Era a via
Uma estrada sem sentido
Sempre de partida
Quando houver sentido, de ida
Era a trilha a caminhar
Encontrar e perder a razão
Pisar o chão
Ter o mundo aos seus pés
Uma mera ilusão
Que se vive
Ao invés de viver a vida
A magia
A alegria
Que te corta que nem adaga
A luz que te vem e que alumia
Se lhe apaga, opção que lhe cega
Origina e germina
À semente que foi plantada
Era uma via onde se vai
Que depois que se foi
Perdida
Era a lágrima escondida
Que se vê
A folha não escolhe cair
Mas se escolhe ser folha
Ela cai
Era a tarde que passa
Onde um Sol que se punha
Sereno
Era lenha a queimar
Quase nunca por inteira
Nem plena, nem toda vida
Era apenas vida
Quase sempre pequena
O alento, lugar distante
Um olhar ao longe
Era noite, era manhã
Mocidade
Sonhar era um sonho
Uma folha morta
Era o Sol que se apaga
Ter o mundo aos seus pés
Ilusão que te mata
Que te corta que nem adaga
Era sempre uma partida
Perdurou por instante
Só o passado há de ser eterno
O presente era vida.
Edson Ricardo Paiva.
Era oito e quarenta e oito
Clareou meio afoito
Aquele dia
Era mais uma chance
Outra tentativa
Daquela, que sempre se esquiva
E de novo se tenta entender a vida
O vizinho estava vivo ainda
E martelava
Quase oito e cinquenta e quatro
e, naquela fase
O teatro da vida abria as cortinas
Martelava
Hoje, essa era a hora do inicio
Pois sempre tem hora pra iniciar
e recomeçar
Mas ninguém
Nunca sabe quando termina
Mas tem horas que a gente percebe
O indício de ser
um pouco daquilo
Que sempre termina
Pra depois germinar de novo
Na loucura de falar com luz
E de ouvir a voz do silêncio
Hoje ela quis me falar
De alegria e de tristeza
de terra e de água, de areia e de magma
E essa voz me falava
e martelava
e fazia perguntas
e respostas juntas me dava
Me dizia daquilo que nos define
Pois a lágrima mais triste
Ela é seca, desbotada
E ninguém nunca viu
Porque desistiu
de ser chorada...e não caiu
E também que a melhor risada
Aquela que todos querem
Também não foi dada
Ela vem, quando não se quer nada
Mas que a gente a insiste em querer
e martelava
da mesma maneira que um dia
desistiu de querer chorar
E passou a querer
Entender a vida
A empatia
Num gesto de gentileza
A verdade, o egoísmo
a mentira, o cinismo, a efemeridade
e martelava e martelava
Sobre uma suposta felicidade
Escondida lá nas estrelas
e falava de flores
e cores e asas de borboletas
e morte e de norte e de oeste
e pinturas rupestres
e de cores escuras
e de águas puras
e cores primárias
e capítulos
e espadas e plexos e marteladas
e complexos e escápulas
estátuas, sobre os peixes que nadam
e de novo a felicidade
Que não pode ser explicada
Talvez ela seja um elo
Com o Deus que a tudo criou
e que sempre o recria de novo
e outro e outro dia
Pode ser que seja aquele
e seja belo
Veja o vizinho lá fora
Que nesta mesma hora
Desatento e alheio ao agora
Faz bem mais que meia hora
Que ele empunha o martelo
...e martelava!
Edson Ricardo Paiva.
"Felizes são as estrelas
Que permanecem
Milhões e milhões de anos
como se fosse apenas um dia
despreocupadas
Com tristeza ou alegria
Brilham sem saber seu brilho
e são estrelas
Sem saber quem são"
Edson Ricardo Paiva
O livro de Matheus.
