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Frases de Luis Mateus

57 frases

⁠Uma casinha... Vem construir uma casinha, Uma pedra tua, outra minha...
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⁠Uma casinha... Vem construir uma casinha, Uma pedra tua, outra minha... Danças tu, canto eu Um fado que nasceu Não sei donde, nem porquê... É coisa que não se vê, Que do céu caiu, Como alguém que lê Um livro que não pediu...

⁠Poetizando... A chuva chora, O vento assobia
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⁠Poetizando... A chuva chora, O vento assobia À noite e à hora Que um luar sorria Ao poeta que namora Uma fingida poesia. Porém, Se o negro acontece E a claridade não vem, A tinta implode, esmorece E o poeta também! Ou então, Ele não acompanha O que o pensar debita, E o poeta estranha Tão generosa escrita! Ó poeta, Bebe, fuma e come Desamores e dilemas, Cafeína, cigarros e poemas, Senão morres à fome!

Flores Uma Gardénia sincera pintei, inocentemente de branca! Flor que a todos enleva, qual Florbela que me Espanca!
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Flores Uma Gardénia sincera pintei, inocentemente de branca! Flor que a todos enleva, qual Florbela que me Espanca! Fita-me depois uma Margarida pequenina e inocente, Ali e acolá, às escondidas da Gardénia e de toda a gente... Uma Gerbera baloiça alegre e sem saber de nada É engolida por uma voraz Papoila encantada! Bela flor, a Irmã do Nenúfar em água mergulhado! Plantei juntas, estas duas irmãs do meu agrado! Violeta e Alfazema no meu jardim vieram encontrar Uma Rosa que queria, num poema ser plantada! Mas nenhuma das três a viu acabada. A poesia! Foi de dia, que uma Flor de Laranjeira me deu Uma honra nua, que na minha lembrança e na sua Para sempre ficará! Flores perfeitas, onde as há? Talvez na Índia ache Orquídeas Rainhas! Alguém as quer suas, mas eu quero-as minhas! Veste o Jacinto tatuado, um “Sari” encarnado... Raro vinho tinto que não passou do noivado! Um postal me deixaram, em jeito de recado... Um Lírio sedutor e uma Flor de Lis que me calha... Jogado à minha sorte, bebo no campo de batalha Tudo o que há pra pecar: suor, luxúria e pecado! A Coroa Imperial. Do alto da sua sedutora luz e poder, Rompe a rombos de machado o porte régio do meu ser! Fico amansado! Mas a Acácia amarela depois me seduz! Creio ter espinhos e dor! E tem! Creio ser uma cruz! Se Deus há no Céu… Ele finalmente me prendou... Cravo branco, amor ardente, mãe de todas as ofertas, Inexplicável flor, porque todas as outras desconcertas? Jasmins e Gladíolos com pétalas a esvoaçar, Prímulas e Cactos que me querem dar a mão! Antes partir que vergar, a flores que não o são! Mas que raio... Uma flor, numa Flor de Lótus sentada está! É o que esperava? Será? Por minha culpa, não! Antes espinhos virão! Sai da minha sombra Petúnia! Procura a tua luz! Sal, azedume e dolo, não são o que me seduz! Cravo Amarelo, cantas bem mas não me contentas! Cheirei as cores da tua alma e eram todas cinzentas! O Açafrão e a Azálea Branca das querelas e traições, Dos saltos pelas janelas e dos arfares dos pulmões São como a Rosa Lilás! Não me dizem nada! A professora Camélia, de grandes pétalas e atraente, Não se deixou regar! Não era pró meu fino dente! Aconteceu assim este fado… Talvez o meu jardim não estivesse bem regado! Adelfas e Magnólias me aquecem como as aqueço, De dia, vestem-se às direitas, de noite do avesso! Pergunto porém À Tulipa Amarela, que sonhos tens acordados? Malas comigo feitas ou desfeitas aos bocados? Giesta, flor que dá calor ao espinho que colhi… Fiel livro que li! Flor que não partiu. Floriu! Sorri a Dálias, Cardos e Flores do Campo Antes de perguntar: Malmequer ou bem-me-quer, o que queres semear? Regar tais flores é como ter navio e não ter mar! Às Begónias colhidas, que me foram dadas, Angústias e uma flor dei, às flores rejeitadas… Morreram todas... ⁠

