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Frases de GabrieldeArruda

17 frases

Santo Deus, por que me abandonaste? Que atrocidade é essa, essa tortura insuportável que me arrasta para o abismo? Não temo o inferno, não! Já sou um com ele, já o sinto queimando minhas entranhas, corroendo-me até o último suspiro! A desesperança me devora como um monstro famint…
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Santo Deus, por que me abandonaste? Que atrocidade é essa, essa tortura insuportável que me arrasta para o abismo? Não temo o inferno, não! Já sou um com ele, já o sinto queimando minhas entranhas, corroendo-me até o último suspiro! A desesperança me devora como um monstro faminto, e a solidão, fria e implacável, me arrasta para o fundo, sem piedade, sem fim.

Herança maldita de uma alma colonizada, o brasileiro, filho do latifúndio cultural, trocou o libré do barão, que fingia a classe francesa no salão de visitas, pelo jeans rotoso do cowboy ianque na tela do celular. Se antes ele engoliu, sem digerir, o luxo de Versalhes, hoje mast…
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Herança maldita de uma alma colonizada, o brasileiro, filho do latifúndio cultural, trocou o libré do barão, que fingia a classe francesa no salão de visitas, pelo jeans rotoso do cowboy ianque na tela do celular. Se antes ele engoliu, sem digerir, o luxo de Versalhes, hoje mastiga, sem paladar, o fast-food de Hollywood. Nesse pandareco tropical, onde a identidade é falsa e vestida como fantasia de outlet, onde o samba de raiz é embalado em plástico-bolha digital pra ser entregue como experiência cultural, e o forró virou trilha sonora de app de delivery, tudo é branding, tudo é pitch, tudo é mindset. O gerente se chama leader, o chefe virou head, e até o cafezinho foi promovido a coffee break. Em vez de ideias, fazem brainstorm. É tanta sigla em inglês que o trabalhador já esqueceu como se pede um aumento em português. E nesse co-working de muros baixos e inglês improvisado, confunde-se exploração com oportunidade, e subordinação com sofisticação.

Nasci com a costura torta — o ponto que falhou no tear dos bem-nascidos.
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Nasci com a costura torta — o ponto que falhou no tear dos bem-nascidos. Sou o objeto sem função na prateleira dos vivos: nem útil como faca, nem belo como flor. Nunca fui feito para o brilho fácil, para os abraços que não doem, para os dias que se encaixam certos. Até que Ela chegou. Não com luz, não com promessas, mas com uma presença que não exigia nada, que não pedia luta nem resistências vãs. Seus dedos traziam o frio das últimas maçanetas tocadas. Veio como o óxido vem — sem pressa, sem aviso, apenas a certeza de que tudo que é ferro um dia lhe pertence. Se me quiseres triste, sê-lo-ei sem drama. Se me quiseres calado, darei o silêncio como prece. Pois és tu, afinal, a única que não me cobra explicações, nem julga o vazio que me habita, nem exige máscaras para ocultar o cansaço. Não me seduzes com promessas de alívio, não me ameaças com a eternidade. És apenas o alívio concreto, o abraço que não exige que eu me reconstrua. Quando Ela abriu os braços, eu já estava nu de esperanças, leve de despedidas. Deitei-me em seu colo de sombra, e Ela não me pediu que fingisse ser feliz. Deitei-me ao seu lado, como quem enfim encontra onde repousar a dor. Ela me acolheu sem palavras, e eu a beijei. Lábios de fibra de carbono. Língua de chumbo fundido. O sabor: sal de lágrimas não choradas e o cobre dos últimos segundos.