Existem lugares onde se caminha
Deixa marcas, escreve histórias
Planta flores que o lugar não tinha
Ruas pelas quais
Nunca mais vai passar
E quando a gente olhar pro céu
Talvez perceba que há coisas suaves
Tão breves, que se vão na brisa
Existe um tipo de tempo
Invisível para os relógios
É o lugar onde essas coisas são guardadas
E te mandam lembranças
Elas vem
Pelo postal da vida
Sobre o qual
A ciência não sabe nada
Não existe mentira que altere o trajeto
Marcas de pegadas
Que por menos se enxergue
Não podem ser apagadas
Nem há paz que as negue
Segredos ocultos atrás do muro
Num lugar que sepulta-se medos
Todos eles, da família das verdades
Chega a ser triste e bonito
Ver seus nomes escritos nas lápides
Existem sons que se fazem ouvir
E silêncios retumbantes
Livros que se quis ler
E páginas viradas
Que a vida escreveu
E não foi sem querer
Aromas, que de tão sutis
A memória desconhece
Não são todos caminhos
Que fogem à Roma
A graça da vida
É não saber que lugar é esse
Respostas que se acerta
Tentando fugir à pergunta
Existe um lugar
Que não se chama vida
Pra onde correm todas as mágoas
É lá que essas coisas se juntam
E onde não podem ser escondidas.
Edson Ricardo Paiva.
Eu tento entender
O sentido de as portas se fecharem
No momento em que cortinas se levantam
Eu tento dar sentido às minhas preces
Minha oração sem ruido
Dirigido em direção à torre
Onde quando era menino
Tinha um sino que me entristecia
Eu tento entender
O que se passava no meu coração
Naqueles dias
Porque não havia ainda a porta certa
Mas a melodia dos sinos
Eram como lindas portas
Que se achavam sempre abertas
E na tarde havia luzes coloridas
Flutuando como borboletas
Quando eu me lembro
De ter me sentido triste naqueles dias
Rebuscando estrelas de madrugada
Sem buscar o sentido da vida
Sonhando voos inexistentes
Num tempo em que se percebe
Que não há razão para a pressa
Nem proteção, quando portas se fecham
Pois, de alguma forma
A alma viaja no tempo
E sobe na torre do sino
E atravessa transparentes cortinas
Tudo isso ao mesmo tempo
Como luzes coloridas
Invisíveis pra essa vida
Breves insetos
Borboletas atrevidas
Quietas
Qual se fossem setas envenenadas
Alma que não se vê, nem se viu
Mas quando também não se ouve
O ruido dos sinos morre
A janela se fecha também lá na torre
Ficou tudo na tarde passada
Muda, sombria
E é só nesse dia
Que se escuta à porta a batida
Mas a alma já está de partida
Sem um ultimo olhar
Despedidas
E o sentido da vida é nada.
Edson Ricardo Paiva
A água cristalina
O copo
A colina que se vê de longe
O topo
A alegria de existirem
A gente as vê
Mas o olhar atravessa
São respostas
Goste a gente ou não
São só palavras
A água, por cristalina que seja
Não lhe sabe a essência
Conhece-lhe o gosto quem prova
E surgem só novas perguntas
Não há cor
E seu rosto é inexistente
Abstrata como a dor
Quem a sabe presente
Não nos cabe vê-las
Nem se podem tocá-las
Quem as sente
É tocado por elas
A vista lá do alto da colina
Só conhece quem subiu
E não se pode estar
No topo de todas elas ao mesmo tempo
Mas o tempo é sempre eterno
Pra quem sempre espera
Mesmo que a dor as devore
E que a água se transforme em chuva
Brilhante como as estrelas
E que todas as estrelas chorem
Mesmo que todas as pessoas
Enxerguem a chuva
E não neguem que sejam boas
Apesar de tanta transparência
Ninguém sabe a essência
Do que não é dado saber
Apesar
Da eternidade da espera
Não se sabe nada sobre a eternidade.
Edson Ricardo Paiva.
As verdades.
Eis-me aqui outra vez
Permanece uma pergunta
E esta vida, o que me custa?
