"Eu quis procurar a paz
Num desejo que formulei
Escrito num muro à giz
Um pedido que eu disse
Ao pedaço de estrela
Que caiu num lugar deserto
Antes mesmo
Que o caco de luz caísse"
Edson Ricardo Paiva.
Pense numa imagem
Imagine uma foto antiga
Coloque crianças brincando
Algumas das quais
Você mesmo conheceu em outra vida
Coloque nessa figura, algumas árvores
Um pedaço de Céu, nuvens de chuva
A mais pura cara da pureza
E tristeza nenhuma
Agora, de alguma forma
Procure acelerar o que acontece
E veja as árvores crescendo
As crianças envelhecem
Pássaros que vem e vão
E nesse vão que abriste no tempo
Desvendaste alguns segredos
A haste que aos poucos enverga
A terra que entrega a vida
Que depois, cansada, um dia
Ela também se entrega
Entenda, que apesar de tanto
Por enquanto, não viste quase nada
Enquanto pensares
Que nisso se resume a vida
Nas ciências da terra
E nasceres do Sol
A semente germina
E o pássaro que voa, devido à resistência do ar
Nada disso justifica a vida
Enquanto a gente
Não forçar um pouco mais a vista
Pra poder enxergar a esperança
A mentira, o ódio, a ambição
Ciência inexplicada
Da coisa que vira outra coisa
A alegria que nasce do nada
E depressa
No coração da pessoa, se a pessoa dança
Essa linda luz colorida
Que emana da melodia
E perdura
Além da semana de sete dias
Coragem pra se levantar da cama
E voltar a viver a vida
De coração abarrotado de tristeza
Existe uma pessoa, que se chama Fé
Um Anjo que explica a vida
E diz que ela pode ser boa
E com um pouco de boa vontade
Ela ainda pode até
Ser linda de verdade
E que algum espaço esquecido
Lá no canto daquela figura
Um dia, até ser traduzido
Na mais pura e bela poesia.
Edson Ricardo Paiva.
Eu quis encontrar a paz
Num desenho
De pedaço de Céu
Que tenho guardado comigo
O desejo de encontrá-la
É tão antigo
Que as estrelas distantes
Pareciam mais perto
Eu quis procurar a paz
Num desejo que formulei
Escrito num muro à giz
Um pedido que eu disse
Ao pedaço de estrela
Que caiu num lugar deserto
Antes mesmo
Que o caco de luz caísse
E deixasse um buraco lá no firmamento
Eu quis encontrar
Quem quisesse dividir comigo
Pra poder vivê-la
Pois aquilo que se procura
Assim, distante
Não está no começo e nem no fim
Antes, não estava escrito
Sobre amar a liberdade
E deixar livre, pra evitar a luta
Quando um pouco menos, pra mim
Podia ter sido tanta coisa mais
Pois a paz é coisa que existe na gente
Pra quando desiste de ser encontrada
E ela ainda vai estar lá
Quando não restar mais nada.
.Edson Ricardo Paiva.
Leves
Como pétalas ao vento
No mais preciso momento
Em que o vento leve
A um suave soprar
Se atreve
E quando a gente o percebe
Parece que está recebendo
Mensagem de pensamento
Advindo de uma brisa
Exatamente
Quando aquilo que mais precisa
É que o vento só leve
De volta, de leve e depressa
Alguma resposta
Qual fosse uma prece
E contasse pra Deus
Sobre sonhos e lembranças
A parecerem esquecidos
Mas que ainda estão guardados
No meu cântaro perdido
E são meus
Diferindo-se, enfim
Queria eu que fossem
Como prantos de pássaros
Que pelo vento enveredavam
Adentrando pelas janelas
Elas, que a tantos sorviam
Mas, que mesmo assim
Permaneciam como sendo
Cantares de passarinhos
Pois é assim
Que homens iletrados
Sozinhos
E simples, iguais a mim
Os conhecem
Enquanto o pássaro, feliz
De lado a lado, cruza o Céu.
Por vontade de Deus, se esquecem
Sem razão pra viver, ele voa
Esquecidos da dor que doía
Pra que a dor não lhes doa outro dia.
Edson Ricardo Paiva.