Há algo de impreciso no começo das coisas como se o mundo hesitasse antes de permitir que existam
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Há algo de impreciso no começo das coisas como se o mundo hesitasse antes de permitir que existam foi assim quando ela falou e não era o que dizia era o modo como o tempo cedia se organizando ao redor da sua voz como se, por instantes, viver fosse apenas escutar segurei sua mão com o cuidado inútil de quem testa o real como se o toque bastasse contra todas as dúvidas não bastava mas houve um intervalo em que isso deixou de importar o abraço dela não me acolheu me suspendeu como se o corpo, enfim, esquecesse a necessidade de se defender e então o balanço subíamos não o suficiente para escapar mas o bastante para esquecer o peso o chão permanecia — paciente como tudo que é inevitável o céu, distante como tudo que chama entre um e outro havia um erro breve no mundo onde nada exigia conclusão ríamos com uma leve irresponsabilidade como se a queda fosse improvável e não certa penso nela e o pensamento não repousa me desloca como o balanço que não pertence ao alto nem ao baixo mas a esse entre onde tudo se sustenta por um instante e nada promete ficar há um medo quase silencioso de ser apenas isso o intervalo enquanto o outro talvez espere algo mais firme mais inteiro mais digno de permanecer ainda assim há esse impulso de voltar ao ar não por coragem mas por uma espécie de esquecimento do chão e, por um instante, olhar para cima parece suficiente

Não, esta vida não me parece natural. Há nela uma ordem que não escolhi e à qual, ainda assim, pertenço. Nasci — e, antes que pudesse sentir o espanto de estar aqui,
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Não, esta vida não me parece natural. Há nela uma ordem que não escolhi e à qual, ainda assim, pertenço. Nasci — e, antes que pudesse sentir o espanto de estar aqui, já havia uma prova da minha presença. Um papel declarou meu começo. Eu não. Outros vieram depois, confirmando etapas. No fim, outro afirmará que terminei. É estranho que a existência precise de testemunhas, como se o simples fato de respirar não bastasse. Às vezes penso que não vivo, apenas correspondo. Respondo a chamadas invisíveis, atendo a expectativas que não formulei. Sou menos um ser do que uma função em curso. Pergunto-me se existo ou se apenas me mantenho em operação. Meus pais me pensaram antes de me conhecer. Havia em mim um projeto que não era meu. Minha mãe me chamava de futuro. Eu tentava existir no presente. Cresci entre o desejo deles e a minha própria indefinição. Hoje não sei se falhei ou se apenas nunca aceitei ser continuação. Há em mim algo que resiste. E, no entanto, todos os dias sou traduzido em números. Sabem tudo sobre mim. Não sabem quem sou. Não me oprimem as paredes. O que me inquieta é a forma — a exigência de caber sem sobrar. Vestimos papéis como se fossem natureza. Chamamos dever ao que é repetição. Chamamos escolha ao que já estava traçado. E corremos — não sei exatamente em direção a quê. Dizem que isso é amadurecer. Talvez seja apenas suportar a própria compressão. Construímos cidades verticais e desaprendemos a olhar na altura dos olhos. Quanto mais alto subimos, mais abstratos nos tornamos uns para os outros. Multiplicamos fronteiras: classe, crença, idioma, convicções herdadas. A aproximação tornou-se um esforço. É preciso explicar-se antes de simplesmente estar. Às vezes imagino um lugar onde não seja necessário justificar a própria presença, onde o erro não se converta em identidade. Não sei se esse lugar existe fora do pensamento. Não sei se escrevo para confessar ou para observar a mim mesmo escrevendo. Há momentos em que me sinto dividido entre o que sente e o que analisa o que sente. Talvez eu seja apenas essa divisão. Ainda assim, algo em mim não se acomoda — uma recusa discreta que insiste. Não sei se há saída. Mas sei que não aceito ser apenas o que registraram de mim. Não aceito ser engavetado. Se não posso abandonar o mecanismo, posso duvidar dele. E essa dúvida, por enquanto, é a única prova que reconheço como minha. Não sei se posso derrubar os muros. Mas posso subir — enquanto não me puxam de volta. E espiar por cima. E lembrar, nem que seja por um instante, que o horizonte não pertence a quem o delimitou.

