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Frases de Nicola Vital

392 frases

⁠MEU BEM QUERER: Minha linda flor! Minha aurora clarividente
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⁠MEU BEM QUERER: Minha linda flor! Minha aurora clarividente Musa, mulher inspiradora Deixai, teus olhos ilumine O meu céu! Que teu cheiro irradie meu Deserto! E o sonho não nos seja Surreal! Te vi em meus sonhos... Clara como o dia, o sol Bela qual beleza das flores Silvestre Em sua realeza divinal O reluzir de tua pele Me deixa enxergar o plasma A correr em tuas veias! Seus belos pomos quão Brancos cravos dos prados Em teu corpo perenal de amor Me faz sonhar tão real Quanto o desabrochar da primavera Ao alvorecer nas manhãs De setembro.

⁠⁠ANUNCIAÇÃO:Neste poema existe um sonho livre que você pautou para não sonhar Um rio tisgo, um corpo morto a céu abeto Um cântico surdo, reprimido, que não quer calarExiste um verso aberto, calado ao fundo A cor da dor em cama escura E, aberta, uma veia ao novo mundoNeste poema…
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⁠⁠ANUNCIAÇÃO:Neste poema existe um sonho livre que você pautou para não sonhar Um rio tisgo, um corpo morto a céu abeto Um cântico surdo, reprimido, que não quer calarExiste um verso aberto, calado ao fundo A cor da dor em cama escura E, aberta, uma veia ao novo mundoNeste poema existe a noite, o silêncio, a voz do sonho reflete o dia. Faz lembrar-te, destarte, agonia e cansaço Do teu corpo a dormir em pedra fria.Existe o grito De teus pares que ecoa atrás dos muros Existe a cólera, o riso dos que resiste Nesses versos nobres a espera por futuro.

⁠PELO AVESSO: O mundo gira sobre um eixo sem sorte! Em um labirinto sem norte
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⁠PELO AVESSO: O mundo gira sobre um eixo sem sorte! Em um labirinto sem norte Para um governo sem posse Que sem brio segue à morte... Na cadência do trote Sobre um ar de deboche Contra um povo tão forte Que caminha para o corte... Pra buscar sua sorte Sem ter medo da morte Ou cuidar sem deboche Viaja no trote a buscar suas posses

⁠CHEGA DE DOUTRINAS: Despindo-se desse corpo metafísico, franzino É que me absorve dos morcegos, borboletas
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⁠CHEGA DE DOUTRINAS: Despindo-se desse corpo metafísico, franzino É que me absorve dos morcegos, borboletas A sugar o plasma de sua plebe... Sob essa opaca noite, embrenha-se as nuances Epiléticas de Da luz... Chega de metafísica, de questões Chega de tanta pontualidade e fragrâncias Chega de doutrinas e doutrinas. Estou farto de hipocrisias Os hipócritas que habitam a plebe... Subservientes à "sociaLATE" opõem-se À simbiose... No entanto se traem, e veneram o pr

⁠A CRIANÇA QUE DORME EM MIM: A criança que dorme em meus braços Num ímpeto de razão fixa seu olhar ao meu
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⁠A CRIANÇA QUE DORME EM MIM: A criança que dorme em meus braços Num ímpeto de razão fixa seu olhar ao meu E num gesto de profunda sabedoria Numa interrogativa surpreende-me Eu não vou crescer?! Ora, meu bem! Claro que sim! E em uma rogativa - Disse-me Em soluços... Não deixe! Eu não quero crescer! Tá! Mas por que meu amor? Com feições enrijecidas, exclamou Não quero ver você a mim morrer! Voltou a dormir... E sonhou eternamente criança.

⁠⁠INFELIZ ANO NOVO: Como não se indignar, ao ver crianças morrerem de desnutrição, pessoas dormirem ao relento sem uma única refeição diária, 789 milhões de analfabetose a morte batendo às nossas portas. E saber que na contra mão, apenas oito "indivíduos" possuem mais dinheiro…
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⁠⁠INFELIZ ANO NOVO: Como não se indignar, ao ver crianças morrerem de desnutrição, pessoas dormirem ao relento sem uma única refeição diária, 789 milhões de analfabetose a morte batendo às nossas portas. E saber que na contra mão, apenas oito "indivíduos" possuem mais dinheiro que o restante do planeta. É esse o país e o mundo que queremos para as novas gerações? Novo? Que novo? Como novo? Se tudo permanece como antes... O capitalismo, é sim, modelo inconteste de metástase cancerígena.