Eu tive um sonho pequeno
Era plena a alegria
Era noite de verão naquele dia
Eu sonhei que uma doce Lua
Brilhava no Céu, tão bela
Igual que se estrela fosse
Mas sonhei que era noite de inverno
E que tinha sopa de ervilha
Um prato de pão torrado
E uma estante cor de palha
Sonhei com a simplicidade
Não sei quanto tempo levou
Mas o instante levou
O tempo que a vida leva
Pois eu sei que a memória falha
Mas não sei se essa vida é verdade
Eu só sei que sonhar não é escolha
É como um vento, que varre as folhas
Então, só sonhei
Que eu estava sentado à mesa
E que tinha fogueira acesa
E também um amor ao meu lado
Eu tive um sonho bonito
Eu tive um poema escrito
E eu tocava um violão
Cantando pra Lua, tão bela
Mas não sei que Lua era aquela
Nem o nome do anjo que a trouxe
Mas, brilhava no Céu, tão doce
Igual que se estrela fosse!
Edson Ricardo Paiva.
Escuridão
É um lugar muito triste
Mas esse lugar existe
Pra que gentes de alma ruim
Lá, procurem outras gentes assim
Que digam que são do bem
E também tenham alma escura.
Edson Ricardo Paiva.
Todo amor do mundo é liberdade
Liberdade de ir, mas ficar
Quando o amor escolhe a gente
Todo o amor do mundo é luz
Mas é luz que não se apressa
Essa, corre vagarosamente
Essa é luz que respeita a velocidade da semente
É presença que alimenta a alma
Amizade que já nasce pronta, lugar ocupado
Que só de em pensá-lo vazio,
A alma de frio, amedronta
E que estando presente essa ausência
O coração silencia, o espinho da flor ainda dói
Mas a gente já nem chora mais
Dor de espinho não dói mais igual doía
Todo amor do mundo é como uma flor
Que não se há de colher simplesmente
O olhar da gente escolhe somente uma flor no quintal
Mas o amor é diferente
Quando é o olho do amor que escolhe a gente.
Edson Ricardo Paiva.
Minha casa
São asas que saem de mim
Que me cabem nos bolsos
Mesmo que bolsos não tenha
São brasas que aquecem
Ventos frios que arrefecem
Minha casa é palavra guardada
Das coisas vazias que eu ouço
Meio termo, meio-dia
Meio morna
Fria totalmente
Não importa exatamente a forma
É tudo aquilo que eu sou
Mesmo
Que jamais eu tenha sido tudo
Pois eu tenho tudo isso em mente
Minha moradia é uma semente
Um nada, um pé na estrada escura
É uma luz acesa que me ilumina
E mesmo assim, não tendo nada
Minha casa é meu abrigo
Que sou só eu mesmo que vejo
Porque sou só eu mesmo que sei
Que o endereço dela é em mim
E tem sido assim desde o começo
Pra poder um dia levá-la comigo
Por mais longo que seja o dia
Há sempre o momento
Em que o dia termina
Edson Ricardo Paiva.
Sobe
lá no alto
Da melhor lembrança
Que tiver da vida
Mira-te
No mais claro e cristalino espelho
Busca calmamente
E responde a justa verdade
Pra teu coração somente
Enquanto a verdade é ainda oculta
Busca
Como no acalmar da lua
Quando a lua
Encara o mar sereno
Com o seu mais puro e pleno olhar
Se acaso desencontrar
Sobe mais no alto ainda
Relembra como era linda
A esperança
De uma hora poder ir até lá
No alto da melhor lembrança
E encontrar somente
Espelhos claros
Pra teu coração poder se olhar
Num difícil e mero olhar sincero
As flores partem junto à primavera
Impossível é negar-te eternamente
Pois a vida não é como o mundo a vê
O mundo é como a vida o vê
E nenhum dos dois é dono da razão
Diferente é a busca
Então
Se em algum momento
Não consegues mais admirar-te
E se vir somente
Olhos vermelhos de um tristonho olhar
Desça
Retome o caminho
E o refaça
Enquanto existe em ti
Ainda um traço de esperança
De modo a não guardar apenas
A lembrança de jardins distantes
Pequenas flores que sequer colheste
Percebe agora que viveste
Porém
Sem a graça da vida
Constantemente oculta
Dentro de você
Que nenhum caminho te mostrou
Há uma semente seca e morta
Escondida no mirar
O olhar que teu olhar não olha
Uma flor que teu chover não molha
O nome dela é alegria
E que apesar de morta
Morre e morre novamente
Todo dia.
Edson Ricardo Paiva.