Na prateleira da vida, minha vitrine guarda uma coleção empoeirada de mágoas e frustrações. São troféus de uma existência corroída pelo tempo, esquecida como carne exposta no balcão de um açougue, esperando o olhar faminto de um cão que nunca veio.
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Na prateleira da vida, minha vitrine guarda uma coleção empoeirada de mágoas e frustrações. São troféus de uma existência corroída pelo tempo, esquecida como carne exposta no balcão de um açougue, esperando o olhar faminto de um cão que nunca veio. Ninguém se deteve diante de mim. Não houve crianças com olhos brilhando como diante das vitrines de doces, nem homens avaliando ternos, nem mulheres sonhando com vestidos. Eu não fui objeto de desejo, nem de admiração. Quem me vê, não vê nada, não sou mais do que um objeto de utilidade, do qual ninguém tem uso. Não sou nada além do que sou: um desvio na rotina, como o trajeto o qual todos evitam porque mal aos olhos. Sou o que sobra daquilo que foi e já não é. O que ninguém nota, o que ninguém quer.

Nhe’ẽ da Terra Nhanderuvuçu, em sua antiga sabedoria, destruiu para que a vida pudesse nascer de novo.
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Nhe’ẽ da Terra Nhanderuvuçu, em sua antiga sabedoria, destruiu para que a vida pudesse nascer de novo. Os povos originários sempre souberam: uma árvore não é madeira, é nhe’ẽ em pé, palavra que respira no corpo da terra. Mas os que se dizem donos não ouvem o nhe’ẽ da terra. Criam para destruir, desmatam a mata e, sem perceber, matam também o espírito. Ñande Ru não está longe, está no canto do colibri, na língua que ainda canta e mantém viva a memória da terra. Os teko porã vieram primeiro, não como donos, mas como lembrança viva de que a terra fala muito antes de termos ouvido. Mas os que se chamam proprietários apropriam-se sem escutar. Secam o rio que dá de beber, matam o rio que pede existir na sua sede de seguir. Quem não escuta o nhe’ẽ da mata caminha com corpo, mas o espírito se perdeu no vento. Sabem, no fundo da noite, que destruir a mata é silenciar o idioma do mundo. E quando derrubarem até a última palavra, não morrerá um corpo apenas, mas um modo inteiro de ser na vida. E se essa visão se apagar de vez, o que restar do mundo será somente casca.

Houve um tempo em que a riqueza de um povo era medida por aquilo que tirava da terra. Arrancaram madeira das matas, ouro das montanhas, café dos campos. Parecia que toda prosperidade dependia de retirar alguma coisa do mundo até deixá-lo mais pobre. Agora a extração é outra. Já…
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Houve um tempo em que a riqueza de um povo era medida por aquilo que tirava da terra. Arrancaram madeira das matas, ouro das montanhas, café dos campos. Parecia que toda prosperidade dependia de retirar alguma coisa do mundo até deixá-lo mais pobre. Agora a extração é outra. Já não se arrancam apenas árvores, metais ou colheitas. Arranca-se a alma sem tocar no corpo. Arranca-se atenção, desejo, memória, gosto. Arranca-se significado. Já não basta vender um pão. Vende-se a fome. Já não basta vender uma canção. Fabrica-se o ouvido incapaz de suportar o silêncio. Já não basta oferecer um caminho. Ensina-se o viajante a esquecer para onde ia. Há uma crueldade nova nesse mecanismo. As prisões antigas cercavam o corpo. As prisões de agora cercam a vontade. Descobriu-se que o homem deixa de resistir muito antes de deixar de obedecer. Basta que já não consiga desejar por si mesmo. A cultura foi sendo reduzida a uma superfície. As cores rarearam. As formas se comprimiram. A beleza tornou-se um luxo. E o mundo, que durante milênios pediu contemplação, passou a exigir apenas eficiência. O mais inquietante é que quase nada nos foi arrancado à força. Fomos cedendo. Um hábito de cada vez. Uma renúncia de cada vez. As maiores perdas raramente fazem barulho. Talvez essa seja a pobreza mais profunda do nosso tempo. Não a falta de dinheiro, mas a falta de espanto. Porque um povo não desaparece quando perde suas riquezas. Desaparece quando perde a lembrança do que era digno de ser amado. A morte de uma civilização começa muito antes de sua ruína. Começa no dia em que já não reconhece como sua a própria voz. O maior triunfo do nosso tempo não foi ensinar as máquinas a criar. Foi convencer os homens de que criar já não era necessário. Bastaria consumir. Repetir. Reagir. Ajustar-se. Bastaria permanecer dentro do fluxo. A natureza nunca fez duas árvores iguais. O mercado, ao contrário, passa a vida tentando convencer o mundo de que uma única forma basta para todas as florestas. Mas a beleza continua sendo uma forma de rebeldia. A arte continua sendo uma forma de desobediência. E toda civilização que esquece isso começa a extrair de si mesma a última riqueza que possuía. Não o ouro. Não a terra. Nem a técnica. A capacidade de sentir que era única.