O MITO DO NATAL: Nesta noite de natal Eu saí por três vezes às ruas...
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O MITO DO NATAL: Nesta noite de natal Eu saí por três vezes às ruas... O que eu queria!? Era apenas encontrar o precursor desta noite. E em todas as casas que percorrí As portas estavam fechadas, havia sim, um clima de festa O som que se ouvia era festivo. Mesas fartas, músicas comerciais, deleites e comemorações. Em um ímpeto de curiosidade Fixei meu olhar às frestas daquelas portas E em nenhuma delas vislumbrei o aniversariante. Sai um pouco desolado. Me recolhí e fiquei a me perguntar. Por que tanta euforia se todo dia é dia de natal? E todos os dias ele nasce em todo o universo. Mais tarde o sol ainda não chagara, e o som da música já se fazia mais fraco. Pela quarta vez eu deixava o sono ainda não dormido E o encontrei! O Arauto. Cansado, malcheiroso e não parecia ter nascido naquele dia! Todos já entorpecidos em sua própria festa não o reconheceram. E fecharam-lhe as portas. Ao romper da aurora, caia a ribalta, as portas se abriam para um novo dia. Não era mais natal... E ele ali inerte ao solo onde descansava invisível aos olhos de seus anfitriões. Sem cheiro, sem alento, sem recordações! Não era mais natal, não era mais natal.

⁠⁠LIDA... VIDA SEVERINO: Entre o cálice e o vinho Cultua-se o ócio. A paixão
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⁠⁠LIDA... VIDA SEVERINO: Entre o cálice e o vinho Cultua-se o ócio. A paixão Aos Ciços se perde o tino Nesta lida sem ter chão. Sob o vinho, entre a taça Vão-se Ciços, Severinas Todos findos sem as graças Da alegria ou do divino. Findam sem glória, sem graça... As Graças dos Ciços findos Quanto aos vindos Terra de sete palmos. Rasa É a paga à lida Severino Neste seu torrão sovino.

⁠EXISTIR: Existir?! Não existe em mim.
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⁠EXISTIR: Existir?! Não existe em mim. Esse vazio existencial Na existência impune Desse universo matafisico De razão surreal. Ao qual, sou literalmente recluso. Na busca imensurável de liberdade Ao meu delirante corpo físico Eu, não me vejo... Não me tenho! Minh' alma assim como a tua Sôfega na vileza Dessa existência boreal Beira a varanda da vida Que não, dessa vida astral.

⁠SÍMILE: Vou verter o riso da hiena em tuas brenhas Vou comer o delírio de tuas entranhas falena
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⁠SÍMILE: Vou verter o riso da hiena em tuas brenhas Vou comer o delírio de tuas entranhas falena Vou calar teu grito insano reanhas Vou fechar a luz, apagar tua porta E bradar pro mundo teu riso vulpino _ tal qual Peçanha Vou arranhar teu intimo zanho Vou me embrenhar... Na volúpia de tuas entranhas E ancorar no palor de teu olhar.

⁠A TOLICE DA VELHICE: Dizem os mais bobos meu filho, que a velhice É uma riqueza real. Ora (direi), se assim o fosse!
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⁠A TOLICE DA VELHICE: Dizem os mais bobos meu filho, que a velhice É uma riqueza real. Ora (direi), se assim o fosse! Pois que não querem os tais, envelhecer é fato. E buscam com afinco regar dia dia a "plebeia jovialidade" A velhice, meu filho, é uma grandíssima tolice! Está sim, nos serve de impercilhos... Se eu assim pudesse Não ouviria dos mais moços a fantasia de querer crescer... Não vês? Eu não queria tê-la ao me olhar ao espelho! Não percebes, filho meu, que deveria eu castra-la Quando embaça-me os olhos a não ver tua cútis? Diminuindo-me o som de tua voz E deixando o som das canções parecer fraco Não entendes dileto filho, Depois de velhos Tornamo-nos invisíveis ante o olha da juventude? Em sua hipocrisia de amar a terceira idade. Destarte, veja, porém meu filho! Tudo isso me faz lembrar-te. Aproveita em tempo tua mocidade. Após, são tempos nebulosos e sombrios. Aonde os mais fortes dos homens se curvam Diante da velhice a segregar suas forças.