⁠Sou trovador velhaco Sou trovador velhaco, de zelo apostólico Com o senso, que bem não sei se ajuíza;
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⁠Sou trovador velhaco Sou trovador velhaco, de zelo apostólico Com o senso, que bem não sei se ajuíza; Censuro o mundo real e o simbólico Com vara curta que o justo enfatiza. O meu e o outro mundo diabólico, O que eu queria e o que hostiliza, Qual doente inferno e céu católico, Que a minha prosa aqui satiriza Cantando e ralhando a poesia, Ora afago quente, ora chibata fria!

⁠Penitência e mudez Tenho andado esmaecido, às voltas e voltas Como quem deita fora circunferências perfeitas
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⁠Penitência e mudez Tenho andado esmaecido, às voltas e voltas Como quem deita fora circunferências perfeitas E de tanto girar, embranquecido me tornei. Se não te encontrares, procura-me, Se o acaso deixar E se quiseres. Dar-te-ei Sangue e fogo, A veias frias que tenhas cansadas; O céu e asas, A penas que tenhas inacabadas; Rios e mares de noites estreladas, E todas as estrelas que vires, Serão tuas, Se quiseres. Apressa-te! Tenho só os anos que me faltam viver. Os outros, Foram apenas preparo para te alcançar. Enfim, Nos resquícios dos meus sonhos, Como ainda dormes, afago-te o sono Enquanto, da seiva que me resta, Vou banindo folhas débeis do outono E até lá, serei penitência e mudez E talvez, Os restantes poemas de amor Sejam todos para ti, Se quiseres.

⁠De procurar-te, ando perdido! De procurar-te, ando perdido, De perdido, ando cansado
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⁠De procurar-te, ando perdido! De procurar-te, ando perdido, De perdido, ando cansado De a toda a hora ser traído Pelo que tenho procurado! Fará sentido ou é inglório, Pedir o que tenho pedido E esperar que o peditório Não vá por onde tem ido? Mas se for, alguém me dê Um alqueire de coragem Pra pedir como quem vê No deserto uma miragem!

⁠O papelinho que te namora... Tão certo como o amor que te darei É a minha vontade de te rimar!
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⁠O papelinho que te namora... Tão certo como o amor que te darei É a minha vontade de te rimar! Mas rimar não sei, Mas posso tentar! Venho-te assim dizer O que esconde o meu coração. Quando estou contigo, Horas parecem segundos E segundos são profundos Sonhos em que te oiço e digo: És anjo a quem posso falar, Rir e porque não chorar! És ser iluminado! Talvez verde e com antenas... Como eu, assustado... Apenas... Não pensei ser ainda capaz De falar do que o amor me faz, De sentir o que me fazes, De conseguir fazer as pazes Com o sentimento de amar... E o imponente universo, Que uniu forças pra nos juntar, Escreveu verso atrás de verso, Para que possamos afagar Este amor controverso... Lê com carinho e atenção Este papelinho que te namora E se quiseres ou talvez não, Depois... Deita-o fora...

⁠A flor de lótus almejada Sou flor por nascer, por germinar, Como ela procuro a esperança remota
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⁠A flor de lótus almejada Sou flor por nascer, por germinar, Como ela procuro a esperança remota Do sol, vida e paz um dia abraçar! Vagueando por onde a flor brota, Eis que em mim o caule sinto rasgar Da flor nascida, à luz devota! Da minha alma antes alagada Nasce a bela flor de lótus almejada.

