tudo em mim é imediato o grito, o eco e o súbito silêncio. (Pedro Rodrigues de Menezes, "cabo de gata")

⁠quero a poesia alta e superior a que se eleve acima do corpo capaz de transcender a lucidez
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⁠quero a poesia alta e superior a que se eleve acima do corpo capaz de transcender a lucidez como se o sonho da montanha fosse mais importante e nobre que a própria subida à montanha uma poesia que não obedeça ao circadiano ritmo dos homens uma poesia portanto sem o ritmo perpendicular da língua no céu cheio de uma tonalidade viva que não seja o azul celeste quero a poesia que incapacite os homens ásperos da terra incapazes da vigília letárgica de um astro que os queime. (Pedro Rodrigues de Menezes, "um cometa chamado poesia")

⁠no silêncio metamórfico das rochas irrompendo do solo como um trovão o tímido ladrar canino da alcateia
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⁠no silêncio metamórfico das rochas irrompendo do solo como um trovão o tímido ladrar canino da alcateia constitui o único vestígio humano abandono absoluto no tempo presente. homens íngremes de outrora ergueram na imponente altura dos mistérios cruzes dispersas como faróis acesos liturgia imóvel dos mil cataventos apontando ao destino o seu caminho. (Pedro Rodrigues de Menezes, "aldeia dos cães")

⁠erguem-se majestosos os pilares de hércules
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⁠erguem-se majestosos os pilares de hércules no mar de escuridão e uma eólica negra e distinta feita da mesma carne com o sangue pulsante observa o vítreo sonho à distância de um palmo todos os terrores findando onde o mundo começa um preto enterrando os pés no medo e hesitação enche o peito de ar ou de coragem e num salto que ninguém vê e num grito que ninguém ouve não sabemos o seu destino. (Pedro Rodrigues de Menezes, "mar de escuridão")

⁠uma crisálida indecifrável que respirasse na perpendicularidade
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⁠uma crisálida indecifrável que respirasse na perpendicularidade das minhas pálpebras como uma força vibrante e extraordinária a desenhar as novas veias fartas e cálidas do dogma filosofia ou religião paradoxais um paradoxo forte imbatível e irrefutável que fizesse esvoaçar a inércia do verão que é na memória póstuma dos outros o solstício permanentemente sombrio uma silhueta contendo os risos verdes lá atrás onde os braços descansam nus no imponente esquecimento do mundo. (Pedro Rodrigues de Menezes, "crisálida indecifrável")

⁠pouso a mão exausta na circunscrição do objecto demorado no meu tempo
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⁠pouso a mão exausta na circunscrição do objecto demorado no meu tempo chamo-lhe qualquer coisa circunciso-lhe a consistência porque não há segredos no universo exacto a memória não é exacta os pés da terra são terríveis hastes moles árvore que se dança é tudo quanto basta. (Pedro Rodrigues de Menezes, "a mão exacta")

não acredito na definição a menos que seja abstracta da altitude dos astros
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não acredito na definição a menos que seja abstracta da altitude dos astros da longitude dos ventos tudo disperso pelos olhos dois hemisférios fitando as pedras e a terra cheias de boca, de fome e formigas a terra e o céu, ambos velados de forma precisa pelas mãos atiradas ao alto no rosto dormência, silêncio, sonho sonho. (Pedro Rodrigues de Menezes, “sonho”)

⁠sobre a lagoa de Balos encandeada por um astro julguei
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⁠sobre a lagoa de Balos encandeada por um astro julguei a areia mais brilhante a água mais translúcida mas o ponto movia-se esbracejava se tivesse braços e portanto esvoaçou porque as asas douradas por Midas a plumagem avermelhada por Leónidas os olhos azulados por Hipnos as garras enegrecidas por Hefesto e o bico esverdeado por Artemísia acenderam na memória confusa da gaivota minóica o instinto da orfandade. Pedro Rodrigues de Menezes, “gaivota minóica”)

⁠orfão e se o sangue que corre enviesado e esdrúxulo
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⁠orfão e se o sangue que corre enviesado e esdrúxulo por entre as minhas veias imperceptíveis e silenciosas não for o mesmo que o teu é porque a memória póstuma do pai tão eloquente e imbecil precisa e irredutível acendeu a suspeita brilhante e nítida de que a névoa impulsiva desvelou a verdade de termos sido na mentira sangrenta irmãos. (Pedro Rodrigues de Menezes, “orfão”)