⁠SONHOS DE CRIANÇA: Nas campinas bem verdinha De esperança
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⁠SONHOS DE CRIANÇA: Nas campinas bem verdinha De esperança Que meus pais como tais Me fez crescer Hoje vejo Fragmentos de lembranças Dos jardins Que o “progresso” fez verter Só restando na memória da criança A infinita saudade de uma doce Banabuyê Dos negrinhos de fradinhos nos arbustos A se esconder Pras mocinhas nas pracinhas assustando Entorpecer Eu daria todo o progresso emergente O funk, rap, internet ou avião Pra voltar às campinas que um dia Fui criança, E meus sonhos pueris Finquei ao chão.

⁠DE PARA FILHO: Quando criança eu for... Dileto filho.
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⁠DE PARA FILHO: Quando criança eu for... Dileto filho. Deveras já serás homem! Em suplica de pedirei Perdoa minhas travessuras! Mima-me com lenitivo As agruras do impiedoso Tempo! Quão intempestivo vento Arrebata nossos sonhos Dilacerando os pensamentos Das coisas que nos alentam. Filhos, netos amores incontestes. A tudo serás preferido.

⁠⁠⁠⁠O QUE É O AMOR? O amor é um estado de coisas Espirito ou espectro!
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⁠⁠⁠⁠O QUE É O AMOR? O amor é um estado de coisas Espirito ou espectro! Argumento mensurável... Subjetivamente coerente ou não Um Mix de ventos volúveis Que mexe com nossos parcos sentimentos. Que vem e passa como passa O tempo, o pensamento! É uma nau à deriva numa ilha À milhas e milhas daqui. E sob este emaranhado De coisas e cordas Meu coração faz trilha À milhas e milhas daqui Ora (direi), amigo meu Que o amor É uma coisa mais ingênua Que as virtudes cardeais

⁠MENDAZ: Nada enceta! A dor, a voz, os sonhos.
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⁠MENDAZ: Nada enceta! A dor, a voz, os sonhos. As máscaras e suas faces. Os "homens" e seus comes. Os livros e seus líricos Os mestres e os noviços Lúdicos e telúricos. Não há rima nem besos É controverso o reverso O mítico ou abstrato. Todo esse escopo mendaz Num instante não distante A tudo se perpaz.

⁠SEM MEDO DE SER FELIZ: Medo, medo, medo meeeeedo...
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⁠SEM MEDO DE SER FELIZ: Medo, medo, medo meeeeedo... eu tenho medo de ter medo! às vezes fecho os olhos para a realidade. fecho sim, por medo de ver o medo que sonda os "indivíduos" em uma sociedade subjetivada pelo medo. porque o medo, essa premissa... é uma configuração social de relação de poder imposta a seus atores sociais. portanto, o medo é sim! ferramenta de controle social e tenho medo, medo, medo meeeeeedo... Nicola Vital

⁠ÁRVORE DE AZEITE: Naquele benefício... um quintal com árvores de azeite
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⁠ÁRVORE DE AZEITE: Naquele benefício... um quintal com árvores de azeite Que nasciam todos os dias Àquela hora ao nascer o sol E morriam como tal ao ocaso. Sobre as rochas em greta Eu colhia os frutos que comia. E sobre seu cume que nutria o pinhal Eu mirava o cordeiro Que reluzia à boca da noite Com o olho central que cuspia fogo Iluminando o benefício. As árvores morriam E as aves em bulício calavam ao canto Sob o cântico de ventura Da matriarca Que mistificava o brilhante Reluzente de da luz.

POÉTICA: Deixe o ódio de lado! O rancor te faz palor.
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POÉTICA: Deixe o ódio de lado! O rancor te faz palor. Respira o cheiro Da clorofila! Tudo é hipótese Tese. Síntese e antítese. Não há locura ou razão Nem razão que se defina Não haverá destino Nem sina. Se houver Não se destina É sonho quimérico Métrica que alucina.