⁠Sete plantas do meu canteiro. Quem não ama o verbo plantar E não vê plantas a poder amar,
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⁠Sete plantas do meu canteiro. Quem não ama o verbo plantar E não vê plantas a poder amar, É porque é louco ou nunca amou! Amar plantas não é coisa de doidos E doido é coisa que eu não sou! A todas dei nome. (... Caetana...) Era perfeita! Em bruto, um diamante! Mil jurados lhe bateram palmas de pé! Só que o problema do “para sempre” É ser coisa, que nunca o é. (... Surya ...) Olha-me, como se, em câmara lenta, Pudesse com tal dócil e forte vontade Dizer ao tempo: “aguenta, aguenta!” Para um dia sermos unos, eternidade! (... Laura ...) Não há espigões, nós ou embaraços Que mais amei e alguns lhe dei, Porque outrora dos meus braços, Foste errónea planta que plantei. (... Débora ...) De talo estranho e folhas doentes, Busca-me chorosa, de hora a hora, Como quem perde coisas frequentes E depois de ser ralhada, chora! (... Pilar ...) Doce governanta a tempo inteiro, Do cuidar e cantarolar certeiro E talvez pela sua posição Namoro-a um dia sim, e três não! (... Renata ...) De fraco porte, altiva e risonha, Com um olhar seleto a vir de cima, Como se não houvesse melhor rima Que a minha poesia componha! (... Leonor ...) Verte um tal odor no meu canteiro, Como se tudo fosse nada e ela veludo Que supera todas as plantas no cheiro, Querer, saber, beleza e talvez em tudo! Rego-as amiúde, uma a uma, Com o amor que pude e tenho, Porque me dou a todas e a nenhuma Dou o meu coração frio e estranho!

⁠Bolha de sabão Ó bolha de sabão Que levada foste pelo ar,
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⁠Bolha de sabão Ó bolha de sabão Que levada foste pelo ar, Em ti voa um coração Que não sabe amar! Procuro luz às escuras, O que quero e não tenho: Arestas das minhas curas Limadas ao meu tamanho! O vento que atraiçoa Tão abatida e vã espera Faz-me ser fria pessoa, Ser quem não era! Já não tenho restos De força nas algibeiras, P’ra entoar protestos A esperas solteiras! Ó bolha de sabão Que não paras de voar, Que posso fazer senão Contra o vento, remar? Luis Mateus

⁠Velhice no ponto final Virgulas, já as perdi no caminho Onde atalhos vão dar a pontos finais;
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⁠Velhice no ponto final Virgulas, já as perdi no caminho Onde atalhos vão dar a pontos finais; Reticências, rezo-as sempre sozinho Pra escapar a parágrafos canibais! Aos poucos vislumbro o último vinho Que beberei não sei de que punhais! Ter menos tempo é ter mais a perder, Quase nu e tanto pra escrever! São horas lentas, frias e demoradas, Que a velhice aceitou e por onde há Pouca agitação e muitos nadas; Estou onde a televisão está E vejo-a com pálpebras desmaiadas; Do que lá vejo e oiço, bastará A minha ruidosa cama E a visita de quem me ama... Sou as cruzes e rasgos do desfiladeiro, Cheio de marcas que contam histórias; Tenho no bolso um andar batoteiro, Relógios calcinados, que não dão horas, Um olhar obsoleto, um falar trapaceiro, Que pergunta quantas mais memórias Terei com o meu melhor fato? Oh, destino ingrato...

⁠Muro das lamentações Pavões que se levantam Baixando decoros e bastiões
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⁠Muro das lamentações Pavões que se levantam Baixando decoros e bastiões Sem darem conta, plantam No seu muro das lamentações As vergonhas que cantam Sem saberem cantar canções! Diz o ditado que não aprende O pavão da latente cidadela, Que desse cantar depende Pra sonhar ser coisa bela, E por isso ele acende À vergonha uma vela!