A resposta imprecisa
Nem vasta, nem concisa e nem bonita
Basta ser aquela
Que o coração queira ouvir
Quando a alma acredita
Será bela eternamente
Verdades são mais profundas
O mundo anda meio sem tempo
Sem crédito e nem provas
E tem sido assim
Desde que o tempo
Descobriu que move o mundo
E nenhuma nova luz brilhou
E o céu se abriu
Para a nuvem que passou bem perto
Mas, que por não saber que era nuvem
Não choveu
É pra isso que servem os sonhos
Pra sonhar saber
Ilusões, decerto
O que lhes custa a vida
E o tempo de espera gasto
Atroz e nefasto
Não era meu e nem era vosso
Nosso algoz
Sem tempo prescrito
Para exceções ou balões de festa
A velha pedra de moinho, desgastada
Pelo bico de um pequeno passarinho
Nobre viajante do tempo
Rico andarilho do espaço
Há somente os excessos
O atraso se apressa
Há a ferrugem que se expressa
Em corroer estradas
e os trilhos do expresso de 2002
A solidão do pobre rei
Sem direito a admirar
A ninguém que não seja rei.
São cobranças da vida
Que a gente ignora, ocupados
Contando as horas
Sem tempo pro abraço indolente
A velha idade
Cidades inteiras felizes
Pois nada muda
Deslizes de terra e conduta
Tudo de acordo com os planos
Verdades são mais profundas
Pra que sabê--las, se em nada ajuda?
E assim passaram-se os anos
Na vida, medida justa
Tanto faz o que não nos custa
Só nos basta esquecer
É pra isso que existe o tempo
Que a tudo ajusta.
Edson Ricardo Paiva.
Quando pensamos em vida
A nossa melhor comparação
Deveria ser a de saltar
Saltar, como em crianças
Apesar de toda insistência
De tentar vencer a vida
Ela não é luta
E nem concorrência
É momento, é riso, é vivência
Tem dias que é vento
Outras vezes é uma brisa
Pode ser também
Um jardim muito bonito
Mas as flores envelhecem
Exceto na lembrança
Onde permanecerão guardadas
A vida é uma estada espiritual
Não se leva nada
Não se guarda o viço
Ganha quem der mais risadas
Mas a gente tem que aprender a rir
Sem desejo de vitória
Antes, simples compartilhamento
Pra levar o amor nos olhos
Pra poder permanecer
Nos olhos de quem nos amou
E quando lembrar-se de saltar
Faça isso com a alegria da canção
E salte bem alto
E guarde esse momento
Pois a vida tem a duração de um salto
O tempo presente é abstrato
E o passado voou como o vento.
Edson Ricardo Paiva.
Triste quem não tem pra onde voltar
Pobre de quem foi
Caçar estrelas
Coitado de quem se iludiu
E que seguiu na direção
Do primeiro arco-íris
Que surgiu depois da tempestade
Tenho pena, muita pena
De todo aquele que não causa mais
Uma saudade apenas
Mesmo que diminuta, pequena
Me apiedo de todo coração
Que não tem paz
Depois da estrela, arco-íris
A queda
Meus olhos se enchem de aflição
Por todo aquele que vive
E que não causa nenhuma afeição
Em ninguém
Deve haver lá no céu
Uma alma plena de luz
E que tenha em mãos
Um livro, um papel, uma pena
E a dura missão de recensear
Essas sombras vagantes
Viventes de alma escura
Que não sentiram pena de ninguém
Além de si mesmo apenas
E viveram sua vida pequena
Como se ela tivesse que ser eterna
Enfermas
Sempre vencer e ganhar e ser o melhor
Custe o que custar
Esse era seu lema
Seu meio a superar quaisquer problemas
Mas o tempo corre
A vida passa
As quedas vem
Sem ninguém pra estender a mão
Que pena!
Edson Ricardo Paiva.
Quem será que sou eu?
