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Frase de GabrieldeArruda

Não, esta vida não me parece natural. Há nela uma ordem que não escolhi e à qual, ainda assim, pertenço. Nasci — e, antes que pudesse sentir o espanto de estar aqui, já havia uma prova da minha presença. Um papel declarou meu começo. Eu não. Outros vieram depois, confirmando etapas. No fim, outro afirmará que terminei. É estranho que a existência precise de testemunhas, como se o simples fato de respirar não bastasse. Às vezes penso que não vivo, apenas correspondo. Respondo a chamadas invisíveis, atendo a expectativas que não formulei. Sou menos um ser do que uma função em curso. Pergunto-me se existo ou se apenas me mantenho em operação. Meus pais me pensaram antes de me conhecer. Havia em mim um projeto que não era meu. Minha mãe me chamava de futuro. Eu tentava existir no presente. Cresci entre o desejo deles e a minha própria indefinição. Hoje não sei se falhei ou se apenas nunca aceitei ser continuação. Há em mim algo que resiste. E, no entanto, todos os dias sou traduzido em números. Sabem tudo sobre mim. Não sabem quem sou. Não me oprimem as paredes. O que me inquieta é a forma — a exigência de caber sem sobrar. Vestimos papéis como se fossem natureza. Chamamos dever ao que é repetição. Chamamos escolha ao que já estava traçado. E corremos — não sei exatamente em direção a quê. Dizem que isso é amadurecer. Talvez seja apenas suportar a própria compressão. Construímos cidades verticais e desaprendemos a olhar na altura dos olhos. Quanto mais alto subimos, mais abstratos nos tornamos uns para os outros. Multiplicamos fronteiras: classe, crença, idioma, convicções herdadas. A aproximação tornou-se um esforço. É preciso explicar-se antes de simplesmente estar. Às vezes imagino um lugar onde não seja necessário justificar a própria presença, onde o erro não se converta em identidade. Não sei se esse lugar existe fora do pensamento. Não sei se escrevo para confessar ou para observar a mim mesmo escrevendo. Há momentos em que me sinto dividido entre o que sente e o que analisa o que sente. Talvez eu seja apenas essa divisão. Ainda assim, algo em mim não se acomoda — uma recusa discreta que insiste. Não sei se há saída. Mas sei que não aceito ser apenas o que registraram de mim. Não aceito ser engavetado. Se não posso abandonar o mecanismo, posso duvidar dele. E essa dúvida, por enquanto, é a única prova que reconheço como minha. Não sei se posso derrubar os muros. Mas posso subir — enquanto não me puxam de volta. E espiar por cima. E lembrar, nem que seja por um instante, que o horizonte não pertence a quem o delimitou.

GabrieldeArruda

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Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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Santo Deus, por que me abandonaste? Que atrocidade é essa, essa tortura insuportável que me arrasta para o abismo? Não temo o inferno, não! Já sou um com ele, já o sinto queimando minhas entranhas, corroendo-me até o último suspiro! A desesperança me devora como um monstro famint…
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Santo Deus, por que me abandonaste? Que atrocidade é essa, essa tortura insuportável que me arrasta para o abismo? Não temo o inferno, não! Já sou um com ele, já o sinto queimando minhas entranhas, corroendo-me até o último suspiro! A desesperança me devora como um monstro faminto, e a solidão, fria e implacável, me arrasta para o fundo, sem piedade, sem fim.

Herança maldita de uma alma colonizada, o brasileiro, filho do latifúndio cultural, trocou o libré do barão, que fingia a classe francesa no salão de visitas, pelo jeans rotoso do cowboy ianque na tela do celular. Se antes ele engoliu, sem digerir, o luxo de Versalhes, hoje mast…
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Herança maldita de uma alma colonizada, o brasileiro, filho do latifúndio cultural, trocou o libré do barão, que fingia a classe francesa no salão de visitas, pelo jeans rotoso do cowboy ianque na tela do celular. Se antes ele engoliu, sem digerir, o luxo de Versalhes, hoje mastiga, sem paladar, o fast-food de Hollywood. Nesse pandareco tropical, onde a identidade é falsa e vestida como fantasia de outlet, onde o samba de raiz é embalado em plástico-bolha digital pra ser entregue como experiência cultural, e o forró virou trilha sonora de app de delivery, tudo é branding, tudo é pitch, tudo é mindset. O gerente se chama leader, o chefe virou head, e até o cafezinho foi promovido a coffee break. Em vez de ideias, fazem brainstorm. É tanta sigla em inglês que o trabalhador já esqueceu como se pede um aumento em português. E nesse co-working de muros baixos e inglês improvisado, confunde-se exploração com oportunidade, e subordinação com sofisticação.