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Frases de Leonardo R. Pessoa

243 frases

⁠A magia do Dia das Crianças No Dia das Crianças, somos chamados a escavar o que o tempo enterrou em nós. Crescer é como um lento naufrágio, onde nos afogamos nas correntes da rotina e no peso das horas que se multiplicam sem cor. Perdemos, entre os dedos, o assombro que outrora…
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⁠A magia do Dia das Crianças No Dia das Crianças, somos chamados a escavar o que o tempo enterrou em nós. Crescer é como um lento naufrágio, onde nos afogamos nas correntes da rotina e no peso das horas que se multiplicam sem cor. Perdemos, entre os dedos, o assombro que outrora dançava livre em nossos olhos. O mundo, antes vasto e inexplorado, agora é uma paisagem estática, onde já não vemos a magia que as crianças respiram. Lembro-me do dia em que observei meu filho na cozinha, como um pequeno alquimista, sorrindo ao transformar ingredientes comuns em arte efêmera. Mexia a colher com a solenidade de quem conhece segredos ancestrais, e o açúcar, dissolvendo-se, era um rio de luz. As gotas de chocolate caíam como constelações em um céu de farinha. Para ele, aquele bolo era mais que um simples bolo. Era um sonho que se formava entre suas mãos. Nós, que já não sentimos o encanto nos gestos diários, repetimos nossos passos sem poesia. Perdemos o ritual da criação. Fazemos, mas já não criamos. Esquecemos a dança do instante, trocamos nossos olhos de espanto por uma lente endurecida, que só busca o fim, que só quer o resultado. Quando foi que deixamos de encontrar o universo em um grão de areia? Quando foi que a música da vida se calou dentro de nós? Que neste Dia das Crianças possamos redescobrir o caminho perdido. Que voltemos a andar descalços na terra do encantamento. Que nos permitamos tocar, outra vez, a beleza das pequenas coisas – o riso de um amigo, a sombra de uma árvore no fim da tarde, o brilho de um olhar que nos acolhe. As crianças conhecem a canção secreta da vida. Elas sabem que o tempo não é uma linha reta, mas uma dança circular. Sabem que a alegria não se alcança, mas pode ser encontrada nos detalhes mais sutis. O mundo nos ensina a sermos frios, a contarmos o tempo em segundos. Mas as crianças nos lembram que a vida se conta nos sorrisos e nos gestos despretensiosos. A criança antevê a felicidade, não espera que ela chegue para ser feliz. Elas sabem ver o voo delicado de uma borboleta como um milagre, sabem que uma flor pode conter todos os segredos do universo. Elas nos ensinam que a verdadeira sabedoria está em desaprender. Desaprender o peso, reaprender a leveza. E assim, voltar a acreditar naquilo que só o coração pode ver. Que neste Dia das Crianças, aprendamos, assim como elas, a amar a véspera, a alegria que já habita o instante antes da chegada. Que possamos, enfim, abrir nossos corações para a inocência e para a curiosidade que nos habita, adormecida. Porque são elas que nos mostram o caminho de volta ao que sempre soubemos: a vida é um mistério a ser vivido, não resolvido. E, ao olhar novamente através de seus olhos, talvez, só talvez, reencontremos o brilho que deixamos cair ao longo da estrada.