⁠DEUS E O DIABO Era manhã de setembro, o ano, dois mil e dezoito, a cidadezinha Aroeiras, lá no semiárido paraibano aonde o urbano, de maneira ainda tímida e conveniente, se mistura ao rural. No entanto, acolhedora e de clima ameno, com suas casinhas simples e modelo arquitetôni…
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⁠DEUS E O DIABO Era manhã de setembro, o ano, dois mil e dezoito, a cidadezinha Aroeiras, lá no semiárido paraibano aonde o urbano, de maneira ainda tímida e conveniente, se mistura ao rural. No entanto, acolhedora e de clima ameno, com suas casinhas simples e modelo arquitetônico antigo em sua maioria. Permite-nos sentir o frio brando que surge das colinas, e traz consigo o cheiro orvalhado das aroeiras, árvore nativa da região - em situação de quase extinção pela racionalidade desta vida líquida, que insiste mesmo nos mais longínquos rincões, plasmar seus caracteres de modernidade. Subvertendo a solidez de uma vida ingênua e autêntica que nos faz fluir muita saudade. Portanto, foi neste cenário de auspiciosa beleza que estava ali, eu, naquela manhã de setembro, de fronte à pequenina e graciosa igreja matriz, pintada em cores de azul celeste e decorada com luzes natalinas. Sobre ela, destacava-se um grande relógio frontal em algarismos romano, no qual podia se ver a hora (06h00) e edificada, quiçá, a propósito, sob arquitetura neoclássica do século XIX. Ao horizonte, contemplavam-se suas lindas colinas emolduradas por frondosos ipês que, por sua vez, entapetavam suas serras deixando-as parecer uma aquarela e, poucas viçosas aroeiras quase extintas pela ação irracional do homem. Seus casebres multicoloridos, ao pé da serra, lembravam com alegria as pinturas de Tarsila do Amaral, ali, permanecia eu à espera da condução. Logo chegara, aos poucos, outros indivíduos entre eles, algumas mulheres, quase todas acompanhadas de crianças de colo, alguns rapazolas, um que apresentava sintomas de embriaguez alcoólica e trazia consigo um cão magro e aparentemente faminto, amarrado ao cós de sua calça e que não fora rechaçada sua entrada naquela condução pelo jovem condutor - como se aquilo fosse uma ordem corriqueira - por fim, dois senhores não bem vestidos, ou em trajes campesino, de idade mais avançada, que como eu também pretendia imprimir viagem a seus respectivos destinos. E, talvez, por um proposito místico, só ali se encontrava todos os dias apenas àquele horário. Era domingo, manhã de primavera e após alguns minutos dava pra ver a chegada do tão esperado transporte, um ônibus de aparência um pouco antiga, que trazia as cores da bandeira brasileira como pintura e, o sugestivo ou irônico nome de “Novo Horizonte”. Ao adentrar na condução - veículo coletivo de passageiros -, éramos recebidos por um jovem condutor de boas feições e que nos recebe cordialmente nos desejando um bom dia sorridentemente. Ali começo a deixar para trás um quadro de múltipla beleza, que logo se perde ao horizonte e que viajou comigo para a vida. Todavia, quase que de maneira abrupta, sentam-se nas poltronas à minha esquerda, aqueles dois últimos personagens que viriam marcar presença nesta narrativa que proponho encetar. O primeiro, talvez mais velho, de fala frouxa e carisma aflorado. O segundo, um pouco mais novo, franzino, contido e um pouco recluso, ambos de pele negra. E apresentavam possuir idade bastante avançada, cabelos grisalhos, barba por fazer e olhos embaciados, seus rostos ressequidos, enrugados, talvez nem possuíssem a idade a demostrar. Se não fosse a paga pela insensatez desta vida líquida na qual vivemos, para citar o sociólogo Zygmunt Bauman. No âmbito da viagem, eu observava ligeiramente que os demais sujeitos no interior daquele ambiente pareciam alheios àquela narrativa que iria se iniciar, porém, mesmo que involuntariamente, eram parte integrante da história, uma vez que se dispunham a dialogar com a bela paisagem que ligeiramente passávamos por ela sem despercebe-la haja vista