Aquele que sai na janela
E olha o Sol e olha estrelas
Conversa com elas
Mas não as conhece
Pois não sabe os seus nomes
Talvez todos nós
Sejamos aqueles que não conhecem
Nem a nós mesmos
Pessoas comuns
Bons sorrisos à janela
E sabemos que não é preciso
Sabermos nem ao menos
Os nomes dos passantes
Apenas alguns
E mesmo que não sejam
Os homens que eram antes
Não faz mal
O ser humano é sempre igual
Na sua mais profunda essência
Apesar de terem se passado
Alguns milênios
Basta olhar pros lados
Resta saber o escrito no verso
Somos todos passantes
Pontos acima e abaixo e ao lado
E nos denominamos
Como alguém que questiona
Pela enésima vez
E pela enésima nona, talvez
Sem atentar para o fato
De não se ter atido à resposta
Mas gosta de estar à janela
E cumprimentar os passantes
Conversar com estrelas
E nem ao menos saber os seus nomes
Sem prestar atenção na vida
Vivemos
Tanto faz
Assim como era antes
Alguns ainda estão à venda
Desde que o mundo é mundo
E como tudo na vida
Outros não .
Edson Ricardo Paiva.
Eu peço à vida
Que todas as minhas certezas
Venham sempre abençoadas
Pela dúvida que as obscurece
Mesmo que em nada mudem
Pra que eu não me iluda também
E que possa prosseguir
Vivendo de morrer
Como tantas vezes fiz
Com a fleuma da alma ativa
Que viu secarem mil jardins
E que era amigo de uma flor em cada um
Pra que a vida me guarde
E que eu não me sinta jamais
De posse de verdade alguma
Pois é isso que torna os tolos
Incapazes de rir à toa
Naquela hora boa
Em que a gente tropeça
E que eu nunca me esqueça
Que flores se vão
E as quedas vem
Quanto à sabedoria
Por enquanto eu não a tenha
Pra que assim
Eu possa me perder completamente
Pois gosto de ficar
Pra bem distante do que eu vejo
Quando me vejo
Diante da insanidade tamanha
Encontrada no falso equilíbrio
Travestido de força ... e certeza
A beleza da vida
É sabê-las inexistentes
Mas a graça maior da vida
É vê-las mundo afora
Nas caras dos que as tem nos bolsos
e as trazem nas falas.
É por isso que eu peço à vida
Pra que me afaste desse subterfúgio
E me traga a certeza
De todas as minhas dúvidas
e minhas fraquezas
Quando a mentira jurada
Se torna verdade com o passar dos anos
À vida eu não peço mais nada
Peço aos olhos luz
Como num prisma
Pra que enxerguem a alegria
Mesmo que pouca
E que ao final do dia
Decantada ela seja
Mesmo que não mudem nada
E sejam rudes
Rudes, qual poesia que ora faço
Contrastando esse mundo suave
Ao qual não pertenço
E que cada olho a veja de uma forma
Apartando aquilo que são normas
daquilo que eu chamo bom senso.
Edson Ricardo Paiva.
O LADO INCRÍVEL DA VIDA.
O incrível da vida
é a possibilidade
de aquilo que é bom
e feliz e inesquecível
estar distante, muito distante
distante de ser distante
distante de estar distante
distante de ser inexistente
O incrível da vida é que ela pode
ser incrível e boa e feliz
com bem pouco
Pra falar a verdade
A única coisa mais incrível
que a felicidade que pode existir na vida
é a capacidade humanamente latente
em trocar um par de sapatos bons e confortáveis
por um outro que não lhe caiba e que machuque os pés
Pra ver seus pés mais bonitos por fora
embora eles doam, sem que ninguém saiba
Sim, é incrível a nossa aversão pela infância
enquanto crianças
Contrastando à dor da saudade
quando a vemos à distância
e no final aversão e saudade são dores
que são guardadas na mesma caixa
O tempo a consome, sem fazer nenhum barulho
e se ainda havia algum orgulho
a terra come
Incrível a nossa maneira de tratar mal a quem nos ama
E de nos sentir cansados da companhia
daqueles que um dia terão sido nossos melhores amigos
É incrível ver tanta gente
que não aprendeu as lições mais simples da vida
Pois quando aquele vento bom soprava o rosto
não percebiam que pouco durava
e nem a maneira que ele escoa por entre os dedos
não atentavam para o fato de os pássaros voarem
Voarem como a vida
Voarem como o tempo