⁠Saudade, ação que nos une. A saudade não pede licença. Ela é como um hóspede inconveniente que aparece sem avisar e, mesmo sem ser chamada, se ajeita no sofá da sala. Vai se espalhando pelos cantos, invadindo os espaços, tirando o ar do peito. Ela chega numa tarde qualquer, qua…
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⁠Saudade, ação que nos une. A saudade não pede licença. Ela é como um hóspede inconveniente que aparece sem avisar e, mesmo sem ser chamada, se ajeita no sofá da sala. Vai se espalhando pelos cantos, invadindo os espaços, tirando o ar do peito. Ela chega numa tarde qualquer, quando o relógio insiste em te lembrar que o tempo está passando, mas você insiste em resistir. E, sem aviso, tudo o que parecia guardado, bem trancado, explode: uma conversa interrompida, um abraço que nunca aconteceu, e você fica ali, mudo, sem saber o que fazer com tanto. A saudade não é só falta; ela é também sobra. Sobra de risos antigos, de momentos que o tempo tenta, em vão, desgastar. Mas quem disse que o tempo tem esse poder? A memória desafia o instante, mantém tatuados os gestos, as palavras, até o jeito de inclinar a cabeça. E aí está o truque: a saudade não é ausência, é a presença de quem ainda mora em nós. Deus gosta de histórias com linhas tortas, e talvez eu também, pois, no meu coração, quem se vai sempre fica. Há dias em que a saudade bate com pressa, como se quisesse me dar um tapa na cara, gritando que a vida continua, mas o coração é teimoso e espera. O tempo passa, mas na mente ainda sobra aquele sorriso tímido, aquela piada boba que só nós entendemos e aquela conversa infinita sobre quem éramos e no que nos transformamos. É como sentir o hálito de hoje desejando o aroma de amanhãs. Dizem que a saudade é um fardo, um peso que nos empurra sempre pra frente. Mas eu prefiro acreditar que ela é uma ponte. Penso assim como Rubem Alves dizia: "a saudade é nossa alma dizendo para onde quer voltar". A saudade diz muito sobre o ontem, mas é também uma inspiração para o que ainda está por vir. E enquanto estivermos vivos, sempre vem. Enquanto o tempo corre, me pego rezando para que, onde quer que estejas, o ser desse meu saudosismo, estejas bem. A saudade, no fundo, é isso: uma oração muda para que quem está longe siga feliz. Tentamos visualizar boas realizações, mesmo que a distância doa e a falta aperte, porque é pelos olhos que florescemos. Também é por eles que recordamos. Fecho os olhos para ver o tempo e ouço o sotaque da emoção da minha alma. Ela me lembra que, apesar da distância, ainda estamos conectados. Porque, se ainda sinto, é porque o amor ainda respira. E se o amor vive, vale a pena esperar. Quem sabe não habite aí a verdadeira função da saudade: conectar pessoas no presente para garantir futuros sorrisos. Que o nosso hoje seja como um dia sonhamos, para que amanhã uma boa emoção nos acompanhe quando olharmos para o que agora estamos decidindo e fazendo.