⁠O meu amor é verde! Uma bela flor em negro vaso... É em todas as cores ver só uma;
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⁠O meu amor é verde! Uma bela flor em negro vaso... É em todas as cores ver só uma; É ser salvo, por quem nos afunda; É o tanto, que sabe a tão pouco; É o demónio em paz e o anjo louco; É a angustia em protesto; É o doce ser amargo e indegesto; É o perto que fica demorado; É ser maquinista desgovernado; É o riso tremido; É gritar sem ser ouvido; É não ter asas e voar; É ver mas também é cegar; É ficar tolo e ajoelhado, Não saber o que é certo ou errado; É o coração que fica refém Da rosa que vai e do beijo que vem; É por vontade ser acorrentado; É ser verde e aprisionado Ao universo que quer juntar, Até quem já tinha deixado... De acreditar! Nesta calçada da prosa aqui digo, Sentindo frio, sede e dor constante, Que verde é o meu castigo... E é por tudo isto que doravante, No meu universo profano, O meu amor é marciano... Talvez verde e com antenas... ... como eu...

⁠O fado mais bem feito Cai a noite, nasce a lua, Finda o dia e nascemos nós!
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⁠O fado mais bem feito Cai a noite, nasce a lua, Finda o dia e nascemos nós! Sopra o vento que apazigua A minha alma e a tua Enquanto estamos a sós! Sob o luar mais perfeito, Cantamos a uma só voz O fado mais bem feito Deste amor insuspeito, Não querendo ficar sós! Vai-se a lua, o galo canta, Nasce o dia e ficamos sós! Solidão que se agiganta Até vir a lua santa E de novo sermos ‘nós’!

⁠Amor é... O sol querer Ver a lua beijar
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⁠Amor é... O sol querer Ver a lua beijar É como dizer Ao amor que amar Não irá doer! Não é ofegação, Não é palavreado, Não é adaptação Nem estar apaixonado, Amor é zelo e perdão! Amor é estar à mercê De um sofrer mudo Do que a razão não vê, E acima de tudo É um não saber porquê!

⁠Namoradeiras a valer Abri a namoradeiras passadas, Janelas de candura e ousadia,
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⁠Namoradeiras a valer Abri a namoradeiras passadas, Janelas de candura e ousadia, Mas as vigentes namoradas Melhor seduzem a poesia! Tenho enredos num armário Embalsamados e esquecidos De tais esculturas num diário De reais versos e vividos! Da minha herética janela, Tenho de ser cautela! Não vá quem não deve, perceber, Que o pasto dado, que desminto, É de quem, do que foi a valer, Está constantemente faminto.

⁠Bem haja! Por cantares Sempre que pedi...
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⁠Bem haja! Por cantares Sempre que pedi... Por me ressuscitares As vezes que morri... És anjo e sol, És guia e farol Porque lá do céu Não és juiz, Nem eu sou réu Do que faço ou fiz. Apenas ergues o véu E falas-me... E eu oiço O que o sol me diz! E em quaisquer mares Daqui ou d'além, Se chorares, Chorarei também!

⁠Como é que se diz isto a alguém? Diz-me com que olhos te devo falar? Se com os que tenho,
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⁠Como é que se diz isto a alguém? Diz-me com que olhos te devo falar? Se com os que tenho, Ou com os que t’estão a deixar? Que poções tenho de beber? Que marés devo navegar P’ra que possas entender! Palavras são pedradas! Perguntas vazias... Respostas não dadas… Resvalámos, sem saber Que a dor é deste tamanho E não da que devia ser! Como olhar um olhar caído? Como pedir que sorrias, Se sorrir não faz sentido? Como dizer a um coração, Que metade de ti nos une, Mas a outra não! Como é que se diz isto a alguém? Como dizer o que não se diz a ninguém? Que o fim vai começar...

O forte cai e corre A vida assim encarar: Ser coruja errante
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O forte cai e corre A vida assim encarar: Ser coruja errante Ou papagaio ignorante, É diferença entre caminhar Ou cair num instante! Ao cair, que se aprenda Com o descuido passado, Ou serás enterrado Pela vida, pela fenda Onde caístes à bocado! O fraco a morte planta, O forte cai e corre Mas se agiganta! Um, hoje se levanta, O outro, amanhã morre!⁠

⁠Assustas-me! É estranho... O mel das tuas teias,
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⁠Assustas-me! É estranho... O mel das tuas teias, Abrir-me no peito este lanho.... E corres-me nas veias Porque és do tamanho Do que me semeias! Não sabia que era assim! O bom também é ruim! E padeço baixinho E às vezes desalinho Porque cheiras a rubi, Nirvana, amor e um ninho... Porque a tua alma sorri E tem um pedacinho De tudo o que eu pedi... E é por o meu santinho Gostar assim do teu... Que me assustas...