Escoarem como o vento por entre os dedos
pois pássaros se vão, como sempre se foram
e você não percebeu que pássaros são momentos
pois o incrível da vida são momentos
Que se podem prolongar
Eternizar... ou não
O incrível da vida
É que palavras como VONTADE e VERDADE
Apesar de serem amigas e quase irmãs, de tão parecidas
Raramente andam de mãos dadas
Assim como a vida sempre separa
e sempre há de separar amigos e irmãos
O incrível da vida é ver a vida lançar esses desafios
É ver o tempo tecer uma trama
e o quanto as pessoas desfiam
o tecido da própria vida pela vida afora
Pra mais tarde, simplesmente perceberem
que jamais se amaram de coração
pois o coração não ama e, sim, a alma
Incrível ver
que a alma ama ser infeliz
Porque tanta gente vive
e nem percebe
ou mesmo se esquece
que tem uma alma
Incrível ver como Deus nos fala alto
E no entanto conseguimos
Ser incautos ... incautos o suficiente
Pra nem ao menos perceber
Que era com a gente que Deus falava
e dava o teto e mandava chuva
e nada nunca era bom e nem satisfatório
Incrível perceber que se fala em flores e espinhos
e aromas e palavrórios
Mas que bem poucos percebem
Que a dor causada pelo espinho é curta
e é pra sempre lembrada
E que a dor causada pelo ausência da beleza e do perfume
essas ficam pro resto da vida, pela simples mágica de um toque
mas que poucos lhe percebem a existência
que será para sempre esquecida
O incrível da vida
é viver e não lembrar de nada
nem de mágica, nem de toque, alma, Deus ou infância
e tanta gente segue em busca da promessa
apesar de não crer na própria crença
Creem que Deus lhes prometeu tudo isso
e não atentam para o fato
de que Deus já lhes havia cumprido esse compromisso
assim como lhes havia concedido
o velho par de sapatos.
O incrível da vida
é que normalmente a vida pode ser incrível
mas que raramente ela é.
Edson Ricardo Paiva.
De vez em quando
Ainda dá tempo
Escreva mais uma página
Que seja diferente
De tudo que se imagina
Pois vai ser
Você pensa saber viver
Mas ainda não é capaz
De fazer melhor do que a vida
Pode lançar
Um último olhar de gratidão
À página arrancada
Na voz interior
O destino presente
Semana passada
Está feito
E tem sido assim
O pretérito imperfeito
Te desaconselha
A gente não precisa crer
Mas é tão bom acreditar!
Cedo entardece nas nossas vidas
Enquanto se avermelha esse horizonte
À luz do final do dia
Tem sido bem diferente
E de tão diferente
Tem parecido ser
Tão igual, de repente
E é assim que será pra sempre.
Edson Ricardo Paiva.
Que a alegria do mundo venha
E que tenha o aroma
Do vinho mais puro
E a cor da luz do Sol
Se essa branca luz
A taça atravessa
Mesmo que o mundo a beba
E permaneça escuro e cego
e não perceba-lhe o cromo
Amor, aroma, o odor, a presença
E desconheça a dor que me causa a sua ausência
Eu só peço à alegria que o faça
E se ela tiver tempo pra fazê-lo
Lhe lanço ainda, outro apelo ...enfim:
Se possível e por favor
Eu lhe peço que venha linda
E que tenha pressa
De depressa juntar-se a mim.
Edson Ricardo Paiva.
Eu
Procuro urgentemente
Um coração sincero
Pra guardar lá dentro este poema
Que escrevi na folha de papel
Da folha de papel
Eu fiz um avião
O vento veio e o carregou
Saiu em busca
De amor inteiro
E não de meio amor
Alguém que me faça sentir
Vontade de lembrar
Das coisas que falamos ontem
Alguém pra eu poder
Pensar o dia inteiro
Ser dono da saudade que ela sente
E a causa do sorriso em seus olhares
Procuro um coração que também voe
Eu busco urgentemente
A alma inteira e boa e verdadeira
Que queira de verdade
Ser a alma companheira
Dessa metade de alma
Que, feita de papel
Flutua ao léu
Pra andar de mãos dadas na rua
Escrever seu nome junto ao meu
Em algum lugar lá do céu
Pra nunca mais viver à toa
Procuro alguém
Que nada e nem ninguém
Jamais a separe de mim
Alguém que queira alguém assim
Desse jeito que escrevi
Pois o poema
O vento há tempos que o levou
Mas eu ainda estou aqui.