⁠Maior Abandonado Ele, agora crescido, caminha pelas ruas da vida com uma sensação estranha de vazio. As ruas, como ele, são lugares onde tudo se perde, a começar pela inocência. Quando era pequeno, falavam do "menor abandonado", aquele que, por falta de cuidados e afeto, era de…
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⁠Maior Abandonado Ele, agora crescido, caminha pelas ruas da vida com uma sensação estranha de vazio. As ruas, como ele, são lugares onde tudo se perde, a começar pela inocência. Quando era pequeno, falavam do "menor abandonado", aquele que, por falta de cuidados e afeto, era deixado à margem da vida. Mas, e o maior? O maior abandonado? Pensando na canção Maior Abandonado, de Cazuza, ele se vê refletido em suas palavras. Este adulto, invisível em sua dor, carrega o peso da ausência e do silêncio. Não há mais mãos estendidas com a frequência de outrora para aquele que, supostamente, aprendeu a caminhar sozinho. O mundo acredita que ele já esteja forte, que o coração, endurecido pelo tempo, saiba resistir aos ventos gélidos da solidão. Mas quem cuida de quem já não sabe pedir? Quem estende os braços àquele que, por costume, esconde as lágrimas sob sorrisos apagados? Ele caminha, solitário, nas ruas largas, onde ninguém se enxerga. Tal como na canção, busca restos e fragmentos de ilusões. E o que passou, talvez, só ele saiba. O maior abandonado não grita por socorro. Não em voz alta. Ele anseia por mentiras sinceras, por gestos que, mesmo que breves, o façam esquecer a solidão. Sentado à mesa dos encontros, ele ri das piadas, compartilha olhares, mas, quando as luzes se apagam, sente o eco de uma ausência profunda. Não há mais braços que o envolvam com o calor de antes. Não há olhos que vejam além das máscaras que ele se habituou a usar. E, por vezes, aceita a presença de um corpo, com ou sem amor, apenas para não ficar só. Como migalhas dormidas do pão de outrora. Sua alma clama em silêncio, mas o mundo parece ocupado demais para ouvir. E assim, ele segue sua caminhada solitária. Pergunta-se, sem respostas, quando foi que deixou de ser digno de cuidado. Em que instante a vida lhe impôs o fardo de carregar sozinho dores que nunca cederam ao tempo? Ele percorre os próprios desertos e, a cada passo, seus ecos se apagam, deixando apenas o silêncio como companhia. Talvez, no entanto, o maior abandonado não seja ignorado pelos outros. Talvez tenha sido ele quem, ao crescer, aprendeu a se esconder. Talvez a maior solidão não seja a imposta pelo mundo, mas a que ele mesmo construiu, ao deixar de acreditar que também merece colo, afeto e mãos estendidas. E talvez, no fundo, ele reze para que o sagrado o proteja de si mesmo — desse vazio que, por medo ou acomodação, continua a alimentar. Leonardo R. Pessoa

⁠Deságua Sou rio, mas não mando em mim. Nasço tímido entre pedras,
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⁠Deságua Sou rio, mas não mando em mim. Nasço tímido entre pedras, um fio d’água sem dono. Aprendo cedo a correr, a buscar o mar sem perguntar. As pedras me ensinam desvios. As margens me lembram limites. Aceito ser água que passa, que abraça, que perde e que segue. Se um dia seco, o barro me guarda. Se transbordo, o mundo me teme. Mas a vida não me espera— ela deságua mesmo quando eu já não estou.

⁠Floras Abrem asas. Voam...
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⁠Floras Abrem asas. Voam... Carregam a primavera. Sem elas, o mundo desaprende a florir. Voam... Polinizam os ares, desarrumam o azul, fazem festa aos olhos dos que sabem ver a beleza. Voam... Flores sem caule, borboleteiam. Panapanás, metade mulher, metade poesia.

⁠O mais passarinho de todos O mais passarinho de todos soprou o vento, e o pardal achou onde ficar.
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⁠O mais passarinho de todos O mais passarinho de todos soprou o vento, e o pardal achou onde ficar. Até a andorinha, sem mapa nos olhos, desaprendeu a se perder. O mais passarinho de todos bordou os rios, escreveu caminhos sem pressa. Fez o tempo andar de pés descalços e me ensinou a brincar de novo. O mais passarinho de todos acendeu as folhas de verde, e o chão se ajoelhou em raiz. Até as pedras, duras de silêncio, aprenderam a escutar o orvalho. O mais passarinho de todos desfez a distância do céu. Coube no voo, na seiva, no barro, e até na palavra que eu não sei dizer. Eu, pássaro de asa murcha, com sua ajuda, encontrei pouso.

⁠Manifesto analógico Caminho ao contrário da pressa digital. Meus pés fazem questão de tropeçar.
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⁠Manifesto analógico Caminho ao contrário da pressa digital. Meus pés fazem questão de tropeçar. Gosto de esbarrar nos nomes, perder o rosto e achá-lo na lembrança. Lembrar os números e discar. Deixar a voz ferver no ouvido sem acelerar o áudio. Não quero que um robô faça o que minhas mãos ainda tremem para fazer. Escrever torto, borrar o caderno, errar sem a opção de apagar. Minha mente é ilógica, se perde no meio da frase porque está ocupada sentindo. Fora do trabalho, me divorciei do virtual. Não confio o que amo às nuvens — nuvens não sabem ficar. Mudam de forma, trocam de nome, desaparecem sem se despedir. Voltei a imprimir memórias, fazer backup na gaveta, guardar fotos para que o tempo não as engula. Escrever cartas com minha letra, imprimir no texto minha personalidade. Não tenho pressa de chegar a lugar algum. Dificilmente chegarei ao dobro dos anos de hoje. O destino já não me interessa tanto quanto o caminho. Quero o que importa perto. Quero ter rabiscos nas margens dos livros, esperando o reencontro com minha versão mais ingênua.