estarmos em uma manhã de primavera, o que tornava a aridez do lugar mais sútil e deixava aflorar a beleza dos campos e de seus ipês e flamboaiã, que mitigavam o sofrimento daqueles atores. E por ser um bioma propício à criação do gado caprino, meus olhos também brilhavam ao ver os rebanhos que se integravam ao verde dos campos e que fazia o nosso protagonista se orgulhar em mostrar, lhe absolvendo do espectro de sua dolosa infância. A priori, meu olhar se reporta apenas a observar a presença daqueles sujeitos, que se juntam aos poucos passageiros existentes naquele humilde veículo, que corriqueiramente faz aquele percurso todos os dias, e volto a navegar pela internet como se aqueles atores não estivessem mais ali. O barulho que se ouvia era apenas do motor. Momento em que é rompido o silêncio para dar início a um diálogo fantástico, homérico. Ao qual nem mesmo a minha atenção à modernidade patente, que consome a humanidade, navegando pela internet, me fez desviar a atenção àqueles dois personagens cativantes que se faziam presentes ali em minha frente. Doravante, passei a ser mero espectador de um novo cenário. Ou de uma das mais românticas e tênues narrativas de vida de um ser vivente. Aquele que eu entendia naquele momento, ser ele, o principal personagem dessa mágica história, dessa odisseia tupiniquim. Concomitantemente, inicia-se a narrativa àquela que segundo ele, seria a maior aventura de sua vida. Não obstante, inicia sua fala dizendo que, quando criança, queria ser cangaceiro rompendo o silêncio de seu amigo ao lado que aparentemente atônito, lhe indagou: - Cangaceiro?! E com uma larga gargalhada, Biu, que a essa atura já havia propagado sua graça para que todos ouvissem no ambiente, respondeu: - Cangaceiro sim! Neste instante dediquei toda minha atenção àquela conversa, embora os demais passageiros apenas imprimissem um brando riso, eu estava encantado porque queria intensamente saber a razão daquela vocação. Sem pestanejar, Biu tira de dentro de uma sacola de pano, que conduzia a tira colo, alguns cordéis alusivos a Lampião e ao cangaço, logo começa a declamar para seu par, por assim dizer. Em dado momento ele começa a ler um folhetim intitulado “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, para lembrar o filme de Glauber Rocha, aquilo cada vez mais me desperta curiosidade em saber quem era aquele senhor e aonde ele queria chegar com aquela prosa. A essa altura a viagem já havia se estendido por quase uma hora, e eu começo a manifestar o medo de não poder assistir ou participar do desfecho daquela imensurável narrativa, uma vez que eu, ou aqueles atores sociais, chegaria a seu destino final e, talvez, nunca mais nos víssemos. Sem querer me tornar um intruso, ergo a cabeça em sua direção e quebro meu silêncio, com todo cuidado peço licença. - Seu Biu! Logo ele refuta: - Como sabe meu nome? - sorrindo brandamente eu respondo: - Ora, o senhor falou para todo mundo ouvir. Também com um breve sorriso ele diz: - Foi mesmo, qual é a vossa graça? Ele pergunta e lhes digo meu nome. - E vosmecê quer saber o que? Neste momento, a prosa deixa a direção do seu amigo ao lado que visivelmente se recolhe à sua timidez, e se direciona a mim que lhe respondo: - Bom, eu já ouvi o senhor declamar e aclamar Lampião e o cangaço, e mais, falou para seu amigo que queria ser cangaceiro quando era menino. Por quê? - Ah, meu fie! É cumprida essa história, meu fie! - olha para mim com olhar de desconfiança, quase assustado e diz: - Vosmecê também gosta dele? E por que quer saber? É da puliça ou da reportage? - Não senhor, nenhum desses, mas fiquei muito curioso com sua prosa. Não se preocupe eu sou de paz. - E o que faz aqui por essas bandas e de onde vem? - pergunta ele. - Sou brejeiro de Esperança e trabalho aqui na cidade! - Meu rapaz, - em tom mais ameno -, essa história é muito enfadonha e vou ficar logo aí na frente, não vai dá tempo de contar até o final. Fiquei meio desolado e ele percebeu. - Mas