Dizem que toda separação é uma escolha entre duas ausências. Não sei. Talvez seja apenas uma escolha entre duas mortes. Porque houve um tempo em que compreendi que, se permanecesse ao lado dela, perderia algo que nem mesmo ela seria capaz de me devolver. Não fui embora para deix…
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Dizem que toda separação é uma escolha entre duas ausências. Não sei. Talvez seja apenas uma escolha entre duas mortes. Porque houve um tempo em que compreendi que, se permanecesse ao lado dela, perderia algo que nem mesmo ela seria capaz de me devolver. Não fui embora para deixar de amá-la. Se tivesse sido apenas isso, eu teria permanecido. O amor suporta a distância, suporta o silêncio, suporta até o desprezo por algum tempo. O que ele não suporta é ser obrigado a justificar a própria humilhação. Há um instante em que o coração começa a chamar de paciência aquilo que já é servidão, e, quando isso acontece, o amor continua respirando, mas já não vive. Ela levou quase tudo, e era inevitável que levasse. Quem ama não entrega apenas o que possui, entrega também aquilo que imaginava ser. Levou o futuro que eu havia construído sem perceber, os dias que ainda não existiam e, de algum modo estranho, até uma parte do homem que eu julgava conhecer.

Não sei exatamente quando tudo terminou. Talvez as coisas importantes nunca terminem de uma vez. Apenas vão deixando de poder existir. Durante muito tempo pensei que amar fosse permanecer. Hoje suspeito que, em certos casos, permanecer é apenas outra maneira de consentir com a pr…
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Não sei exatamente quando tudo terminou. Talvez as coisas importantes nunca terminem de uma vez. Apenas vão deixando de poder existir. Durante muito tempo pensei que amar fosse permanecer. Hoje suspeito que, em certos casos, permanecer é apenas outra maneira de consentir com a própria destruição. Eu não queria partir. Se ainda houvesse alguma forma honesta de continuar ao seu lado, eu teria aceitado qualquer sofrimento. O que não pude aceitar foi outra coisa. Fui embora porque permanecer significaria obrigar o meu amor a conviver com a própria humilhação. Ela levou quase tudo, e era inevitável que levasse. Quem ama não entrega apenas o que possui. Entrega também aquilo que imaginava ser. Ainda assim, uma coisa permaneceu comigo. O amor. Não o amor que tinha por ela. Esse continuou pertencendo-lhe por muito tempo. Talvez pertença ainda. Refiro-me a outra coisa. O que preservei foi algo mais difícil de perder e mais difícil ainda de salvar. A capacidade de amar sem renunciar à minha dignidade. Porque o desrespeito raramente mata o amor. Antes, tenta convencê-lo de que a humilhação é o preço da permanência. Recusei esse preço. Desde então, penso que algumas perdas não nos empobrecem. Apenas nos impedem de nos tornarmos estranhos àquilo que existe de mais verdadeiro em nós. Perder quem se ama dilacera o coração. Perder a si mesmo para conservá-la corrói a consciência. E desta última ferida, quando não se morre, quase nunca se volta sendo o mesmo.