⁠Não se relacionem nem apoiem aqueles que querem o seu mal. Ideias racistas, xenofóbicas e misóginas não são apenas opiniões divergentes — são promessas à espera de oportunidade. Como pode um nordestino apoiar alguém que o despreza abertamente? Como pode uma pessoa LGBTQIAPN+ da…
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⁠Não se relacionem nem apoiem aqueles que querem o seu mal. Ideias racistas, xenofóbicas e misóginas não são apenas opiniões divergentes — são promessas à espera de oportunidade. Como pode um nordestino apoiar alguém que o despreza abertamente? Como pode uma pessoa LGBTQIAPN+ dar voz a quem nega sua existência? Como pode uma mulher defender quem insiste em reduzi-la à inferioridade? A adesão a discursos que negam a dignidade de um grupo pode vir da desinformação, da manipulação emocional, de promessas individuais ou da ilusão de que "não é bem assim". Mas é exatamente assim. Palavras constroem narrativas, narrativas moldam políticas, e políticas definem vidas. Não se enganem: o ódio normalizado hoje se torna a violência legitimada amanhã. Nenhuma promessa econômica justifica a negação de direitos fundamentais. Nenhuma tradição pode servir de desculpa para a opressão. O caminho para a barbárie começa com a aceitação da intolerância como mera opinião. E, contra isso, não há espaço para neutralidade.

Milagre de chão Meu milagre não desce do alto, não brilha em vitral.
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Milagre de chão Meu milagre não desce do alto, não brilha em vitral. Não vem do céu, mas de poças. Rasteja. Bebe do lodo dos dias passados, canta no barro onde a dor se aloja. Devagareia. Aprendeu com o peso da espera a carregar o lar nas costas. Meu milagre é andar sobre as mágoas, ser lesma que, mesmo lenta, assina nas folhas um rastro de ida.⁠

⁠Asa de um lado só Só tenho uma asa. Um lado mudo de pássaro.
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⁠Asa de um lado só Só tenho uma asa. Um lado mudo de pássaro. O céu me namora, mas eu sou do chão. Se tivesse duas, voava em linhas tortas, fazia rasantes no azul e inventava nuvens novas. Com uma só, fico brincando com o vento, sonhando ser passinho, pés no chão e cabeça nos ares. Quem sabe um dia, no finalzinho da lida, a asa murcha cresça e eu, enfim, conheça o céu. Minha asa pulsa, como se já soubesse do infinito. Uma asa é quase nada, ou tudo — depende do corpo que sonha.

⁠Pareidolia Nas nuvens, um coelho, feito de vento e migalha de céu.
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⁠Pareidolia Nas nuvens, um coelho, feito de vento e migalha de céu. A natureza inventa vida onde há silêncio, e a mente, danada, faz enxergar. Eu vejo contornos que nem existem, ou talvez existam, porque os inventei. Minha sina é dar nome às coisas que ainda não sei o que são e bordar sentidos no que vi. Um galho seco me acenou — ou talvez fosse um braço. Ao lado, a bananeira, com dentes amarelos, sorriu. As coisas criam sentidos quando alguém as olha sem pressa. Dia desses, vi teu rosto numa poça d’água, um rosto de luz, desses que não têm peso. A poça ria de mim com suas bordas de lama, igualzinho tu faria se me visse fantasiar. E eu, feito criança, ri de volta. Seria loucura, ou só o mundo brincando de ser? Tudo acaba virando o que o olhar quer.