vamos lá! - disse ele -, desde que eu era pequeno que eu gosto de ler cordel, aprendi quase sozinho, foi minha mãe que ensinou a cartilha, aí eu aprendi o resto sozinho. Eu ia com meu pai para a feira de Arco Verde, no sertão do Moxotó, e via os cantadores declamar a história de Lampião, que ele era justiceiro pela morte da família matada pelos senhores. Já me sentindo familiarizado pergunto: - E foi só por isso que você queria ser como ele? - Não! - e deixou transparecer em seu rosto sofrido um sentimento de muita angustia e revolta -, quando eu era pequenino meu falecido pai... E um breve silêncio ecoa. Baixa a cabeça e com a voz embargada e os olhos lacrimejantes, por um instante levanta a cabeça e respira fundo... - Quando menino morava com meus pais e irmãos, três homens e duas mulheres, papai trabalhava na roça de cana de açúcar no sertão de Pernambuco e nosso patrão era muito ruim, papai trabalhava como um burro e ganhava quase nada, só dava para a gente mal comer, eu era o mais velho dos meus irmãos e ele me explorava como escravo me humilhava muito, só me chamava de caboclo feio, dizia que nós éramos abandonados de Deus porque Deus só existia para ele, que Deus dava riqueza só aos escolhidos, e a nós sobrava apenas serem seus servos. E meu pai, talvez por medo dele, dizia que tudo isso era verdade quando eu lhe perguntava. Teve um tempo, moço, que eu até achei que Deus não era bom como se dizia, só depois que eu fiquei grande é que eu vi que Deus não mandava maltratar a gente, e que tudo aquilo que ele tinha era roubado do meu pai e dos outros trabalhadores que ele explorava. E que o mundo e as coisas boas do mundo, que estavam nas mãos dele não eram dele dada por Deus, e que ele não era escolhido de Deus por que assim Deus não era justo nem piedoso. Foi por isso que eu, ainda criança, comecei a imaginar em ser como Lampião e fazer justiça pela minha família e de todos que eram explorados naquele sertão. Mas eu vou ter que descer aí na frente vou passar o dia no meu pedacinho de terra, onde eu passo o dia todo, toda semana. - Seu Biu, mas o senhor não falou do senhor, sua família hoje? Com uma boa gargalhada finalizou me convidando para conhecer seu sítio e prosear melhor. muito da sua prosa! Mas tem muito mais coisas sobre meu sertão, sobre minha vida, meu caminho até aqui, como nós saímos daquele sofrimento para uma vida menos sofrida, mas que eu sei, não é isso o que Deus quer para seus filhos. E eu, quase em êxtase, por estar fazendo parte daquela narrativa, alimentava o sentimento de que começava ali o caminho para pedras e eu ia ser conhecedor de toda a história daquele Rei, rei do cangaço, rei da resistência contra-hegemônica. Por fim, grandiosa e cintilante era minha frustração, aqueles atores pedem parada e se embrenham mata adentro e nunca mais os verei para concluir sua saga. Ao voltar nesta busca descobri que Biu havia falecido acometido da Covd-19 em dois mil e vinte, e seu amigo, que fiquei sem saber sua graça, encontra-se em lugar incerto e não sabido. Mesmo assim, não desistirei jamais de procurar por seus filhos que são três, segundo pessoas da comunidade, duas mulheres e um homem, mas que não moram mais no mesmo lugar e que após a morte do Biu de Nicola, como passei a chamá-lo, construíram suas vidas e trilharam caminhos distintos.

⁠O VENTO DO TEMPO: Havia ao fundo do meu quintal Um lago de águas brandas e cintilantes
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⁠O VENTO DO TEMPO: Havia ao fundo do meu quintal Um lago de águas brandas e cintilantes Aonde nos meus sonhos de infante Sob as plumas das aves de cristal Erguiam-se meus castelos de ilusões Que hoje são choupanas sem alento Fazendo-me viajar de volta ao tempo E ninar com mamãe suas canções. Hoje, o palor de suas águas me ofusca Tuas plumas ao infinito se perfaz Seu cristal a beleza lhe refuta Contudo, meu coração ao seu ausculta E o meu sonho de rever-lhe se refaz Ao lembrar-te em meus primeiros madrigais.