Edson Ricardo Paiva.
Andando pra sempre sozinho
E agindo pra sempre
Como se eu fosse sempre
Muito mais que um
Obedecendo a lei que determina
Que o dia termina pra sempre
E que indeterminadamente
Sempre há de nascer mais um
E se juntar pra sempre o hoje
Com todos os outros
Que nasceram antes de anteontem
Não tenho nenhum
Eu venho de lugar distante
Que fica adiante de onde nasce a Lua
Mas como sempre o mundo gira
A Lua queimou numa pira
Perdida na esquina que vira
Desce a rua e chega
Em frente à colina
Onde a noite termina e sempre nasce o Sol
Mas esse Sol também se despede
E o tempo concede mais um dia
E mais um e mais um
E eu
Andando pra sempre sozinho
E agindo pra sempre
Como se fosse eu pra sempre
Sempre mais que um.
Edson Ricardo Paiva.
A que se esconde atrás da luz.
Toda luz se esconde
Atrás da luminosidade
E não se sabe ao certo
Se é perto de meio-dia
Metade de meia-noite
O calor na metade
O morno é meia verdade
A chuva de vida a cair
No meio-fio da calçada
O calor gelado de deserto
Enxerga ao longe na escuridão
Se olhar de perto, é nada
O ser sozinho em cada um
Esta é a única verdade
Escondida noutra frase
Qual como se fosse a sua causa
Foi quase sem perceber
E que por não saber
Era verdade
A linha de aço era tão linda
mas chega uma hora
Em que tanto faz
Aparadas as arestas
Pouca coisa resta
E o pouco que restou
Não presta
Pois faço melhor ainda
Quando existe um pequeno espaço
Pra guardar a minha paz miúda
Indifere, se alegre ou triste
É paz, nada muda
Diante disso
Me fere só quando existe
E se estou na mesma dimensão
Que a gente está, quando olha.
O Céu à minha frente
É bem distante das estrelas
A folha não escolhe cair
Mas, se escolheu ser folha, ela cai
Independe do lugar
Onde está, quando olha
Nada muda num momento
O espinho da flor dói minuto
A beleza da flor, pela eternidade
As estrelas sempre estarão no céu
E o vento sempre há de varrer as folhas
Porém, não basta chover
Não é sempre que a chuva molha
Os caminhos da vida são vastos
Não é toda escuridão
Que se encontra escondida
Do outro lado da luz
Tudo varia conforme
O lugar que se está, quando a olha.
Edson Ricardo Paiva
A razão da vida
São as diferenças
Vivemos distraídos
Em prol de quem pensa igual
O grande mal da vida da gente
É que morremos sem ter conhecido
A opinião de quem pensa diferente
Ou que tenha outra crença
Ou que se mostre propensa
A discordar da gente
Vivemos querendo agradar
E querendo ser agradados
Muita gente vive sem viver
Pois os Universos mais imensos que existiam
Não estavam além da estratosfera
Nem nos livros
No olhar desperto ou na alma deserta
Não estavam depois do horizonte que o olhar alcança
Estavam em tudo isso
E estavam em quem sempre esteve perto
Sempre estiveram no compromisso que assumimos
Muito antes de ter nascido
Pois a vida é um grande aprendizado
Mas pouco se aprende
Quando as palavras só concordam
Pois palavras são só palavras
Não dizem nada
Não tem medo e nem coragem
São só coisas inventadas, muitas vezes para inverdades
A grande marca que se deixa, são sempre atitudes
Para aprender com a vida
É preciso chegar lá no fim
Satisfeitos com nossa casa
Em paz com as pessoas
E agradecidos pela mesa e a comida
Um sorriso no coração
Vale também uma oração, com palavras boas
E o aprendizado adquirido
Nas verdades que não eram nossas
Pois qualquer um que disser para a própria consciência
Que cometeu mais acertos do que erros
Viveu errado
Mente
E não tem consciência
Pra bem viver a vida
É preciso chegar lá na hora da morte
E sentir-se feliz, porque vai ver a Deus
Ao invés de sentir-se assustado e com medo
Pois não existem segredos
Que pra sempre permaneçam ocultos
O segredo era a mente tranquila
Um coração sincero
E a certeza de ter aprendido alguma coisa
Com quem tivesse dentro de si outro Universo
Diferente do nosso
Pois a vida não é uma festa
Em que a gente vai embora com a mesma roupa que chegou
Infeliz quem busca ouvir apenas
Opiniões que sejam belas e iguais às suas
Chegaram na vida sem nada
No final, partiram dela, nuas.