Um dia
O não encontrou-se com o sim
Às margens de um rio
Um deles vinha de barco
O outro desceu do arco-íris
Mas pisaram o chão no mesmo instante
E sentiram arrepios
Se olharam de frente
Se opuseram
Não se permitiram partir
Não se deram passagem
E nem as mãos
E durante algum tempo
Somente se olharam
Sem trocar palavra
Não ficaram amigos
Nem brigaram
Não sorriram
Nem se apaixonaram
Naquele instante
O mundo parou
Em alguns lugares choveu
Onde era frio, congelou
Onde era quente evaporou-se
Sem tocar o chão
Na escuridão ninguém viu
No lugar onde era dia
A claridade ocultou
Se afastaram sem despedida
E nunca mais se viram
Até hoje ninguém sabe dizer
Qual foi mesmo qualquer diferença
Que esse encontro teve na vida de ambos
Afinal, choveu
Mas a chuva nem sequer molhou
Desde então, esse encontro
Sonambulando norteia
O caminho de muita gente
Que vagueia pela vida
E nem percebe que está perdida.
Edson Ricardo Paiva.
Bom dia
Amigo passarinho
Que, talvez esteja
Entregue à própria sorte
Bom dia, amiguinho
Bom dia
Pra todo mundo
Que qual passarinho
Não vive pela lei da mais valia
E que mesmo assim
Reina em seu reino
Sem nenhuma garantia
Bom dia
A todo passarinho que não tem ninguém
Que vive cada manhã
Assim que ela vem
Porque sabe que o canto é em coro
E que o choro é sozinho
Bom dia pássaro sem casa
Cujas asas
Não lhe pertencem também
Voando de cara pro vento
A vida inteira
Não se ocupa em pensar
Se a vida
Ela é boa ou não é
A vida é só voo
O voar é momento
Que se vive à toa
À luz da lua
Um luar de leoa
Um pássaro qualquer
Sem ramo, semente, sem chão
Diferente de gente
Porque gente pensa
Pensamento ecoa
E gente diz que pensamento voa
O pássaro jamais
Nem pensar ele quis
Não faz questão
E se gente não voa
Inventa ventania
E mente
Passarinho, não.
Edson Ricardo Paiva.
Errante
Da a raiz à semente
Se a semente à raiz
O caminho é igual
Não semelhante
Quando o tempo é o juiz
Por nenhum instante
Ele se fez ausente
Evidente
Que evidência
Teus olhos ocultam
Cega a mente
Desejoso orgulho
Ego orbitante
Cegamente
Organizadamente
Um nome em dourado
Atestando
Emoldurado ignorante
Desconhece
Ao ciclo da semente
Que segue a corrente
Com simplicidade
O caráter se revela
Quando a última porta
For fechada atrás de si
Jamais, somente
Quando alguém o vir
Não pelo preço
Tendo o engodo
Um ornamento
Adereço
Não me esqueço
Que eu
A mim mesmo
Vejo o tempo todo
E não faço
A semente termina
Na semente
Água turva
Se decanta
Cristalina
O céu desaba
O lugar onde é o começo
Invariavelmente
Onde tudo se acaba.
Edson Ricardo Paiva.
O que vem a ser a vida
Senão um pedaço
de massa de pão
Que o tempo convida
Não a dividi-la
Mas dá-la de graça
Com a mesma graça recebida
O que vem a ser a vida
Senão breve sopro
Que anima essa massa
E que passa depressa
Tão depressa despedaça
na palma da mão
Que o olhar arredio
Não tem tempo ou espaço
Pra dizer com certeza
Se a viu.
Enquanto isso
Ela passa.
Edson Ricardo Paiva.
Todos os caminhos
Todos eles levam pra lugar nenhum
E em nenhum lugar existe
Uma estrada que te leve
Uma estrada leve
Que te leve à infância
Nem por breve instante
Nem que fosse só
Pra sentar-se novamente só
No espaldar lá da varanda
E olhar de novo o não passar da banda
Nem que fosse só pra olhar o trem
O trem do tempo
O trem que vem lá da distância
O trem que vem do nada
E leva ao nada
Nada nunca vai levar
A gente a trilhar de trás pra frente
A velha estrada
Que nos leve novamente à infância.
Edson Ricardo Paiva.
Que tua luz
Não te venha de dentro
Não te seja um alento
Que não seja um sonho possível
Que tua luz
Se puder
Nem ao menos visível ela seja
Veja
Que o destino da luz
Há de ser eternamente
A escuridão
Que tua luz seja clareza
Traduzida em pensamentos
Gestos
Coração sempre sincero
E que você seja um só
E pra sempre sendo um só
Seja um sonho impossível
Conjugado no imperfeito
Porque
Quando um dia
No pretérito estiver
Tua luz ilumine melhor
Por não ser esse tipo de luz
Que se passa e que é veloz
Mas que fique
Depois que tudo mais
Tiver ido e passado
Mais depressa que a luz.