⁠Ano novo. O tempo empilha dias como quem constrói algo.
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⁠Ano novo. O tempo empilha dias como quem constrói algo. No calendário, há um rumor divino, intervalo entre o que fomos e o que fingimos ser. Fim. O ano velho, cansado e curvado, esconde no bolso sua última promessa, deixa sobre a mesa o peso dos sonhos, riscados por mãos que tremem. Meia noite. No salto do instante que vira página, nos descobrimos novos, ainda que usados. Recomeços. No limite do voo, não há destino: apenas um céu que ainda não sabemos ler.

⁠Alforria das Palavras Depois da ordem das coisas, as pedras só podiam rolar,
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⁠Alforria das Palavras Depois da ordem das coisas, as pedras só podiam rolar, tão certas quanto o vento, que não indaga os caminhos. Não havia mais o inverso. De tudo, só as palavras escapavam à sujeição. Flutuavam livres, no deslimite das coisas, nas bordas do impossível. Iam e vinham, urgentes em se espalhar, como quem entende os despropósitos da vida sem jamais se perder. As pedras sabiam o seu lugar, mas a palavra, alforriada, não se aquietava, não se atava ao chão. As pedras, escravas de seu destino, rolavam para cumprir o que lhes foi dado. Enquanto as palavras existiam, suspensas entre o céu e a terra, preenchendo os vãos do não dito.

⁠Santos Quem ama a Deus não é santo. Não há dificuldade em amar o que é perfeito.
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⁠Santos Quem ama a Deus não é santo. Não há dificuldade em amar o que é perfeito. O amor é sacro. Por essa razão, vive de impossibilidades. Sua manifestação é, em si, o milagre. Se o amor é o milagre, amar aqui é o ensaio da eternidade. Que sejamos santos, não por amarmos a perfeição, mas por aprendermos a amar a humanidade. Amar é se despir de si, é vestir-se do outro, é encontrar, nas imperfeições, a oportunidade de criar asas. Santos são aqueles que amam intensamente. Que sejam canonizadas as pessoas que amam pessoas! Que os atos sejam as palavras que nos faltaram. Amar ao próximo é a forma mais corajosa de antecipar a utopia da eternidade.

Tamoatá Tamoatá não é só um peixe, é uma palavra que aprendeu a andar.
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Tamoatá Tamoatá não é só um peixe, é uma palavra que aprendeu a andar. Inventou pés onde só havia barbatanas, carrega no casco histórias que desafiam o seco e planta memórias no fundo das lagoas vazias. Quando a água foge, ele permanece. Não se assusta com a ausência, seu sonho o umedece. Respirar fora d’água é a poesia do Tamoatá: ele mastiga o ar como quem se alimenta de esperanças. É peixe do mato, de água pouca e chão úmido, veste o barro como quem carrega sua pele. Faz-se rio onde só há poeira, e, no silêncio das várzeas secas, aprendeu a ouvir a fala das poças. Tamoatá é peixe caipira, conhece o mato como quem conhece o caminho de casa. Ele não tem pressa, faz do brejo um campo de repouso. Com seus pés de peixe, planta passos na terra molhada, ensinando ao tempo a ser lento, a ser raiz. Ele prova que, fora da água, a vida também tem suas correntes, mesmo que sejam mais lentas. ⁠

⁠Bibliosmia O cheiro… ah, o cheiro de você. Não é só cheiro. É o resto do mundo.
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⁠Bibliosmia O cheiro… ah, o cheiro de você. Não é só cheiro. É o resto do mundo. O cheiro da descoberta, o odor almiscado do que se ignora, do que ainda falta. É cheiro de livro novo. Você é o odor do não dito. Entre os dedos, suas páginas se abrem. A palavra toma corpo, o verbo se faz carne. Eu quero conjugar o que está entre as palavras, capa, bordas. Ir até as margens da linguagem, onomatopeias. Seu gênero é esse, eu sei: fantasia e suspense. Experiência sensorial. Respira, você. E eu também respiro, exalo. É o amor que se disfarça de saber, ou saber que se dissolve em desejo? A capa é corpo fechado. O que não se diz. Aberta, toque. Você é o que não se lê.