Tudo um dia se desmonta
Exceto as contas, que serão prestadas.
Edson Ricardo Paiva.
Um dia a água corre
Noutro dia ela evapora
Ela chove
E quando ela chove,
Molha o mundo
Agora, molhado
O mundo olha a vida
Desconfiado de que o mundo morre
E percebe que morre
Quando isso acontece
O mais profundo sentimento
Que ao mundo ocorre
É que a vida é momento
E que é preciso viver a vida
Só isso
Voltas inteiras
Volta e meia, morre o mundo
Morreu de palavras pequenas
Água, vapor, ambição, chuva, mundo
Hora, tempo, dor, segundos
Vosso, nosso, teu e meu
Poeira de vida apenas
Sem motivo ou inspiração
Inexiste ação divina
A passar pelo prisma
São só coisas da vida, aos olhares do mundo
Uma coisa triste, embora viva
Mundano, infecundo, molhado,
Imensamente pequeno e perdido
Por vezes, iluminado
Mas somente o lado sem luz
E depois o mundo morre
Morto o mundo
E a gente, para o Universo
É morta a poesia
Pára
Evapora
Eram só versos mundanos
Sem causa divina
Nada muda
E depois de apenas uma pausa
Lá se vai a vida
E depois de apenas uma vida
Lá se foi a causa
Tão bonita e tão plena ela era
...enquanto era escrita.
E nem lida ela foi.
Edson Ricardo Paiva.
"Não era uma espera
E nem primavera sem Sol
Não era pela pedra no caminho
e nem no sapato
Não era pelo fato de a via ser de dupla-mão
Não, não era
Porque por ela, só ia
Não era a linha solta e nem cruzada
Não, não era nada
Era por causa da vida
Porque era isso que era."
Edson Ricardo Paiva.
Quando a gente era criança
Existia uma lenda
Sobre um pote de ouro escondido
E que nem todo mundo o encontra
Havia um segredo
Eram coisas que se queria
Sem saber bem ao certo o que era
E talvez estivessem por perto
Quando o certo
Era antes responder pra si
Que, se a gente conquistasse
Todo o ouro que existe no mundo
Pra que será que ele servia?
A vida, uma estrada bem larga
Felicidade, uma senda
Enquanto isso
A gente ia sentado
Nas janelas do trem da vida
Pesquisando em mapas e fotografias
E perdia as mais belas paisagens
O tempo apressado, pediu pra passar
E eu deixei
O tesouro não era um pote
Nem bau, nem nada assim
O segredo da vida, é a vida
Que se encontra espalhada
No caminho a ser percorrido
Pra poder ser vivida
Um pouquinho a cada dia
E todo dia ela muda
O tesouro da vida é um sorriso
Um resto de melodia
É saudade que gruda
Então, se é possível sorrir, ainda
Faça isso em cada dificuldade
O pote de ouro da vida
Não era uma lenda
A mentira escondida, era sobre o valor
Das coisas que o dinheiro compra
Há tesouros diferentes
De vida pra vida
E se tornam semelhantes
Na medida em que você percebe
Que os tesouros de maior valor na vida
Vem de graça, na graça da vida
E eles não estão à venda.
Edson Ricardo Paiva.