Edson Ricardo Paiva.
Um dia eu percebi
Que o momento mais bonito
De toda uma existência
Ele fica guardado
Pra sempre na gente
Se era frio ou se era Sol
Não fica
Isso é indiferente
Se os bolsos vazios
Pra alma sincera tanto faz
Tem espera
Que dura uma eternidade
Mas a dúvida
Não supera o tempo de uma vida
E meu coração
Pela primeira vez
Saia a andar pelas ruas
À procura do frio
E de frio ele se preencheu
Numa noite da infância
E de retalhos de papel
Era o balão mais bonito
E mais alto no céu
Isso posto, eu digo
Sobre todos os contrários
Avessos
Sobre o conselho que mais valeu
No silêncio sombrio
A palavra ecoa
Entre um reflexo no espelho
E o melhor poema
Você não viu e nem leu
No final
A mais singela oração
Não foi a única que Deus ouviu
Mas a essa eu senti
Que depressa Deus agradeceu.
Edson Ricardo Paiva.
"Para algumas pessoas Deus concede limitações e dificuldades como um meio de crescimento através das provações da vida. Para outras Deus permitiu que tivessem inimigos, para que compreendessem que não somos seres à parte na criação e para os que precisam de muito sofrimento pra evoluir, Deus deu a língua"
Edson Ricardo Paiva
"Estive observando que as pessoas em idade bastante avançada perdem o interesse por interagir com outras pessoas e a vida parece perder a graça. Elas passam a se comportar exatamente como os bebês recém nascidos, que também não demonstram o mínimo interesse por ninguém que esteja à sua volta. Talvez seja preciso percorrer uma longa estrada para finalmente descobrir aquilo que nasceu sabendo"
Edson Ricardo Paiva.
Luz do Sol que se vai
E a que veio
As verdades da vida
São imagens disformes
Peças finas, delicadas
Desbotadas, distorcidas
Cristalinas e reais
A que vieram?
Vieram
De um translúcido quebra cabeças
O berço rude do universo
Um peso de papel
E uma tormenta pra se atravessar
A opinião diversa
Ausência de atitude
Mais nada, além do tempo e do lugar
A fala do engano
Se finge calada
E abrange a todas as cadeiras
Da fileira lá da frente.
É se afastar do tempo
Um mantra, uma oração pungente
Um pensamento na hora certa
Pode ser que seja o último
Olhar atento ao destino
Pode ser que dois
Num primeiro momento bate palmas
Pra depois, então, dançar
Um sorriso canino em primeiro plano
Um só momento e a tudo desmancha
Não basta segurar um mar nas mãos
O mundo descontenta
E o medo aflige
E exige a lágrima também
Pra abrir teus olhos
Puros e exigentes
Sempre
A mínima simplicidade
Ausente
O maior enigma da vida
É o que revela a verdade
Guardada em segredo ainda
É uma caixa que já foi aberta
Tanto barulho ela fez
Que quando era a da vez
Ela passou despercebida
A cara calcinada à luz do Sol
Tanto a que foi
Quanto a que veio
E que passou e que se foi
No meio
Entre o começo e o fim.
Edson Ricardo Paiva.
No dia em que eu houver
De deixar ao mundo algo de mim
Pretendo deixar meu pior.
Desatar meus liames
Esquecer-me
De tantas mágoas e tristezas
E tudo que houver de nefasto
E tudo que houve de nefando
O melhor do lado ruim da vida
A tudo eu hei de abandonar aqui
Quando, enfim, eu tiver que partir
Pois é pra isso que serve a vida
Ela existe, pra que a gente viva aqui
A toda essa carga negativa
Que encaramos, que enfrentamos
Enquanto gente viva
Convivendo com gente assim
A carga é bastante pesada
Pra no fim, não levar-se nada
Eu rogo ao infinito que leve
O que houver de leve em mim
Pois o mundo empenhou-se tanto
Em tirar-me tudo
Eu deixo ao mundo meu pranto
Que é tudo que eu tinha
O que havia de bom
Não foi de interesse
No mais, minha alma é bem leve
E de nada ela serve pro mundo.
Edson Ricardo Paiva.