⁠Jesus Sob uma noite feliz; anjos entoam cantos de paz.
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⁠Jesus Sob uma noite feliz; anjos entoam cantos de paz. A estrela-guia rasga a escuridão, trazendo luz aos corações cansados. É o infinito que se doa ao pequeno. Em uma manjedoura, um simples Deus menino. A santa mãe descansa, após dar à luz a esperança dos homens. O pai embala o Natal vivo. O menino dorme, carregando o peso da eternidade. Seu choro é prenúncio de redenção, um amor tão imenso que escolheu caber num berço de palha. Santo Deus menino! Céu cadente ao alcance das mãos. Quando o Verbo se fez poeta, a poesia tornou-se sinônimo de Deus.

⁠Feliz Natal! Natal é renascimento... é uma nova oportunidade de ser.
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⁠Feliz Natal! Natal é renascimento... é uma nova oportunidade de ser. É mais significado que festa. É ver sacralidade na rotina de um jantar. É memória que volta ao presente: os passos do avô, a voz da mãe, as mãos entrelaçadas ao redor da mesa e a fé que se estende além do tempo. É o convite para acolher o estranho, para enxergar o outro com olhos de amor. Natal é verbo que se faz atitude: é ser Deus no abraço de quem estende a mão. É convite para que sejamos neste dia, como o menino em seu berço singelo: pequenos na matéria, grandes no afeto, humanos no gesto, divinos na entrega. É quando Deus se limitou a um só lugar. É prova que o finito pode conter um infinito. É sentir Deus em um menino. É repartir esse Deus em fatias de pão. Natal é época de se repartir e sempre sobrar.

⁠Êxodo Faunal Os vagalumes se apagaram de tanto iluminar o nada. Deixaram no ar uma saudade de lampejo,
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⁠Êxodo Faunal Os vagalumes se apagaram de tanto iluminar o nada. Deixaram no ar uma saudade de lampejo, como se a noite agora fosse menos noite. Antes, ao escurecer, acendiam luminares. As abelhas, desistiram de suas casas de mel, escravizadas em nome do capital e do progresso. Talvez tenham cansado de voar entre o barulho, as flores e suas celas de cimento. As borboletas, flores flutuantes, que nunca gostaram de despedidas, foram embora sem alarde. Levaram consigo a leveza do mundo, deixando só o peso e a cor opaca da nossa pressa. A gente, bicho grande, ficou sem esses pequenos. E agora, o que fazemos? Apenas aprendemos o inútil. A cidade cresce, mas encolhemos por dentro - sem o zunido, sem o lampejo, sem o voo.

⁠Inexperiência A única coisa que posso transmitir ao mundo é minha inexperiência.
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⁠Inexperiência A única coisa que posso transmitir ao mundo é minha inexperiência. Ela chega primeiro que as palavras, como pássaro que canta antes de chocar, ou fruto que cai sem saber o que é. A inexperiência não carrega saberes, nem respostas. Tem o mesmo olhar curioso de tartaruga desovada, que ainda não sabe que o que vê é um litoral. E eu me perco nela, nessa pureza que não se apura, nessa simplicidade, mais sábia que qualquer pensamento. Meu encantamento por descobertas só acontece pelo privilégio de não saber tudo. A única coisa que posso transmitir ao mundo é minha inexperiência. E talvez seja tudo o que ele precise.