⁠A tua caligrafia... A tua caligrafia é imaculada como as pedras do rio. A tua letra engomada, como a vaidade de quem a nada se curva.
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⁠A tua caligrafia... A tua caligrafia é imaculada como as pedras do rio. A tua letra engomada, como a vaidade de quem a nada se curva. Letras tuas assim dispostas, em falares e perguntas, Espalhadas pelas encostas de parágrafos que juntas, Não param de me cantar! Andas perdida de mim, como o sapato da Cinderela! A minha espera já vai alta, Como a escuridão dos corpos celestes mais distantes do universo. E depois os Deuses, Dão-me a luz do dia: a tua caligrafia! Ela declama pra mim só nos solstícios de Verão! Esses dias são quentes e longos! Mas são poucos! Como poucos são os meus sorrisos, que são às direitas como a tua letra! Mas afinal o que escondem as montras da tua caligrafia? Amor ou agonia? O que pensarão os teus olhos nos dias em que te escrevo? Os meus já pesam, de querer um pequeno casebre que nos bastava! Tudo o resto, se não viesse, eram amendoins para dar aos macacos apenas... Vezes sem conta passo-te a pente fino, Como o amor que fazemos sem tu saberes! Sou eu que o imagino. O amor e o cheiro dos teus comeres. Cheiras-me a cinco filhos e um lar. Uma casa onde o amor se cante E onde nos vejo a governar: Tu princesa, eu infante E os miúdos nos afazeres de criança! Queria dar-te o universo de bandeja Mas ao menos receber uma esperança que se veja! Depois de te ler, abre-se-me um vazio Por onde a tristeza cai à terra, como um dominó que tomba todas as palavras que li... Depois, meto-as na gavetas das coisas que me metem medo E pergunto-me em segredo e lavado em choro: Quando será paga a última prestação deste namoro?

Naveguei demais... Sei de uma pessoa E essa pessoa sou eu,
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Naveguei demais... Sei de uma pessoa E essa pessoa sou eu, Que em mares de lágrimas, vezes demais se perdeu. Foram demais os desembarcadouros e cais Onde pouco me dei e amei E nos quais Morri vezes demais! E antes que morra de vez A matar a sede em água salgada, Queria um mar de rosas, não de estupidez! Eu sou o mar, marujo de vocação e sem medos tais, Que embarquei em começos e finais Demais... Cheirei maresias, mágoas e horas incertas, Estive sempre aos meios-dias em praias opostas e múltiplas costas, Sempre vazias... Vacilei demais, remei demais, subtraí-me. Fui, da minha conta, de menos e demais. Naveguei muito além dela... Perdoei tempestades e temporais, Ignorei faróis, piratas, intuições e punhais, Sempre demais... Naveguei mares, rios, riachos e até lagunas. Algumas foram lições, outras alunas Demais... Porque o mar não têm terra, só imensidão e gaivotas no ar, Porque o rio lá vai como a lua, devagar E o mar... O mar é revolto, tem um cabo bojador e frio E margens do rio São fáceis de ancorar... Acreditei Que não havia peso no verbo acreditar E que podia haver terra no mar! Deve ser esta a minha sina, Carregar coisas pesadas e lamber águas salgadas... Tantas gotas no oceano e nenhuma é doce! Ó mar salgado, porque não vieste adoçado? Só que água doce Não é o mar que a traz... Em que luares voam passarinhos? Em que rios estão ninhos a crescer? Em qual das luas acreditar? Na do céu ou na do mar? Por isso te peço amor: Não me vás além mar, equivocada, tentar encontrar! E se mesmo assim, teimosa, me achares, Devolve-me... Porque me havia de calhar Tão grande mar pra navegar? E salgado ainda por cima...