O céu, o inferno e uma história Antigamente Éramos unha e carne;
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O céu, o inferno e uma história Antigamente Éramos unha e carne; Bebíamos tudo do mesmo copo, Suores, lágrimas e um afável vinho; Eras a totalidade de todas as coisas, Eu era o teu universo E todas as gravidades Nos puxavam à nossa cama; Palavras eram plumas que voavam, Quando não se estavam a beijar; Éramos provação e teoremas E tu lias os meus poemas Que eram todos para ti; Rezávamos a Deus, que nos deu O infinito, um lar e asas, e assim Íamos em parelha à mercearia Flutuando como passarinhos; Era no tempo Em que Deus respondia a orações E prometia o céu e uma história. Anos escarpados depois… Somos garras que ferem carne; Cada um tem o seu copo Por onde bebe a retaliação do outro; A totalidade de tudo o que éramos, Esfumou-se no universo E todas as gravidades Nos afastam dos nossos centros; Palavras são agora De arremesso ou caladas; Desaprendemos o perdão, A paciência, a cumplicidade e a beijar; Somos pétalas caídas de uma flor De um poema que cheira a bafio; Já não há mercearias nem passarinhos, Só corvos, a depenarem-se uns aos outros, Como nós. Ainda rezamos, mas em vão! Deus desistiu, como nós, de ambos.