⁠De como me inventei Passei meus dias em meio às coisas miúdas. Aprendi com as borboletas a carregar nas costas o mundo,
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⁠De como me inventei Passei meus dias em meio às coisas miúdas. Aprendi com as borboletas a carregar nas costas o mundo, e com os pingos da chuva, a fazer serenata no chão. A torneira aberta dos céus jorrava horas inteiras de poesia, e eu, menino sem bicicleta, inventava que as palavras tinham rodas. Brincava de crescer pelos olhos, onde cabia o universo e um pé de grama. Ensinava o absurdo a se acomodar no meu quintal: uma pedra virava amiga, uma nuvem, brincadeira de adivinhar. Enaltecer os ordinários era meu jeito de me desconhecer um pouco por dia. As frustrações, eu punha no varal. Torcia minhas tristezas até o último soluço e pedia ao sol que secasse tudo antes da próxima chuva. Porque a chuva sempre volta, mas as tristezas, se bem secas, viram outra coisa: lençol para embalar sonhos ou sombra fresca para esquecer o calor. Assim fui me criando, com as faltas vestidas de beleza e com os vazios repletos de poesia. Nunca esperei o fim chegar, porque quem vive de esperar não interage com o presente, nem cresce pelos olhos. Escolhi viver assim: de mãos dadas com o invisível, sendo mais do que sou. Ou sendo menos. Afinal, quem precisa de muito quando tem o céu inteiro dentro de si?

Saudade: a medida secreta do amor Teus olhos, agora estrelas, não brilham menos por estarem distantes.
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Saudade: a medida secreta do amor Teus olhos, agora estrelas, não brilham menos por estarem distantes. São vigias do meu sono, um farol que ilumina a noite longa. Tua voz é sussurro no vento, um segredo guardado nas folhas secas, canta memórias nos cantos esquecidos do dia, um eco que não se apaga, uma melodia que insiste em ficar. A saudade não pede licença, entra sem bater na porta. Sons, cheiros, risos: tudo rompe o silêncio da sala. É o amor que ficou, pedaços teus que não souberam partir, estilhaços da tua presença, que agora moram na ausência. Sentir saudade é um pacto, uma entrega, o ensaio da presença que já não volta. Dizer "sinto saudades de você" é confessar: "eu te amo ainda". A ausência é cheia demais, carrega teu cheiro, tua risada, o peso do que não foi embora. Saudade é régua, a medida secreta do amor, o peso e a prova de tudo o que fomos. Tesouro que o tempo não apaga, que a ausência não rouba. Saudade é o amor que persiste, um grito surdo que ecoa, buscando-te em cada esquina do tempo. Se o amor é âncora, a saudade é barco à deriva. Navega sempre em busca do que perdeu. Nem tanto ao mar, nem tanto à rocha: foi no equilíbrio das ondas que minha saudade ancorou no porto invisível do meu coração.

⁠Um dia de cada vez A terra seca sob meus pés não é menos dura que o peso do dia.
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⁠Um dia de cada vez A terra seca sob meus pés não é menos dura que o peso do dia. O corpo ainda aprende a habitar-se, a não exigir mais do que pode, a suportar o silêncio sem o entorpecimento do esquecimento, a segurar o fruto da liberdade que insiste em escorrer pelos dedos. Já fui campo sem cerca, onde a ânsia galopava sem freio. Uma chuva que não rega, e apenas fere a raiz. Hoje sou roça semeada na paciência do tempo, esperando que algo brote. Há uma fome que não se vê, uma sede que não é de água. Elas gritam no calor do meio-dia, na solidão dos olhos que evitam encontros. Mas eu, com mãos calejadas, mesmo após uma década, aperto o arado do instante e traço linhas que só o amanhã saberá decifrar. Sei que as marcas do passado não se dissolvem como o barro das unhas. Elas permanecem, silenciosas. Mas, enquanto o sol nasce, me permito regar o presente. Um dia de cada vez. E isso, por agora, basta.